Capitu


Há algo no olhar de Capitu que me comove. Quando sento para escrever ela se põe a passear pelo teclado do computador, deslizando para lá e para cá com sua pose imponente enquanto suas patas fazem diminuir o brilho do monitor ou fazem brotar um idioma desconhecido bem ali no meio do meu texto. Ela caminha por alguns instantes e de repente para, como uma mulher em frente ao jogo na TV pedindo um pouco de atenção do marido, e me encara.

Mas seus olhos não se parecem com os da moça no clichê da propaganda de cerveja e nem mesmo com os da célebre personagem de Machado de Assis, os olhos da minha Capitu não são dissimulados, na verdade eles parecem tristes.

Ela chegou aqui toda pulguenta numa caixa de sapatos cor-de-rosa e assim que se viu livre daquele cubículo me arranhou, correu pela casa, subiu no sofá e tentou atravessar a janela, batendo com a cara no vidro. Encolheu-se no canto, já tinha percebido que a liberdade era uma coisa bem relativa. Passou dias acabrunhada e se escondendo nos lugares mais insólitos. Pensei seriamente que ela passaria a morar dentro do sofá.

Capitu é uma vira-lata e é adotada. Como se não bastasse toda essa pinta de minoria felina, ainda descobrimos que ela sofria torturas. O dono da mãe dela, irritado com tanto miado dos filhotes, resolveu dar-lhes choques para ver se eles se calavam.

Ela tem, sei lá, apenas uns três ou quatro meses. Mais da metade disso sendo devoradas por pulgas e levando choques. Faz parecer toda uma vida.

Dá para entender o seu olhar.

Aprendi a me movimentar com mais calma, para que ela não se assustasse e aos poucos ela foi se aproximando. Agora quando me sento para escrever ou assistir a um filme, ela se aproxima lentamente e deita ao meu lado. Fica ali quietinha, não parece querer algo em troca, apenas compartilhar o silêncio e sentir que tem alguém por perto.

No fim da tarde, um sol já sonolento pinta de laranja as duas Araucárias que posso ver da janela da sala, os cachorros latem para os donos que estão chegando, as crianças do andar de cima começam a correr e as cortinas do bloco ao lado começam a se fechar, pois vai começar a novela. Tomo uma cerveja enquanto observo a vida se ajeitar confortavelmente para dormir. Capitu, na ponta do sofá, mira seus olhos verdes na direção de tudo que se move no gramado lá fora. Ela já não pula de cara no vidro, aprendeu a lição. Está distraída e parece serena. Ainda há tristeza no olhar, mas agora ela sabe que está tudo bem.

 

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 21h11
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Mudanças no Devaneios do Cotidiano

Pessoal, achei que isso aqui tem andando meio confuso, então finalmente resolvi organizar o boteco. Informo que a partir de agora passarei a escrever sobre cinema exclusivamente no blog:

http://cinemaporescrito.blogspot.com

O Devaneios do Cotidiano segue firme e forte, mas apenas com contos, crônicas e resenhas de livros.

Espero que vocês acompanhem os dois blogs ok?

Até breve



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h57
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Inquietos

Gus Van Sant é um cineasta que sabe filmar a juventude com sutileza, pois escapa da violência ou do sexo gratuito, comum nas produções do gênero, e também emprega um ritmo narrativo mais lento, já que não quer filmar um clipe jovem para a MTV. Se em “Elephant” a câmera do cineasta acompanhava, a certa distância, os passos de garotos rumo ao inferno, em “Inquietos” ele se aproxima um pouco mais e tenta entender por que o amadurecimento é tão difícil. No filme, essa passagem para a vida adulta se dá através do processo de luto. Temos aqui um garoto que tenta superar a morte dos pais frequentando velórios de desconhecidos e que acaba conhecendo uma linda garota por lá. Ao tornar seu filme mais verbal (talvez até mais acessível para quem não conheça os trabalhos do diretor) Van Sant torna-se um pouco didático, pois, por exemplo, se a metáfora do pássaro que acha que morre todos os dias é bonita (embora um pouco óbvia), mais bela ainda é a cena em que os dois jovens correm pelo corredor do hospital. E é bonita porque há silêncio, porque as imagens compõe o belo sentimento sem precisar de palavras. Com erros e acertos, ainda assim “Inquietos” é um grande filme. 4/5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h14
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Hanna

Surpreendente esse “Hanna”. Uma espécie de  “Identidade Borne” só que protagonizado por uma garota que segue o  estilo violento/fofinho da Hit-Girl (Kick Ass).  O clichê espiã-que-não-sabe-nada-sobre-seu-passado é compensado pela ótima trilha sonora do The Chemical Brothers e principalmente pela boa direção de Joe Wright (Desejo e Reparção). Eric Bana Cate Blachett cumprem muito bem as suas funções de coadjuvantes de luxo, mas o filme é mesmo da pequena Saoirse Ronan (do pavoroso “Um Olhar do Paraíso”), a sua insensibilidade – fruto de muito treinamento – rende as melhores cenas do longa. Como todo bom filme de espionagem, o roteiro é confuso e cheio de reviravoltas. Mérito também para o final que, apesar de fazer lembrar uma cena famosa de “Cidade de Deus”, tem jeitão de anticlímax. 4/5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 18h24
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MELHORES FILMES DE 2011

 

            Assisti pouco mais de 130 filmes em 2011, bem pouco se comparado a alguns cinéfilos por aí, mas além das porcarias que mencionei no post passando, também vi algumas coisas bem boas. Segue abaixo a lista dos 10 melhores.

 

10 – UM LUGAR QUALQUER

Gosto muito dos filmes da Sofia Coppola, pois percebo nela uma grande sensibilidade para tentar entender os sentimentos humanos, em especial a solidão. O olhar que sua câmera direciona aos personagens é sempre muito contido, delicado. Muita gente acha que em “Um lugar qualquer” nada acontece, mas basta prestar mais atenção para perceber o vazio e a angústia dominando todos os espaços.

Melhor cena: O carro dando voltas e voltas e voltas e não chegando a lugar nenhum, assim como a vida do protagonista.

 

9 – DEUSES E HOMENS

O longa sobre os monges que sofreram com a ira de fundamentalistas islâmicos na Argélia fala não só sobre a intolerância, mas também sobre a bondade, sobre a possibilidade de fazer o bem ao próximo de uma maneira que nem todos estão acostumados: respeitando-o. 

Melhor cena: O último jantar

 

8 – CISNE NEGRO

Pobre “Cisne Negro”, apanhou tanto da crítica na época do Oscar (algumas discussões foram de fazer inveja pras tias do ônibus) que fiquei até com pena. E provavelmente algumas pessoas até já torceram o nariz quando viram o filme nessa lista. Mas o lado bom de não ser crítico e nem jornalista nem nada é que eu posso dar a minha opinião de povão, sem embasamentos super técnicos e super inteligentes. O fato é que vi o filme e fiquei de boca aberta, pois adorei tudo, a fotografia, as músicas, o desempenho da linda da Natalie Portman. Enfim, achei o filme muito foda. 

Melhor Cena: As visões macabras da bailarina

 

7 – AMORES IMAGINÁRIOS

Saber que o filme foi dirigido por um piá de 21 anos me deixou abalado, pensei em suicídio e tal. Mas como suicidar-se só por inveja não é uma coisa muito nobre, tive que reconhecer que o talento do rapaz é realmente espantoso. Achei interessante não só a história do triângulo amoroso bastante problemático, mas também a maneira segura com que o jovem cineasta conduziu sua câmera. 

Melhor Cena: Marie e Francis caminham em slow-motion

 

6 – CÓPIA FIEL

Juliette Binoche (ai, ai...) caminhando pela Itália e falando sobre arte. Só essa informação já justificaria o filme nesta lista, mas ele é muito mais que isso. O cineasta iraniano Abbas Kiarostami criou uma obra-prima bastante complexa (após os créditos finais, meu cérebro quase entrou em pane de tantas interpretações que fiz e, devo dizer, provavelmente nem compreendi tudo) e de extrema beleza, que vão desde os belos diálogos, até os detalhes nos reflexos, as casais ao redor, as cópias...

Melhor cena: Após um comentário da dona de um café, já não sabemos o que é ficção e o que é realidade.

 

5 – BLUE VALENTINE

Esse filme provavelmente não estará em nenhuma lista de melhores do ano. Eu o coloquei aqui por uma questão sentimental. Explico: quando um filme consegue me emocionar de verdade, no sentido de não apelar para clichês e fazer com que eu pense muito sobre minha própria vida, normalmente é uma obra que eu não esqueço tão fácil. Blue Valentine não me deixou indiferente, fez com que eu reagisse de alguma forma, arrancou isso de mim apenas contando a história de um amor que não deu certo. Não esperava nada do filme e agora volta e meia me pego pensando naquela tristeza toda.

Melhor Cena: A noite no motel futurista.

 

4 - 50/50

Uma comédia sobre câncer e com o Seth Rogen no elenco. Tinha tudo para ser um filme de humor grosseiro (nada contra humor grosseiro ok, eu particularmente até gosto, mas nesse caso seria ridículo). Que nada. “50/50” é uma espécie de “dramédia” absolutamente sensível, na qual um tema muito pesado é tratado de maneira leve, delicada até. Se num momento você quase rola de rir (“O Patrick Schweizer morreu?) no outro é difícil disfarçar as lágrimas (“Você seria uma boa namorada”).

Melhor Cena: O livro cheio de anotações.

 

3 – A PELE QUE HABITO

Um grande filme, de um grande cineasta. Sempre esperamos isso deles, mas às vezes eles dão umas patinadas que nos decepcionam. Almodóvar volta a ocupar o seu lugar entre os grandes, após esse perturbador estudo sobre a alma humana e sobre os limites do gênero. O mundo do espanhol é bastante colorido, mas aqui ele se mostra sombrio e perverso. É um filme que te acompanha por muito tempo, pois são muitas as questões que impregnam na sua mente.

Melhor cena: Uma cirurgia muito importante.

 

2 – MEIA-NOITE EM PARIS

Woody Allen, assim como Almodóvar, faz o seu melhor trabalho em muito, muito tempo. E, quando um diretor genial acerta a mão, estamos diante de uma obra poderosa. Gosto muito de literatura e vê-la tão presente num filme do cineasta que mais admiro foi um dos melhores momentos desse ano. Com toda certeza saí do cinema com cara de bobo alegre e com vontade de morar na Paris dos anos 20.

Melhor Cena: Salvador Dali curte rinocerontes.

 

1 – DRIVE

Nada me surpreendeu mais esse ano do que o longa dirigido por Nicolas Winding Refn. Só os primeiros cinco minutos (uma cena fantástica de fuga) já fazem o filme valer a pena. O clima retrô e as explosões súbitas de violência fazem lembrar Tarantino e David Cronenberg, mas ele discute também a questão da solidão e da inadequação social. Tudo isso, mais o elenco impecável e a ótima trilha sonora fazem de Drive um filme bastante singular, para ver e rever e rever....

Melhor cena: Alguns chutes dentro de um elevador

 

 

Ficaram de fora, mas por muito pouco: O Palhaço, A Árvore da Vida, O vencedor, Passe Livre, Planeta dos Macacos - Origem , Amor a Toda Prova e Rabbit Hole.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h19
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OS PIORES FILMES DE 2011

 

Quando vejo um filme ruim a primeira coisa que passa pela minha cabeça é “Ok, acabo de jogar uma hora e meia da minha vida no lixo”, a segunda é “Quero arrancar meus olhos com uma colher!!”. Mas não adianta, já vi o filme, a lembrança ficará cravada no meu cérebro junto com os meus outros traumas. São momentos que eu poderia ter aproveitado melhor, dormindo, estudando quiromancia, palitando os dentes ou lendo a Caras, mas...

Segue abaixo o 10 piores momentos de 2011. Digam aí se eu esqueci de algum filme. (Obs: Assisti a esses filmes nesse ano, mas alguns deles já foram lançados há bastante tempo)

 

10 - SANTUÁRIO

            Várias pessoas presas num lugar, tentam escapar, mas vão morrendo um de cada vez. Acho que já vi essa história...

            Pior cena: Vou me sacrificar para salvar todo mundo ohhhh

 

9 - EM UM MUNDO MELHOR

            Filme que tenta equiparar o sofrimento de uma família riquinha da Dinamarca aos miseráveis da África. Faça-me o favor né?

            Pior cena: Se levar um tapa, ofereça a outra face. E não é que o cara ofereceu mesmo?

 

8 - SEMPRE AO SEU LADO

            Richard Gere + Cachorro = Zzzzzzz (povo do Facebook deve A-DO-RAR esse filme, pois não tem coisa mais fofa que cachorro fofo sofrendo e “passando uma lição de lealdade” né? né? né?)

            Pior cena: O cachorro esperando, esperando, esperando e a musiquinha triste avisando que é pra gente chorar...

 

7 - INSOLAÇÃO

            Filme no estilo: “Olha mãe, como eu sou inteligentão!”

            Pior cena: Escolha aleatoriamente qualquer diálogo e você terá a pior do filme.

 

6 - O ALBERGUE 2

Se o primeiro já era ruim, este aqui prova que é sempre possível piorar

            Pior cena: Partida de futebol com uma cabeça decepada.

 

5 - CENTOPÉIA HUMANA

            O cara costura a boca de uma pessoa no ânus de outra, sem mais.

            Pior cena: Como fazer para ir ao banheiro?

 

4 - HUSK

            Um espantalho assassino e costureiro(!) que mata jovens burros e sarados.

            Pior cena: As de corte e costura.

 

 

3 - COLHEITA MALDITA - GÊNESIS

            Não dá pra explicar em palavras o quanto esse negócio é ruim, só vendo mesmo. É um bom presente para dar no inimigo-secreto.

            Pior cena: O incrível policial que foi para o espaço

 

2 - RUBBER

            Um Pneu que (pausa dramática 1) mata as pessoas com (pausa dramática 2) o poder da mente?!. Sério.

            Pior cena: O pneu voyeur

 

             1 - BESOURO VERDE

            

            Não dá para acreditar que Michel Gondry fez uma cagada dessas.

            Pior cena: Todas, sem exceção.

 

           OBS: "Lanterna Verde" não está nessa lista, pois não tive coragem de assistir

            Em breve: “Os Melhores filmes que vi em 2011



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h37
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55 MIL VISITAS!!

     Quem diria, o blog atingiu a marca de 55 mil visitas. Em se tratando de um blog sobre cinema/literatura que é atualizado pouquíssimas vezes, esse é um volume de visitas que me deixa muito feliz.  Nunca ganhei um real com o Devaneios do Cotidiano, mas ele sempre foi um espaço muito importante para mim e por isso está há tantos anos no ar. Agradeço a todo mundo que lê e indica para outras pessoas. Brigadão!



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h14
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VOADORA COM OS DOIS PÉS NO ESTÔMAGO

 

As frases de Eliane Brum deslizam como facas e abrem feridas que nos sorriem um sorriso sujo de sangue. E a escrita da autora é tão saborosa/dolorosa que não viramos para o lado quando esse sorriso vira uma gargalhada de desespero e o sangue respinga bem no nosso rosto.

Não, não se trata de um romance macabro sobre algum serial killer. “Uma Duas” é sobre a precária relação mãe e filha, aliás, sobre mãe filha, e também sobre o abismo que existe entre (e dentro de) uma e outra. Não é por acaso que não há vírgula nem conjunção neste título.

A filha ama e odeia a mãe –o ódio claramente prevalece - e agora terá que cuidar dela, já que a idosa foi encontrada quase morta em seu apartamento, cheio de fezes e urina no chão. Já de cara percebemos que a relação entre as duas nunca foi boa, então não caímos no clichê de já achar algum culpado por causa daquela situação. Está bem claro que a velha não ficou naquele estado (o gato até lhe comeu parte do pé) porque a filha supostamente a abandonou. Os olhares das pessoas ao redor condenam a filha desnaturada, mas sabemos que há muito mais por trás disso tudo, afinal a mãe não é tão boazinha assim.

Embora explore o fluxo de consciência dos personagens, a narrativa segue num ritmo rápido, com uma linguagem elaborada que flerta com o escatológico apenas quando necessário e com diálogos surgindo no meio das frases, sem aviso ou travessões. E esse recurso se mostra acertado, pois às vezes parece confundir fala e pensamento. As revelações das personagens são feitas de forma seca e impiedosa. Eliane Brum consegue muito bem transformar a dor em palavras e nesse sentido “Uma Duas” é muito mais que um soco no estômago. Lendo a brutalidade verbal dessa narrativa logo me lembrei de “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, que assim como Brum, faz o verbo virar carne e não se furta a passar uma lâmina para rasgá-lo ao meio e expor suas vísceras. Então vemos por escrito aquilo que pensamos em nosso íntimo, nos nossos abismos imundos, mas que não temos coragem de transformar em palavra (daí o fato interessante de misturar diálogos e fluxo de consciência). Pois a palavra nos remete ao labirinto da realidade e dá contornos a um mundo no qual não gostaríamos de nos perder.

Quando um autor dialoga conosco desta forma, “espera aí, ela leu meus pensamentos? Logo aqueles pensamentos que me envergonham tanto?” percebemos que fomos traídos, já não estamos lendo um livro, na verdade nós é que estamos sendo lidos por este livro e é a nossa feriada cheia de moscas ali exposta para todos verem. É uma leitura que não esquecemos simplesmente, pois mesmo que fechemos a capa do livro, sentimos a infecção avançar no nosso íntimo.

Mas há dois lados a serem observados nessa história. A certa altura do livro a mãe também passa a narrar e é neste momento que a leitura se torna devastadora. Quando você já tinha se convencido de que o livro é uma voadora com os dois pés no estômago, é novamente surpreendido e percebe que já havia uma faca cravada ali. Então ficamos sem saber se ela foi mesmo cravada ou se simplesmente brotou já que não é uma faca desconhecida, pois como escreveu João Cabral: “qual uma faca íntima / ou faca de uso interno/ habitando num corpo / como o próprio esqueleto”.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
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ACORDAR NUMA SEGUNDA-FEIRA

Fonte

 

O celular desperta. Na verdade eu desperto, pois o celular toca o despertador. A música não é irritante. Pelo menos não tão irritante quanto as três anteriores. Aliás, não é nem música, é um toque, um ringtone, um barulho. Não coloco mais músicas para tocar quando acordo, pois passo a odiar a melodia já no segundo dia, pois costumo relacionar as músicas ao momento da minha vida em que eu as escutei - por isso, às vezes, temos até vergonha de admitir que gostamos de uma música meio ridícula. Não gostamos da música ruim, gostamos da lembrança que ela nos traz -, portanto qualquer som que eu escute às 6:25h de uma segunda-feira sempre me trará a lembrança de uma manhã de segunda-feira, mesmo que seja Beatles. Creio que no inferno as horas não passam (pra quê medir a eternidade?), mas lá devem existir muitos relógios, milhões de relógios parados espalhados para todos os lados, só de sacanagem. E adivinhem o horário que os ponteiros infinitos marcam?

            Despertamos, eu e o celular, cada qual com seu resmungo. No quarto ainda escuro sinto a tristeza arranhar o estômago. O cérebro é o chefe, mas quando o sentimento é intenso (caralho, cadê minha carteira?; Quem morreu?; Desculpe, mas eu não te amo mais; Alô?) passa primeiro pelo estômago. Ao acordar, passo a enfileirar todos os problemas que terei que enfrentar naquele dia: o primeiro ônibus, o segundo ônibus, a papelada na minha mesa, os funcionários brigando entre si, o presente do fulano, a conta para pagar, etc. Isso tudo no curto espaço entre acordar e virar para lado implorando “Deus, se você existe me dê mais cinco minutinhos de sono!” E caso eu cochile nesses cinco minutos, acordo assustado e recomeço o processo: o primeiro ônibus, o segundo ônibus...

            Afasto a cortina e a luz do dia se esfrega na minha cara: vai ser de sol? Vai ser de chuva? Tanto faz o cenário, pois nesse horário tudo parece inóspito. Arrasto meu corpo até o banheiro. Já não reconheço aquele rosto cansado aprisionado no espelho. Aos poucos ele se distancia e desaparece. Quem de nós dois desaparece?

            Enquanto me visto, penso nas pessoas da TV, nas pessoas-super: super bem resolvidas, super dispostas, super entusiasmadas que saem cedo de casa para mudar o mundo. Sinto inveja delas, pois por mais que elas estejam mentindo para manter seus empregos ou impressionar os amigos e que muitas delas sejam apenas estúpidas, elas conseguem fingir felicidade com uma naturalidade que admiro. Choram no banheiro, é certo, mas fingem muito bem.

            Não acordo de mau humor (aquele disfarce que usamos para descontar nos outros as frustrações por nossos fracassos) e nem com muito bom humor (outro disfarce, menos agressivo, mas tão chato quanto). Acordo num desespero cálido, que aos poucos se desmancha no estômago feito remédio para azia. É que pouco importa se estamos rindo ou chorando na palidez da manhã de uma segunda-feira já que a vida segue (ela insiste em seguir) com ou sem nós, independentemente da pena que sentimos por nós mesmos.

            Durasse o dia todo, eu faria um drama e diria que esse sentimento incômodo é um dos estágios da depressão. Mas o cheiro do café, a textura da caneca e o vapor que toca meu rosto emprestam um pouco de vida ao desânimo e disfarçam bem a tristeza, tornando até suportável o início da semana, o recomeço da repetição. Tento pensar nas coisas boas, mas logo percebo que estou atrasado para pegar o primeiro ônibus. Saio correndo e no caminho tento me lembrar se por acaso eu não esqueci a porta da geladeira aberta.

           



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h16
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ZELIG

 

Quando assisti “Forrest Gump” e vi aquela mistura de fatos históricos com ficção, fiquei fascinado e achei tudo muito original. Mas vasculhando alguns dos clássicos de Woody Allen descobri que o artifício já havia sido utilizado bem antes, e de forma brilhante. “Zelig” é um falso documentário que conta a vida de Leonard Zelig, um sujeito que tem uma capacidade absurda: ele transforma a sua aparência e adapta sua personalidade de acordo com as pessoas que estão ao seu redor. Quando está ao lado de um negro, a sua pele escurece, quando conversa com um chinês, começa a desenvolver os traços físicos de um chinês, perto de um psicólogo, começa a analisar as pessoas e assim por diante. Logicamente o sujeito é visto com um ser bizarro, digno de freak show e a mídia faz o possível para explorar ao máximo esta história incrível. Qualquer semelhança com o circo da imprensa que vemos atualmente não é mera coincidência. Através de ótimas montagens (o filme é de 1983), o personagem aparece em diversos momentos históricos, ao lado de presidentes dos EUA e até num discurso de Hitler. É interessante que um filme já um pouco antigo (putz, eu nasci em 1983, agora fiquei deprimido...) consiga ser tão atual, pois o que ele discute é justamente a questão da imagem, do sujeito que se sente sozinho e, por querer que as pessoas gostem dele, perde a personalidade para agradar os outros. Mas como se trata de um filme de Woody Allen, há também muito humor, pois ele é do tempo em que o termo “humor inteligente” fazia sentido. Por exemplo, num certo momento o personagem diz: “Fui à sinagoga e o rabino me contou o segredo da vida... só que foi em hebraico. Depois ele quis cobrar 200 dólares por um curso de hebraico”. Um clássico imperdível. Avaliação: @@@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h54
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O PALHAÇO

 

Quando assisti ao primeiro filme dirigido pelo Selton Mello (já comentado aqui)  fiquei entusiasmado com o trabalho daquele que, para mim e para muita gente, é um dos melhores atores de sua geração. Pois bem, o debute de Selton atrás das câmeras, não foi tão bem recepcionado pela crítica, uma vez que alguns ranzinzas o acharam “pretensioso” ou pesado demais. Uma bobagem é claro, afinal o tema era pesado e não havia necessidade de fazer um filme mais leve. Ele peca por alguns exageros é claro, mas acho “Feliz Natal” um grande filme. Passados alguns anos, o ator-diretor retorna com um trabalho mais maduro e, porque não dizer?, mais leve. Não que a história do palhaço Pangaré não seja pesada, pelo contrário, o pobre coitado está deprimido e em sua crise passa a questionar o seu lugar no mundo. Mas o tema circense abranda um pouco as coisas e a maneira que Selton Mello conta essa história, com cores vivas e personagens que ora parecem bizarros, ora parecem absurdamente reais é, sobretudo, terna. É visível o carinho direcionado aos personagens que se reúnem, com todas as suas diferenças, para formar uma família (veja como é bela, por exemplo, a alegria que os artistas demonstram ao cumprir funções técnicas do circo, como cuidar da iluminação e como é emocionante perceber que torcem, de verdade, pelo sucesso uns dos outros). “O Palhaço” é um filme que preza pela aparente simplicidade, mas que demonstra grande sofisticação, através tanto dos bons atores e da ótima fotografia, quanto das referências cinematográficas (Wes Anderson ficaria lisonjeado). Melhor filme nacional que eu vi esse ano. Avaliação: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h02
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ATIVIDADE PARANORMAL 3

 

Achei o primeiro filme um lixo, principalmente por causa da propaganda enganosa que dizia que era um fenômeno, um dos mais arrepiantes da história e bobagens mil. Do segundo, passei longe. Este terceiro só assisti, porque fiquei com preguiça de encarar uma fila gigante para ver “Contágio”, do Steven Soderbergh. É não é que essa continuação é muito boa? Ok, a história não tem nada de original e muito menos de genial, mas no caso do terror/suspense isso nem é tão importante desde que você leve alguns sustos e se divirta. E em “Atividade Paranormal 3” eu quase pulei da poltrona várias vezes (pelo menos umas 5) e fazia muito tempo que isso não acontecia. A história desse terceiro é uma bobagem, mas aqui ele consegue algumas variações para o tal esquema manjado: um sujeito coloca câmeras numa casa onde coisas estranhas acontecem e capta fantasminhas não muito camaradas aprontando à noite. Ao colocar a câmera sobre a base de um ventilador, por exemplo, o filme consegue criar um clima de suspense absurdo, de fazer você ficar sem respirar. As atuações dos adultos são bem ruizinhas, mas as crianças estão ótimas (que medo daquela menininha!). Enfim, fui assistir sem expectativas e acabei adorando. Mas continuarei sem assistir o 2. Avaliação: @@@  



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h41
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SUBLINHEI NUM LIVRO

        Tenho lido (e adorado!) as crônicas de António Lobo Antunes e divido aqui com vocês alguns dos trechos que andei sublinhando:

“Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para passar a ser crescido (...) Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho certeza: não sei se sou crescido”

 

“Pronto, voltem para a cama i-me-di-a-ta-men-te. A gente voltava e logo a seguir tinha trinta anos. Reparava-se então que a maior parte das pessoas se havia tornado fotografias”

 

“as minhas avós e as minhas tias cuja intimidade com os santos me maravilhava e que se apressaram a ensinar-me o catecismo a partir do dia em que perguntei apontando uma pagela do Espírito Santo

- Quem é este pardal?

Tentando explicar-me que Deus não era pardal, era pombo, e eu imaginei-o logo na Praça de Camões a comer à mão dos reformados, o que não me parecia uma actividade muito compatível com a criação do universo”

 

“Os Natais agora sou eu atrás das palavras de um romance (...) Mas pode ser que para o ano (...) meu avô reapareça, me volte a pousar a mão no ombro, me faça aquela festa que ele fazia com o polegar na nuca

(- O meu netinho)

e eu sinta de novo a sua força e ternura, sinta de novo, como sempre senti, que estando junto dele nunca nenhuma coisa má, nenhuma coisa triste, nenhuma coisa reles me poderia acontecer porque o meu avô não havia de deixar”

 

“É impossível escrever sem contradição, tortura, veemência, remorso e essa espécie de fúria indignada das sarças ardentes que lança as emoções umas de encontro às outras num exaltamento perpétuo. As idéias muito fortes deságuam nas certezas e onde estiverem certezas a arte é impossível”

 

“Minha sede de aplauso é nula porque meu apetite de escrever é enorme”

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 18h44
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A Pele Que Habito

 

Há muita cor no cinema de Almodóvar. São cores fortes, marcantes e muitas vezes exageradas assim como seus personagens. Essa é a pele dos seus filmes. Neste mais recente há predominância do vermelho (aliás, eu não via tanto vermelho assim desde “Gritos e Sussurros”, de Bergman). São vestidos, cadeiras, cinzeiros, lençóis e também sangue, pois embora não abandone as cores vivas, agora Almodóvar está sombrio. Quando assisti “Fale com ela” passei a achar o cineasta espanhol um gênio, mas com o passar do tempo e de alguns filmes não tão bons, passei a questionar essa genialidade toda. Fiquei até com preguiça de ver o anterior, “Abraços Partidos”. Mas eis que surge esse “A pele que habito” para acabar com qualquer questionamento: sim, ele é um grande cineasta. Nesta macabra e ao mesmo tempo sensível história de um cirurgião com jeitão de Frankenstein, Almodóvar não só discute as questões sobre ambiguidade sexual que lhe são tão caras, como também faz uma análise interessantíssima sobre nossa exterioridade. Sobre como nossa forma física pode aparentemente determinar quem somos, mas não consegue esconder nossos segredos mais podres, aquilo que temos de mais enrustido. Almodóvar nos mostra que no fundo todos nós estamos fantasiados. Nota: @@@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h14
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A Árvore da Vida

 

Falaram tão bem e tão mal desse filme que até fiquei com receio de vê-lo. Quem odiou disse que parecia um documentário do Discovery Channel. Quem falou bem, tentou explicar por que gostou, mas explicou de uma maneira tão acadêmica que fez parecer que era necessário fumar quilos de maconha ou consumir muitos cogumelos alucinógenos para entender a viagem do cineasta Terrence Malick. A história do pai autoritário que marca a vida dos filhos (e deixa cicatrizes profundas) nem é tão importante (tanto não importa que o Sean Penn está ali com cara de bobo, completamente sem função, menos até que o tal dinossauro, mas não chega a estragar o filme), a beleza de “A árvore da vida” está na sensível sequência de imagens, silêncios e sons, que enquadram perfeitamente o sofrimento/amor daquela família. É como se fosse possível sentir a textura daquelas cortinas esvoaçantes que avisam que as janelas estão abertas. E é da janela que nós, muitas vezes, apenas observamos o mundo acontecer. Diria que é um filme para se sentir e não racionalizar, mas acho que isso soaria meio bizarro (ou gay). Obs: tomei três cervejas enquanto assistia ao filme, talvez isso tenha ajudado a construir uma visão subjetiva (em que o enredo até faz sentido, com dinossauro e tudo) da obra. Nota: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h03
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Amor a toda prova

 

Implico com comédias românticas, pois depois que inventaram a fórmula “Casal improvável se conhece + no começo se odeiam, depois de apaixonam + ficam juntos + algo dá errado e eles se separam + resolvem o problema + aprendem uma lição + vivem felizes para sempre”, parece que os roteiristas se limitaram a apenas repetir essa sequência narrativa exaustivamente. Vez ou outra surge um “500 dias com ela” da vida, para salvar a pátria, mas é raro.

Recentemente assisti o delicioso “Amizade Colorida” que também foge da tal fórmula e diverte (e muito) sem subestimar a inteligência do espectador. Mas é “A amor a toda prova” que me fez rever o meu preconceito contra comédias românticas. Assisti meio desarmado, não li nada a respeito, pois nem sabia direito que esse filme existia e isso só contribuiu para que a experiência fosse ainda melhor.

Não sei ao certo se dá para classificá-lo como comédia romântica, pois em meio às gargalhadas podem surgir muitas lágrimas. O elenco todo é espetacular, estão lá: Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Marisa Tomei e Kevin Bacon. O filme conta a história de um casamento desgastado que desaba de vez após a revelação de que houve uma traição. A partir daí o marido (Carrell, sempre brilhante) tentará se reconstruir como homem e para isso terá a ajuda do garanhão Jacob (Gosling) que frequenta o mesmo bar que ele e já está de saco cheio de vê-lo reclamar da vida. Paralelamente temos a história do filho mais novo, que se vê apaixonado pela babá adolescente, a qual está apaixonada pelo pai do garoto.

Lendo este breve resumo a sensação que temos é de que já vimos essa história e que o filme não passa de uma repetição de clichês. Mas a solução encontrada pelos roteiristas para desenvolver estes arcos dramáticos é de uma sensibilidade impressionante, pois consegue mesclar cenas absurdas e engraçadas, com outras sensíveis e dramáticas. Isso tudo sem o uso de narradores ou muita verborragia.  A história vai se construindo com vários momentos de silêncio, de coisas não-ditas, que fazem com o espectador preencha as lacunas e ajude a construir a história dos personagens.

O filme não só escapa dos clichês como faz piadas com eles. Num certo momento (aviso: talvez isso seja um pequeno spoiler), após a hilária cena do tanquinho, Jacob oferece bebida para a garota e então eu logo pensei “Pronto, ele vai fazê-la dormir, não transará com ela por respeito e eles se apaixonarão”. Foi só eu pensar isso e a personagem disse “ok, já conheço isso, você vai me fazer dormir, não transará comigo e...”. Eu quase rolei de rir por causa disso.

“Amor a toda prova” está muito além das comédias românticas. É um belo filme (um dos mais belos que assisti nos últimos anos) sobre o amor, sobre o valor da família e dos amigos. E embora tudo isso possa parecer muito clichê, é muito bom quando um filme consegue nos fazer enxergar o óbvio de maneira tão bonita.

 

Avaliação: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h17
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Sobre morrer aos poucos

 

            Quando você está viajando, encosta a cabeça na janela do ônibus e vê a luz do sol atravessando as folhas das árvores ou a poluição da cidade; quando alguém próximo a você morre e o céu não está nem cinza; quando você está no banho depois de uma quinta-feira de muito trabalho encosta a cabeça no azulejo e sente vontade chorar sem saber direito o porquê; quando você caminha pela rua num fim de tarde qualquer e admira a capacidade que as pessoas têm de sentir e demonstrar felicidade; quando você acorda para ir trabalhar e sente que preferia estar morto...

            Há momentos como estes e tantos outros em que você para e se questiona: como cheguei até aqui? Quais foram as escolhas que fiz que determinaram quem eu sou hoje? “Daytripper” a premiada HQ dos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon, levanta esse tipo de questionamento.

            Memórias, cheiros, sonhos e sabores são despertados a cada momento marcante da vida do personagem Brás de Oliva Domingos, um escritor de obituários, que assim como o Brás Cubas de Machado, tenta retomar o passado para entender quem se tornou no presente. Ao fazer um apanhado de sua vida, ele conta a de todos nós, daí “Daytripper” ser uma história universal, tão merecedora do prêmio Eisner (talvez o mais importante dos quadrinhos) conquistado esse ano.

O primeiro amor, o nascimento do filho, o lançamento de um livro, a descoberta da amizade verdadeira, qual desses momentos são definitivos em sua vida? Talvez a resposta seja: todos eles.

            Ao contar a história de forma não-linear, Bá e Moon criaram uma estrutura narrativa muito interessante que, entre idas e vindas temporais, remete à fragmentação da memória, do passado, estabelecendo uma espécie de quebra-cabeça cujas peças não estão completas, cabendo ao leitor construí-las com a sua imaginação (e também, quem sabe, com suas próprias lembranças).

            Assim como num bom romance cujos parágrafos parecem ter sido polidos à exaustão para achar a palavra perfeita e a sintaxe mais adequada, nesta HQ percebemos um cuidado enorme com cada quadrinho, sempre cheios de detalhes que vão desde objetos de cena de uma determinada década até um assaltante com a camisa do Corinthians.

Esses detalhes estão também no texto, nas cartas, bilhetes e obituários que Brás deixa pelo caminho, mas a poesia de “Daytripper” está mesmo nos momentos de silêncio. Fazer com que o leitor se comova sem utilizar a palavra, apenas com o desenho, é o que faz com que as histórias em quadrinhos sejam tão diferentes da literatura (o exemplo máximo disso, para mim, é “Jimmy Corrigan – O menino mais esperto do mundo” obra-prima de Chris Ware).

 Há um trecho em especial que me tocou, ele é aparentemente simples e está na página 127. São cinco quadrinhos mostrando o céu, com um enquadramento que faz parecer o ponto de vista de quem está deitado no banco de trás de um carro, vendo apenas trechos da paisagem que passa. O personagem está voltando de um fim de semana na casa da vó, numa região rural e segue para a cidade. No primeiro quadro vemos apenas alguns galhos de árvore, depois o céu azul, com poucas nuvens e posteriormente os fios de luz, placas e os prédios. Vendo esse deslocamento, de um lugar calmo para outro bem mais tumultuado (o que se assemelha ao próprio ato de crescer), é difícil não se lembrar da infância e das viagens daquela época. É como se os autores olhassem para o passado com carinho e não com cinismo ou com mágoa.

Ao acompanharmos os passos tétricos de Brás, vemos nossa própria história sendo contada a cada quadrinho. E embora exista muita beleza nas lembranças, nem sempre elas são algo de que nos orgulhamos, afinal todos nós levamos uma vida cheia de erros e acertos (e muitas vezes com uma inclinação para o fracasso). Quando um livro, uma música, um filme ou uma história em quadrinhos dialoga tão bem conosco, quando fala ao nosso coração, fazendo com que nos imaginemos parte daquilo a ponto de nos emocionarmos, é porque estamos diante de uma grande obra.

            “Daytripper” é uma história sobre a vida e por isso fala sobre a morte. Sobre como parte de nós morre ao longo de nossos dias e fica pelo caminho para que nos tornemos quem nós somos.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h56
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Cidade Fantasma

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            Parece que ninguém ouviu o barulho vindo da casa azul na esquina. Se alguém ouviu pelo menos não se manifestou, pois as ruas permaneceram vazias como sempre. O que não era muito incomum, já que o povo daquela cidade não demonstrava muito gosto de viver ou mesmo de ver o lado de fora. Lá, as pessoas apenas sumiam dentro de suas casas.

E o barulho? Passaria por trovão, se trovão coubesse na sala de estar, mas poderia muito bem ser um grito ou quem sabe uma gargalhada, se desespero coubesse apenas em dois lábios.

            Por dentro, a casa não era azul e uma nuvem cinza lambia o teto e as paredes e o resto, deixando os móveis todos nublados. Se houvesse pessoas nas ruas dessa cidade e se essas pessoas ouvissem o barulho que veio dali e se aproximassem e olhassem pelo vidro, elas veriam, por detrás do acinzentado ar, duas pessoas ali no chão.

            Forçassem a vista ainda mais, perceberiam que há um filho e que havia um pai.

O menino juntava a sua mão e a do homem, palmas abertas, para medir os dedos. A comparação parecia injusta, o menino percebia-se frágil diante do gigante. O filho ainda teria que cometer muitos erros na vida para que ficassem do mesmo tamanho que o pai.

A nuvem de pólvora aos poucos desapareceu. Se houvesse alguém para testemunhar aquela cena, talvez fosse possível distinguir se o menino chorava ou gargalhava quando apanhou a arma ainda quente, virou contra si e sumiu.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h06
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Estive no Rock in Rio e lembrei-me de você - Parte II

Os malucos mascarados

 

 

Estávamos ansiosos pelo show do Metallica, então fui surpreendido ao perceber que melhor momento da noite começou antes deles subirem ao palco. Lá estava o Slipknot, banda da qual não sou fã, mas que eu já conhecia por causa das tais máscaras macabras e de algumas músicas legais. O clima de teatro (não o mágico), com cada integrante da banda compondo uma espécie de personagem insano funciona perfeitamente ao vivo. Os aspectos técnicos do palco ajudam (não é todo dia que se vê um baterista tocando quase de ponta cabeça), mas é a atitude da banda que faz a diferença. Num festival, todo mundo espera que algum artista faça algo fora do padrão.  Por isso gostei quando vi, logo ali na minha frente, o DJ louco subindo na cabine de som e pulando na galera ou quando o cara fez 100 mil pessoas se abaixarem (quem não se abaixou levou garrafada na nuca) e depois pularem juntos. Foi realmente sensacional. Como o próprio vocalista falou, muitos dos ali presentes se tornarão um câncer da banda e a espalharão por aí. Depois de um show como esse, eles merecem isso.

 

Pirotecnia e o bom e velho arroz com feijão

 

 

              Já era madrugada, eu não sentia mais as minhas pernas e estava com uma dor infernal nas costas quando o Metallica começou seu show. O palco não tinha nada demais e achei que o início foi um pouco morno, mas do meio em diante eles mostraram por que são uma das maiores bandas de metal do mundo. Muita gente veio de longe (nós inclusive) só para vê-los e os caras não decepcionaram. Tocaram as músicas mais conhecidas, com todo mundo cantando junto. Fizeram um show pirotécnico (se eu que estava a uma distância razoável senti o calor daquelas labaredas, imagino que quem estava perto tenha queimado as sobrancelhas) e interagiram várias vezes com o público. Num gesto muito bacana, ao final do show a banda ainda desceu para dar atenção ao pessoal corajoso que ficou ali esmagado na grade.

           

            De volta pra casa, sem as pernas, mas com a alma lavada

 

            Saímos da cidade do rock nos arrastando feito zumbis às 4h e fomos direto para o aeroporto. Como nosso voo só sairia às 10h tivemos que imitar a multidão de metaleiros que estava por lá: deitamos no corredor, fizemos as mochilas de travesseiros e dormimos ali mesmo esparramados no chão. Para completar nossa desventura, quando acordamos, um pessoal da Globo estava filmando a galera dormindo no chão. Provavelmente viramos estrelas bizarras de algum jornal da hora do almoço.

            No voo de volta, olhando para o Cristo Redentor ficando cada vez mais distante, sentindo o corpo completamente moído, lembrei disso tudo que acabo de contar e pensei “Foi muito foda!”. Uma noite como essa a gente guarda para sempre.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h42
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Estive no Rock in Rio e lembrei-me de você - Parte I

 

            Ideia de girico

 

            Ir a um festival de rock é uma espécie de aventura, pois a possibilidade de que algo dê errado é bem grande. Conosco as coisas começaram a dar errado antes mesmo embarcarmos para o Rio, pois com as obras para a Copa do Mundo, o aeroporto de Curitiba (que não fica em Curitiba, mas em São José dos Pinhais) estaria fechado no domingo pela manhã, exatamente o horário que já havíamos nos programado para viajar. Não bastasse isso, não havia mais hotéis disponíveis na cidade mais ou menos maravilhosa. Resultado: tivemos que ir para São Paulo no sábado e de lá seguir para o show no dia seguinte. 

            O lado bom disso é que chagamos um pouco antes e tivemos a oportunidade de conhecer um pouco do Rio de Janeiro, com direito a andar pelo calçadão de Copacabana e ser confundido com turista estrangeiro, pois meu amigo Everton tem a maior cara de gringo e nós estávamos todos de calça jeans e camiseta preta num calor daqueles. Gostei da cidade, a paisagem é linda, os motoristas são péssimos assim como em Curitiba e as pessoas recebem muito bem os turistas.

            Do aeroporto pegamos um ônibus que nos levou direto para a Cidade do Rock. No meio do caminho, vimos as favelas, o lado não tão maravilhoso da cidade maravilhosa. Depois recebo notícias pelo twitter de que várias pessoas haviam sido assaltadas no dia anterior e em todo o trajeto várias pessoas nas ruas com faixas dizendo “Um mundo melhor? Só com Jesus”. Lá fomos nós, com medo de perder a carteira e a alma.

 

            Cadê o fim da fila?

 

            Já na entrada pudemos ter uma ideia da grandiosidade do evento, pois milhares de pessoas formavam uma fila enorme, nós não conseguíamos nem enxergar o fim. Os roqueiros caminhavam sem pressa e sem tumulto, desviando de ambulantes que vendiam camisetas falsificadas, capas de chuva, cerveja, refrigerante e até pinga com mel. Como sabiam que as coisas lá dentro seriam muito caras, muita gente procurou se embebedar antes de entrar. O que fez com que os banheiros químicos disponíveis ao longo da fila se transformassem rapidamente na porta dos desesperados, uma espécie de mini-visão do inverno. Um cara completamente drogado e sem camisa tentando passar por debaixo da grade, quase ficando com a cabeça enroscada e depois dizendo “É isso aí cês tão filmando né? Aqui é tudo ao vivo, aqui é live” foi um dos pontos altos.

 

            Finalmente conseguimos entrar, mas espera aí, é um show do Bob Marley?    

 

            Quando passamos pelos portões vimos muitos roqueiros se abraçando e rolando pela grama (que era sintética!), estávamos de frente para o gigantesco palco principal. Então a ficha caiu. Estávamos num dos maiores eventos de rock do mundo. Sim, de rock, pois as atrações do domingo não tinham nada de pop.

            Fomos direto para o show do Matanza que estava rolando no segundo palco. B. Negão também estava lá e eles faziam galera pular e cantar todas as músicas em uníssono. Já de cara me senti num show de reggae, a fumaceira era tanta que provavelmente as pessoas só estavam vendo duendes cantando lá em cima. Como a revista na entrada era ridícula, as pessoas entraram com tudo o que era proibido, vi muita gente com drogas, garrafas de uísque e de Coca-Cola (que é uma droga ainda mais pesada). Como as garrafas eram proibidas, vimos alguns caras que arrumaram uma solução perigosa: viraram um litro de vodca num saco plástico.

 

            Da desorganização

 

O pior momento foi ter que esperar mais de uma hora na fila para comprar bebida. Havia vários pontos de venda ao longo da Cidade do Rock (a qual nem conseguimos conhecer por completo, de tão enorme), mas todos estavam completamente lotados, o que gerou indignação de muita gente.

             Perdemos tanto tempo em filas que acabamos vendo apenas trechos do show do Angra. Mas depois começou o show do Sepultura com um grupo de percussão espancando vários tambores de óleo e a galera enlouqueceu. Uma pena que tenha sido tão curto. Todos perceberam a injustiça cometida pela organização do evento. Enquanto todo mundo se amontoava para ver Andreas Kisser e Cia num palquinho, no palco principal tocava a banda Glória a qual, pelo que soube só depois, foi até vaiada.

 

            Vivendo perigosamente I: ir ao banheiro num festival de rock

 

            A primeira vez que fomos ao banheiro ficamos contentes por não ser um daqueles banheiros químicos vomitados lá da fila, era uma espécie de mega-mijador com espaço para muita gente. Mas não gente suficiente. Quando tentamos ir novamente lá pelo meio da noite ouvi um sujeito dizer já na entrada “Vichi véi, isso aqui num é poça d’água não”. O local estava completamente encharcado de urina, já nem dava para ver a grama sintética direito, pois parece que ouve um vazamento, mas se não bastasse isso alguém ainda gritou “A parede tá legalizada!” e então as pessoas passaram a mijar em qualquer lugar, compondo um verdadeiro show de horrores.

 

            Vivendo perigosamente II: buscar a cerveja

 

            Quando saímos do show do Sepultura, uma obra banda que eu nem sei o nome tocou no palco principal e também foi vaiada, tentou animar a galera com um couver do Iron Maiden, mas não deu muito certo. Afinal todos estavam ali para ver as três bandas que viriam a seguir.

             Neste momento já estávamos lá no meio da multidão, com dores nas pernas e tentando achar algum lugar para sentar. Saí de lá para pegar cerveja para mim e para meu amigo e me arrependi, pois quase não consegui voltar. No meio do caminho o show do Motorhead começou e lá estava eu, tentando passar por entre 100 mil pessoas com dois copos cheios na mão. Lógico que não consegui, tropecei num bêbado caído no chão e virei um dos copos nas costas de um cara com camisa do Lemmy, vocalista da banda que estava tocando. Quando achei que levaria um soco na cara, o sujeito se virou e disse “Cara, não esquenta, acabei de fazer isso também”.

 

            Metaleiros paz e amor         

 

            Quando você vê aquela horda de metaleiros, todos de preto e com cara de bandido, você imagina que todo mundo é muito violento. Isso é um engano. Ficamos umas 12 horas lá dentro, vi muita gente bêbada, drogada ou vomitando, como em qualquer outro show, mas não vi ninguém se agredindo. Pelo contrário, as pessoas eram educadas e gentis umas com as outras, pois estava muito claro que todos estavam ali para se divertir e ninguém queria confusão. Aquelas rodas que se abrem na multidão não são brigas, como parecem quando vistas pela TV, aquele é o jeito que a galera curte rock, pode parecer grotesco, mas é tudo na paz. Tanto que, pelo que soube, o domingo foi o dia que teve menos ocorrências policiais.

           

            Lost

 

Pois bem, lá estava eu, com uma cerveja a menos, perdido no meio da multidão e o Motorhead com seu vocalista cozidão tocando seus sucessos. Nesse momento você já fica pensando em como vai voltar sozinho, pois não adianta marcar lugar para se encontrar uma vez que não se consegue nem andar direito. Já tinha até desistido de procurar quando sem querer acabei encontrando meus amigos o que, confesso, foi um grande alívio.  



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h42
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O Marty McFly Brasileiro

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Mesmo que a história seja bobinha e não passe de uma colagem de blockbusters americanos, “O Homem do Futuro” tem o mérito de fugir um pouco do padrão popular dos filmes nacionais nos últimos anos, a saber: filme-de-favela e comédia-de-mau-gosto-semi-pornográfica. Lógico que ótimos filmes foram produzidas também, mas não podemos negar a avalanche de porcarias que andam batendo recorde de bilheterias por aí.

            O filme de Cláudio Torres não parece querer ser levado muito a sério. O tom é sempre de brincadeira, de humor leve, meio nostálgico e não-agressivo. Para isso ele conta com um roteiro que funciona bem, uma ótima produção e com bons efeitos especiais (a máquina do tempo ficou muito bacana).

            Com referências que vão de “Carrie, A Estranha”, passando por “Efeito Borboleta” e chegando a “De volta para o futuro”, acompanhamos o personagem de Wagner Moura (ou os personagens, visto que em certo momento vemos três dele na tela) numa aventura que tem tudo para dar errado. Quem assiste ficção científica sabe muito bem que o passado não deve ser mudado. A idéia é: se algo está ruim tende a ficar ainda pior se você resolver mexer, mas infelizmente você só descobre isso depois de já ter feito a cagada e então o arrependimento se transforma numa lição de vida.

Wagner Moura dá aula de interpretação, construindo camadas bem diferentes - ora exagerado e inocente, ora mais contido e amargurado - conforme a idade do personagem. Enfim, o filme de Claudio Torres não revoluciona nada, nem traz grandes emoções, mas pelo menos diverte mantendo dignidade e o bom gosto.

 

Avaliação: @@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h27
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Macaco mandou...

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            A primeira lembrança que tenho do “Planeta dos Macacos” é a refilmagem do clássico dos anos 60 feita pelo aclamado cineasta Tim Burton, em 2001. Sendo assim, a lembrança não é das melhores, afinal sempre achei essa versão um lixo.

            Então há alguns meses fiquei sabendo que os macaquinhos marxistas entrariam na moda do rebbot (essa jogada comercial de colocar diretores diferentes para contar as mesmas histórias, tudo desde o início, para recomeçar uma nova franquia milionária, como é o caso do Homem-Aranha). Pronto, pensei, é agora que a coisa vai pro buraco de vez.

            E não é que eu estava redondamente enganado?

            Planeta dos Macacos – A Origem” consegue, de forma brilhante, aquilo que o Michael Bay nunca conseguiu com seus filmes pirotécnicos e acéfalos: divertir e fazer pensar. Lógico que este é apenas um blockbuster e não um Bergman, mas é interessante ver Hollywood se esforçando um pouco.

            Do ponto de vista visual, o filme impressiona. Tenho certeza que esses são os efeitos mais convincentes que vi na telona nos últimos anos (para mim, superou até “O Curioso Caso de Benjamin Button”). Sem o complexo de pavão de um “Avatar” da vida, a computação gráfica, com aquela técnica de captura de movimentos como a do Smigol no Senhor dos Anéis, é empregada a favor da narrativa, pois tem o objetivo justamente de não parecer um efeito visual. Dessa forma, não só o movimento corporal dos animais é absurdamente real como também suas expressões faciais. E é aí que está uma das grandes virtudes deste filme: é através deste olhar “humano” deles que podemos perceber o seu sofrimento e compreender a sua revolta.  Quando isso acontece, podemos até nos emocionar quando vemos o macaco desenhar uma janela em sua jaula na tentativa de trazer as lembranças de sua casa (o que até me fez lembrar “O Labirinto do Fauno”). Fosse um mero efeito visual, não nos convenceríamos disso.

 

 

            A idéia do roteiro me pareceu bem engenhosa. Na tentativa de encontrar a cura para o mal de Alzheimer, potencializando as conexões neurais, os cientistas acabam criando uma substância que desenvolve as funções do cérebro de maneira assustadora. Ao testá-las em chimpanzés, a experiência sai de controle.   

            A evolução dos animais ocorre de maneira lenta, o que torna a história muito mais interessante. E o melhor de tudo é que o diretor consegue contar toda a organização e revolta dos macacos apenas visualmente, sem um narrador ou algum personagem nos contando o que está acontecendo. E a cena em que vemos um dos macacos brincando com uma réplica da Estátua da Liberdade, faz uma bela homenagem ao filme original.

            Os atores de carne e osso não comprometem, mas também não acrescentam muita coisa. No fim das contas, James Franco pode até decepar o próprio braço que, para mim, continuará sendo um ator meia boca. Então se os personagens dos macacos foram bem desenvolvidos, o mesmo não se pode dizer dos humanos, muitos deles reduzidos a meros estereótipos de malvadinhos que maltratam os animais.

Mas o que importa é ver a macacada se rebelando e detonando tudo o que vê pela frente, mas não de maneira desorganizada, afinal, eles possuem um bom cérebro e não é a toa que o líder se chama César. Aliás, demorarei a esquecer a cena da ponte, quando vemos os símios utilizando engenhosas táticas de guerra para complicar a vida dos humanos. Creio que a questão da inteligência aliada à violência como base para se obter o poder/domínio será mais bem desenvolvida nos próximos filmes, mas o que já foi apresentado até aqui realmente empolgou.

 

Avaliação: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h05
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Nós, Os Náufragos

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amar é maré

mar é amor amargo

amor que vai

e não volta

só devolve solidão

de sal a sol

mar morto

com marca de saudade

nau

frágil



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h44
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HISTÓRIAS MÍNIMAS

 

"Invento memórias ruins para que sua ausência não me cause tanto mal. Mas nestes tempos tristes, pensar em você é o que me salva"

 

 

 

"São tantos os prédios. Janelas emoldurando amores e desamores. Vez ou outra cai um suicida e espanta as pombas na calçada"

 

 

 

"A moça lê um livro bobinho, sorri de um jeito bonito, depois o devolve na estante e vai embora. Guardo o sorriso e o segredo"

 

 

"O pássaro equilibrista / no fio de alta tensão / procura trechos de céu / mas há somente cimento / desiste / vai bicar alimentos no chão"

 

 

 

"Pobre homem, parte com o coração partido: uma parte infeliz, outra também."

 

 

 

"O pai saiu para comprar cigarros e... voltou. Fumou até pegar câncer e dar trabalho para a família. Antes cumprisse o clichê e não tivesse voltado"

 

 

 

"Escutou o telefone tocar e imaginou uma conversa em que faziam as pazes e tudo ficava bem. Depois jogou o aparelho pela janela"

 

 

 

"Quando acordou, os galos ainda estavam preparando seus teares, a manhã ainda por amanhecer. Imaginou João Cabral de Melo Neto a rascunhá-la em versos."

 

 

 

"Vidro embaçado, o desenho do teu rosto aos poucos desaparece. Lá fora, a chuva não cessa. Os cacos no chão, mosaico do desespero"

 

*Textos publicados originalmente no www.twitter.com/ederalex



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h07
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REALIDADE ABSURDA

 

Sempre que alguém comenta algo sobre o Kafka, uma palavra me vem à mente: pesadelo. Rolam discussões sobre o absurdo ou a realidade na obra dele, mas eu não consigo escapar da sensação de que quanto entro nessas narrativas, estou preso num terrível pesadelo. Sabe quando você tenta fugir, sabe-se lá do que, mas parece que está pisando em areia movediça?

Quando li “A Metamorfose” na adolescência, a primeira coisa que pensei foi “Mentiram pra mim, o Gregor Samsa não vira uma barata!” (foi mais ou menos naquela época do filme “Joe e as Baratas” então...). Quando me contavam a história eu imaginava uma barata como a de um filme B e achava tudo aquilo meio idiota, mas quando finalmente li o livro, minha imaginação criou um inseto muito mais nojento que uma barata e aquela narrativa, para mim, virou um grande conto de horror e de solidão, uma mistura que até então eu nunca tinha pensado. Imagine quantas vezes, trancando no quarto, um adolescente fica de mimimi dizendo que se sente abandonado / incompreendido / injustiçado pela família? Era a literatura misturando-se à realidade absurda. Lógico que a história é muito mais que isso, mas esse primeiro contato foi importante para que simpatizasse com aquele genial escritor orelhudo.

Em “Kafka Essencial”, lançada pela Companhia das Letras, no selo Penguin Companhia (aliás, fiquem atentos aos livros deste selo, são alguns clássicos que não circulavam pelas livrarias com esse tratamento editorial caprichado já há algum tempo), reúne vários textos bastante conhecidos do autor como “O Veredicto”, “Um artista da fome”, “Um fratricídio” e o já citado “A metamorfose”.

Dos que eu ainda não havia lido e que me fizeram voltar a pensar na atmosfera de pesadelo/realidade que envolve a literatura do Kafka, destaco dois que achei geniais: “Na Colônia Penal” que conta a história de uma máquina de tortura que escreve a sentença diretamente na pele do condenado, utilizando agulhas que vão rasgando sua carne lentamente. Diga se isso não é um pesadelo? É de deixar o Jigsaw, dos Jogos Mortais, com invejinha. Esse texto faz pensar e muito no “Vigiar e Punir” do Foucalt.

Outro conto/novela muito bom é “Um relatório para uma academia”, sobre um macaco que para escapar de sua jaula passa e imitar os seres humanos, não só os gestos, mas também a linguagem utilizada por eles. É praticamente uma voadora com os dois pés na cara da sociedade.

Todos os textos são antecedidos por comentários do tradutor Modesto Carone. O lado bom disso é que naqueles casos em que você lê, não entende, e fica fingindo que entendeu (desculpe te acusar de pedante assim, na frente dos outros), ele te dá uma mãozinha e apresenta uma reflexão que talvez não lhe tenha ocorrido. O lado ruim é que ele solta uns spóilers sobre as narrativas, eliminando as possíveis “surpresas”. O grande lance é você ler as histórias primeiro e só depois ler o texto do Carone.

Para quem já gosta de Kafka, essa é a oportunidade de ver reunido ótimos textos por um preço acessível (paguei 25 dinheiros no meu). Para quem não conhece é o momento de criar vergonha na cara e ler, pois esse é um dos grandes gênios da literatura.

Bons pesadelos.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h28
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            O Menino e o Cavalo

fonte

 

*Embora eu tenha escrito o texto, foi minha mãe que me contou essa história que aconteceu há poucos dias bem perto de nossa casa. O crédito é dela, portanto.

 

Quando vi o menino, ele ainda não estava chorando. Estávamos saindo da churrascaria e a confusão de carros no estacionamento mais parecia um quebra-cabeça de algum jogo de RPG. Era domingo e um cavalo achou de empacar na saída dos carros bem na hora de maior movimento.

Na beira da rua, um homem, pouco sóbrio, andava de um lado para o outro com um chicote na mão. Resmungava e cuspia palavras desconexas. Não era tão velho, mas o estado deteriorado de suas roupas e o cansaço em seu rosto roubavam-lhe alguns anos. No outro canto, perto do cavalo e ao lado do carrinho cheio de lixo reciclável estava o menino. Enfiado em um pijama, angustiantemente sujo e que provavelmente pertenceu a um adulto, ele não parecia perturbado com o olhar reprovador dos motoristas que buzinavam e xingavam. Ele apenas parecia ausente, olhando em silêncio para o cavalo.

Sua expressão só mudou quando alguém disse “Vai ter que sacrificar, não tem jeito”. Em seu rosto se formou uma sombra de pesadelo e ele logo abraçou o pescoço do animal gritando “Não, não, não...”. Repetiu tantas vezes que a palavra aos poucos virou ruído e perdeu sentido, sumindo no palavrório do povo que aos poucos se aproximava e compunha o tumulto.

Havia algo de errado com a pata traseira do cavalo, que não conseguia se apoiar em pé e mal conseguia relinchar. Os motoristas desistiram de buzinar e berrar e abriram caminho passando por cima da calçada da churrascaria.

O homem zonzo de cachaça e de tristeza se sentou do outro lado da rua e começou a raspar o asfalto com uma pedra como quem tenta cavar um buraco. Quando nosso carro estava passando vi o cavalo ensanguentado, ele havia se enroscado num rolo de arame farpado. Só então me dei conta de que o menino havia parado de gritar, suas mãos estavam cortadas pelas tentativas de salvar o animal e as lágrimas formando riscos de barro em seu rosto imundo. Durante alguns segundos ele olhou diretamente para mim – nos olhos a imagem de uma vida que desmorona - o que me fez gelar. Parecia que queria pedir ajuda, mas não disse nada. Eu também não. Voltamos para casa em silêncio.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 18h10
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QUANDO O AMOR NÃO DURA PARA SEMPRE

 

Quando vi a tradução Rerbert Richards para o título de Blue Valentine, que aqui ficou como “Namorados para sempre”, pensei que era mais um caso esdrúxulo de apelo comercial ou falta de noção (se não me engano o filme estreou próximo ao dia dos namorados). E talvez até seja as duas coisas. Xinguei o pessoal das distribuidoras, mas depois me peguei fazendo algumas conexões possíveis e, no fim das contas, nem achei o título tão imbecil assim.

Não esperava nada desse filme e isso contribuiu para que eu acabasse gostando muito dele. Não só os atores estão ótimos - Michelle Williams mostra, mais uma vez (lembram-se dela em Brokeback Mountain?) que é uma das melhores atrizes dessa geração como também a direção é muito boa. Ao optar por contar a história de maneira fragmentada, com idas e vindas temporais e sem letreiros óbvios do tipo “10 anos antes...”, o diretor Derek Cianfrance deu um ritmo ágil ao longa e ainda o tornou mais interessante, uma vez que só vamos descobrindo aos poucos como começou aquele relacionamento que agora está tão devastado. Ao encaixarmos as peças que faltam, passamos a entender um pouco daquela dor.

Não que essa estrutura narrativa seja muito original, vale lembrar que o cineasta francês, François Ozon, já fez isso e de maneira ainda mais extrema em “O amor em cinco tempos”, quando contou uma história totalmente ao contrário, começando com o casal se divorciando e terminando no momento em que eles se apaixonam.

Mas “Namorados para sempre” tem o mérito de ser simples. Fica claro que há apenas delicadeza na direção de fotografia e não arroubos artísticos, daqueles que fazem os filmes parecerem demasiadamente pretensiosos ou “poéticos” quando não o são. É como se a iluminação e o posicionamento da câmera tornassem mais clara a preocupação ou a ternura que um autor sente por seus personagens, apenas isso.

O filme é sobre um amor que ainda existe para uma das pessoas envolvidas, mas que perdeu seu espaço no coração do outro por causa da aridez do cotidiano e de um passado mal resolvido. E é por isso que talvez o título brasileiro faça sentido, pois a paixão que liga um casal de namorados às vezes é paradoxal: se por um lado nos iludimos achando que aquele sentimento é infinito, por outro, nos jogamos de cabeça nesse abismo, pois queremos aproveitá-lo em toda sua intensidade antes que acabe, “posto que é chama”, como bem nos alertou o poeta. Não raro, disfarçamos essa consciência de que o amor é finito tentando recobrar a falsa idéia de “eternos namorados”, como se o sentimento só fosse possível com a roupagem de seus dias primevos.

No fundo é como se a vida real seguisse por um caminho e o coração caminhasse em direção contrária, misturando o que é lembrança e o que é dor, para sempre.

 

Avaliação: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h53
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WOODY ALLEN PARA TODOS (OU QUASE TODOS)

 

Woody Allen é o meu cineasta favorito. Gosto tanto do trabalho do cara que mesmo que ele chegasse ao fundo do poço e dirigisse algo como “Transformers” (já imaginou os Autobots deprimidos citando tragédias shakespearianas entre uma explosão e outra?) ou uma propaganda da câmera Tecpix, ainda sim eu o acharia fod... fantástico.

Dito isso, não espere deste texto uma análise com algum tipo de razão ou embasamento teórico, pois além de escrever de forma passional, eu também não entendo bulhufas de técnicas cinematográficas. Só assisto, gosto ou não gosto e depois tento explicar minha opinião aqui no blog.

Vamos lá. Não bastasse todo esse clima de “já ganhou”, Woody Allen ainda me vem com uma história que fala sobre literatura, outra de minhas paixões (na escala de preferência, ela ocupa um lugar de destaque, logo depois da batata-frita com ketchup). Ver escritores que admiramos ganharem vida na telona é umas das coisas mais emocionantes que o filme proporciona, sem falar no prazer de tentar adivinhar quem é quem, como se estivéssemos folheando a revista Caras, mas só que uma edição especial para leitores com cérebro.

Contudo é aí mesmo que surge um certo problema. Há pessoas (ó almas impuras!) que não gostam dos filmes dele porque acham chato. Ok, sou de respeitar as diferenças então não vou generalizar, deve realmente haver vários motivos nobres para não gostar, como eu desconheço a maioria, comentarei apenas um deles: as pessoas que não gostam porque não entendem as piadas.

Isso acontece direto comigo, quando um inteligentão vem com uma sacadinha muito intelectual, dou uma risada meio sem graça, só para não me acharem muito burro, e depois fico com aquela cara de paisagem. No fundo sinto mais tédio do que vergonha. É normal, ninguém é obrigado a saber tudo e muito menos achar graça de tudo. Woody Allen é um cara bastante erudito, mas não é do tipo pedante ou arrogante que fica esfregando isso na sua cara, pelo contrário, ele faz até piada disso em “Meia Noite em Paris”, com o personagem mala que acha que sabe tudo sobre tudo.

Mas como não há tortas na cara, nem peidos, nem piadas com fezes humanas é necessário pensar um pouco para rir de alguma coisa neste filme e aí a coisa complica, pois muitos dos filmes americanos nos ensinaram que engraçado é apenas aquilo que é óbvio ou escatológico.

É preciso ligar alguns neurônios para se divertir com os filmes deste cineasta, mas não que você tenha que ter um doutorado em literatura. Neste último trabalho não é nem é necessário ter lido todos os livros dos escritores que aparecem em cena (eu, na abissal ignorância em que flano por essa vida, não li nem o “Paris é uma festa” do Hemingway e também nunca ouvi falar num bocado de gente que aparece em cena. Até pensei em fazer como uns e outros: ler outras críticas e copiar os nomes para meu texto parecer mais inteligente, mas deixa pra lá). É claro que você dará mais risada, por exemplo, se já tiver assistido ao genial (e esquisitíssimo) clássico “O Anjo Exterminar”, pois há uma piada hilária envolvendo o cineasta mexicano Luiz Buñel, mas você não precisa nem saber quem foi Salvador Dali para abrir um grande sorriso ao vê-lo falar sobre rinocerontes.

Ainda prefiro o Woody Allen pessimista (dos geniais ‘Crimes e Pecados’ e ‘A Rosa Púrpura do Cairo’, por exemplo), mas acho que dessa vez ele até conseguiu atingir um público maior com essa história de um escritor que volta ao passado todas as noites. E posso entender o motivo. Acho difícil que alguém que se interesse pelo menos um pouco por cultura em geral, não fique encantado com olhar apaixonado que ele direciona à arte e à cidade de Paris (aliás, os primeiros minutos do longa parecem um filminho institucional para alguma empresa de turismo, mas tudo bem).

O que realmente importa é que quando discute o fato de estarmos eternamente insatisfeitos e angustiados com a época em que vivemos, que somos ingênuos e românticos ao pensarmos que “antigamente é que era melhor”, Woody Allen fala, de maneira bem simples, ao coração de todo mundo e não apenas de quem já leu Scott Fitzgerald. Eu não li ainda, você já?

 

Avaliação: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h48
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A vendedora de Avon

 

O homem é um ser social por natureza e por isso é uma pena que ele seja tão pouco sociável. Esse bug no sistema programado por Deus ou em constante evolução desenvolvido pelos estagiários do Darwin gera alguns problemas de ordem prática.

Essa tendência a vivermos amontoados em sociedade gerou a sociolinguística do Saussure e os churrascos com os amigos, porém gerou também os ônibus lotados, esse pequeno universo onde temos que dividir minúsculos centímetros quadrados de nossa existência com outros seres humanos, geralmente suados e/ou gripados.

No meu caso, tento não incomodar muito e me defendo do mundo lendo algum livro ou dormindo. Fico ali me distraído com as safadezas escritas por um João Ubaldo Ribeiro da vida ou me deprimindo com algum escritor russo.

Tudo vai bem até que, a certa altura do trajeto, eis que surge do meio daquele aglomerado de gente suada e ranhenta (a tal da “sociedade”, como falamos anteriormente), um ser que abala todo o equilíbrio do ambiente: A Vendedora de Avon.

Ela é aquela pessoa que, quando você está ali, com a cara enfiada no livro e, com ajuda do detetive Poirot, está finalmente prestes a desvendar quem é o assassino do livro da Agatha Christie, surge do nada e começa a falar alto (muito, muito alto) a respeito do “Renew Platium Sérum Concentrado Anti-Idade” e do “Avon Care Vita Creme Facial Concentrado”, que, “menina do céu, faz milagres, precisa de vê, tem uma vizinha minha que usou e...”.

Quando ela apareceu pela primeira vez, exibindo seus longos cabelos loiros tratados com “Advance Techniques Antiidade Elixir Reparador”, palestrou (pois só ela fala) para sua amiga (com estilhaços desferidos em todos nós, infelizes não-surdos) durante 50 minutos ininterruptos a respeito do “Foot Works Desodorante Spray Refrescante para os Pés”, que era bom e que o marido dela estava usando. Admirei a sua capacidade de abstração da realidade, reduzindo toda a nossa existência miserável à porcaria de um desodorante ainda mais miserável, enquanto permanecia alheia aos olhares de desprezo que a fuzilavam ao redor. Mentira, não admirei nada, minha vontade era dar uma voadora com os dois pés na boca dele, mas não como não sou dado à violência, fiquei apenas observando e me deprimindo mais do que com os escritores russos.

E isso se repetiu durante vários dias. O livrinho da Avon parecia ser mais longo que o Senhor dos Anéis e a cada semana novos lançamentos de cremes e batons anti-alérgicos surgiam para me lembrar o quanto a vida real, assim sem maquiagem, é simplesmente ridícula. O fato é que vivemos em sociedade, mas nós não nos suportamos e não há Glorinha Kaliu (outra insuportável) que faça a gente se relacionar de forma decente e educada.

Mas veja só como nós descemos todos juntos a ribanceira da vida.

Dias atrás um estranho silêncio tomou conta do ônibus, foi numa dessas manhãs chuvosas de Curitiba que deixam as janelas embaçadas, fazendo com que a gente não consiga enxergar o mundo e mundo não nos enxergue. Lá estava a Vendedora do Avon, como que por milagre, quieta num canto, apoiada em seu guarda-chuva comprado na rua. Algo de muito grave deveria ter acontecido, pois nem o livrinho maligno estava à mão. Ela estava agora com os cabelos recém pintados de vermelho e todos nós sabemos que quando uma mulher pinta o cabelo de cor diferente é porque quer mudar algo dentro de si, mas como não consegue, parte para as esquizofrenias estéticas, utilizando a exterioridade para camuflar suas tristezas e inseguranças (os homens fazem o mesmo, mas com cerveja). 

Desde então ela não dá mais nenhum piu, segue toda a viagem com os olhos vagos de quem está contando uma história para si mesmo. Desconfio que a amiga dela (que misteriosamente sumiu) passou a vender Natura e ela não suportou a traição.

 Fico muito feliz que o silêncio reine no ônibus novamente e que eu possa ler em paz, mas não queria que ela ficasse assim tão triste (do jeito que está, logo, logo ela pinta o cabelo de outra cor). Já que vivemos em sociedade, um dia desses vou lhe perguntar quanto custa o “Foot Works Creme Hidratante Intensivo para Pés com Vitaminas E e Aloe Vera” só pra ver se ela se anima um pouco.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h05
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AS RUÍNAS DO SONHO AMERICANO

 


O volume de páginas impressiona. Em tempos de fast food e twitter, um livro com mais 600 páginas deve assustar um pouco a gente que se acostumou a comer em 5 minutos e a pensar com apenas 140 caracteres. Ler um post no blog, com mais de dois parágrafos então... Impressiona mais ainda um pequeno aviso na capa de Liberdade (lançado recentemente pela Companhia das Letras), a frase do jornal The Guardian diz o seguinte: “O livro do ano, e do século”.

Diante da opinião de um periódico tão respeitado, a opinião de um blogueiro desconhecido é tão relevante quanto um tweet que brota e desaparece na sua time line a cada segundo, mas vamos lá.

Sobre a classificação do “The Guardian”, fica a pergunta que quase todo mundo se faz “Será que é exagero?”. A resposta é: sei lá! não li nem metade do que esses caras lerem, acho que eles devem saber o que estão falando. De minha parte (o que inclui certa dose de ignorância), digo que esse frase serve para definir não “Liberdade”, mas o livro anterior do mesmo autor, “As Correções” (também publicado pela Companhia das Letras). Uma obra não menos que genial e que com toda certeza é uma das melhores coisas que li na minha vida. Contudo aí entra mais uma questão de subjetividade do que propriamente de crítica literária. Se bem que toda crítica é subjetiva, mas eu divago...

“As Correções” fala sobre a precariedade das relações familiares, o que no meu caso foi absolutamente tocante, tanto que até perdi as contas de quantas vezes fiquei chorando com o livro no colo. E por mais que eu estude um pouco de literatura, esse tipo de catarse, para mim, vale mais do que qualquer análise teórica que defina as qualidades de uma obra. “Liberdade”, que também me fez chorar de maneira constrangedora (é, eu sou um fresco mesmo) fala também sobre famílias em ruínas, mas com um foco – palavra odiosa, eu sei - maior num triângulo amoroso. Este imbróglio é composto por Walter, um advogado e ativista ambiental que crê tanto nos valores morais, talvez até de maneira ingênua, que mal percebe quando eles implodem ao seu redor; Patty, ex-jogadora de basquete, estuprada na adolescência, que se casou por se sentir amada, mas que não consegue retribuir o mesmo sentimento, uma vez que se sente atraída dor Richard, roqueiro decadente e melhor amigo de Walter desde os tempos da faculdade, nos anos 70. Todos eles percebem um no outro, ao longo de uns 40 anos de relação, seja no amor, na amizade ou no sexo, a possibilidade ilusória de liberdade, de redenção de uma vida que não deu certo.

A melhor qualidade do livro é capacidade que o escritor Jonathan Franzen tem de criar personagens absurdamente reais. Não há dúvidas de que eles são de carne e osso e caminham por aí. É sério, a construção psicológica do trio Walter, Patty e Richard, e também dos inúmeros personagens secundários (em especial a jovem Connie, cuja aparente unidimensionalidade só torna a personagem ainda mais complexa e misteriosa) é extremamente crível. Até as atitudes idiotas deles são perfeitamente possíveis, pois nós já os conhecemos o suficiente para esperar isso deles. A cada página ficamos decepcionados com suas decisões equivocas, mas logo em seguida sentimos uma ternura enorme por essas pessoas tão cheias de falhas, que fazem tantas coisas erradas, que sofrem e fazem sofrer e que se parecem tanto com a gente mesmo. A única coisa que me incomodou, nesta questão, foi a personagem Jessica, filha do casal, que recebe pouca atenção do narrador e fica meio esquecida durante toda a história.

Franzen traça um painel poderoso, e também preocupante, da sociedade americana na era Bush, tendo como referência trágica as consequências políticas do “11 de setembro”. O consumismo, a corrupção, a frivolidade das relações humanas, a guerra no Iraque e a preservação do meio ambiente são alguns dos temas que servem de cenário para o escritor contar a degradação da família Berglund e, com isso, abrir as veias da hipocrisia e expor a falácia do sonho americano.

Num certo momento, um dos personagens lê o livro “Reparação”, do inglês Ian McEwan, um romance que fala justamente sobre a tentativa praticamente nula de, no presente, tentar corrigir os erros cometidos no passado. Ele no faz pensar que, um vez cientes de nossa condição miserável, o que resta fazer é apenas olhar para trás e tentar entender o que nos levou a ser quem nós somos. Em “Liberdade”, Jonathan Franzen demonstra o quão devastador pode ser este olhar.

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Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h21
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