Cinema: A Fita Branca

QUEM TEM MEDO DE CRIANÇAS?

 

Virei fã do direito austríaco Michael Haneke desde que assisti Caché (2005), depois me tornei um fanático admirador ao ver Violência Gratuita (2007) – remake do filme que ele mesmo dirigiu em 1997 (ainda não vi, então fico devendo uma posição).

A Fita Branca (2009), que ainda não estreou oficialmente aqui no Brasil, é o mais novo trabalho deste cineasta genial. Este, um dos favoritos ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, não é o melhor desempenho de Haneke, mas quanto se trata de um sujeito como ele, até um filme mais ou menos se torna uma obra-prima perto de algumas produções americanas.

A opção pela fotografia em preto e branco é perfeita, pois combina muito bem com os belíssimos planos do campo, das colheitas e das casas antigas. O ambiente faz lembrar A vila, de Nigth Shymalan. O clima religioso/autoritário no pequeno povoado no meio do nada chega a ser claustrofóbico, principalmente pela imposição do sentimento de culpa e desconfiança. Intrigas, inveja e atos violentos inexplicáveis tomam conta do lugar.

Provavelmente a intenção de Haneke seja investigar a origem do mal (a história se passa pouco antes de estourar a Primeira Guerra Mundial). Origem esta que talvez não esteja apenas em divergências políticas ou econômicas, mas na própria essência do caráter humano, seja ela qual for. A tal fita branca é óbvia referência à faixa que os judeus tinham que usar no braço durante o conflito, mas aqui o pastor faz seus filhos a utilizarem como “símbolo da pureza”. Detalhe: um deles tem as mãos amarradas na cama durante a noite para que não se masturbe.

A maioria dos personagens adultos são um bocado repugnantes. O diálogo entre o médico e a empregada, "tenho nojo de fazer sexo com você, você é feia, flácida, você fede" é exemplar. Mas são os pequenos que se destacam, por causa da ambiguidade. Filmes de terror gostam de utilizar crianças como personagens macabros. Você se lembra do piazinho maligno em O grito? Ou da menininha em O exorcista? No filme de Haneke (que não é de terror nem de suspense! diga-se de passagem) nada é mostrado assim de maneira tão maniqueísta. Os detalhes ficam apenas subentendidos. Algumas crianças simplesmente não demonstram nenhum sentimento claro, nem de culpa, nem de ódio, nem de medo. Elas não se reduzem ao esteriótipo de malvadinhas ou boazinhas, são muito mais complexas, pois reagem de forma velada ao mundo aprodrecido em que vivem. E isso é bem mais assustador do que girar a cabeça e cuspir coisas verdes na cara dos outros.

Avaliação: @@@@

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h59
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Conto: Supermercado

 SUPERMERCADO

 

Quando chegou ao caixa, recebeu com desconfiança o sorriso da moça - carinha assim de puta – pois esboçava um tipo de familiaridade não requisitada, uma simpatia estéril adquirida num desses treinamentos ridículos de atendimento ao cliente. Boa tarde. Oi. Ele esteve ali a semana toda, comprando a mesma coisa todos os dias: vinho, vodca, queijo, miojo, pão, algumas latas de cerveja. E agora ela dava aquele sorriso imbecil como se quisesse dizer “vive sozinho né? Eu sei que é uma merda”. Como se a simples repetição de determinadas ações fosse uma deixa para que as outras pessoas pudessem invadir a sua intimidade, transformá-la num clichê de filme indie e enxergar nisso algum tipo cumplicidade doente. Talvez ela até estivesse certa, mas ele supunha ser um pouco mais do que aquilo que aparentava quando estava num caixa de supermercado, com um chinelo de cada cor, o cabelo lazarento... Pelo menos era este tipo de convicção que lhe permitia acordar todos os dias. O problema é que todos nós achamos que somos protagonistas, disse-lhe certa vez um amigo da internet, difícil achar alguém que aceite a real condição a que pertencemos: figurantes ou no máximo coadjuvantes de um filme chato que ninguém consegue assistir até o fim. O cartão não passou, mas mesmo que o problema fosse da máquina não escapava-lhe a sensação de que estava sendo alvejado por impropérios sussurrados pela fila que começava a se avolumar logo atrás. Eu tenho dinheiro caralho! Não disse. O sorriso da moça apodreceu após a terceira tentativa. Não demorou para que se sentisse ridículo. E ela, a puta, nem ao menos tentou dividir a culpa. É que não era só isso, tinha tanta coisa doendo ao mesmo tempo, o café já não dava conta e além do mais ele odiava tomar o seu próprio café. Mas antes tivesse ficado em casa, ainda tinha um resto numa garrafa, pegava um livro do Drummond e virava a noite. Sobreviveria, mais por insistência mecânica do que por vontade própria. Vasculhou a carteira, vários recibos, calendário de 2007, nota de um dólar, telefone sei lá de qual guria do sábado passado. Deixou algumas moedas caírem, uma nota de cinco dobrada em quatro, outra de vinte. O dinheiro não deu, o pão e o queijo ficaram. Pegou as sacolas e não olhou para trás, mas imaginou as pessoas apontando: filho da puta. Abriu uma cerveja antes mesmo de sair do mercado, queria fugir, não queria pensar, queria pelo menos não perceber. Quem sabe um pouquinho de inconsciência? De anestesia geral? Um atropelamento bem-vindo. Mas as pessoas não paravam de olhar, talvez pela sua aparência de mendigo, talvez pelo excesso de bebidas. Talvez nem estivessem olhando. Tentou fazer uma cara de fodam-se, mas não conseguiu. Aquilo tudo realmente importava. E ele só queria não ser notado, fazer a porcaria das compras e vir embora. Em casa, largou tudo em cima do sofá, ao lado dos livros lidos pela metade e dos xerox da faculdade. Ele se trancou no banheiro, sentou no piso ainda úmido e esticou a toalha no vão da porta. Estava com medo de que todo aquele desespero conseguisse escapar por alguma fresta.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 20h27
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Cinema: A Onda

 HITLER VAI À AULA

 

Seria possível um regime como o Nazismo ressurgir atualmente num país onde a democracia já está consolidada? Segundo o filme A onda (Die Welle, 2008), sim. A história é baseada em fatos reais ocorridos nos EUA nos anos sessenta. Um professor de história ficou intrigado quando uma de suas alunas questionou o fato da população alemã ignorar o que estava acontecendo em seus país à época do Terceiro Reich.

Ele fez então um experimento inusitado: durante cinco dias, reproduziu o ambiente de um regime fascista dentro da sala de aula, levando-os a acreditar que disciplina era sinônimo de poder. Primeiro os alunos teriam que atentar-se à postura, a coluna sempre ereta. A disposição das carteiras na sala também muda, se antes sentavam em círculos, agora devem sentar em fileiras, um à frente do outro. Depois só teriam permissão para começar a falar depois que se levantassem. Aprenderam a marchar, criaram um slogan e até uniformes. O grupo passou a se chamar “A terceira onda”. Quem não fizesse parte do grupo era excluído e hostilizado pelos demais colegas. Não demorou a ocorrerem atos violentos. O problema é que a experiência tomou proporções ainda mais inesperadas, pois se espalhou para fora da sala de aula, ganhando adeptos até fugir completamente de controle.

O fato já havia inspirado um telefilme nos anos 80. Agora A onda transporta essa história para a Alemanha atual, e assim como outros ótimos trabalhos recentes, “Adeus, Lênin!” e “A vida dos outros”, esse é mais um exemplo de que os alemães não se preocupam em revirar as feridas de seu aterrorizante passado histórico.

O bacana é que ao trazer este fato para a atualidade, o filme acaba abordando questões bastante pertinentes aos jovens da geração twitter: a falta de motivação, o desinteresse político, individualismo, etc. “Somos uma geração que não tem pelo que lutar” diz um dos personagens no meio de uma festa com bebida rolando solta.

Fica claro desde o início que só estão esperando que alguém diga a eles o que devem fazer, pois não são capazes de tomar decisões simples. É como se por haver a figura de um líder, os jovens abdicassem de qualquer responsabilidade e por fazerem parte de um grupo a noção de individualidade estaria completamente anulada. Fazendo um paralelo (para fugir um pouco do óbvio, que seria a onda de manipulação da mídia), dá pra dizer que é mais ou menos o que aconteceu no final do campeonato brasileiro do ano passado, aqui em Curitiba, quando torcedores invadiram o gramado agredindo e quebrando tudo que havia pela frente. Muita gente deve ter pensado “já que tá todo mundo invadindo, eu também vou”, achando que com essa atitude “desapareceria” no meio da massa.

Na verdade tudo gira em torno da necessidade de aceitação, de fazer parte de alguma coisa (por mais idiota que ela seja), de se sentir acolhido.

O único problema do longa é que muitos dos personagens não passam de esteriótipos da high school americana: o malvadinho com roupas escuras, o gatinho que é líder do time, o gordinho brigão, o feio com atitudes esquisitas, etc. Tudo isso acaba frustrando um pouco aqueles cinéfilos mais exigentes que, por exemplo, procuram algo de alemão num filme alemão (!?), pois o desenrolar da história acaba sendo previsível em determinados momentos.

Mas tudo isso não tira o mérito deste filme que teve a coragem de tocar num tema caro aos alemães e que ousou - apesar dos pesares - abordar um tema bem distante dos clichês de filmes adolescentes que têm sido lançados aos quilos por aí (só há alguns dias descobri que o American Pie já está no 7 !!, quem eles pensam que são? O Jason?).

Fazer essa piazada refletir um pouco sobre a sua própria condição é sempre muito importante, por isso recomendo “A onda” também aos meus colegas professores, pois esse é o tipo de filme que pode render ótimas discussões em sala de aula.

Avaliação: @@@@

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 23h03
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Cinema: Sobre Cafés e Cigarros

 VOU TOMAR UM CAFEZINHO E JÁ VOLTO

 

Em tempos de lei antifumo nada mais bacana do que falar do “dito cujo”. Mas antes que os detratores tentar colar um adesivo nesse blog, cabe dizer que o filme do diretor Jim Jarmusch (lançado em 2004) não é uma apologia ao uso de nicotina. Tampouco distribui panfletos anti-tabagismo.

O tema esfumarado já redeu um ótimo filme, chamado Obrigado por fumar (que eu tenho utilizado em algumas aulas sobre retórica). Mas se na inteligente comédia de 2006 o sarcástico protagonista tentava nos convencer dos benefícios de se enfiar fumaça traquéia adentro, em Sobre café e cigarros ouvimos várias vezes a frase “você vai almoçar café e cigarro? Isso não vai fazer bem para sua saúde”

O filme é composto por vários curtas, que começaram a ser filmados em 1986. As histórias ocorrem em vários cafés diferentes, a maioria no estilo retrô-engordurado, e, não dá pra negar, resgatam um pouco (só um pouco) daquele charme dos filmes antigos, que mostravam as estrelas de Hollywood fumando, mas sem o ar blasé. Contribui com esta atmosfera a bela fotografia, toda em preto e branco. Perfeita.

 

Cigarro amarelando os dedos e o café amarelando os dentes. Melhor ambiente não há para se jogar uma conversa fora e, diga-se de passagem, para fazer pose de intelectual deprimido. E o filme é exatamente sobre isso, sobre observar as pessoas nos seus momentos de relax. Sem grandes transformações dos personagens, sem cenas impressionantes ou trilha sonora comovente. Apenas pessoas conversando ao redor de uma mesa.

O elenco é de altíssimo nível e todos interpretam a si mesmos. Temos o excêntrico roqueiro Iggy Pop que conversa com o também músico Tom Waits (“eu tenho força de vontade e sinto vergonha por quem fuma. Uns coitados. E já que eu parei de fumar, vou fumar só um cigarro”). A bela Cate Blanchet (elogiar o talento dessa mulher já virou redundância né?) que interpreta dois papéis ao mesmo tempo. Bill Murray em mais um trabalho esquisito. O casal da banda White Stripes (uma das histórias mais chatinhas), numa conversa esquizóide sobre ressonância acústica. Há várias outros curtas, mas o melhor é o encontro entre Steve Coogan (Trovão Tropical) e Alfred Molina (o Dr. Octopus do Homem-Aranha 2), pois o constrangedor diálogo que explora a falta de popularidade de Molina é simplesmente hilário. Praticamente todas histórias tratam de banalidades. E a graça está em perceber o quão inusitadas são essas banalidades.

 

Avaliação: @@@@

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 00h53
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Conto: No fim do corredor, na porta escrito "quase"

 NO FIM DO CORREDOR, NA PORTA ESCRITO "QUASE"

Fonte: http://www.flickr.com/photos/calvi/285328634/

Ameaço abrir os olhos. Pedaços de sonhos ainda insistem, mas após um longo bocejo o foco vai se ajustando. Sinto a respiração dela, o rosto colado na minha barba – um raro tipo de felicidade honesta. Penso que as coisas não precisam fazer muito sentido durante o dia idiota que vem pela frente desde que amanhã eu possa sentir essa respiração novamente. Embora pobre em convicção, esse pensamento pelo menos torna a vida um pouco mais suportável. A luz preguiçosa que atravessa o quarto indica um céu ainda se compondo, nublando-se ao poucos feito ressentimento. O edredom azul desenha o contorno dos nossos corpos, montanhas que se derramam em cascata para fora da cama, como se tudo fosse uma coisa só, numa sintonia ingênua permitida apenas pela semi-consciência de quem ainda não acordou direito. Levanto-me e abro as cortinas. O céu não está nublado e o edredom não é azul. A realidade me atravessa. Esfrego o rosto e a barba ainda está aqui, bem maior, quase obscena. Confiro-a no espelho e mal disfarço o cansaço. Quanto tempo se passou desde que o tempo parou de passar? As marcas de copos nos móveis indicam feridas sobrepostas, lamentações de histórias tristes e repetidas. O vazio impondo-se na crueldade dos registros banais, na imobilidade dos objetos. Encho a caneca com café e um pouco de conhaque. Sento no sofá, os jornais da semana empilhados sobre a mesa de centro indicando que o mundo ainda está lá fora, funcionando precariamente, e tento não pensar em nada. Mas penso. É difícil permanecer ileso. Chegamos tão perto. Esbarramos naquele “quase” ilusório que nos convence que talvez a vida não seja assim tão desabitada de sentido. E se tivéssemos ficado na cama um pouco mais no dia em que aconteceu? E se tivesse sobrado pizza do jantar para comermos no café? Mas não adianta, o jogo do “e se” nos remete ao abismo, trabalho de Sísifo e a sanidade torna-se quase uma extravagância. Vou até a janela da sala e analiso seu significado de moldura, sua postura de câmera. Foi por ali que, como num filme, assisti às cenas que não mais se apagaram: o carro na calçada, o tumulto dos curiosos no meio do asfalto, o pão quente que não chegou à mesa. Era sexta-feira. Retorno para o quarto, a cama desarrumada há muito tempo indicando um ciclo não concluído, um mesmo dia infinito, que arde nos olhos e não os deixa descansar. Deito-me novamente e enterro o rosto no lençol. O cheiro é do meu suor e já não traz lembrança alguma, mas eu as fabrico, distorço, insisto num perfume imaginário só para ver até aonde vai a dor. Olhos fechados, já não sinto a respiração nem o rosto encostado em minha barba. Adormeço e quase consigo sonhar.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h47
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Conto: O Mergulho

O MERGULHO

Fonte

 

 

Dobrou os dedos do pé feito águia, agarrando-se à borda, e flexionou levemente os joelhos. Pronto para o ataque. O piso estava quente de meio-dia, mas ainda assim o menino hesitava, não para testar o quanto suportava o calor, mas por achar que a água lograva-lhe a noção exata de profundidade. Que tal pular de ponta e rachar a cabeça no fundo? Dizia-lhe o azul em tom nauseante.

As distorções não eram líquidas, pois a água estava lisa-espelho. O mundo emergido é que reproduzia a fidelidade de um sonho.

Não olhou para o lado, mas formulou a imagem em pensamento: sua mãe estava passando protetor solar nas costas de sua irmãzinha com uma das mãos e com a outra estava lendo uma revista de ciência, seu pai, camisa do Coritiba toda engordurada, estava colocando os corações de frango no espeto. Não-olhando, assim de longe, pareciam felizes e distraídos e esse era o jeito mais fácil de preservar um pouco de escudo.

No meio da piscina, alguns jovens brincavam com uma bola de criança. Ao fundo, sentados na borda e com as pernas decepadas pela água à altura da canela, dois casais esvaziavam uma garrafa de vinho e algumas latas de cerveja. A senhora de maiô roxo, deitada na espreguiçadeira, parecia incomodada com a armação dos óculos.

Ninguém se dava conta da proeza que ele estava prestes a cometer. Ninguém percebia a importância daquele momento que iria mudar a sua vida para sempre. Na verdade, nem ele fazia ideia do que estava para acontecer.

Talvez quisesse chamar atenção de seus pais, talvez fosse para mergulhar e encontrar outra família lá no fundo.  Um mundo sem som, todo ao contrário. Sentia esse impulso, pois  a noite anterior o atordoara um bocado. Os fones de ouvido sempre o ajudaram a escapar daquele tipo de discussão, mas dessa vez foram insuficientes. Antigamente, olhava os lábios do seu pai se mexendo como se ele mastigasse uma comida ruim e tentava imaginar frases diferentes, frases que não coincidissem com o que estava sendo dito, assim como naquelas dublagens engraçadas que assistia no youtube. Às vezes, apenas fechava os olhos e aumentava o volume.

Estava certo de que aquilo que não se via ou que não se ouvia, simplesmente não podia existir. Por isso sentia seu coração acelerar quando sua mãe o chamava, junto com sua irmã, para conversar logo após ouvirem o carro cantar pneu de madrugada, saindo da garagem. A partir do momento em que tudo aquilo que era suposição ou imaginação virava palavra na boca de sua mãe, a realidade passava a provocar graves rachaduras em seu escudo. Aquela inesperada viagem de férias emprestava-lhe uma forte sensação de que todos estavam ali fazendo parte de uma ridícula companhia de teatro amador. O que veio a se confirmar na brutal discussão depois do jantar.

 

Fechou os olhos e sentiu a textura e o calor dos azulejos sob seus pés. Apertou os dedos até as articulações ficarem esbranquiçadas. Inclinou o corpo lentamente para frente. O cheiro do cloro se misturava ao cheiro de pele queimada pelo sol. Aroma de férias, de lembrança boa. Estava muito quente, mas o vento forte, além de querer desequilibrá-lo, trazia a tiracolo uma tempestade que parecia uma mancha de óleo no céu.  As pessoas estavam se divertindo, talvez de forma até exagerada, pois sabiam que logo teriam que sair da piscina e se enfurnarem em seus quartos, com seus baralhos e suas televisões mal sintonizadas.

Lembrou do caso de uma criança que mergulhou e ficou presa no fundo piscina, sugada pelo ralo. Péssima hora para lembrar uma coisa dessas. Mas sentiu-se aliviado por perceber que o medo não estava presente em seu corpo. Os joelhos estavam imóveis, sem movimentos estúpidos e involuntários e isso era um bom sinal. Mas a imagem de sua família, logo ao lado, começou novamente a tomar forma em sua mente. O pai avançando com o punho fechado. Seus joelhos não resistiriam calados. Sensação de que essa era a sua última chance de fugir. Precisava tocar o fundo.

 

A mãe abaixou a revista e viu a senhora de maiô roxo apontando para piscina. Alguns jovens aparentemente assustados saíram rapidamente da água. O pai só percebeu que algo estranho estava acontecendo quando ouviu o grito de uma mulher “ali, está ali!”. A água estava vermelha. A irmãzinha não viu nada e correu para lanchonete.

Quando o pai estava se aproximando para tentar entender o que estava acontecendo, esbarrou numa cadeira de plástico que quase caiu. As pessoas estavam amontoadas e ele não conseguia ver praticamente nada. Foi quando, por entre calções de banho e biquínis minúsculos, ele conseguiu enxergar um homem no canto da piscina. Com ajuda dos amigos, ele colocou alguma coisa na borda e se apoiou para sair. O pai deu a volta nas pessoas e então conseguiu enxergar: era uma garrafa de vinho e uma taça quebrada. A mulher que aparentemente era a esposa daquele homem comentou “merda, tava cheia”. O outro casal riu embriagado. Logo os jovens pularam no lado oposto da piscina e continuaram a brincadeira com a bola. A senhora de maiô roxo finalmente desistiu dos óculos. O pai voltou para tirar a carne do fogo, pois já estava boa.

A mãe foi buscar a filha na lanchonete. Quando voltou, percebeu que o filho estava na mesma posição de mergulho de alguns minutos antes. Ela gritou para ele não pular na água, pois o almoço já estava pronto.

Ele soltou a pressão nos dedos de águia, que lentamente voltaram à cor natural. Levantou a cabeça e sentiu uma leve pressão na coluna. Quanto tempo ficara na mesma posição? Ouviu a mãe chamar mais uma vez, já estava irritada.

Baixou novamente os olhos. O menino mal conseguia ver seu próprio reflexo indefinido entre os azulejos. A água imitando o sonho e a nuvem-mancha-de-óleo completando o restinho de céu que sobrara. De repente sentiu alguém agarrar violentamente o seu braço, ficou apavorado e finalmente teve que olhar para o lado. O escudo então se partiu.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h19
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Top 5 - Séries 2009

TOP 5 - SÉRIES 2009

 

*As cinco melhores séries que eu assisti em 2009.

 

- HOUSE

 

 

 

[O formato é repetitivo (alguém passa mal + no começo o Dr. House não se interessa + a pessoa tem sintomas bizarros + os médicos descobrem que é uma doença rara + House fica curioso + brainstorming para descobrir que diabos o paciente tem: Lúpus? Crohn? Um tipo raro de câncer? + exames para descobrir + o médico ranzinza se interessa mais pela doença do que pelo paciente + House utiliza métodos pouco ortodoxos para salvar a vida do sujeito), contudo, o Dr. House é provavelmente o personagem mais interessante, mais complexo, mais qualquer coisa, que apareceu nos últimos cinco, seis anos. E os diálogos afiados são o que há de melhor na TV americana. Como bem argumentou um professor da UFPR: através do Dr. House “tem muita gente vendo boa literatura por aí. E no lugar em que nós menos podíamos esperar. A tevê”]

 

- EM TERAPIA

[Falando em bons diálogos, nem só de House vivem os fanáticos por séries inteligentes. Quem já descobriu e se entusiasmou com “Em terapia” sabe do que estou falando. Lendo a sinopse pode até parecer meio chato: um psicólogo atende seus pacientes em seu consultório, “só” isso. O que vemos são apenas as conversas que ocorrem no divã (aliás, no sofá). A coisa começa a ficar interessante quando vamos conhecendo esses pacientes: um soldado que voltou do Iraque, após jogar uma bomba numa escola infantil, e que não se sente nem um pouco arrependido por ter matado várias crianças. Uma jovem noiva que conta com riqueza de detalhes suas degradantes aventuras sexuais. Um casal em conflito que fez tratamento para que a esposa engravidasse, mas que agora pensa em aborto. E (a melhor de todas), uma adolescente que vive com a mãe deprimida e que enxerga na figura do técnico de ginástica, muito mais do que uma presença paterna. A série é dirigida por Rodrigo Garcia, filho do escritor Gabriel Garcia Marquez]

 

- CALFORNICATION

[Sabe aquele tipo de série que já no episódio piloto você se vê fisgado? Desde Lost e 24 Horas isso não acontecia comigo. Ok, Californication é bem diferente dos dois sucessos citados, pois aqui não há roteiros mirabolantes, nem edição de tirar o fôlego. O que vemos é um escritor-cafajeste-decadente que sai por aí bebendo e fazendo sexo, - só no primeiro episódio umas cinco mulheres passam pela sua cama. Tá, então é uma pornochanchada? Não. Aí é que está o grande mérito dessa série. O começo é um tanto chocante (e hilário) e isso provoca muita curiosidade (sim, eu sei que você é um pervertido), mas conforme avança a série dá uma guinada e passa a explorar o drama do personagem, que tem um passado mal resolvido, tanto na relação com o pai – o melhor episódio da 1ª temp. – quanto com a ex-esposa e a filha. Ele faz tudo errado (tudo mesmo), mas no fundo só quer reconquistar a família. É daqueles casos raros que te emocionam e te fazem rir quase que ao mesmo tempo].

 

- DEXTER

 

[Já se sentiu como se tivesse que fingir ser outra pessoa 24h só para convencer os outros de que você é normal? Negar sentimentos, dar opiniões faltas, sorrisos forçados, etc? Então é provável que se identifique com Dexter, principalmente se você já matou alguém. Ele é um serial killer do bem. Um psicopata legal que caça psicopatas malvados (!?). Isso mesmo, ele só mata quem está do lado negro da força. É um sujeito que tanto pode cuidar dos seus filhos enquanto você está trabalhando, quanto também pode enfiar uma broca na testa de alguém que tenha feito algo errado. Sarcástico e inteligente, Dexter faz sucesso, pois, ao trabalhar com o inusitado, foge de alguns padrões estereotipados desse tipo de série policial. O último episódio da primeira temporada é exemplo disso. Sua ironia é elevada ao máximo e algumas “verdades” incômodas são esfregadas na cara do telespectador, que sai querendo mais.]

 

 

- LIE TO ME

 

[Quando você acha que a franquia CSI já esgotou tudo que era possível no terreno investigativo, surge Lie to Me para surpreender. Se você franziu a sobrancelha e está duvidando, já aviso, talvez esteja enganado. A equipe liderada por Cal Lightman (Tim Roth) é especialista em expressões corporais e lingüísticas. Eis o diferencial. Não há super laboratórios de análises químicas ou balísticas, o que eles estão interessados é na maneira que pessoas reagem a determinadas situações, como posicionam o corpo, pra que lado os olhos viram, as palavras que escolhem, etc. São vários os recursos para analisar o comportamento das pessoas e identificar se elas estão mentindo. E o resultado já sabemos: elas sempre mentem]



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h12
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Top 5 - Filmes 2009

TOP 5 – 2009

 

FILMES (Blockbusters)

 

- UP – Altas Aventuras

[Desenho que faz adultos disfarçarem as lágrimas para as crianças não verem. Algo mais a dizer?]

 

- Bastardos Inglórios

[Tarantino nos coloca numa montanha-russa e despencamos de lá sem cinto de segurança]

 

- O Curioso Caso de Benjamin Button

 [Só a cena do relógio no início do filme já fez valer o ingresso. David Fincher não decepciona]

 

- Se Beber, Não Case

 

[Absurdo, hilário, inteligente. Finalmente resolveram utilizar um roteiro bacana numa comédia rasgada]

 

- Watchmen

[Ainda bem que não fez sucesso, pelo menos não vai render uma continuação desnecessária. Depois de Batman e Sin City, essa é a melhor transposição de uma HQ para a telona]

 

 

FILMES (Não-Comerciais)

 

- O visitante

[Pequeno grande filme sobre a solidão e as diferenças sociais/raciais. O melhor do ano]

 

- Apenas o fim

[Um jovem cineasta de 20 anos fez o filme que qualquer nerd queria de ter feito. Todo mundo pode gostar, mas se você é do tipo que sabe quem é Tom Bombadil vai gostar mais ainda]

 

- Amantes

[O “final feliz” mais triste de todos os tempos. Esse filme é praticamente um estudo sobre as relações amorosas e suas tragédias]

 

- Entre os Muros da Escola

[Esqueça bobagens como “Sociedade dos poetas mortos”. Entre os muros... é o filme que todo “futuro” professor deveria assistir]

 

- Vocês, os vivos

[Esquisito e poético. Singelo e Banal. Absurdo e Genial. Parece até um livro de contos. Difícil definir essa obra-prima do cinema sueco]

 

 

Em breve: Top 5 – DVD, Séries, Músicas e Literatura.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 18h01
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Cinema: O Casamento de Rachel

O CENTRO DA DOR

 

        O retorno ao lar da infância já não é mais algo alegre e reconfortante, pelo menos é o que tem demonstrado algumas produções recentes, como A família Savage (Tamara Jenkins), Feliz Natal (Selton Mello) e a peça de teatro Apenas o fim do mundo (Jean-Luc Lagarce). Essas obras trabalham com a ideia de que ao regressar ao seio familiar - pelos mais diferentes motivos: doença ou festas de fim de ano - o sujeito se depara com uma hecatombe psicológica que faz verter todos os traumas que foram cuidadosamente recalcados ao longo dos anos e da distância. Fica a sensação de que essas amarguras do passado jamais foram superadas, elas, na verdade, foram apenas guardados numa gaveta lá no fundo da memória. E o problema é que essa gaveta não possui chave e pode ser aberta facilmente por qualquer um que se aproxime demais.   

É o que ocorre no filme O casamento de Rachel (2008), ótimo trabalho do diretor Jonathan Demme (Filadélfia). No longa, Anne Hathaway (atriz que normalmente aparece em papéis disneylândicos, mas que aqui  entrega uma atuação madura e intensa) é Kim, uma jovem em fase desintoxicação que deixa a clínica durante um final de semana para comparecer ao casamento de sua irmã mais velha - isso mesmo, a moça do título.

Logo de cara constatamos que o comportamento da garota é auto-irônico e arredio, típico de pessoas deprimidas e em fase de recuperação. Desta forma, percebemos que esse regresso tem tudo para dar errado. E dá. Pois não tarda para que os fantasmas do passado retornem com toda força, ora por vontade dos familiares (Rachel consegue ser uma vaca e uma irmã carinhosa quase que ao mesmo tempo, graças à ótima atuação de Rosemarie DeWitt) e ora por vontade da própria protagonista. E essa é uma questão interessante, pois embora não perceba e até tente evitar, Kim realmente se acha protagonista de todas as situações. Para ela, sua doença e o sentimento de culpa que carrega é o centro de todas as dores, os sentimentos dos outros apenas orbitam ao seu redor, o que fica evidente no discurso constrangedor à mesa do jantar.

 

 

Em determinados momentos, os preparativos para festa de casamento (que não é nada convencional, pois tem até mulatas seminuas sambando e defendendo as cores da Mangueira!?) e as dezenas de pessoas que circulam pela casa naquele final de semana acabam por relegar Kim ao papel de mera coadjuvante – e vale lembrar que ela não aparece nem no título filme - o que faz impulsionar a desenvolvimento dos outros membros da família, principalmente dos pais, fazendo-nos perceber que a dor que eles carregam também é grande, principalmente pelo paradoxo que se estabelece na relação entre perdão e a impossibilidade de reparação. E isso é um grande mérito do diretor, que, como bem lembrou Pablo Villaça, não perde tempo discutindo irrelevantes questões raciais (o noivo é negro) e parte para aquilo que de fato importa: as complexidades psicológicas dos personagens.

O filme foge do óbvio já no início quando Kim é apresentada a um dos padrinhos, um ex-viciado. A troca de olhares entre os dois sugere que um par romântico está para se formar e que ao longo da história vamos acompanhar a lenta aproximação do casal problemático. Que nada, já na cena seguinte os dois estão transando em pé na garagem num momento de puro sexo casual, que não mudará em nada a vida de nenhum dos dois. Outro bom momento é a cena da brincadeira com a máquina de lavar pratos, que segue num fluxo intenso para então nos surpreender com um arremate de profunda tristeza (embora o diretor tenha errado ao mostrar aquilo que já era óbvio).

O casamento de Rachel não é uma obra-prima, mas é o tipo de filme que possui personagens tão críveis, que mesmo depois que ele acaba você ainda fica pensado “será que eles vão ficar bem?”. E isso é um mérito e tanto.

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h52
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CABE EM PALAVRA?

 

 

cabe em palavra

 

tudo que é resto?

 

 

assim despida da dor,

 

pouco sobra da despedida

 

 

o trânsito que me sorteia

 

e logo me perde.

 

 

olho para trás indoemboramente e

 

na calçada, você está e não está

 

(olhar que teima em ser riacho)

 

seu reflexo camaleão

 

ora num ônibus, ora num carro

 

troca de textura,

 

mas não sai do lugar

 

até que a lonjura afunila

 

a vista, reduzindo tudo

                                                                                                           

a um pequeno ponto

 

que já não sei

 

se é farsa da memória

 

ou mera ficção

 

 

tateio nosso fim e

 

tropeço em meios gestos

 

 

(carinhos, descaminhos?).

 

palavras infeccionadas

 

que mal dão conta

 

de dizer toda a tristeza

 

desses nossos restos



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h51
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NÃO ERA UM FERRORAMA

 

De volta para casa, derreto no banco do ônibus lotado enquanto tento dar movimento e sabor às palavras de um romance do século XIX. Não funciona. A senhora logo atrás de mim reclama da dor nas articulações. O sujeito ao meu lado lamenta a falta de reconhecimento no trabalho. O motor esbraveja, o ar que entra é insuficiente, todos falam ao mesmo tempo e ninguém ouve ninguém.

O livro à mão era a minha fuga, mas parece que as sirenes da prisão foram ligadas e alguém grita ao megafone: como ousa tentar fugir assim da vida real? Há o fone de ouvido, mas, assim como no clichê dos filmes, no momento de maior perigo a bateria do celular acaba.

Resta a janela. E o olhar que pousa no lado de fora também carrega meu espírito para lá.

Tal como um respingo na tela do pintor, surge na estrada uma imagem que não fazia parte da paisagem original: um carro parado no viaduto, o sinal de alerta ligado. Um palavrão vem à boca antes mesmo de passar pelo cérebro, mas eis que surge outro respingo que cala meus lábios: mais adiante, talvez no meio da ponte de concreto, um homem segura uma criança no colo.

O ônibus desvia do carro ao mesmo tempo em que buzina. Não xinga, não briga nem nada, o motorista já calejado de erro dos outros. Mas o homem não está pretendendo jogar a criança de lá como teria antecipado um jornaleco sensacionalista.

Na verdade, ele apenas aponta o dedo para frente – e o olhar curioso do menino imita o detalhe do gesto feito pincel - até alcançar um trem que passa apitando lá embaixo. Por alguns segundos minha mente é invadida por memórias que nunca aconteceram, lembranças de uma infância que não existiu. A boca salivando, inundada por um gosto bom de faz-de-conta. Senti o cheiro de livro novo, de literatura que subitamente se atreve a bailar fora das páginas. 

O trânsito segue, o ar se torna mais respirável e os dois ficam para trás sem saberem-se ficção. O filho está sorrindo. Ou talvez não. É provável que eu tenha apenas inventado esse sorriso que não está nele, mas sim em mim e ele agora me escapa toda vez que relembro a imagem do pai que parou abruptamente o carro no meio do viaduto para poder mostrar ao filho um trem que não era um Ferrorama, nem uma ilustração de livro e nem desenho animado. Aquele era um trem de verdade.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h56
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Cinema: Anticristo

ANTICRISTO

 

Não se preocupe. Esse não é um filme sobre o capeta ou sobre o Marilyn Manson. Não há rituais satânicos nem crianças vomitando coisas verdes na cara das pessoas. O anticristo aqui é o sexo, ou melhor, o sentimento de culpa decorrente de nosso impulso animal.

Las Von Trier não é um diretor que aposta no convencional (quem já assistiu ao teatro-filme genial Dogville sabe disso). Seu objetivo é fazer as pessoas refletirem sobre a condição humana, sempre de um ponto de vista bastante realista (ou pessimista), além disso, também fica muito clara a intenção de chocar a platéia e causar desconforto. Com Anticristo, ele alcança mais o segundo objetivo do que o primeiro. Afinal, cenas de sexo explícito, de animais abortados e de mutilação vaginal não são coisas a que você assiste todo dia não é? (não é ??).

A história é a seguinte: uma criança morre no exato momento em que os pais estão fazendo sexo. A esposa carrega consigo um enorme sentimento de culpa, um luto que não se dissipa. O marido, psicanalista, resolve levá-la para a floresta do Éden (sim, a referência é explícita) para tentar uma nova forma de tratamento. Isolados num lugar que os remete a lembranças marcantes, os dois acabam tendo que enfrentar os seus demônios (não, não são esses de chifres que você está imaginando), num elaborado suspense psicológico com pitadas de Jogos Mortais.

 

 

O ponto negativo fica por conta do desenvolvimento arrastado entre a morte da criança e ida do casal à floresta e também pelo choro com pinta de dilúvio da protagonista (que ganhou prêmio de melhor atriz em Cannes), pois é extremamente repetitivo.

Por outro lado, o início com fotografia em preto e branco é de uma beleza e de uma delicadeza raras no cinema atual (e olha que essa é uma das cenas de sexo explícito). Anticristo é um filme que incomoda, ou seja, é uma obra que não possibilita indiferença ou apatia. Desta forma, se esse não é um trabalho genial, pelo menos tem o mérito de provocar reações, sejam elas boas ou ruins.

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h03
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Crônica: A Malvada Vox Populi

A MALVADA VOX POPULI

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Entre o tumulto de revistas apinhadas na prateleira da banquinha de revistas, uma se destaca. Ela traz na capa a curiosa manchete: “Público pede a morte de Helena”. Não sei o nome da publicação, mas é dessas que funcionam como uma espécie de horóscopo de novelas, que anteveem o futuro dos mocinhos e das mocinhas dos folhetins.

A tal Helena não é a de Tróia (que me desculpe o novo acordo ortográfico, mas Tróia sem acento fica muito feia) e sim a heroína da novela de Manoel Carlos, interpretada pela bela Taís Araújo. Não tenho assistido (ou seria “acompanhado”?) “Viver a vida”, por falta de tempo e principalmente porque essa high society carioca do Maneco pouco me inspira curiosidade. Mas acho interessante o fato do público querer matar a pobre (opa, ela é rica né?) personagem. Quando vi a revista logo me veio à mente a cena de algum filme bíblico, as pessoas reunidas gritando o imperativo pouco natural para um povo iletrado: “Cricifica-o, crucifica-o!” (até hoje tenho medo dessa gente).

Essa ilusão de poder divino é um efeito fascinante que a ficção proporciona. A já batida comparação de que o escritor é o Deus da história que está escrevendo (podendo até criar terremotos, tsunamis e doenças medonhas para matar seus personagens inocentes quando bem entender) perde um pouco da sua força quando se trata de uma novela.

O novelista é um Deus assalariado que não manda na sua própria história, pois tem sempre que estar atento a um poder ainda mais elevado: o ibope. É como se O Todo Poderoso tivesse que dar continuidade a sua obra conforme análise de um indicador de popularidade ou de satisfação do cliente. Nesse caso, não dá pra dizer que “a voz do povo é a voz de Deus”, principalmente se verificarmos que, se o público quer que uma personagem morra, então podemos afirma que provavelmente ele (o povo) pertence a outro plano, que não é lá muito divino.

O fato é que as pessoas gostam dessa ilusão de poder, caso contrário os Reality Shows não fariam tanto sucesso. Deixamos aflorar o psicopata sanguinário que existe dentro de nós, quando sabemos que podemos eliminar alguém da “nossa vida” com uma simples ligação a 30 centavos o minuto. Afinal, o verbo “eliminar” carrega consigo uma carga de poder muito tentadora.

Estamos lá sentados no alto do nosso trono/sofá e não achamos graça nas estripulias do bobo-da-corte/Protagonista da novela. Para evitar o enfado, ordenamos então que eles sejam guilhotinados (não sem antes bocejar um pouquinho). E logo depois mandamos entrar o próximo. Afinal, controle remoto e lâminas afiadas servem para essas coisas.           



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h39
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Cinema: Bastardos Inglórios

TARANTINO, UM CARA "SANGUE NO ZÓIO"!

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Quentin Tarantino é o nerd ex-atendente de locadora mais querido e odiado pelos cinéfilos de todo o mundo. Faça o teste: Assista Kill Bill vol. 1 ou Cães de Aluguel, se você não gostar (talvez até odeie), então não adianta nem tentar ver os outros trabalhos do cara, inclusive esse último. Contudo se, assim como eu, você ficar completamente fascinado por esse alucinado mundo de violência e referências pops, então seja bem vindo ao clube e prepara-se para mais uma obra inesquecível.

Bastardos Inglórios é sobre um grupo de soldados americanos (sim, para variar eles acham que podem resolver tudo) que caçam nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Há também as histórias de uma judia que sobrevive a uma chacina e de um pequeno cinema que receberá a o lançamento de um filme sobre os grandes feitos da raça ariana. E tudo isso convergirá para um apoteótico encontro ao final da projeção.

 

 

Embora consiga criar imagens memoráveis (a dança estilosa ou o “tiro acidental” de Pulp Fiction, a tortura em Cães de aluguel, o “sexo rápido” em Jackie Brow, a luta dentro do trailer em Kill Bill vol. 2, entre tantas outras), Tarantino é um cineasta que privilegia o verbo e está na construção poderosa dos diálogos, que transitam facilmente entre o genial e o banal, grande parte do seu imenso talento. Curiosamente é justo esse ponto que desagrada seus desafetos.

Privilegiar a palavra pode soar ruim para aqueles que entendem o cinema como uma arte apenas visual. Grande parte dos críticos de Tarantino ataca exatamente esse ponto, para eles os diálogos “tarantinescos” são muito extensos ou desnecessários. Pura bobagem. Como o próprio diretor já disse, a ideia é se divertir e recriar a realidade. E nessa realidade os gângsters não ficam o tempo todo falando sobre a vida de gângsters, os bandidos não falam só sobre assaltos como se tivessem que seguir um script para entreter alguém que os assiste, pois obviamente eles não sabem que estão num filme, então, assim como todos nós, ele conversam sobre outras coisas da vida, banalidades principalmente.

  Esses diálogos seriam desnecessários se fossem meras redundâncias daquilo que já estamos vendo (ok, em Bastardos Inglórios, isso ocorre numa cena envolvendo Hitler. Mas é um deslize isolado). Não dá para questionar, por exemplo, o virtuosismo da primeira cena do filme, quando somos apresentados ao coronel Hans Landa (também me rendo, ele sem dúvidas é o melhor personagem do filme), num longo diálogo que eleva a tensão e o cinismo ao limite do (in)suportável. Não entendo de movimentação de câmera, mas creio que Tarantino foi muito feliz ao explorar lentamente o ambiente da cozinha e também as expressões de cada personagem, para só depois, num belo traveling, mostrar o segredo que o dono da casa escondia.

 

 

Bastardos Inglórios é um filme de guerra, mas não se comporta como tal (pelo menos não como muitos dos grandes exemplos desse gênero), não há, por exemplo, nenhuma grande cena de batalha como os inesquecíveis primeiros minutos de Resgate do Soldado Ryan, ou aquelas correrias de multidões “frente a frente” que vemos em Senhor dos Anéis ou Coração Valente. Nesse sentido, Bastardos pode decepcionar os mais aficionados por ação. 

Ou não. Em se tratando de um filme do Tarantino, sabemos que não pode faltar violência. Ela não está presente o tempo todo, mas quando surge, merece o prefixo “ultra”. Basta citar que um dos caçadores de nazista é especialista em destruir crânios utilizando um taco de basebol. Isso sem falar na regra do grupo de que todo nazista morto deve ser escalpelado (e o cineasta não costuma virar a câmera para o lado nesses momentos).

Esse é o filme mais engraçado de Tarantino (a cena dos três “italianos” é impagável), e isso ocorre, pois o cineasta sabe muito bem como explorar uma boa caricatura (o Hitler nem tanto, pois ficou histérico demais, mas o personagem do Brad Pitt, com aquele sotaque hilário, ficou ótimo). A opção por esculhambar com os fatos históricos também se mostrou certeira, afinal, tanto já foi dito sobre o tema, estava na hora de alguém inovar.

Há quem não goste desse cinema sanguinário e verborrágico, cheio de referências a outros filmes. Por outro lado, há também muita gente que adora e que espera ansiosamente por mais um trabalho do diretor. A esses últimos eu recomendo: corra logo para o cinema!

Nota: 9,5 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h24
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Cinema: Amantes

AMANTES

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“Dilacerante”, talvez seja essa palavra que melhor exprima a experiência de assistir “Amantes”, excelente filme do diretor James Gray (Os donos da Noite). Esse não é um melodrama que te faz chorar o tempo todo, tampouco é um romance para ver com a namorada. “Amantes” está mais para um estudo de caso a respeito do amor, do ponto de vista de que ele é uma espécie de ácido corrosivo, que se alimenta da superfície da matéria, consome todo o interior e depois desaparece deixando apenas um buraco, um espaço vazio que não pode mais ser preenchido.

Joaquin Phoenix (Sinais, Johnny e June) entrega aqui a melhor atuação da sua carreira (e talvez última, já que parece que ele pirou o cabeção, largou a carreira e se transformou num rapper com cara de Charles Bukowski?!). A primeira cena do ator é emblemática: num dia frio ele caminha todo desengonçado por uma ponte carregando algumas roupas em cabides. Ele larga tudo no chão e sem mais nem menos salta num lago gelado. Trata-se de mais uma de suas tentativas de suicídio.

Desde que a noiva o deixou ele não consegue mais fazer a sua vida funcionar. Para ele, submergir não significa salvar-se, assim como o suicídio não necessariamente significa um ato de covardia. O que ele quer com tudo isso não é acabar com a própria vida meramente, mas sim começar uma nova, do zero, uma vida que seja minimamente suportável (e o silêncio do fundo lago é uma metáfora importante nesse sentido). 

Ele acaba então voltando para a casa dos pais, para que não “cometa mais bobagens”. A família tenta apontar um novo caminho, aquele que julgam mais seguro para ele: casar com a filha (Vinessa Shaw) de um futuro sócio do ramo de tinturaria. Ela é bonita, inteligente e tão tímida quanto ele. Mas a vida dá um jeito de lhe apresentar um outro caminho, aparentemente mais interessante e, por isso mesmo, tortuoso: a bela vizinha (Gwyneth Platrow) do apartamento em frente ao seu. Ela é linda, desinibida e representa um mundo novo a ser explorado.

Sem truques mirabolantes, o diretor consegue traçar um panorama bastante sóbrio das relações amorosas, polarizando o típico conflito “vida segura e infeliz”  Vs “vida imprevisível, promessa de paixão sem fim” e o triste resultado de nossas escolhas (tal como um Woody Allen faria, só que aqui não achamos graça de nada).

 O caminhar dos personagens que colidem e se arrastam rumo ao abismo (seres que se humilham e usam uns aos outros para obterem uma migalha de atenção) e a certeza cristalina de que nada daquilo dará certo para ninguém praticamente nos leva a crer que inexista a possibilidade de uma escolha correta, como se o destino nos dissesse “você tem apenas duas opções: o caminho errado ou o caminho errado. Qual você vai querer?”. A mãe do personagem (ótima!) sugere uma resposta “Não importa, só queremos que você seja feliz”. E “ser feliz”, nesse contexto, pode ser uma das coisas mais tristes do mundo.

Com uma das cenas finais mais marcantes dos últimos anos, Amantes merece ser visto e revisto. Obra-prima dilacerante.

 

Nota: 10,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h25
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Crônica: Pelo direito de não ter que aproveitar cada minuto da minha vida

PELO DIRETO DE NÃO TER QUE APROVEITAR CADA MINUTO DA MINHA VIDA

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Salvador Dali

 

 

            Curioso como alguns minutos sem nada para fazer podem nos deixar profundamente angustiados. Basta surgir pela frente uma fila inesperada ou retirar uma senha numa recepção qualquer para despertar o relógio interno do desespero: “Que diacho de tempo que não passa!”.

            A obrigação de ter que passar um tempo consigo mesmo faz com que você utilize alguns subterfúgios para enganar o cronômetro emperrado. Há muitos que optam por contar o número de cadeiras ou lajotas do lugar. Esse recurso é amplo em variações, uma vez que podemos contar apenas a lajotas pretas e depois as brancas, e ainda, já que o objetivo é perder tempo, ao final não é necessário somar os dois resultados, basta recontar tudo, só que sem preconceito de cor (e repetir essa ação de trás para frente fará com você ganhe (perca?) mais alguns segundos de sanidade).

            Os que gostam de ler normalmente sentem-se privilegiados nessas ocasiões, já que alguns minutos de sobra equivalem a uma longa viagem para um país ou mundo distante. Contudo, são eles, esses leitores que se acham espertos, os que mais sofrem quando são pegos de surpresa. O médico atrasou, a ônibus quebrou e o livro-de-bolso não está no bolso! E pior, não há nenhuma revista disponível, nem mesmo aquela falando que o ator que você não conhece casou com a filha do empresário que você também não conhece numa praia que você nem sabia que existia. Pronto, começa o desespero de ler toda e qualquer coisa que aparece pela frente: a tabela valores nutricionais das embalagens de comida, instruções de lavagem na etiqueta da roupa, contratos de banco, letras miúdas dos contratos de banco, cartazes, capa do livro dos outros, etiqueta de extintor, adesivos, pixações, etc. Tudo para não ficar ali, sozinho, tendo apenas a sua mente como companhia.

            Reclamamos muito da falta de tempo, mas quando ele surge à nossa frente feito abismo, tratamos de tapá-lo com livros, dvds e fones de ouvido, pois nesse estilo de vida moderna uma das únicas formas de suportar o avanço dele é não nos darmos conta da sua presença.

Ao final de um expediente cheio de trabalho o sujeito fica contente porque o dia passou e ele nem viu, e já está na hora de ir embora! Quando nos divertimos com os amigos, “as horas passam voando”. Desta forma, não perceber o tempo passar talvez seja uma coisa boa (o insone que vara a madrugada contando cada segundo que (não) passa que o diga).

Mas os manuais de autoajuda defendem que devemos aproveitar cada minuto da vida como se fosse o último (já percebeu que esses caras estão sempre querendo mandar em nós? Aliás, desafio um escritor desse gênero a escrever um livro inteirinho sem utilizar verbos no imperativo). Ora, quero defender o meu direito de não ter que aproveitar cada minuto da minha vida! Ainda mais se alguns deles forem insuportáveis.

A “vida é curta e temos que aproveitá-la”, ditam esses “sábios”, colocando-nos nesse plural sem aviso prévio. E eu fico aqui pensando, será que teríamos saco para fazer esse “jogo do contente” o tempo todo? Será que a pessoa que tem uma dívida enorme e que perde o sono por conta disso, quer mesmo aproveitar cada minuto dessa preocupação? Será que alguém que acabou de perder uma pessoa querida quer viver cada segundo dessa dor? O sujeito que trabalha em péssimas condições e sente-se humilhado todos os dias quando acorda, quer mesmo aproveitar cada minuto de sua miséria?

            Isso me leva a crer que o cara que inventou o tal do carpe diem era o homem mais feliz do mundo (e que nunca teve que aguardar senha), mas isso resulta num paradoxo: se ele era feliz o tempo todo, provavelmente não se dava conta do tempo passando, se ele não percebia o tempo passando como poderia afirmar que aproveitava cada minuto como se fosse o último? Ele nunca desejou que aqueles minutos mais chatinhos passassem depressa? E se ele morresse exatamente num minuto chato, sei lá, no meio de uma propaganda das Casas Bahia, por exemplo? Sei não, acho que ele iria rever os próprios conceitos.

Afinal a consciência de que há um “último minuto” já implica em uma preocupação, uma reflexão, e esse exercício mental anularia qualquer chance de se “aproveitar” a vida simplesmente, como se o mundo fosse um parque de diversões sem fim.

Somos os únicos seres que têm a consciência da própria finitude, e é isso que nos torna diferentes de um ornitorrinco por exemplo. Negar essa consciência e fingir que tudo é maravilhoso pode até ser uma ferramenta bacana para se viver “melhor”, de maneira mais positiva e distante dos “pessimistas” (um mundo sem Woody Allen, Irmãos Dardenne, Dostoievski, Zola, Machado de Assis, etc), mas tendo em vista a ingenuidade desse ponto de vista, não consigo evitar o pensamento de que isso não passa de uma forma de autismo, e que ele dura apenas até a primeira queda no abismo do tempo e da vida real.

            Se você parar para pensar o minuto em sua totalidade, absorvê-lo, refleti-lo, você enlouquecerá antes dos trinta segundos. E o tempo está também presente aqui enquanto você disfarça-o lendo esse texto e só é possível suportá-lo (o tempo, não o texto!) porque não o percebemos. E não é a ilusão de que podemos mensurá-lo utilizando um relógio que me convencerá do contrário. Quem aguarda a sua vez numa fila de hospital sabe muito bem do que estou falando.          



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h52
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Minicontos - Parte III

Minicontos - Parte III

 

As dobras do lençol formam um mapa da sua presença. Escuto o barulho na cozinha. Cheiro de café. Como é bom estar vivo e ter você por perto.

 

O lago descansa, a superfície lisa absorve a folha caída, o singrado do pato. Tudo uma coisa só. Pássaros se agitam: Alguém jogou uma pedra.

 

Sem perceber, ela fez a mesma piada de quando nos conhecemos. Ri, mas só para não desconsertá-la. Senti um gosto de leite coalhado na boca.

 

Contou que estava doente, o pai disse é frescura. O porteiro do prédio ouviu o barulho lá atrás, na hora pensou que um cachorro tinha caído.  

 

O semáforo abriu. O menininho não viu. O motorista não viu. Deus não viu.

 

Lamentou a monotonia da vida, dias amontoados. Nada de novo e tudo sem sentido. Perguntaram-lhe: qual o gosto da água? Ele não soube definir.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h28
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Cinema: Up - Altas Aventuras

A PIXAR CONSEGUIU (MAIS UMA VEZ...)

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Quando assisti ao drama “Longe Dela”, saí do cinema ainda chorando, comovido com a história de amor que se desfaz em virtude do mal de Alzheimer. Após assistir recentemente “O visitante”, também saí com os olhos vermelhos e um nó na garganta, em virtude da história de um homem que tenta superar a morte da esposa. 

Até aí tudo bem, são dois dramas feitos exatamente para isso, emocionar. E além do mais eu sou meio chorão mesmo. O problema é que quando fui assistir “Up – Altas Aventuras”, o desenho ainda não tinha nem começado e eu já estava com os olhos marejados! A sala cheia de crianças rindo e eu lá, constrangido, tentando me esconder atrás dos óculos 3D (Depois fiquei sabendo que outras pessoas também passaram pelo mesmo “apuro” e fiquei mais tranqüilo).

 

 

Elogiar o trabalho genial da Pixar já virou lugar-comum, pois um estúdio que nos presenteou com desenhos como “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Ratatouille” e “Wall-E”, já não precisam provar nada a ninguém. E o bacana é que mesmo assim os caras conseguem se superar a cada ano.

Não sei qual é a fórmula para tanto sucesso (de crítica e de público, coisa rara), mas o documentário “The Pixar Storydá uma dica: o foco principal do estúdio não é a tecnologia e sim a história, ou seja, eles gastam muito mais tempo elaborando o roteiro do que desenvolvendo efeitos especiais. E cá entre nós que, por mais simples que seja, uma história bem contada vale muito mais do que qualquer milhão de dólares explodindo numa cena de pirotecnia vazia de significado e de sentimento (os fãs do Transformes 2 e do Exterminador 4 que me desculpem).

A Pixar encanta porque se preocupa com os detalhes, como os olhos meigos do Wall.E, por exemplo. E são esses detalhes que já podemos verificar no curta de animação que antecede a projeção de Up, “Parcialmente Nublado”, que fala sobre a relação de amizade/cumplicidade entre uma cegonha e uma nuvem. Os movimentos desengonçados da cegonha e os traços tristes da nuvem, só fazem aumentar a ternura dos personagens e o arrebatamento quando chegamos ao “final surpreendente” da história.

Enfim, o objetivo desse post era falar sobre o Up...

 

 

Quem já assistiu ao ótimo desenho japonês “O Castelo Animado”, do mestre Hayao Miyazaki, sabe bem onde os roteiristas da Pixar foram buscar inspiração. Nos dois casos temos o deslocamento literal (e surreal) de estruturas, de edificações, que no limitado “mundo real” permaneceriam fixadas ao solo.  No desenho oriental um castelo enorme anda de um lado para outro. Em Up, um velhinho triste utiliza balões para suspender a sua casa e levá-la para América do Sul.

Alguns cineastas defendem que os 15 primeiros minutos são cruciais para determinar se o filme é bom ou não. Se isso é verdade, dá pra dizer que Up se enquadra no primeiro grupo, e com louvor, pois as cenas em que acompanhamos a composição do personagem do velhinho (em boa dublagem do Chico Anísio) são simplesmente perfeitas. Em apenas alguns minutos, ficamos sabendo de forma bastante emocionante (aquele balão no quarto do hospital é de cortar o coração) por que o personagem exibe aquela cara quadrada de quem não está satisfeito com a vida.

 

 

Os outros personagens também merecem destaque. O cão, com aquela personalidade própria da espécie, algo do tipo “sou bobo, mas sou leal”. O menininho escoteiro, com trejeitos engraçados, mas que guarda uma profunda tristeza, devido sua relação de poucas palavras com o pai. Aliás, a história desse garotinho - por mais previsível e melodramática que seja - foi um dos pontos que mais me tocou, pois o que emociona mais, além da identificação pessoal (óbvio), são os pequenos detalhes (eles novamente) como a lembrança dos tempos em que ele tomava sorvete sentado na calçada.

Ao término da projeção fica aquela dúvida que os filmes da Pixar sempre deixam no ar: é um filme para crianças, mas que os adultos acabam gostando, ou é um filme para adultos que também agrada às crianças? Seja lá qual for a resposta, é sempre bom saber que a cada novo ano contaremos com uma obra belíssima que nos fará rir muito (e chorar mais ainda).

 

Nota: 9,5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h55
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Crônica: O chuveiro Yin Yang

O CHUVEIRO YIN E YANG

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Acho que o chuveiro quis me dizer alguma coisa ontem. Após um dia interminável de trabalho, ansiei por um momento de paz, com água corrente deslizando pelo meu rosto e levando para o ralo todo o cansaço de mais um dia com gosto de repetido.

Dizem que um bom banho nos renova, nos purifica, nos deixa “prontos para outra”. Concordo em partes, literalmente em partes. É que meu chuveiro, um tanto quanto temperamental, resolveu esquentar só de um lado. Algum problema na tal da resistência, fenômeno da natureza ou alguma piadinha divina, tanto faz, fato é que metade da água sai quente e a outra metade sai fria. E quem é do sul sabe o que eu quero dizer com a palavra “fria”.

Portanto, devido a esse problema de ordem hídrica, tenho andado com dificuldades de definir uma especificidade para o meu humor. É como se o chuveiro quisesse me dizer “Seu dia amanhã será ótimo, mas também será péssimo”. Difícil conviver com isso, pois é como se eu fosse obrigado a torcer e para o Palmeiras e para o Corinthians ao mesmo tempo, ou tivesse que gostar de Lost e da Hannah Montana, ou pior, ter que assistir a uma mesa redonda com o Garcia Márquez e o Paulo Coelho (e ainda só conseguir  me sentar perto do mago-da-propagando-de-carro).

Ok, dizer que essa “dicotomia moral” forçada por um chuveiro pode gerar uma espécie de bipolaridade em mim seria reduzir a complexidade da doença. Acho que basta tomar banho de lado e fazer a escolha do estado de espírito que desejo para aquele dia. E quando eu quiser parecer um pouco mais eclético, fico no meio e pronto. Isso faria de mim uma pessoa razoavelmente estável psicologicamente falando. Isso se o chuveiro não resolver voltar ao normal logo após eu me adaptar a essa nova rotina, sei lá, vai que ele se cansa de brincar de yin e yang.

O que me preocupa é que um objeto (aparentemente) inanimado está se intrometendo na minha vida (já não bastam a televisão e o computador?). Acho bacana que o caráter humano seja ambíguo, mas aí meu chuveiro querer ostentar personalidade também já é palhaçada.  



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h25
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"DEVANEIOS DO COTIDIANO" ENTRE OS MAIS LEGAIS DO UOL

   O blog "Devaneios do Cotidiano" foi selecionado como o "Mais Legal" dessa semana no site Uol

 (http://blog.uol.com.br/)

 UOL

  Muito obrigado a todos os leitores que por aqui passaram.

Se você quiser receber aviso de atualização deste blog, mande e-mail para eder_ceima@yahoo.com.br, ou acesse www.twitter.com/ederalex

(E antes que alguém faça piada eu já aviso: sim, eu vi que o link do meu blog ficou ao lado da foto de uma ex-bbb. Afinal, nem tudo é perfeito nessa vida. **Pelo menos fiquei na frente do blog da apresentadora Eliana "Dedinhos" Popstar) 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h17
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Conto: Queda Livre

QUEDA LIVRE

Conto: Eder Alex

Fotos: Nelson Lorenski

 

A fumaça ardeu-lhe os olhos e com a mão fez um gesto inútil tentando limpar o ar. Gostaria de poder pará-lo no tempo, uma caixa imaginária de ar puro. De longe, prédios e janelas proliferavam sem fim e a ponta acesa do seu cigarro parecia acenar num pedido de ajuda ou de resistência, um código luminoso que não obteve eco em resposta. Limpou a garganta e cuspiu. Doze andares, o catarro se desmancharia no ar antes de tocar o chão? Pensou, com nojo da palavra e não do fluído.

Tragou o cigarro mais uma vez e tentou sentir o gosto de Deus. Segurou o máximo que pode, mas a fumaça escapou-lhe pelo nariz e ela então teve um terrível acesso de tosse. Tossiu tanto que não estranharia uma bola de sangue brilhando no tapete. Ok, agora não posso nem mais fumar. O filho da puta do pulmão tem que ficar me avisando que existe? A julgar pelas dores espalhadas pelo corpo, ela estava quase certa de que fora atropelada e que quebrara uma ou duas costelas na bebedeira da noite anterior.

Escombros do churrasco com as amigas da faculdade. Começou tomando caipirinha, mas logo um copo de vinho estava em sua mão e depois um de tequila e depois um de pinga e depois um abacaxi com vodca e leite condensado e depois o mundo se liquefez num day after embaçado, todo pontilhado. Pelo menos não dei pra ninguém, isso já é uma evolução.

 Acordou cinco horas da tarde, virou num gole o resto de Coca que achou na geladeira e tentou requentar uma lasanha de micro-ondas, mas o queijo borbulhando revirou-lhe o estômago. Foi ao vaso sanitário, percebeu que não dera descarga da última vez, o cheiro azedo que subiu a faria vomitar tudo que tinha comido, mas nada regurgitou além do refrigerante preto. Dormiu no piso gelado do banheiro, abraçada ao vaso. Quando acordou novamente, a novela das oito já tinha acabado. Marcas de azulejos nas coxas nuas.

 

 

À janela do apartamento, derramou seu olhar por sobre a muralha de olhos acesos que ficavam caolhos à medida que os condôminos se preparavam para dormir.  Lá em baixo, a calçada e a terrível sensação de um passo adiante, sem direito à fraqueza do arrependimento. Sentiu um frio subindo pelo ventre, ela não era um desenho animado.

Acendeu outro cigarro e tentou pensar em algum significado para a sua vida, já que Deus evaporara pelo nariz na tentativa anterior. O amor estava fora de cogitação, não suportaria sentir o seu corpo se decompondo ao lado de outra pessoa. Seu namorado anterior brutalizou tanto a relação, que a impregnou de repulsa. Desde então, tal como uma puta, ou o ideal que ela fazia de uma puta, ausentava-se do próprio corpo e o entregava como quem atira uma esmola para o mendigo de boca apodrecida. Ironicamente passou a empregar o verbo “dar”, que tanto repudiava. Mas agora ele fazia sentido. Ela dava. Dava sua carne a qualquer um para esquecer um pouco de si e alimentar a miséria no outro, era essa a sua contribuição para a desordem da vida. E não que o nojo dessa entrega fosse mais suportável que ausência de respostas. Ela apenas desejava o abismo, desde que lá houvesse silêncio.

Mastigou o filtro amarelo e pensou em algum tipo de esperança cinzenta, com ratos andando em torno. Quem sabe arranjar uma verdadeira paixão ou responder ao olhar malicioso do pai. Poderia escrever um livro intelectual aclamado por críticos e empacado nas prateleiras. Poderia escrever um sucesso popular como ghost writer de um grande nome da literatura que estivesse em crise criativa ou que estivesse muito ocupado com palestras. Era jovem e ainda haveria tempo para essas coisas. Mas conseguia sentir o tempo fazendo o seu barulho ameaçador, arrastando suas correntes de fantasma e devorando cada minuto que lhe escapava pelos poros e células mortas. Sua maquiagem pesada tinha um quê de ressentimento com o mundo e sua lógica distraída.

Quem sabe uma cerveja para limpar o estômago? A imagem do líquido dourado girou no seu estômago e subiu ardendo pela garganta, pensou em correr para o banheiro, mas já não se lembrava se dera descarga na última vez. Respirou fundo e engoliu saliva. Calma, calma. Não adiantou. O jorro de vômito escapou-lhe por entre dentes e dedos, respingando o chão da sala, o sofá e a mesinha de centro. Dessa vez não fora só Coca. Pelo menos sentiu-se melhor, aliviada até. Era como se tivesse acabado de passar por uma lavagem estomacal divina, feita pelo próprio Cristo.

Nunca mais vou beber! Nunca mais vou beber! Repetiu o mantra que aprendeu após o primeiro porre aos 13 anos. O Álcool estava dilacerando sua memória e sua concentração. Quando conseguiu o emprego de revisora de textos, ficou contente por poder corrigir os erros dos outros. Gostava da palavra “corrigir”. Contudo não imaginava que teria que evitar ser ela mesma (dizia que sua essência estava no excesso) para conseguir um pouco de dinheiro.

Por alguns instantes ficou a observar as próprias mãos, as linhas pareciam trocar de lugar. Talvez ela estive entrando em estado de decomposição, mas com isso era possível, se estava só? Mas até que isso não seria um problema, disse para si e sorriu pela metade. Usava esse tipo de ironia com os outros e consigo mesma para ver se alguém sentia pena. Ela sentia, mas era difícil admitir.

Soluçou e um gosto azedo se acomodou debaixo da língua. O estômago ainda estava dolorido do último vômito. Mas não adiantava. Colocar apenas a sua miséria fisiológica para fora não daria um jeito em sua vida.  Nesse sentido, arrependera-se há muito, por ter lido Freud e Dostoievski. Será que esse horror à existência sai com Omo Dupla-Ação? Olhou para a mancha escura no chão. Era bastante possível que aquela nojeira toda interessasse a algum escritor contemporâneo dado a descrições grotescas, riu imaginando-se personagem. A ela não, que preferia organizar as palavras de forma sutil e poética, anacrônica talvez, mas que reservava um pouco de charme. Afinal, como descreveria o próprio vomito de maneira sutil? E na falta de um estilo próprio, a sedução e esse charme talvez lhe fossem úteis como arma. Mas contra quem lutava? Indefinições espocando no céu.

Sentiu-se infeliz. E a pena que sentia por si mesma ameaçava sufocar-lhe a garganta. A mancha de vômito já estava secando. Refletiu um pouco, e concluiu que as excreções ou regurgitações não arrastaram consigo o pior que havia dentro dela, pois o que existia de ruim estava sob a pele, atrás dos olhos, nos nós dos dedos, na língua, no sexo, no couro cabeludo, na carcaça do espírito.

Ela dominava aquilo tudo que era ruim, potencializava os próprios erros e os dos outros. Corrigia. Possuía um talento excepcional para a derrota. Sentia enorme prazer nesta constatação, mas ocultava de si mesma essa satisfação, com medo que alguém percebesse e anulasse aquilo que ela acreditava ingenuamente ser uma singularidade e não uma fraqueza.

Voltou à janela. Os prédios dormiam, mas vários olhos ainda estavam acesos: algumas crianças tiveram pesadelos naquela noite. Será que os adultos também acendem a luz quando estão com medo ou ocorre o contrário? De qualquer forma, naquele momento ela estava dentro de um desses olhos. À distância, apenas mais um pontinho indefinido. Tem alguém naquela janela? Acho que não, não dá pra ver.

Tentou se lembrar quando foi que comera a última vez e logo teve que afastar a imagem da lasanha borbulhante. Cogitou ir até o posto de gasolina para comprar mais cigarros, mas a infinidade de lances de escada (problemas com o elevador, de novo) dissuadiria até o espírito mais disposto.  A sua indecisão foi atrapalhada por uma súbita vontade de chorar, o nó na garganta não escapara pela janela. Sentiu-se ridícula. Onde já se viu chorar assim sem motivo? Calma, calma. Não adiantou.

Olhou então para baixo. A calçada delirava, distorcida pelo magnetismo. Apoiou então os braços na sacada e inclinou o tronco para frente. Dores pelo corpo todo. Será que também se desmancharia no ar antes de tocar o chão?

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h33
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Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 21h07
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DVD - Menina de Ouro

DVD – MENINA DE OURO (2004)

 

 

Um dos melhores filmes do Clint Eastwood, Menina de Ouro é uma comovente história sobre superação/decadência. Poderia ser visto como uma versão feminina de Rocky, não fosse a boa guinada do roteiro no meio do filme. A composição do personagem Frankie Dunn (Clint), um veterano triste e um tanto rabugento é primorosa (contida, sem os exageros de Gran Torino) e o mesmo podemos dizer dos outros personagens vividos por Hilary Swank (que ganhou o seu segundo Oscar por esse papel) e Morgan Freeman. O mérito do filme é que muito do seu potencial dramático não é explorado de maneira didática ou gratuita. Alguns dramas são apenas sutilmente mencionados: as cartas que voltam para o remetente, a perda da visão de um dos olhos devido uma decisão equivocada, a fé que fraqueja diante das derrotas, o jovem com distúrbio mental que se sente invencível, etc. A primeira metade do filme poderia ser utilizada numa palestra de autoajuda: Dedicação = Sucesso. Mas aí então temos o segundo ato e o conto de fadas dá lugar à vida real: “A vida é dura” = o mundo está pouco preocupado se você se esforça ou não para vencer, afinal ele está bem longe de parecer um lugar “justo”.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
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Cinema: Arraste-me para o inferno

O CRAMUNHÃO RETORNA AO CINEMA EM GRANDE ESTILO

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Tenho um carinho especial pelos filmes de terror, pois foi através deles que acabei “entrando” no mundo do cinema e também no da literatura. Sam Raimi (cineasta que dirige a franquia “Homem-Aranha”) foi um dos responsáveis por despertar esse fascínio em mim, pois sua trilogia “The Evil Dead”,1987 (“A morte do demônio” ou “Uma noite alucinante” I II e III - eu sei, é estranho, dois nomes diferentes para o mesmo filme, mas é que ele foi lançado no Brasil por duas distribuidoras diferentes e elas fizeram uma bagunça danada), foi um marco e ao mesmo tempo uma espécie de “evolução” do quesito “meter medo” no espectador.

Como assim? Afinal, amedrontar a plateia é algo explorado pelo cinema desde sempre, com direito a filmes que superaram o próprio gênero Terror (que muitas vezes é visto injustamente como um gênero “menor”) e que foram alçados a categoria de clássicos universais, como “Nosferatu” (1922), “Noite dos Mortos-Vivos” (1968) ou “O exorcista” (1973). E então, qual o diferencial dos filmes de Sam Raimi? Vários, mas creio que os mais gritantes (além do domínio total que ele possui do formato) são o humor e o excesso de nojeiras que vemos na tela.

 

 

Peter Jackson (diretor da trilogia “Senhor dos Anéis”) antes de se aventurar na terra dos Hobbits fez seu clássico trash “Fome Animal” (1992), talvez um dos filmes mais nojentos de todos os tempos, mas Raimi já há alguns anos brincava com essas gosmas e jorros de sangue (que tal aquela mão decepada que passa a “agir” por conta própria em Uma noite alucinante II? Ou melhor ainda, que tal substituir essa mão por uma moto-serra no III?).

Nos anos 2000 Sam Raimi deu um tempo no terror e resolveu ficar ainda mais milionário com a franquia do herói aracnídeo. Mas agora, quase uma década depois, ele felizmente retorna às origens com o cômico-nojento-horripilante “Arraste-me para o inferno”.

Nesse filme, uma jovem ambiciosa que trabalha num banco recusa ajuda a uma velha (e apavorantemente nojenta) cigana, que se sente humilhada e resolve se vingar com uma maldição: a garota será atormentada pelo capeta durante três longos dias e depois... e depois você já deve imaginar o acontece tendo em vista o título do longa.

 

 

O filme é recheado de sustos (contei pelo menos uns sete), de coisas nojentas que eventualmente vão parar dentro da boca da mocinha, de erros propositais de continuidade (repare na roupa da protagonista nas cenas com gosmas) e de muito bom humor (algumas piadas são claramente inspiradas nos desenhos animados, com direito a bigorna e tudo mais). Tudo isso para criar um clima tenso, de suspense e pavor, e ao mesmo tempo fazer brincadeira com o gênero.

A mosca que pousa na tela é um bom exemplo disso, é como se o diretor nos dissesse “você aí que está com medo! Calma, isso é só ficção”, só pra fazer com que o espectador relaxe e depois leve mais um susto. Isso que é legal no filme, você sabe que vai se assustar, mas não sabe direito como (diferentemente da recente safra de filmes de suspense ou de terror/mutilação).

O cineasta cria climas pouco convencionais nesse tipo de filme, emprestando um ritmo bem peculiar, como ocorre, por exemplo, na cena da luta dentro do carro já no início. Ela é muito mais longa do que estamos acostumados, pois quando achamos que tudo vai terminar num gesto violento, a velha desgraçada levanta e começa tudo novamente, como se o sobrenatural se confundisse com o real. Eliminando, portanto, o corte seco (típico dos filmes de terror, do tipo que no momento de perigo tudo fica escuro e o cara acorda no dia seguinte, tentando se lembrar do que aconteceu) para salvar a pele dos personagens. 

 Sam Raimi não reinventa a roda em “Arraste-me para o inferno”, pelo contrário, o argumento do filme não é original (quem já leu o livro “A maldição” do Stephen King, sabe o que eu estou dizendo), há excesso de efeitos especiais e o final é totalmente previsível (você pode até não saber exatamente o “como”, mas sabe com toda certeza “o que” vai acontecer). Mas mesmo assim, tudo é realizado com tanta maestria, as cenas funcionam com tanta segurança que você percebe que há alguém competente por trás daquele projeto. E como isso faz diferença! Os fãs do de filme de terror certamente não terão do que reclamar, pois os sustos e os risos estão garantidos.

 

 

 Nota: 9,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h43
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Minicontos - Parte II

Minicontos - Parte II

 

 

Originalmente publicados no www.twitter.com/ederalex

 

 

*Depois escondeu comprimidos na gaveta. Depois espalhou o coquetel pela cama. Depois jogou na privada. Depois ligou para a farmácia. Depois*

 

 

*Desligou, pensou em tudo que não disse. Derrotada? Elaborou um discurso melhor e retornou a ligação: ocupado. Depois a ideia fugiu*

 

 

*Parou de correr e se enfiou numa construção abandonada. Mãos tremendo. Pensou no que tinha acabado de fazer: Foda-se, antes ele do que eu*

,

 

*O mendigo esperou os turistas se afastarem da fonte. Desejos brilhantes e naufragados. Mergulhou, roupa e tudo. Desapareceu como num sonho*

 

 

*Ainda chorando, revirou o quarto. As cartas estavam numa gaveta. Rasgou todas e depois enfiou-as na boca. Não tinham gosto de borboletas*

 

 

*Os dias ficaram mais longos e as pessoas ainda mais insuportáveis. Angustiado, sentiu saudade de um futuro que nunca aconteceria*

 

 

*Na fotografia, o sorriso de quem ainda não sabia que o futuro seria ruim. Ela dentro de um vestidinho e, pela janela, a chuva. Parada no ar.*



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h38
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Cinema: Se beber, não case

A MELHOR COMÉDIA DO ANO

 

 

Comédia não é meu tipo de filme favorito, pois acho que esse é o gênero que mais comporta bobagens comerciais, ou seja, trabalhos realizados apenas para encher o bolso dos produtores e subestimar a inteligência do público (ok, talvez as comédias dividam esse status negativo com os filmes de ação).

Mas ultimamente não dá para negar que estão surgindo muitas comédias boas e que me fizeram sair do cinema com a barriga doendo de tanto rir. É o caso do excelente “Se beber, não case”, típico exemplo desse “novo humor” que tem surgido nas telas e que procura explorar as bizarras amizades masculinas (quem faz parte de algum grupo de amigos, sabe que quando todo mundo se junta  para tomar uma cerveja a capacidade de dizer e fazer besteiras é quase infinita).

 

 

Exemplos desse tipo de comédia são os recentes “Virgem aos 40, “Superbad”, “Ligeiramente Grávidos”, todos com a marca do diretor e roteirista Judd Apatow. Esse sujeito foi responsável por emprestar um caráter mais orgânico às comédias, utilizando ótimos diálogos que se aproximam e muito da realidade, e também retratando a amizade como um sentimento engraçado e terno ao mesmo tempo, algo que envolve cumplicidade e afeto, mas que não deve ser confundido com homossexualismo. Já deram até um nome para esse tipo de relacionamento: “bromance”, ou seja, amor de irmão, de dois caras que se gostam pra caralho (desculpe, mas esse é um caso em que o palavrão é necessário).

 

 

Agora é a vez de o diretor Todd Phillips explorar esse universo. Na história de “Se beber, não case”, quatro amigos partem para Las Vegas (a famosa Cidade do Pecado) para festejar a despedida de solteiro de um deles. Quando filme começa, a noite de festa já acabou. Eles acordam numa suíte de um hotel de luxo que está completamente revirada: há bonecas infláveis na banheira de hidromassagem, uma poltrona está pegando fogo, várias garrafas estão espalhadas por todo lado e até uma galinha circula pelo local. Até aí tudo bem, quem já tomou um porre daqueles sabe que o dia seguinte é mesmo um tanto quanto esquisito, surreal até, e que pouca coisa fica guardada na memória. Um dos personagens do filme define bem esse sentimento “se não nos lembramos de nada é porque a noite foi boa”. Só que coisas ainda mais bizarras provavelmente aconteceram na noite anterior, pois um deles acordou sem o dente da frente, há um tigre de verdade no banheiro, um bebê chorando no armário e mais um pequeno detalhe: o noivo sumiu.

 

 

 É a partir dessa premissa ridícula e hilária que a história se desenrola. Num clima investigativo bem ao estilo CSI os amigos desmemoriados precisam refazer os passos e descobrir o que diabos aconteceu na noite anterior. O bacana é que o roteiro é tão bem elaborado que tudo, por mais absurdo que seja, acaba fazendo sentido no final.

Esse é o tipo de filme que não dá pra contar muito senão acaba estragando parte do mistério e das piadas, então basta dizer que eles enfrentarão inúmeros perigos e situações engraçadas para tentar encontrar o tal amigo desaparecido, e que até Mike Tyson, ele mesmo, aparece para complicar a vida dos sujeitos.

 

 

Pela sua aparente simplicidade e despretensão (o filme custou apenas US$ 35 milhões e provavelmente fature US$ 400 milhões em todo o mundo! Esse fenômeno é quase uma Bruxa de Blair versão cômica) e também pela simpatia dos protagonistas (é praticamente impossível não se identificar com as atitudes ridículas dos personagens ou pelo menos compará-las às de algum amigo seu) “Se beber, não case” é, até o momento, a melhor comédia do ano.

 

 

Nota: 10,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h26
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Cinema: Brüno

Não é humor inteligente, mas não deixa de ser engraçado

 

Borat” (2006) foi um filme que me impressionou tanto pela forma (um pseudo-documentário com pitadas de ficção) quanto pelo humor pouco convencional: fazer com que as pessoas entrevistadas exponham suas faces mais ridículas e cruéis sem se darem conta disto. O resultado dessa mistura foi, para mim, uma das coisas mais engraçadas que já vi na vida (ou será que foi “A vida de Brian” do Monthy Phyton? Ou o filme dos Simpsons?), pois se tratava de um humor ácido e muito inteligente. Ok, o jeitão desengonçado do “Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão” por si só já é engraçado, mas o que é realmente hilário em “Borat” são as pessoas comuns.

 

 

Agora em “Brüno” (2009) temos a repetição da fórmula de sucesso, só que dessa vez temos menos documentário e mais ficção, pois fica bem claro que muitas das cenas são ensaiadas, só que em decorrência disso acabamos vendo também menos graça. Para tentar compensar essa falta de, digamos, “vida real”, Sacha Baron Cohen parte para uma estratégia mais agressiva, com intuito de chocar e fazer rir ao mesmo tempo.

Então não dá pra dizer que “Brüno” apresente o tal do “humor inteligente”, pois ele simplesmente coloca as pessoas em situações vexatórias (o que dizer do close no “pênis dançarino” no programa de TV que ele cria? Qualquer pessoa ficaria constrangida naquela situação). Expor as pessoas ao ridículo pode até ser engraçado para alguns, mas não quer dizer que seja inteligente (o programa CQC, que gosto muito por sinal, volta e meia também se equivoca nesse sentido).

 

 

Ok, Brüno não é tão genial quanto Borat, então quer dizer que o filme é ruim? Claro que não. Certo é que quem gostou de um vai também gostar do outro. A própria sinopse já dá uma ideia do absurdo que vem pela frente: um super estilista gay perde o emprego, após destruir um desfile de moda (ele resolveu utilizar uma roupa toda feita de velcro, então dá pra imaginar o estrago que faz quando ele encosta nas cortinas ou nas roupas das outras pessoas né?), e parte para América para tentar se tornar uma celebridade. Para conseguir isso ele não poupará esforços, como adotar (ou importar) uma criança de um “país” chamado África, tentar promover a paz mundial acabando com os conflitos no oriente médio, pedir para ser seqüestrado para que seu vídeo fosse mostrado em todo o mundo, procurar ajuda de um pastor evangélico especialista em “curar” gays e fazer com que se tornem heterossexuais, possibilitar que os sistemas de saúde de países subdesenvolvidos façam clareamento anal de graça, entre outras coisas bizarras.

 

 

O filme é tão ridículo, mas tão ridículo que não tem como não achar graça (as pessoas que preferem o politicamente correto, provavelmente vão achar o filme nojento e desprezível). O humor de “Brüno” definitivamente não é para todos os públicos, pois é agressivo, então é preciso ter estômago para enfrentar a experiência de assisti-lo. A melhor forma de aproveitá-lo é não levar nada daquilo a sério, assim como o fazem alguns artistas que aparecem no clipe hilário do final do filme. Estão lá Bono Vox, Slash, Sting, Puff Daddy, Elton John, fazendo participações especiais num momento meio “We are the wold”. E a letra da música que eles cantam diz algo como “Coréia do Norte pare de brigar com a Coréia do Sul, afinal vocês são todos chineses mesmo. Brüno é a pomba da paz...”.

 

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h46
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Minicontos - Parte I

MINICONTOS: A VIDA EM 140 CARACTERES - PARTE I

 Abaixo, seleção de alguns minicontos publicados no meu Twitter (www.twitter.com/ederalex):

 

*Entre a cabeça e a arma, o vidro, segurança que estilhaça. Alguém buzina, então escapa o tiro. A vida toda passa num minuto: nem duas linhas.*

 .

*Curitiba amanheceu bonita. Menos um. Geada cobrindo o gramado, o telhado, o carro, o menininho de rua. Paisagem cintilando à luz da aurora.*

.

*Levantou-se, grama no cabelo, sentindo o corpo partido, sujo. Não foi à delegacia. Apanhou palha de aço no armário e se trancou no banheiro.*

. 

*Já volto, disse. Atravessou, sumiu na esquina. O filho ficou lendo um livrinho, fábula repetida. À noite, o lobo: Cadê teu pai piá? Já volta.*

 

.

 

 

 

*Voltou à cidade. O sol raspando a pele era o mesmo de quando corria descalço pela rua. Mas lhe pareceu que as sombras agora estavam maiores.*

 

.

 

 

 

*O lápis – O sábio me presenteou com o Lápis Perfeito. Parecia comum, só que a borracha na parte de trás era maior do que a ponta de grafite.*

 

.

 

*A porta bateu com violência e eu permaneci à mesa, esperando que voltasse, arrependida. Folhas caídas arrastavam a madrugada lá fora.*  

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h25
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NEM SÓ DE FAVELA VIVE O CINEMA NACIONAL

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O personagem vivido por Gregório Duvivier afirma que as crianças que brincaram de carrinho na infância acabaram desenvolvendo uma visão mais tecnicista da vida e seguiram para área de exatas. Já as que brincaram com os bonequinhos Comandos em Ação, são mais criativas, pois aprenderam a lidar com as pessoas ou desenvolveram maior capacidade de criar histórias, elas penderam, portanto, para área de humanas. Em outro momento o mesmo personagem afirma que toda uma geração de jovens cresceu traumatizada, pois descobriu que a Vovó Mafalda era interpretada por um homem, “já imaginou a frustração? No lugar da figura da avó, um homem! E bêbado! Ou era o Bozo que era bêbado?”.

É mais ou menos esse o espírito desse pequeno grande filme dirigido por Matheus Souza (um jovem de apenas 20 anos que é estudante de cinema da PUC do Rio de Janeiro. Inclusive, a universidade cedeu todo o equipamento e também serve como locação para o longa que custou míseros 8 mil reais - Tranformers, por exemplo, custou mais de 200 milhões de dólares-  e se tornou sensação dos festivais de cinema).

 

 

É importante frisar que embora “Apenas o Fim” seja um filme barato ele não é, em momento algum, tosco. Tudo parece muito bem planejado e sem os exageros de “filmes de autor”, com câmera tremendo ou coisa parecida, que poderia acontecer facilmente com um estudante querendo mostrar a sua “arte”. É um filme simples, mas muito bem feito. Diferente de algumas tosquices do Domingos de Oliveira, que se sustentam apenas pelo bom roteiro.

A história começa quando uma namorada avisa seu parceiro que irá romper o namoro e que vai embora da cidade. Eles têm apenas uma hora para conversar antes dela partir. E o filme é basicamente isso, os dois conversando e andando pela universidade durante uma hora, com direito a alguns flashbacks bem humorados em preto e branco no meio. Os diálogos inteligentes fazem lembrar qualquer filme do Woody Allen e a estrutura é bastante parecida com os filmes “Antes do amanhecer” e principalmente com “Antes do Pôr-do-Sol”, ah, e o humor se assemelha ao de “Juno”, só que mais verossímil.

 

 

Ao misturar aos diálogos, inúmeras referências pop dos anos 90, Matheus fez um filme incrível, que todo cinéfilo gostaria de ter feito (principalmente os que viveram a adolescência nesse período). Para completar o trabalho ainda conta com Los Hermanos na trilha sonora, com uma das melhores músicas de Marcelo Camelo.

Outros bons momentos: “Eu não quero ser para você um Tom Bombadil, que foi tão importante para os Robbits no livro e depois foi simplesmente cortado no filme!” ou “Ah, esse menina aí pode até ser bonita, mas tem cara de quem o filme favorito é “Um amor para recordar” ou “Diário da paixão”, e que provavelmente nem entendeu o final!”.

Dá pra resistir a um diálogo desses? Um filmaço!

 

 

NOTA: 10,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h52
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MERIDIANOS

.

 

            Ainda afrouxando o nó da gravata, saiu do prédio satisfeito pelo toque repentino da brisa do meio-dia. Uma brisa meio cinza de poluição, mas que não deixava de ser uma sensação cálida que falseava um movimento para frente - o mesmo sentimento de alívio do personagem que abre a janela e coloca a cabeça para fora do carro no clichê do filme – enfim, uma sensação boa que as paredes do escritório infelizmente obstruíam.

            Atravessou para o outro lado da calçada, em frente ao hospital, temendo seguir o mesmo caminho dos colegas de trabalho e acabar tendo que compartilhar a mesa do almoço no restaurante à quilo. Três meses de experiência, nenhum laço de amizade, e se tudo corresse bem, assim preservaria sua tímida sociabilidade. Estava cansado daquelas falsas relações, que só aconteciam dada a necessidade de se tolerar - preservando um pouco de polimento ou sanidade - a divisão de um mesmo espaço entre pessoas estranhas. Ninguém ali gostava das mesmas coisas que ele e ele pouco se interessava pelo que os colegas tinham a dizer. Sendo assim, almoçava sozinho, satisfeito.

             Mãos no bolso, pensava na insensatez de ter que fazer sua refeição quando ainda não tinha fome, só para cumprir o horário estipulado pela empresa. De qualquer forma, poder respirar um pouco de monóxido de carbono ainda lhe parecia uma atividade estimulante.

Aguardava o sinal abrir quando sentiu uma mão posar no seu braço. Há quanto tempo ninguém o tocava? A lembrança de uma despedida desajeitada, lágrimas contidas, meses antes, tomou forma rapidamente em sua mente, para logo se esfarelar e dar lugar àquela senhora que lhe olhava incomodamente nos olhos. “Meu neto recebeu alta hoje e a ambulância só vem de tarde e eu moro no interior. O moço não podia arrumar dinheirinho pra gente almoçá?”.

            Não acreditava em Deus e não via a solidariedade como uma forma de carimbar um passaporte para o céu, pelo contrário, muitas vezes enxergava a ajuda ao próximo como uma atitude sádica que visava tornar ainda mais elementar as extremidades da pirâmide social.

O olhar daquela velha senhora era meigo e, por isso mesmo, incômodo. Treinara a dissimulação diante do espelho ou a humilhação lhe abrandava as linhas do rosto? Lembrou-se, não sem um sorriso estúpido, que já cogitara a possibilidade de ligar para o Criança Esperança ou para aquelas associações de deficientes. Era uma boa forma de comprar uma espécie sintética de paz de espírito, ou de fazer um acordo de compensação, que de maneira um tanto nebulosa amenizaria o sentimento de culpa devido aos seus gastos exorbitantes com livros, revistas, dvds, entre outras ferramentas que o ajudavam a evitar os seres humanos. Ajudar as pessoas, para enfim conseguir ficar longe delas, sem dúvidas um paradoxo interessante.

            Telefonar para um 0800 é simples, mas estar frente a frente com a estatística é mais complicado, afinal, aquele olhar... “Acho que a gente não precisa ter vergonha de pedir quando tá precisando né?”. Tudo o que queria no mundo era ficar longe daqueles olhos que pareciam sustentar todo o peso da pirâmide. Não respondeu, abriu a carteira para retirar uma nota de dez e então a senhora se aproximou ainda mais. Iria roubá-lo? Não, o toque físico era sua forma de substituir as palavras e demonstrar gentileza ou agradecimento, sem dúvidas um expediente um tanto quanto anacrônico. O curioso é que ele conseguia sentir o cheiro dela, mesmo imposta a enorme distância entre aquelas duas dignidades. Tão real quanto a brisa do meio-dia.

            Deu o dinheiro e saiu caminhando rapidamente para o outro lado, esbarrou em algumas pessoas sem pedir desculpas. Quase não ouviu o “Deus que ajude”. À certa distância, olhou discretamente para atrás e, aliviado, constatou que ela não estava mais lá. Um senhor de óculos varria a calçada respingada de folhas.

 Almoçou sozinho, mas um pouco intranquilo, pois não conseguia evitar aquele sorriso desajeitado que despontava em seu lábio, quando tentava se convencer de que o que estava sentindo naquele momento era orgulho e não vergonha.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h47
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