TOP 10 – Os Melhores Filmes Que Vi em 2012

Assisti a exatamente 200 filmes em 2012, portanto foi difícil escolher os 10 melhores sem acabar sendo injusto. Os melhores foram escolhidos seguindo o mesmo critério dos piores: sei lá. Desta forma, muito filme aí não foi nem lançado no cinema ainda e outros são de 2011, mas que eu só consegui assistir no ano passado. Pra não dizer que sou muito relapso, pelo menos tentei escolher os mais recentes (por isso A Montanha dos Sete Abutres e a revisão de O Poderoso Chefão ficaram de fora):


10 - Juan de Los Muertos


                Justificativa para estar no TOP 10: tem zumbi e é de Cuba. Desde Todo Mundo Quase Morto eu não ria tanto com cadáveres.

9 - Habemus Papam


                Podemos suportar o peso que o mundo coloca sobre nossos ombros?

8 - Le Nom Des Gens


                Se você diz que odeia comédia romântica, provavelmente você está vendo as comédias românticas do país errado.

7 - L'apollonide


                Sobre belezas, sorrisos e cicatrizes

6 - A Separação


                É possível escolher um lado e ao mesmo tempo estar certo?

5 - Las Acacias


                Quando o silêncio fala por si

4 - Killer Joe


                Um passeio pelos lugares mais sujos e inesperados de um país, de uma mente. E é isso que espero no cinema, me perder.

3 - Era Uma vez na Anatólia


                Não só pela mais bela fotografia que vi esse ano, mas também pela forma com que a câmera do cineasta turco faz um estudo sobre a natureza humana

 

2-  O Abrigo


                O filme não acaba após a sessão, ele te acompanha por dias e dias

 

1 - Indomável Sonhadora


                Uma obra-prima sobre o amor e a vida

 

 

Menções Honrosas:

 

- Mistérios de Lisboa

- Ted

- Ataque ao Prédio

- Into The Abyss

- Poder Sem Limites

- Para Roma com Amor

- The Cabin in The Woods

- Headhunters

- As Vantagens de Ser Invisível

- As Aventuras de Pi

-  Un amour de jeunesse

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h42
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TOP 10 – OS PIORES FILMES QUE VI EM 2012


Assisti a tanta porcaria nesse ano que foi difícil escolher apenas dez filmes. O critério utilizado foi o “sei lá cara”, portanto há filme aí que ainda nem foi lançado no cinema e outros que provavelmente nem são de 2012. Apesar disso, tentei escolher apenas os filmes mais recentes (e isso explica o fato de o terror “As Ruínas” (flores que imitam o som de celular! WTF?) e algumas barbaridades do Eddie Murphy não estarem na lista).

 

10 - Cavalo de Guerra

Steven Spielberg  fazendo cosplay xexelento de Steven Spielberg

 

09 - Sombras da Noite


Desisti do Tim Burton

08 – Ricky


 François Ozon tava de sacanagem, só pode

 

07 - Diário de Um Jornalista Bêbado


Olha o Johnny Depp aí novamente, tô pensando em criar uma seção só dele.

 

06 - A Dançarina e o Ladrão


Espero que o roteirista desse filme pense seriamente em trocar de carreira

 

05 - Upside Down


Olhando assim o filme parece meio idiota. Aí você assiste e constata que na verdade ele não é meio idiota, é muito idiota

 

04 - Filha do Mal


Acho que a ideia não era fazer rir, mas...

 

03 – A Casa dos Sonhos


 É de se pensar que o elenco estava precisando pagar umas contas pra aceitar entrar numa furada dessas

 

02 - Abraham Lincoln – O caçador de Vampiros


Eu já estava achando o filme um lixo, aí veio a cena dos cavalos...

01 – Motoqueiro Fantasma 2

 Nicholas Cage no auge de sua carreira

 

Menções desonrosas:


- The Woman in the fifth

- Holy Motors

- The Grey

- Para Sempre

- Intruders

- Notre Jovr Viendra

- Terror na Água

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h24
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TOP 5 – MELHORES HQS QUE LI EM 2012

 

 

1 – Pinóquio



Uma das graphic novels mais interessantes que já li. Tanto pela história macabra - Pinóquio é um robô triste, que mata pessoas sem querer e que vive num mundo recheado de cinismo, maldade e perversão (por exemplo, os Sete Anões são sadomasoquistas que fazem o Geppeto de Branca de Neve) - como também pela arte belíssima de Winshluss que além de desconstruir a história infantil, faz inúmeras homenagens aos desenhos antigos e até ao cinema. Obra imperdível


2 – Wilson



Leitura devastadora e ao mesmo tempo hilária. Por trás do personagem ranzinza e reclamão, percebemos uma série de mágoas e frustrações. Umas das melhores HQ's que já li sobre a solidão.


3 – Fun Home



Uma bela HQ que fala sobre a relação entre um pai e uma filha. Sempre muito distantes um do outro, mesmo vivendo na mesma casa, os dois percebem no amor aos livros um ponto em comum que pode aproximá-los. Neste passeio pelas lembranças de um passado já distante está ainda a descoberta da homossexualidade da autora, sempre retratada de maneira delicada e às vezes poética.


4 – Preacher


Após várias confusões com as editoras, Precher finalmente começou a ser lançado desde o começo. E já nesse primeiro arco já nos damos conta do quanto Garth Ennis é um doente. Deus desistiu do mundo e agora estamos por conta própria.


5 – Astronauta – Magnetar


Brilhante trabalho da MSP que trás os famosos personagens da Turma da Mônica agora em história longas, feitas para adultos. Aqui temos o Astronauta vivendo todo o desespero de não conseguir voltar para casa e ter que lidar com a solidão extrema. Chama a atenção, além do primoroso trabalho gráfico, as várias referências/homenagens a filmes clássicos de ficção científica.


Menções honrosas: “EW3”, “V de Vingança” e a primeira parte de“100 Balas”



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h28
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TOP 5 - MELHORES LIVROS QUE LI EM 2012


Em 2012 li poucos livros, mas pelo menos foi o suficiente para fazer um TOP5 (desconsiderei os clássicos, como o maravilhoso 'Lolita', pois aí seria muito desleal com as outras obras):

 

1 - O Sentido de Um Fim (Julian Barnes)

O livro é sobre o doloroso resgate do passado através dos tortuosos caminhos da memória. Tipo de obra que desperta a curiosidade de forma avassaladora, mas que ao mesmo tempo nos coloca para pensar na nossa frágil condição humana e nas ficções que criamos sobre nós mesmos.

 

2 - A Máquina de Fazer Espanhóis (valter hugo mãe)

Um belo livro sobre um homem que perde o amor de sua vida e vai parar num asilo. Lá, quando espera encontrar apenas a morte, acaba se deparando com um bocado de vida.

 

3 - Uma Viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares)

A epopeia de um homem comum buscando sabedoria enquanto foge das tragédias do passado. Porém, há mais dor e tristeza do que sabedoria nesse mundo. Literatura portuguesa, sua linda.

4- Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (David Foster Wallace)


Reunião de textos brilhantes daquele que é, para mim, a maior voz da literatura contemporânea. Tipo de autor que parece entender perfeitamente o que você pensa e traduz isso em forma de palavras hilárias e às vezes comoventes. É difícil ler os textos do DFW e não imaginar que você praticamente o conheceu na vida real.


5 - O Diário da Queda (Michel Laub)


Com esse romance sobre uma infância amarga e uma vida adulta com muito pouco a se orgulhar, Michel Laub demonstra que a literatura brasileira vai muito bem obrigado.

 

Menções honrosas:

 - "Precisamos Falar Sobre o Kevin" - Lionel Shriver

- "As Virgens Suicidas" - Jeffrey Eugenides

- "Matadouro 5" - Kurt Vonnegut



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h09
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Barba Ensopada de Groselha


 

O tão comentado novo romance de Daniel Galera “não é” algumas coisas:

 

- Não é um livro Pulp como o título sugere (inclusive, há pouquíssima violência)

- Não é o mais importante romance brasileiro dos últimos anos

- Não é o melhor trabalho do Galera

 

Dito isso, podemos dizer o que ele é:

 

- É um puta de um livro bem escrito que dá gosto de ler.

 

Todo o hype que envolve esse romance (4 páginas na Revista Piauí, 3 opções de capa, lançamento em outros países, venda de direitos autorais para adaptação cinematográfica, elogios do Ricardo Piglia e do Gonçalo M. Tavares na contracapa, etc) acaba gerando uma expectativa praticamente impossível de ser atingida. Não caia nessa, meu amigo, o livro é legal, mas não necessariamente melhor coisa que você leu esse ano.

O romance sobre o homem que, após o suicídio do pai, resolve ir para uma cidade litorânea investigar o tumultuado passado do avô que supostamente foi assassinado numa festa, é mesmo ambicioso, afinal não é qualquer um que lança um livro de 400 e tantas páginas em tempos de 140 caracteres do twitter.

Sobre a narrativa, percebe-se uma intenção muito clara de traçar um painel extremamente realista de Garopaba, cidade catarinense onde se passa a história. O Autor morou lá durante um ano, assim como o protagonista, então dê-lhe descrições de pessoas e lugares... É possível que o leitor se sinta incomodado com o grande volume de descrições minuciosas (alguns críticos desceram a lenha na obra por causa disso), mas vejo que a própria condição do personagem principal, que sofre de uma doença neurológica que o impede reconhecer os rostos das pessoas, inclusive o próprio, assim que desvia o olhar, justifica a necessidade de detalhar tudo ao redor.

Esse recurso narrativo, que em diversos momentos faz lembrar Cormac McCarthy em A Estrada, por exemplo, não é uma coisa que me incomoda tanto, até porque Daniel Galera consegue manter a fluidez do texto de maneira invejável (Ok, lá para o final, na parte da floresta, confesso que fiquei com vontade de pular algumas partes só de raiva de tanto nome de planta e bicho, mas logo percebi que queria fazer isso não por causa do excesso de informações, mas porque queria enfim saber a resolução dos mistérios. Eu estava simplesmente “preso” à leitura e não larguei mais até o fim (venci as 400 e poucas páginas em menos de uma semana, o que, para os meus padrões de lerdeza, é um recorde)).

                Além de McCarthy, podemos perceber a clara influência do americano David Foster Wallace, no uso das notas de rodapé como um recurso narrativo poderoso, aqui utilizado principalmente para dar espaço à oralidade. Aliás, é possível que os diálogos precisos sejam o ponto mais forte do texto de Daniel Galera, pois chega a impressionar a naturalidade e o realismo com que os personagens falam.

                Bonobo, personagem do melhor livro do escritor, “Mãos de cavalo”, surge aqui como um sujeito absolutamente cativante e responsável pelo alívio cômico da história. O trecho em que eles se conhecem e tomam algumas cervejas conseguiu me arrancar muitas gargalhadas.

                “Barba Ensopada de Sangue” tenta misturar, não sei se com muita eficiência, misticismo, crendices e memória, criando um painel de mistérios interessante. Sem que saibamos exatamente o porquê, há um forte clima de tensão entre os moradores do local, que se sentem incomodados com a presença do personagem. A sensação de que existem duas Garopabas, a cidade alegre cheia de turistas do verão e a cidade que faz as pessoas se deprimirem durante inverno, é explorada de maneira bastante eficiente por Galera. Ao longo da leitura fiquei extremamente curioso para saber o que diabos tinha acontecido naquele lugar nos anos em que o avô do personagem esteve por lá, porém, por mais haja uma segurança impressionante na estrutura narrativa, fiquei preocupado com as soluções pelas quais o autor poderia optar, afinal nada mais desagradável do que ler um final bosta de um livro que você acompanhou e curtiu por centenas de páginas.

O fato é que as tais soluções não agradam muito, mas também não decepcionam totalmente. Daniel Galera conseguiu encontrar um meio termo e entregou uma obra que obviamente não é o grande romance dessa geração, mas que confirma o seu nome entre os grandes autores brasileiros da atualidade.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 23h57
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*Este conto foi escrito em 2006 e recebeu menção honrosa no Concurso de Contos Newton Sampaio

 

CASINHA DE CACHORRO


 

Sabe-se lá como ele conseguia se manter em pé ainda. Por minha mãe, já o havíamos matado há muito tempo e esse trabalho, segundo ela, deveria ser realizado por mim mesmo, o homem da casa, utilizando a velha enxada, que ficava nos fundos do quintal.

- Vai lá e dá uma cacetada na cabeça dele, bem forte que é pra matar logo e não sofrer muito. Se ele ficar agonizando bata com a parte afiada.

Provando a minha inabilidade em colaborar com a eutanásia de animais - sim, meu cachorro Lúque, com “q” e “u”, pois é um vira-lata muito curitibano, há um bom tempo deveria ter ido para o purgatório canino tendo em vista a quantidade de hospedeiros que faziam de seu corpo um cortiço de carrapatos e vermes – bati três vezes, todas elas emitiram um som surdo vindo do crânio do bicho. Quando abri os olhos para ver um cadáver e me tornar um assassino, lá estava ele cambaleando feito bêbado procurando sua casinha. Nem sangue saiu.

Ouvi minha mãe me chamar de incompetente enquanto a minha avó, lá do seu quarto cheirando a mijo resmungava qualquer coisa, guardei a réplica mal educada para mim e após fechar a porta logo me vi em frente ao espelho. Não era cara a de um matador de animais, havia ali somente o menino de cabelo despenteado de sempre. Mas minhas mãos doíam e eu sentia um profundo aperto no coração, pois acabara de lembrar do dia em que Lúque chegou aqui em casa, com aqueles olhos enormes e com o corpinho tão franzino, ele lambeu o meu lábio superior e isso não me provocou asco, ele era diferente, era um amigo.

Naquela época as coisas estavam um pouco difíceis lá em casa, minha avó contraíra uma doença, não sei o nome ao certo, mas é dessas de velho mesmo, e já não estava falando coisa com coisa, circulava pela casa durante a madrugada fazendo com que eu tivesse diversos pesadelos com ela entrando em meu quarto, tentando me estrangular.

Quando o Lúque começou a escarrar sangue após ter comido um bicho ruim, minha mão me propôs o sacrifício. Para mim seria muito triste liquidar com meu único amigo, relutei várias vezes, mas ela me olhava com um olhar de reprovação que me fazia sentir calafrios. Seus olhos sempre denunciavam a ação que ela esperava de mim, e neste caso, teria de dominar meus demônios para não chegar à loucura, pois o trabalho deveria ser feito.

Quase não saí do quarto durante os cinco dias seguintes, tapava os ouvidos para não ouvir os uivos do Lúque lá fora, agonizando, morrendo aos pouco com os ferimentos internos gerados pelas pancadas desferidas por mim. No sexto dia houve grande silêncio, parecia que o mundo havia sido desligado do lado de fora da minha veneziana. Aquilo tudo era o silêncio da morte, que fazia um barulho ensurdecedor dentro do meu peito.

Comecei a chorar quando ouvi minha mãe dizer:

-         Acho que essa praga não se levanta mais, que cheiro horrível.

Quando saí, vi meu amigo, estava estirado no pátio, coro e osso e muitas moscas ao redor. Na verdade ele já não estava mais ali. Senti um misto de horror e pena pelo animal tão desgraçado que agora estava com uma porção de formigas rodeando a sua boca, da qual saía um líquido negro um pouco pastoso. Minha mãe falou para eu ser mais homem e retirar aquela sujeira dali. Era para enterrá-lo bem longe.

Coloquei o cachorro em nosso carrinho de mão enferrujado e o levei para umas terras abandonadas. No meio do caminho, vendo as plantações de feijão que se estendiam longinquamente, observei que aquele lugar fora o mais distante que eu chegara na vida e isso me provocou muito medo. Cavei a terra dura durante vários minutos até conseguir uma cova razoavelmente funda, coloquei o Lúque lá dentro e o soterrei, enquanto jogava a terra em seu focinho pensei no quanto seria ruim ser enterrado vivo.

Voltei antes do anoitecer, minha mãe não disse nada. Minha avó gritava de dor e eu fui para o quarto. Não consegui dormir, nem naquela nem nas noites que se seguiram ao sepultamento do meu cachorro. A lembrança dos uivos doloridos dele se misturava com os gritos de minha avó e embalavam a trilha sonora de meus pesadelos.

Algumas semanas depois, levantei cedo e dei com minha mãe fumando na cozinha, eu ia saindo de mansinho quando ela me chamou:

-         Olha aqui, vou falar só uma vez, não quero me desgastar novamente, isso é coisa para homem, você já é um homem.

-         Ok

-         Sua avó... A doença dela já avançou para os outros órgãos, esse cheiro de merda que você está sentindo vem de lá.

-         Ela deve es...

-         Deixa-me terminar. Eu não quero ficar louca, eu não quero mais ouvir uivos, eu não agüento mais essa vida entendeu?

Constatei que minha mãe também ouvia aqueles sons.

Com olhar vidrado, apagou o cigarro com violência e me deixou sozinho. Fiquei ali sentado durante um longo tempo, tentava lembrar os olhos enormes do Lúque, mas não dava mais, só me vinha à mente o seu focinho cheio da terra que eu joguei.

- Nem uma cruz eu coloquei lá para ele, mas sei lá se cachorro tem religião também. Falei baixinho para meu reflexo distorcido na mesa.

Entretanto, eu não poderia ficar ali para sempre, tinha de ser obediente, percebi o que queria dizer o olhar de minha mãe. Minhas mãos ainda doíam.

Fui para trás da casa e peguei a velha enxada.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 22h01
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Quase trinta


Com quase trinta você já teve tempo suficiente para achar o amor da sua vida e perdê-lo pelo menos umas três vezes.

Com quase trinta você já teve tantas desilusões que agora dá uma maneirada nas expectativas gerais.

Com quase trinta você vive menos, pois tenta maneirar as expectativas gerais.

Com quase trinta você se acha experiente e pensa “Ah se aos 18 eu tivesse a mentalidade de hoje”

Com quase trinta você comete tantos erros quanto um garoto de 18.

Com quase trinta você experimentou a vida adulta, não gostou e agora quer de volta o dinheiro do ingresso, mas parece que a bilheteria está fechada.

Com quase trinta você juntou dinheiro para bancar quase tudo aquilo que queria aos 15, mas não podia comprar. Então às vezes você percebe que não passa de um menino de 15 anos com uma mesada um pouco maior.

Com quase trinta você já quase não faz novas amizades, mas manteve aqueles amigos que são tão importantes quanto a sua própria família.

Com quase trinta você não alcançou todos seus objetivos, provavelmente porque você já nem sabe quais eram esses objetivos.

Com quase trinta você fica com medo de reler Sartre e acabar se encontrando nas páginas de A Idade da Razão.

Com quase trinta você olha para os anos anteriores com uma saudade imensa de tudo o que não aconteceu nem acontecerá.

Com quase trinta você percebe que as coisas não deram muito certo, mas que ok, o céu fica até bonito assim meio cinza.

Com quase trinta você percebe que algumas coisas são definitivas. E “definitivo” é uma palavra que possui um peso difícil de ser carregado.

Com quase trinta você é ingênuo a ponto de achar que sabe tudo sobre a vida.

Com quase trinta você ri de si mesmo para disfarçar o medo e a solidão.

Com quase 30 você já não tem a vida inteira pela frente, mas a parte que falta é tão imensa e obscura que lhe assusta.

Com quase trinta você quer aproveitar o tempo que falta. E o tempo que falta podem ser as próximas décadas, como também os próximos 5 minutos.

O tempo que falta.

A falta.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h54
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Conto: Natureza Morta

 

Natureza Morta

            Desenhava peitos e bundas, isso foi bem lá no começo, antes das chamas e da porra toda.

Na escola um solitário, parece que todos são assim por escrito não são? Ele cumpria bem as funções de ser sozinho:  trabalho em dupla, posso só eu? Conversas desajeitadas com a guria que deu a entender que queria dar, mas depois na hora se arrependeu disse que melhor não, o melhor amigo perguntando cê é viado né? Calado enquanto a professorinha novata assassinava Machado de Assis na frente de 50 alunos. Flagrado lendo Lanterna Verde no banheiro dos meninos, lá na terceira porta olha só que retardado. A garrafa de vodca do pai pela metade na estante, o desmaio em cima do próprio vômito no banheiro, a mãe seu filho da puta quer se matar?

Começou a desenhar não para fugir, mas para chegar mais perto, uma forma de tocar o mundo sem se machucar. Só que não conseguia desenhar as pessoas inteiras, só as partes delas. Virou especialista em olhos. Mas também praticava peitos e bundas tendo as professoras como modelo, pois assim ganhava admiração. Ou porque às colegas da mesma idade faltavam curvas? O caso é que os quase-amigos rodeavam o Tilibra de dez matérias na hora do recreio: esse peitão aqui é da de ciências, certeza. Cara, cê desenhou o boga da diretora?

Admiração que virou inveja que virou caguetagem que virou escândalo que virou indignação que virou expulsão que virou surra que virou três meses de castigo.

Que virou todo o tempo do mundo para desenhar.

Da janela do quarto, a casinha de cachorro sem cachorro – é ele morreu, foi assim: os latidos chatos pra caralho, o vizinho, a carne moída, o vidro moído, a poça de sangue, o buraco no terreno baldio (chovia, tinha barro nos olhos), a janela do vizinho quebrada, as palmas no portão, não fui eu desgraçado! a discussão dos pais na rua, luzes de viaturas, ninguém toca mais no assunto – um pessegueiro, as roupas no varal e o tédio.  Passou a desenhar aquilo que não enxergava dali e assim foi criando todo o resto que a vida é quando não estamos olhando.

Cresceu e, claro, não virou desenhista, nenhum efeito profundo em decorrência da infância errante o tomou, não passou a desenhar colegas de trabalho peladas nem nada. No escritório, a papelada sobre a mesa era apenas um rascunho do passado num rabisco aqui outro ali, mil olhos a observá-lo, mas tudo desenhado de forma aleatória enquanto conversas de telefone.

Continuou sozinho. Agora tinha um X-Box, uma estante enferrujada com meia dúzia de livros ruins, um gato e uma geladeira explodindo de tanta cerveja. As vodcas que eram a herança do pai morto – é, ele morreu, foi assim: o casamento do primo no interior, a mãe falando pare de beber velho filho da puta, o carro, a madrugada, a pista simples, a curva, as luzes engolidas pelo acostamento, o de sempre - continuaram pela metade na estante.

A cada 45 dias, palestra motivacional na empresa. O homem com o microfone, camisa suada azul gravata vermelha gel no cabelo, falava rápido e de forma emocionante faça o que você gosta se conecte com o mundo acredite siga em frente não desista foco força fé. Ele percebeu que aquilo ali era importante, inclusive comprou o livro autografado do homem do microfone e leu tudo no banheiro da empresa, durou quatorze cagadas.

Num sábado ou num domingo, tirou o velho caderno da gaveta, ainda com peitos e bundas das professoras, achou alguns tocos de Faber Castell e decidiu não desistir. Foi ao parque, sentou num banco podre pintado de verde e desenhou os olhos das pessoas: do casal ele velho ela meio putinha interesseira, do pai solteiro filho no carrinho brincando com um maço de cigarros sabor câncer de menta, das três amiguinhas de doze anos parece que uma está grávida, ou duas?

Assim ele tocava o mundo sem se sujar, era bom. Pareciam seres inanimados porque tristes, os olhos contavam histórias ruins. Mas frustrava-se por não conseguir o grande desenho, aquele que mudaria tudo ou pelo menos daria algum sentido pra essa porra toda.

A noite já arrastava o dia para trás das árvores feito um estuprador, melhor ir indo. O resto daquela vodca iria bem agora, mas o remédio. Foi quando ele viu o posto e teve a ideia que mudou tudo.

Gastou o vintão que tinha no bolso. O frentista colocou num saco plástico. Andou sem parar durante horas, a Havaianas deixando a marca preta de craca entre os dedos. Será que bebeu ou as sombras são tortas assim enquanto não existem de dia?

Parou por alguns instantes na esquina, a rua vazia, do outro lado a grande paisagem, o modelo perfeito, a realidade, a verdade, um ser humano inteiro. Uma ideia do caralho, finalmente. Sabia que estaria muito escuro e a iluminação não seria das melhores. Ele sabia, se preparou para isso. E pensou naquilo que estava prestes a fazer, antecipou mentalmente os contornos os ângulos os tons. Tinha talento foco força fé. Precisou ser muito rápido com o lápis, as chamas se espalharam de forma desordenada, ele só conseguiu ver os olhos. Mil olhos gritando pra lá e pra cá. Ele desenhou cada um deles com muito capricho.

Pendurou o desenho na parede do escritório e sempre que perguntam o que ele significa ele responde que são os olhos de Deus cuidando de todos nós, é a Sua forma de nos tocar sem se sujar.

Sobre as chamas e a porra toda foi assim: o saco com gasolina, a madrugada, a rua vazia, o ponto de ônibus, os mendigos.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 21h53
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OUTRAS PUBLICAÇÕES

                      Em virtude das nerdices que escrevo por aqui (e aqui) o Alessio Esteves (http://oprotagonista.com) resolveu me indicar para participar do site Contraversão, pois eles estavam precisando de alguém que fosse pelo menos semi-afalbetizado para escrever sobre literatura. O Raphael Fernandes (editor do Contraversão e da Revista Mad) topou a ideia e eis que já está no ar o meu texto de estreia.

       Visitem o site e comentem senão eles vão me demitir :-)


 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h28
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Geração F5

ou

De Quando o Capeta Inventou a Banda Larga


 

            Sempre que alguém reclama por vivermos na tal da “Era da Informação” onde tudo é muito rápido e efêmero (menos as filas de atendimento, ligações de telemarketing, discussão de relacionamento, pedra nos rins, etc), penso naquele velhinho barbudo dos desenhos animados que impunha uma placa com a frase “O Fim Está Próximo!”.

É mais ou menos assim: reclamamos dos avanços tecnológicos enquanto trocamos de canal na nossa televisão maior que a parede ou enquanto estamos no banheiro utilizando um moderno sistema de saneamento básico (olha só, tem até papel higiênico folha tripla com aroma de flores do campo!), porém não fazemos muita questão de voltar aos tempos de esgoto a céu aberto ou à falta de planejamento familiar gerada pela ausência de entretenimento, vulgo novelas.

            Compreendo tudo isso, mas peço agora a licença para exercer meu direito à contradição humana: vou pegar a placa do velhinho e ajudá-lo a divulgar a boa nova sobre o apocalipse.  É que a humanidade vai mal, meus caros.

            O ser vil que veio para destruir a pouca harmonia que havia entre nós chama-se: “Banda Larga”, uma criação do capeta (na verdade ele só fez um upgrade, a criação original, a internet discada foi desenvolvida por Deus, como todos sabem). Enfim, foi esse monstro imperioso que eliminou todo vestígio de paciência que havia na raça humana, fazendo que nossos frágeis espíritos ansiosos agora fiquem à beira de um colapso cada vez que a página do Google demora mais do que 3 segundos para abrir.

Ah, que saudade daquele som maravilhoso da conexão discada. Quem não ficava emocionando quando finalmente a linha estava desocupada? Aquela vontade de ir até a janela e gritar “Conectou, caralho!!”.

Naquele tempo é que éramos felizes. Prova disso é que interagíamos muito mais com os nossos familiares e até nos alimentávamos melhor, pois após cada clique era necessário dar uma passeio pela sala ou pela cozinha enquanto aguardávamos pacientemente as páginas serem carregadas. Tínhamos até uma vida social na qual era possível curtir o momento enquanto ele ainda estava acontecendo e não apenas depois de postar duzentas fotos no Facebook. Naquela época a gente saia de casa para fazer pesquisa, acredita? Íamos a uns prédios velhinhos, acho que se chamavam bibliotecas, e era lá que encontrávamos o precursor do Google, o bibliotecário. Era só falar as palavras chaves da pesquisa e em alguns minutos lá vinha ele com um livrão, a Barsa, da qual copiaríamos ipsis litteris aquele texto enorme numa folha de papel almaço e lá no meio ainda escreveríamos: “se o professor estiver realmente lendo esse trabalho marque um x aqui”.

            Mas eis que diabo inventou a Banda Larga e causou todo o desequilíbrio nas relações humanas, colocando tudo ao alcance de um clique e meio segundo. Tornando impossível concentrar-se em algo que não seja colorido, com vários links, ágil e editado de forma “jovem e moderna”. Pobres livros, tornaram-se objeto de decoração na casa de quem quer parecer inteligente ou apenas velho. Afinal, quem teria paciência de ficar ali parado olhando para aquele amontoado de letras desinteressantes? Às vezes não tem nem figura!! E as pessoas então? Se elas já eram lá aquelas coisas em termos de “nossa que interessante”, passaram a ser menos interessantes ainda, pois começaram a acreditar que aquela vida editada que elas postam nas redes sociais era verdadeira. Aquele pouco contato fingido, aquele quase nada, passou a bastar e então elas foram se distanciando.

No sétimo dia, quando o capeta completou a sua obra, colocando internet no celular, caímos em desgraça completa, pois tudo se tornou absolutamente urgente, principalmente as coisas desimportantes. Foi então que nos tornamos a ansiosa Geração F5, atualizando o e-mail a cada cinco minutos para saber se recebemos algo estúpido que precisa ser lido de imediato, pois, obviamente, aquela apresentação ridícula em .pps é um caso de vida ou morte. Sorte daquele que morre atropelado enquanto atravessa a rua distraído (estava tuitando), pois não terá que vivenciar o horror que o futuro nos reserva.

            Ergo a placa apocalíptica do velhinho com certo entusiasmo, mas vejo que as pessoas não param para ler. Tava na cara que isso aconteceria, afinal não tem nenhuma figura ali e é difícil convencer alguém de alguma coisa sem um vídeo de no máximo 2 minutos no youtube.

Desta forma, para esperar pelo fim, penso então em criar uma comunidade mística, cheia de chapados (ver: cogumelos alucinógenos) que vive no meio do mato e abdica da internet e das novas tecnologias (só do bluetooth que não, pois sem ele a vida nem seria possível). Um lugar calmo onde seja possível até pensar antes de tomar decisões. Mas aí eu penso no papel higiênico de folha tripla com aroma de flores do campo e desisto da ideia. É muita tecnologia gente!

Percebo que o fim está próximo, mas nem tanto, acho até que dá tempo de ver se chegou algum e-mail importante.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 23h46
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Top 5 – Stephen King


Nada de boneca-de-pano falante ou espiga de milho inteligente, os livros que me fizeram gostar de ler de verdade (a ponto de comprá-los sem que um professor precisasse apontar uma arma para a minha cabeça) eram povoados por crianças assassinas, palhaços macabros, hotéis mal-assombrados, etc.

Stephen King já escreveu aproximadamente uma centena de livros sobre esses temas, destes, devo ter lido apenas uns 20, mas de tempos em tempos faço uma pausa nas leituras “sérias” e retorno ao Maine (estado dos EUA onde se passam a maioria de suas histórias) através da mente macabra deste que é um dos meus escritores favoritos.

Faço aqui um pequeno Top 5 de obras que mais gostei. Trata-se uma seleção injusta e incompleta como toda seleção deve ser (“meu deus, cadê The Dark Tower seu cretino?”), então aguardo os comentários de vocês dizendo qual livro está faltando nessa lista ok?

 

5 – Zona Morta 


                Um homem sofre um acidente, fica em coma durante vários anos e quando acorda não só o mundo está diferente como ele próprio já não é mais o mesmo, pois a bordoada que levou na cabeça despertou uma zona morta de seu cérebro e fez com que ele desenvolvesse o poder de enxergar o futuro e o passado simplesmente tocando as pessoas.  Resumindo assim, a história parece meio batida (embora seja de 79), contudo Stephen King, mesmo em meio ao fantástico dá contornos bastante realistas ao personagem John Smith, fazendo com que esta seja uma de suas “criaturas” mais cativantes. Sério, dá até vontade de ser amigo do cara. O romance gerou uma boa versão para o cinema com Christopher Walken e também uma série legalzinha, que durou algumas temporadas, mas que pouco se parecia com a história original.

4 – O Iluminado 


                Este romance elevou o tal do “terror psicológico” a patamares até então não explorados (pelo menos não até onde minha ignorância alcança). A história do perturbado escritor Jack Torrance que resolve se isolar com a família no hotel Overlook durante uma temporada de inverno é uma das coisas mais angustiantes que já li. Há quem defenda que a adaptação do cineasta Stanley Kubrick é superior ao romance (e geralmente quem afirma isso nem mesmo se deu ao trabalho de abrir o livro). Prefiro infinitamente aquilo que imaginei lendo, mas o filme também é bom, é um clássico. São na verdade obras bastante distintas, uma vez que Kubrick optou por eliminar o que havia de sobrenatural (inclusive o próprio Iluminado) e definir aquilo tudo como piração de Torrance. Já Stephen King faz com que o Hotel Overlook seja praticamente mais um personagem. Ele está vivo e guarda um susto a cada porta - e olha que tem porta pra caramba lá. No filme vemos Nicholson detona tudo com um machado,  já o Jack Torrance do livro acha que um taco de críquete faz mais estrago. Também acho. 

3 – As Quatro Estações


                Talvez muita gente não saiba, mas nem só de suspense vive a literatura de Stephen King. “As Quatro Estações” é prova disso. O livro é composto por quatro contos longos (ou seriam novelas?) e dessa publicação saíram nada mais nada menos que dois filmes brilhantes: “Conta Comigo”, baseado em “O Corpo” que tenho para mim como uma das melhores histórias já feitas sobre a amizade na infância e “Um sonho de liberdade”, do conto “Rita Hayworth e a redenção de Shawshank”, uma bela história sobre um banqueiro que vai parar na cadeia acusado de matar a esposa e seu amante, mas enfrenta as adversidades com muita força de vontade e inteligência. Este livro ainda deu origem a mais um bom filme: “O Aprendiz” que não é sobre o Roberto Justus, na verdade o conto “Aluno Inteligente” fala sobre um menino que desconfia de que seu vizinho seja um fugitivo nazista. Enfim, só com os direitos desse livro o Stephen King já ficaria bem rico, não?

2 – Cemitério


                Foi a primeira vez que senti medo lendo uma um romance. Medo no sentido de fechar o livro e dar uma circulada pela casa para ver que diabos é aquele barulho vindo da cozinha. Dar susto no cinema é fácil, uma sombra aqui, uma música de suspense ali e um vulto na janela bastam pra fazer muita gente se borrar. Mas tente fazer isso apenas escrevendo... Se você acha que um cemitério macabro à beira da estrada não é apavorante o suficiente, experimente enterrar o gato de seus filhos lá. Ou quem sabe uma criança.

1 – A coisa


                Palhaço no circo dá medo. Palhaço dentro de um bueiro e com dentes de demônio dá mais medo ainda. “Aqui Todos Flutuam” diz Parcimonioso, o simpático clown que oferece balões vermelhos ao menininho que acabou de ver seu barquinho de papel cair na escuridão do esgoto. O menino estica o braço para pegar o balão. O palhaço sorri.

Mais de mil páginas sobre a infância e o terror de crescer num mundo onde o medo predomina. Uma obra-prima do suspense.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 23h40
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O olhar da coruja

 

Vi uma coruja ontem. Eu caminhava para casa com a noite já bem adiantada, a rua iluminada apenas de quando em quando conforme queriam os faróis dos carros passando, e de repente, num dançar de luzes, lá estava ela me encarando do galho de uma pequena árvore. Não usava óculos como nos desenhos e não me pareceu muito preocupada por ter sido descoberta, decerto que não estava a cometer delitos noturnos. Parei para olhá-la, aqueles olhos enormes e sérios, mas o trânsito não parou e entre uma escuridão e outra, o galho vazio.

            Causou-me certo estranhamento aquele encontro (Bandeira diria que foi um “alumbramento”). É claro que já vi corujas antes, mas foi menos num zoológico do que na tela do computador ou da TV. Lembro-me também que uma vez fui à casa de uma amiga cujos pais eram professores e, na sala de estudos, havia, entre apostilas e livros sem pó, uma centena de corujas de madeira, argila, plástico, vidro, porcelana, etc. Era para representar a inteligência, mas o negócio era meio bizarro, com jeitão de seita satânica docente. Na época achei legal.    

            Voltemos à minha coruja no galho. Como disse, eu caminhava para casa quando fui surpreendido pela visão daquele animal. Digo surpreendido, pois neste ir e vir cotidiano, pouco me dou conta da paisagem, uma vez que a repetição tende a ir borrando os contornos da visão. Parece necessário que algo atípico cruze nosso caminho para enfim diminuirmos o passo: é como andar apressado pela cidade, todos sempre atrasados, e do nada cruzar o olhar com alguém no meio da multidão, um sorriso e o tempo nos dá uma folga, há silêncio, conjecturas de um futuro sem solidão.

 Se isso for verdade, as coisas só passariam realmente a existir para nós depois que parássemos para olhá-las com mais atenção, caso contrário seriam apenas um borrão, uma sombra.

Eu vi a coruja, não foi apenas um vulto. E quando essa possibilidade surge – parar e observar o mundo acontecendo - é como se nos reconciliássemos com a vida, pois sei que a coruja também me viu e, neste breve segundo, por meio dos seus olhos, de certa forma eu também passei a existir.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h41
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            O Livro Em Branco

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O truque era o seguinte: um livro enorme que, aos olhos do corajoso voluntário, continha apenas páginas em branco, mas que quando direcionado para a platéia - após um movimento suspeito do mágico-palhaço - exibia um texto com letras garrafais, levando o público a gargalhar e a fingir duvidar da sanidade da pessoa ali no meio do picadeiro.

A péssima iluminação improvisada ao longo da armação da lona azul e vermelha e suja fazia com que o homem além de não conseguir ver o recheio do livro, pouco enxergasse as pessoas espalhadas pela arquibancada improvisada com tábuas toscas - prestes a desabar e a esmagar vizinhos do bairro, vendedores ambulantes e maçãs do amor.

O voluntário, já não tão corajoso e incomodado com o cheiro de mofo vindo da fantasia do artista em pé ao seu lado, conseguia ouvir muito melhor aquilo que não enxergava mesmo sendo um som cheio de sombras. Riu, pois, seu riso de desespero, para se misturar ao coro e tentar esconder tamanha humilhação.  Por que diabos fora parar ali? A quem ele queria impressionar? Ao neto que sequer prestava atenção naquela vergonheira toda, distraído com as motos prestes a entrar no Globo da Morte? Ou quem sabe à moça no vestido de domingo com pipoca enroscada nos dentes que lhe sorriu: “Saiu?”. Os lábios ali, tão...

Tão ridículo seu segredo sendo exposto assim. Torceu por um princípio de incêndio, a armação desabando e a lona agora vermelha e preta derretendo e grudando na pele do pobre público. As bocas ainda escancaradas.

Não. Tinha tanta criança ali e elas nem sabiam do que estavam rindo.

“Senhor, o texto tá aqui. É só um truque”. Havia certa preocupação no sussurro do artista já não tão mágico e nem tão palhaço diante do voluntário constrangido.

Ainda gargalhadas no escuro.

E as letras realmente estavam todas ali compondo palavras que ele não aprendera a ler. Tão tarde para tudo...

“Tá não moço, tá tudo em branco”.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h59
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A tempestade está se aproximando

Cena do filme "O Abrigo"

 

Dia desses assisti a um filme esquisitão chamado “O Abrigo”, que conta a história de um sujeito atormentado pela ideia de que uma grande tempestade se aproxima. Ele passa a ter pesadelos e alucinações apocalípticas, mas tenta esconder isso da mulher e dos amigos, sem muito sucesso, pois ele resolveu cavar um buraco enorme no fundo de casa e construir um abrigo contra furacões. Sem entrar nos detalhes do filme (que é muito bom e vocês deveriam assistir) o que mais me chamou atenção na história é a maneira como ela expõe a precariedade das relações humanas.

            Enquanto espera pela tempestade, a qual aparentemente está apenas na sua cabeça, olhando sempre lá para o céu, o personagem não se dá conta que ele próprio está colocando sua família num meio de um tornado que mastiga tudo o que vê pela frente aqui no chão. E como o abrigo ainda não está pronto, todos saem feridos.

Diante da certeza de destruição - do tempo que avança sem perdão, com raios que nos assustam e iluminam nossos corpos ruindo abruptamente - as relações pessoais vão sendo dizimadas e o que vemos no horizonte é apenas fracasso e solidão.

É que o tempo passa enquanto temos medo.

Às vezes percebo a tempestade se aproximando quando estou com alguns de meus amigos. Somos um grupo que se conhece há mais de dez anos e esporadicamente inventamos alguma desculpa para fazer um churrasco, tomar cerveja e rir muito. Quem nos vê de longe, deve até admirar tanta cumplicidade. Mas nos últimos tempos comecei a prestar atenção nas nossas risadas e percebi que não há só alegria ali, pois juntos, compomos um riso já meio desafinado, com jeito de tristeza.

 Contamos várias vezes as nossas histórias do passado, tudo o que aprontamos na adolescência, os porres homéricos, as bagunças na igreja, etc. Todos riem muito, mas depois de um tempo atravessa-nos um silêncio que fingimos não ser desagradável (nesse momento percebemos que envelhecemos e que nesse hiato nos tornamos um poucos distantes uns dos outros. Talvez fosse melhor ter ficado em casa...), mas logo alguém emenda um outro causo, que alguém já contou no churrasco passado, e nós voltamos a rir e a beber demais.

Creio que a melhor coisa dessa amizade seja a possibilidade de se reunir a cada três ou quatro meses e poder se lembrar do quanto nos divertíamos antigamente, antes do trabalho e das contas a pagar. Percebo que a história é contada em conjunto, pois sempre alguém se lembra de um detalhe que passou batido, então vamos construindo nossa memória juntos. Mas aos poucos vamos nos dando conta de que já não construímos novas histórias. É apenas o passado que vai ficando mais e mais colorido, divertido, incoerente... Não queremos deixar as fotos amarelarem.

Estamos todos reunidos e quando estamos assim, em bando, o presente não parece ter tanta importância. Um amigo fez uma operação complicada, o pai do outro morreu, aquele trabalha num emprego ruim, logo ele que parecia que iria se dar tão bem, um casou e cursou uma graduação chata só para agradar aos pais, outro teve um filho, o casamento não vai bem, etc. Tudo isso parece não importar tanto, afinal, como você sabe, não é fácil, a vida é meio complicada mesmo e... Mas chega um momento em que percebemos que o fato de refugiarmo-nos no passado não nos liberta desse presente medíocre. Os e-mails diminuem, os telefonemas cessam. Nossas relações começam a desmoronar (ele era mais legal antes, agora ela tá todo metida, eu a deletei das redes sociais, não gosto do jeito dele, mudou muito, pra que beber tanto assim?, a namorada que ele arrumou é uma vaca...) e já nem sabemos ao certo por que ainda nos reunimos. Talvez seja por medo da tempestade que se aproxima.

 

Alguém assa a carne enquanto outro coloca a bebida no congelador, a maioria do pessoal se reúne em torna da mesa de truco. Colocaram um cd dos Los Hermanos para tocar e imediatamente lembranças boas começam a pipocar na minha mente. Todo mundo está sorrindo e ninguém repara nem na música nem no céu ficando cada vez mais cinza. Sentem-se seguros, pois estão sob um abrigo. Finjo que presto atenção na opinião absurda de um amigo a respeito de um filme sobre carros tunados, enquanto cantarolo mentalmente a música da banda carioca “posso ouvir o vento passar, assistir à onda bater, mas o estrago que faz a, vida é curta pra ver.”. Penso comigo, filhos da puta por que acabaram com a banda? Mas logo passo a pensar na semana difícil que se aproxima, nos boletos, nas aulas, nos textos para corrigir.... O amigo continua falando bem de um filme horrível e aparentemente não sou só eu que estou fingindo prestar atenção. A cerveja desce amarga, então atravesso o gramado em busca de alguma bebida destilada e um pouco de silêncio. O som vai diminuindo e no caminho, começa a ventar muito forte. Olho para trás e é como se estivesse com a TV ligada no mute:  vejo que todos estão bem, estão distraídos e parecem até se divertir. As vigas que sustentam o teto da área da churrasqueira são velhas e estão apodrecendo, mas ainda assim parece que vão resistir por mais algum tempo. Volto para ficar com eles antes que caiam os primeiros pingos. Torno a olhar para o céu já todo negro em busca de alguma resposta, mas ainda não sei se sairemos feridos.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h53
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Capitu


Há algo no olhar de Capitu que me comove. Quando sento para escrever ela se põe a passear pelo teclado do computador, deslizando para lá e para cá com sua pose imponente enquanto suas patas fazem diminuir o brilho do monitor ou fazem brotar um idioma desconhecido bem ali no meio do meu texto. Ela caminha por alguns instantes e de repente para, como uma mulher em frente ao jogo na TV pedindo um pouco de atenção do marido, e me encara.

Mas seus olhos não se parecem com os da moça no clichê da propaganda de cerveja e nem mesmo com os da célebre personagem de Machado de Assis, os olhos da minha Capitu não são dissimulados, na verdade eles parecem tristes.

Ela chegou aqui toda pulguenta numa caixa de sapatos cor-de-rosa e assim que se viu livre daquele cubículo me arranhou, correu pela casa, subiu no sofá e tentou atravessar a janela, batendo com a cara no vidro. Encolheu-se no canto, já tinha percebido que a liberdade era uma coisa bem relativa. Passou dias acabrunhada e se escondendo nos lugares mais insólitos. Pensei seriamente que ela passaria a morar dentro do sofá.

Capitu é uma vira-lata e é adotada. Como se não bastasse toda essa pinta de minoria felina, ainda descobrimos que ela sofria torturas. O dono da mãe dela, irritado com tanto miado dos filhotes, resolveu dar-lhes choques para ver se eles se calavam.

Ela tem, sei lá, apenas uns três ou quatro meses. Mais da metade disso sendo devoradas por pulgas e levando choques. Faz parecer toda uma vida.

Dá para entender o seu olhar.

Aprendi a me movimentar com mais calma, para que ela não se assustasse e aos poucos ela foi se aproximando. Agora quando me sento para escrever ou assistir a um filme, ela se aproxima lentamente e deita ao meu lado. Fica ali quietinha, não parece querer algo em troca, apenas compartilhar o silêncio e sentir que tem alguém por perto.

No fim da tarde, um sol já sonolento pinta de laranja as duas Araucárias que posso ver da janela da sala, os cachorros latem para os donos que estão chegando, as crianças do andar de cima começam a correr e as cortinas do bloco ao lado começam a se fechar, pois vai começar a novela. Tomo uma cerveja enquanto observo a vida se ajeitar confortavelmente para dormir. Capitu, na ponta do sofá, mira seus olhos verdes na direção de tudo que se move no gramado lá fora. Ela já não pula de cara no vidro, aprendeu a lição. Está distraída e parece serena. Ainda há tristeza no olhar, mas agora ela sabe que está tudo bem.

 

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 21h11
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Mudanças no Devaneios do Cotidiano

Pessoal, achei que isso aqui tem andando meio confuso, então finalmente resolvi organizar o boteco. Informo que a partir de agora passarei a escrever sobre cinema exclusivamente no blog:

http://cinemaporescrito.blogspot.com

O Devaneios do Cotidiano segue firme e forte, mas apenas com contos, crônicas e resenhas de livros.

Espero que vocês acompanhem os dois blogs ok?

Até breve



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h57
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Inquietos

Gus Van Sant é um cineasta que sabe filmar a juventude com sutileza, pois escapa da violência ou do sexo gratuito, comum nas produções do gênero, e também emprega um ritmo narrativo mais lento, já que não quer filmar um clipe jovem para a MTV. Se em “Elephant” a câmera do cineasta acompanhava, a certa distância, os passos de garotos rumo ao inferno, em “Inquietos” ele se aproxima um pouco mais e tenta entender por que o amadurecimento é tão difícil. No filme, essa passagem para a vida adulta se dá através do processo de luto. Temos aqui um garoto que tenta superar a morte dos pais frequentando velórios de desconhecidos e que acaba conhecendo uma linda garota por lá. Ao tornar seu filme mais verbal (talvez até mais acessível para quem não conheça os trabalhos do diretor) Van Sant torna-se um pouco didático, pois, por exemplo, se a metáfora do pássaro que acha que morre todos os dias é bonita (embora um pouco óbvia), mais bela ainda é a cena em que os dois jovens correm pelo corredor do hospital. E é bonita porque há silêncio, porque as imagens compõe o belo sentimento sem precisar de palavras. Com erros e acertos, ainda assim “Inquietos” é um grande filme. 4/5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h14
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Hanna

Surpreendente esse “Hanna”. Uma espécie de  “Identidade Borne” só que protagonizado por uma garota que segue o  estilo violento/fofinho da Hit-Girl (Kick Ass).  O clichê espiã-que-não-sabe-nada-sobre-seu-passado é compensado pela ótima trilha sonora do The Chemical Brothers e principalmente pela boa direção de Joe Wright (Desejo e Reparção). Eric Bana Cate Blachett cumprem muito bem as suas funções de coadjuvantes de luxo, mas o filme é mesmo da pequena Saoirse Ronan (do pavoroso “Um Olhar do Paraíso”), a sua insensibilidade – fruto de muito treinamento – rende as melhores cenas do longa. Como todo bom filme de espionagem, o roteiro é confuso e cheio de reviravoltas. Mérito também para o final que, apesar de fazer lembrar uma cena famosa de “Cidade de Deus”, tem jeitão de anticlímax. 4/5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 18h24
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MELHORES FILMES DE 2011

 

            Assisti pouco mais de 130 filmes em 2011, bem pouco se comparado a alguns cinéfilos por aí, mas além das porcarias que mencionei no post passando, também vi algumas coisas bem boas. Segue abaixo a lista dos 10 melhores.

 

10 – UM LUGAR QUALQUER

Gosto muito dos filmes da Sofia Coppola, pois percebo nela uma grande sensibilidade para tentar entender os sentimentos humanos, em especial a solidão. O olhar que sua câmera direciona aos personagens é sempre muito contido, delicado. Muita gente acha que em “Um lugar qualquer” nada acontece, mas basta prestar mais atenção para perceber o vazio e a angústia dominando todos os espaços.

Melhor cena: O carro dando voltas e voltas e voltas e não chegando a lugar nenhum, assim como a vida do protagonista.

 

9 – DEUSES E HOMENS

O longa sobre os monges que sofreram com a ira de fundamentalistas islâmicos na Argélia fala não só sobre a intolerância, mas também sobre a bondade, sobre a possibilidade de fazer o bem ao próximo de uma maneira que nem todos estão acostumados: respeitando-o. 

Melhor cena: O último jantar

 

8 – CISNE NEGRO

Pobre “Cisne Negro”, apanhou tanto da crítica na época do Oscar (algumas discussões foram de fazer inveja pras tias do ônibus) que fiquei até com pena. E provavelmente algumas pessoas até já torceram o nariz quando viram o filme nessa lista. Mas o lado bom de não ser crítico e nem jornalista nem nada é que eu posso dar a minha opinião de povão, sem embasamentos super técnicos e super inteligentes. O fato é que vi o filme e fiquei de boca aberta, pois adorei tudo, a fotografia, as músicas, o desempenho da linda da Natalie Portman. Enfim, achei o filme muito foda. 

Melhor Cena: As visões macabras da bailarina

 

7 – AMORES IMAGINÁRIOS

Saber que o filme foi dirigido por um piá de 21 anos me deixou abalado, pensei em suicídio e tal. Mas como suicidar-se só por inveja não é uma coisa muito nobre, tive que reconhecer que o talento do rapaz é realmente espantoso. Achei interessante não só a história do triângulo amoroso bastante problemático, mas também a maneira segura com que o jovem cineasta conduziu sua câmera. 

Melhor Cena: Marie e Francis caminham em slow-motion

 

6 – CÓPIA FIEL

Juliette Binoche (ai, ai...) caminhando pela Itália e falando sobre arte. Só essa informação já justificaria o filme nesta lista, mas ele é muito mais que isso. O cineasta iraniano Abbas Kiarostami criou uma obra-prima bastante complexa (após os créditos finais, meu cérebro quase entrou em pane de tantas interpretações que fiz e, devo dizer, provavelmente nem compreendi tudo) e de extrema beleza, que vão desde os belos diálogos, até os detalhes nos reflexos, as casais ao redor, as cópias...

Melhor cena: Após um comentário da dona de um café, já não sabemos o que é ficção e o que é realidade.

 

5 – BLUE VALENTINE

Esse filme provavelmente não estará em nenhuma lista de melhores do ano. Eu o coloquei aqui por uma questão sentimental. Explico: quando um filme consegue me emocionar de verdade, no sentido de não apelar para clichês e fazer com que eu pense muito sobre minha própria vida, normalmente é uma obra que eu não esqueço tão fácil. Blue Valentine não me deixou indiferente, fez com que eu reagisse de alguma forma, arrancou isso de mim apenas contando a história de um amor que não deu certo. Não esperava nada do filme e agora volta e meia me pego pensando naquela tristeza toda.

Melhor Cena: A noite no motel futurista.

 

4 - 50/50

Uma comédia sobre câncer e com o Seth Rogen no elenco. Tinha tudo para ser um filme de humor grosseiro (nada contra humor grosseiro ok, eu particularmente até gosto, mas nesse caso seria ridículo). Que nada. “50/50” é uma espécie de “dramédia” absolutamente sensível, na qual um tema muito pesado é tratado de maneira leve, delicada até. Se num momento você quase rola de rir (“O Patrick Schweizer morreu?) no outro é difícil disfarçar as lágrimas (“Você seria uma boa namorada”).

Melhor Cena: O livro cheio de anotações.

 

3 – A PELE QUE HABITO

Um grande filme, de um grande cineasta. Sempre esperamos isso deles, mas às vezes eles dão umas patinadas que nos decepcionam. Almodóvar volta a ocupar o seu lugar entre os grandes, após esse perturbador estudo sobre a alma humana e sobre os limites do gênero. O mundo do espanhol é bastante colorido, mas aqui ele se mostra sombrio e perverso. É um filme que te acompanha por muito tempo, pois são muitas as questões que impregnam na sua mente.

Melhor cena: Uma cirurgia muito importante.

 

2 – MEIA-NOITE EM PARIS

Woody Allen, assim como Almodóvar, faz o seu melhor trabalho em muito, muito tempo. E, quando um diretor genial acerta a mão, estamos diante de uma obra poderosa. Gosto muito de literatura e vê-la tão presente num filme do cineasta que mais admiro foi um dos melhores momentos desse ano. Com toda certeza saí do cinema com cara de bobo alegre e com vontade de morar na Paris dos anos 20.

Melhor Cena: Salvador Dali curte rinocerontes.

 

1 – DRIVE

Nada me surpreendeu mais esse ano do que o longa dirigido por Nicolas Winding Refn. Só os primeiros cinco minutos (uma cena fantástica de fuga) já fazem o filme valer a pena. O clima retrô e as explosões súbitas de violência fazem lembrar Tarantino e David Cronenberg, mas ele discute também a questão da solidão e da inadequação social. Tudo isso, mais o elenco impecável e a ótima trilha sonora fazem de Drive um filme bastante singular, para ver e rever e rever....

Melhor cena: Alguns chutes dentro de um elevador

 

 

Ficaram de fora, mas por muito pouco: O Palhaço, A Árvore da Vida, O vencedor, Passe Livre, Planeta dos Macacos - Origem , Amor a Toda Prova e Rabbit Hole.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h19
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OS PIORES FILMES DE 2011

 

Quando vejo um filme ruim a primeira coisa que passa pela minha cabeça é “Ok, acabo de jogar uma hora e meia da minha vida no lixo”, a segunda é “Quero arrancar meus olhos com uma colher!!”. Mas não adianta, já vi o filme, a lembrança ficará cravada no meu cérebro junto com os meus outros traumas. São momentos que eu poderia ter aproveitado melhor, dormindo, estudando quiromancia, palitando os dentes ou lendo a Caras, mas...

Segue abaixo o 10 piores momentos de 2011. Digam aí se eu esqueci de algum filme. (Obs: Assisti a esses filmes nesse ano, mas alguns deles já foram lançados há bastante tempo)

 

10 - SANTUÁRIO

            Várias pessoas presas num lugar, tentam escapar, mas vão morrendo um de cada vez. Acho que já vi essa história...

            Pior cena: Vou me sacrificar para salvar todo mundo ohhhh

 

9 - EM UM MUNDO MELHOR

            Filme que tenta equiparar o sofrimento de uma família riquinha da Dinamarca aos miseráveis da África. Faça-me o favor né?

            Pior cena: Se levar um tapa, ofereça a outra face. E não é que o cara ofereceu mesmo?

 

8 - SEMPRE AO SEU LADO

            Richard Gere + Cachorro = Zzzzzzz (povo do Facebook deve A-DO-RAR esse filme, pois não tem coisa mais fofa que cachorro fofo sofrendo e “passando uma lição de lealdade” né? né? né?)

            Pior cena: O cachorro esperando, esperando, esperando e a musiquinha triste avisando que é pra gente chorar...

 

7 - INSOLAÇÃO

            Filme no estilo: “Olha mãe, como eu sou inteligentão!”

            Pior cena: Escolha aleatoriamente qualquer diálogo e você terá a pior do filme.

 

6 - O ALBERGUE 2

Se o primeiro já era ruim, este aqui prova que é sempre possível piorar

            Pior cena: Partida de futebol com uma cabeça decepada.

 

5 - CENTOPÉIA HUMANA

            O cara costura a boca de uma pessoa no ânus de outra, sem mais.

            Pior cena: Como fazer para ir ao banheiro?

 

4 - HUSK

            Um espantalho assassino e costureiro(!) que mata jovens burros e sarados.

            Pior cena: As de corte e costura.

 

 

3 - COLHEITA MALDITA - GÊNESIS

            Não dá pra explicar em palavras o quanto esse negócio é ruim, só vendo mesmo. É um bom presente para dar no inimigo-secreto.

            Pior cena: O incrível policial que foi para o espaço

 

2 - RUBBER

            Um Pneu que (pausa dramática 1) mata as pessoas com (pausa dramática 2) o poder da mente?!. Sério.

            Pior cena: O pneu voyeur

 

             1 - BESOURO VERDE

            

            Não dá para acreditar que Michel Gondry fez uma cagada dessas.

            Pior cena: Todas, sem exceção.

 

           OBS: "Lanterna Verde" não está nessa lista, pois não tive coragem de assistir

            Em breve: “Os Melhores filmes que vi em 2011



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h37
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55 MIL VISITAS!!

     Quem diria, o blog atingiu a marca de 55 mil visitas. Em se tratando de um blog sobre cinema/literatura que é atualizado pouquíssimas vezes, esse é um volume de visitas que me deixa muito feliz.  Nunca ganhei um real com o Devaneios do Cotidiano, mas ele sempre foi um espaço muito importante para mim e por isso está há tantos anos no ar. Agradeço a todo mundo que lê e indica para outras pessoas. Brigadão!



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h14
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VOADORA COM OS DOIS PÉS NO ESTÔMAGO

 

As frases de Eliane Brum deslizam como facas e abrem feridas que nos sorriem um sorriso sujo de sangue. E a escrita da autora é tão saborosa/dolorosa que não viramos para o lado quando esse sorriso vira uma gargalhada de desespero e o sangue respinga bem no nosso rosto.

Não, não se trata de um romance macabro sobre algum serial killer. “Uma Duas” é sobre a precária relação mãe e filha, aliás, sobre mãe filha, e também sobre o abismo que existe entre (e dentro de) uma e outra. Não é por acaso que não há vírgula nem conjunção neste título.

A filha ama e odeia a mãe –o ódio claramente prevalece - e agora terá que cuidar dela, já que a idosa foi encontrada quase morta em seu apartamento, cheio de fezes e urina no chão. Já de cara percebemos que a relação entre as duas nunca foi boa, então não caímos no clichê de já achar algum culpado por causa daquela situação. Está bem claro que a velha não ficou naquele estado (o gato até lhe comeu parte do pé) porque a filha supostamente a abandonou. Os olhares das pessoas ao redor condenam a filha desnaturada, mas sabemos que há muito mais por trás disso tudo, afinal a mãe não é tão boazinha assim.

Embora explore o fluxo de consciência dos personagens, a narrativa segue num ritmo rápido, com uma linguagem elaborada que flerta com o escatológico apenas quando necessário e com diálogos surgindo no meio das frases, sem aviso ou travessões. E esse recurso se mostra acertado, pois às vezes parece confundir fala e pensamento. As revelações das personagens são feitas de forma seca e impiedosa. Eliane Brum consegue muito bem transformar a dor em palavras e nesse sentido “Uma Duas” é muito mais que um soco no estômago. Lendo a brutalidade verbal dessa narrativa logo me lembrei de “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, que assim como Brum, faz o verbo virar carne e não se furta a passar uma lâmina para rasgá-lo ao meio e expor suas vísceras. Então vemos por escrito aquilo que pensamos em nosso íntimo, nos nossos abismos imundos, mas que não temos coragem de transformar em palavra (daí o fato interessante de misturar diálogos e fluxo de consciência). Pois a palavra nos remete ao labirinto da realidade e dá contornos a um mundo no qual não gostaríamos de nos perder.

Quando um autor dialoga conosco desta forma, “espera aí, ela leu meus pensamentos? Logo aqueles pensamentos que me envergonham tanto?” percebemos que fomos traídos, já não estamos lendo um livro, na verdade nós é que estamos sendo lidos por este livro e é a nossa feriada cheia de moscas ali exposta para todos verem. É uma leitura que não esquecemos simplesmente, pois mesmo que fechemos a capa do livro, sentimos a infecção avançar no nosso íntimo.

Mas há dois lados a serem observados nessa história. A certa altura do livro a mãe também passa a narrar e é neste momento que a leitura se torna devastadora. Quando você já tinha se convencido de que o livro é uma voadora com os dois pés no estômago, é novamente surpreendido e percebe que já havia uma faca cravada ali. Então ficamos sem saber se ela foi mesmo cravada ou se simplesmente brotou já que não é uma faca desconhecida, pois como escreveu João Cabral: “qual uma faca íntima / ou faca de uso interno/ habitando num corpo / como o próprio esqueleto”.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
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ACORDAR NUMA SEGUNDA-FEIRA

Fonte

 

O celular desperta. Na verdade eu desperto, pois o celular toca o despertador. A música não é irritante. Pelo menos não tão irritante quanto as três anteriores. Aliás, não é nem música, é um toque, um ringtone, um barulho. Não coloco mais músicas para tocar quando acordo, pois passo a odiar a melodia já no segundo dia, pois costumo relacionar as músicas ao momento da minha vida em que eu as escutei - por isso, às vezes, temos até vergonha de admitir que gostamos de uma música meio ridícula. Não gostamos da música ruim, gostamos da lembrança que ela nos traz -, portanto qualquer som que eu escute às 6:25h de uma segunda-feira sempre me trará a lembrança de uma manhã de segunda-feira, mesmo que seja Beatles. Creio que no inferno as horas não passam (pra quê medir a eternidade?), mas lá devem existir muitos relógios, milhões de relógios parados espalhados para todos os lados, só de sacanagem. E adivinhem o horário que os ponteiros infinitos marcam?

            Despertamos, eu e o celular, cada qual com seu resmungo. No quarto ainda escuro sinto a tristeza arranhar o estômago. O cérebro é o chefe, mas quando o sentimento é intenso (caralho, cadê minha carteira?; Quem morreu?; Desculpe, mas eu não te amo mais; Alô?) passa primeiro pelo estômago. Ao acordar, passo a enfileirar todos os problemas que terei que enfrentar naquele dia: o primeiro ônibus, o segundo ônibus, a papelada na minha mesa, os funcionários brigando entre si, o presente do fulano, a conta para pagar, etc. Isso tudo no curto espaço entre acordar e virar para lado implorando “Deus, se você existe me dê mais cinco minutinhos de sono!” E caso eu cochile nesses cinco minutos, acordo assustado e recomeço o processo: o primeiro ônibus, o segundo ônibus...

            Afasto a cortina e a luz do dia se esfrega na minha cara: vai ser de sol? Vai ser de chuva? Tanto faz o cenário, pois nesse horário tudo parece inóspito. Arrasto meu corpo até o banheiro. Já não reconheço aquele rosto cansado aprisionado no espelho. Aos poucos ele se distancia e desaparece. Quem de nós dois desaparece?

            Enquanto me visto, penso nas pessoas da TV, nas pessoas-super: super bem resolvidas, super dispostas, super entusiasmadas que saem cedo de casa para mudar o mundo. Sinto inveja delas, pois por mais que elas estejam mentindo para manter seus empregos ou impressionar os amigos e que muitas delas sejam apenas estúpidas, elas conseguem fingir felicidade com uma naturalidade que admiro. Choram no banheiro, é certo, mas fingem muito bem.

            Não acordo de mau humor (aquele disfarce que usamos para descontar nos outros as frustrações por nossos fracassos) e nem com muito bom humor (outro disfarce, menos agressivo, mas tão chato quanto). Acordo num desespero cálido, que aos poucos se desmancha no estômago feito remédio para azia. É que pouco importa se estamos rindo ou chorando na palidez da manhã de uma segunda-feira já que a vida segue (ela insiste em seguir) com ou sem nós, independentemente da pena que sentimos por nós mesmos.

            Durasse o dia todo, eu faria um drama e diria que esse sentimento incômodo é um dos estágios da depressão. Mas o cheiro do café, a textura da caneca e o vapor que toca meu rosto emprestam um pouco de vida ao desânimo e disfarçam bem a tristeza, tornando até suportável o início da semana, o recomeço da repetição. Tento pensar nas coisas boas, mas logo percebo que estou atrasado para pegar o primeiro ônibus. Saio correndo e no caminho tento me lembrar se por acaso eu não esqueci a porta da geladeira aberta.

           



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h16
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ZELIG

 

Quando assisti “Forrest Gump” e vi aquela mistura de fatos históricos com ficção, fiquei fascinado e achei tudo muito original. Mas vasculhando alguns dos clássicos de Woody Allen descobri que o artifício já havia sido utilizado bem antes, e de forma brilhante. “Zelig” é um falso documentário que conta a vida de Leonard Zelig, um sujeito que tem uma capacidade absurda: ele transforma a sua aparência e adapta sua personalidade de acordo com as pessoas que estão ao seu redor. Quando está ao lado de um negro, a sua pele escurece, quando conversa com um chinês, começa a desenvolver os traços físicos de um chinês, perto de um psicólogo, começa a analisar as pessoas e assim por diante. Logicamente o sujeito é visto com um ser bizarro, digno de freak show e a mídia faz o possível para explorar ao máximo esta história incrível. Qualquer semelhança com o circo da imprensa que vemos atualmente não é mera coincidência. Através de ótimas montagens (o filme é de 1983), o personagem aparece em diversos momentos históricos, ao lado de presidentes dos EUA e até num discurso de Hitler. É interessante que um filme já um pouco antigo (putz, eu nasci em 1983, agora fiquei deprimido...) consiga ser tão atual, pois o que ele discute é justamente a questão da imagem, do sujeito que se sente sozinho e, por querer que as pessoas gostem dele, perde a personalidade para agradar os outros. Mas como se trata de um filme de Woody Allen, há também muito humor, pois ele é do tempo em que o termo “humor inteligente” fazia sentido. Por exemplo, num certo momento o personagem diz: “Fui à sinagoga e o rabino me contou o segredo da vida... só que foi em hebraico. Depois ele quis cobrar 200 dólares por um curso de hebraico”. Um clássico imperdível. Avaliação: @@@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h54
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O PALHAÇO

 

Quando assisti ao primeiro filme dirigido pelo Selton Mello (já comentado aqui)  fiquei entusiasmado com o trabalho daquele que, para mim e para muita gente, é um dos melhores atores de sua geração. Pois bem, o debute de Selton atrás das câmeras, não foi tão bem recepcionado pela crítica, uma vez que alguns ranzinzas o acharam “pretensioso” ou pesado demais. Uma bobagem é claro, afinal o tema era pesado e não havia necessidade de fazer um filme mais leve. Ele peca por alguns exageros é claro, mas acho “Feliz Natal” um grande filme. Passados alguns anos, o ator-diretor retorna com um trabalho mais maduro e, porque não dizer?, mais leve. Não que a história do palhaço Pangaré não seja pesada, pelo contrário, o pobre coitado está deprimido e em sua crise passa a questionar o seu lugar no mundo. Mas o tema circense abranda um pouco as coisas e a maneira que Selton Mello conta essa história, com cores vivas e personagens que ora parecem bizarros, ora parecem absurdamente reais é, sobretudo, terna. É visível o carinho direcionado aos personagens que se reúnem, com todas as suas diferenças, para formar uma família (veja como é bela, por exemplo, a alegria que os artistas demonstram ao cumprir funções técnicas do circo, como cuidar da iluminação e como é emocionante perceber que torcem, de verdade, pelo sucesso uns dos outros). “O Palhaço” é um filme que preza pela aparente simplicidade, mas que demonstra grande sofisticação, através tanto dos bons atores e da ótima fotografia, quanto das referências cinematográficas (Wes Anderson ficaria lisonjeado). Melhor filme nacional que eu vi esse ano. Avaliação: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h02
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ATIVIDADE PARANORMAL 3

 

Achei o primeiro filme um lixo, principalmente por causa da propaganda enganosa que dizia que era um fenômeno, um dos mais arrepiantes da história e bobagens mil. Do segundo, passei longe. Este terceiro só assisti, porque fiquei com preguiça de encarar uma fila gigante para ver “Contágio”, do Steven Soderbergh. É não é que essa continuação é muito boa? Ok, a história não tem nada de original e muito menos de genial, mas no caso do terror/suspense isso nem é tão importante desde que você leve alguns sustos e se divirta. E em “Atividade Paranormal 3” eu quase pulei da poltrona várias vezes (pelo menos umas 5) e fazia muito tempo que isso não acontecia. A história desse terceiro é uma bobagem, mas aqui ele consegue algumas variações para o tal esquema manjado: um sujeito coloca câmeras numa casa onde coisas estranhas acontecem e capta fantasminhas não muito camaradas aprontando à noite. Ao colocar a câmera sobre a base de um ventilador, por exemplo, o filme consegue criar um clima de suspense absurdo, de fazer você ficar sem respirar. As atuações dos adultos são bem ruizinhas, mas as crianças estão ótimas (que medo daquela menininha!). Enfim, fui assistir sem expectativas e acabei adorando. Mas continuarei sem assistir o 2. Avaliação: @@@  



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h41
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SUBLINHEI NUM LIVRO

        Tenho lido (e adorado!) as crônicas de António Lobo Antunes e divido aqui com vocês alguns dos trechos que andei sublinhando:

“Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para passar a ser crescido (...) Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho certeza: não sei se sou crescido”

 

“Pronto, voltem para a cama i-me-di-a-ta-men-te. A gente voltava e logo a seguir tinha trinta anos. Reparava-se então que a maior parte das pessoas se havia tornado fotografias”

 

“as minhas avós e as minhas tias cuja intimidade com os santos me maravilhava e que se apressaram a ensinar-me o catecismo a partir do dia em que perguntei apontando uma pagela do Espírito Santo

- Quem é este pardal?

Tentando explicar-me que Deus não era pardal, era pombo, e eu imaginei-o logo na Praça de Camões a comer à mão dos reformados, o que não me parecia uma actividade muito compatível com a criação do universo”

 

“Os Natais agora sou eu atrás das palavras de um romance (...) Mas pode ser que para o ano (...) meu avô reapareça, me volte a pousar a mão no ombro, me faça aquela festa que ele fazia com o polegar na nuca

(- O meu netinho)

e eu sinta de novo a sua força e ternura, sinta de novo, como sempre senti, que estando junto dele nunca nenhuma coisa má, nenhuma coisa triste, nenhuma coisa reles me poderia acontecer porque o meu avô não havia de deixar”

 

“É impossível escrever sem contradição, tortura, veemência, remorso e essa espécie de fúria indignada das sarças ardentes que lança as emoções umas de encontro às outras num exaltamento perpétuo. As idéias muito fortes deságuam nas certezas e onde estiverem certezas a arte é impossível”

 

“Minha sede de aplauso é nula porque meu apetite de escrever é enorme”

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 18h44
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A Pele Que Habito

 

Há muita cor no cinema de Almodóvar. São cores fortes, marcantes e muitas vezes exageradas assim como seus personagens. Essa é a pele dos seus filmes. Neste mais recente há predominância do vermelho (aliás, eu não via tanto vermelho assim desde “Gritos e Sussurros”, de Bergman). São vestidos, cadeiras, cinzeiros, lençóis e também sangue, pois embora não abandone as cores vivas, agora Almodóvar está sombrio. Quando assisti “Fale com ela” passei a achar o cineasta espanhol um gênio, mas com o passar do tempo e de alguns filmes não tão bons, passei a questionar essa genialidade toda. Fiquei até com preguiça de ver o anterior, “Abraços Partidos”. Mas eis que surge esse “A pele que habito” para acabar com qualquer questionamento: sim, ele é um grande cineasta. Nesta macabra e ao mesmo tempo sensível história de um cirurgião com jeitão de Frankenstein, Almodóvar não só discute as questões sobre ambiguidade sexual que lhe são tão caras, como também faz uma análise interessantíssima sobre nossa exterioridade. Sobre como nossa forma física pode aparentemente determinar quem somos, mas não consegue esconder nossos segredos mais podres, aquilo que temos de mais enrustido. Almodóvar nos mostra que no fundo todos nós estamos fantasiados. Nota: @@@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h14
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A Árvore da Vida

 

Falaram tão bem e tão mal desse filme que até fiquei com receio de vê-lo. Quem odiou disse que parecia um documentário do Discovery Channel. Quem falou bem, tentou explicar por que gostou, mas explicou de uma maneira tão acadêmica que fez parecer que era necessário fumar quilos de maconha ou consumir muitos cogumelos alucinógenos para entender a viagem do cineasta Terrence Malick. A história do pai autoritário que marca a vida dos filhos (e deixa cicatrizes profundas) nem é tão importante (tanto não importa que o Sean Penn está ali com cara de bobo, completamente sem função, menos até que o tal dinossauro, mas não chega a estragar o filme), a beleza de “A árvore da vida” está na sensível sequência de imagens, silêncios e sons, que enquadram perfeitamente o sofrimento/amor daquela família. É como se fosse possível sentir a textura daquelas cortinas esvoaçantes que avisam que as janelas estão abertas. E é da janela que nós, muitas vezes, apenas observamos o mundo acontecer. Diria que é um filme para se sentir e não racionalizar, mas acho que isso soaria meio bizarro (ou gay). Obs: tomei três cervejas enquanto assistia ao filme, talvez isso tenha ajudado a construir uma visão subjetiva (em que o enredo até faz sentido, com dinossauro e tudo) da obra. Nota: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h03
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Amor a toda prova

 

Implico com comédias românticas, pois depois que inventaram a fórmula “Casal improvável se conhece + no começo se odeiam, depois de apaixonam + ficam juntos + algo dá errado e eles se separam + resolvem o problema + aprendem uma lição + vivem felizes para sempre”, parece que os roteiristas se limitaram a apenas repetir essa sequência narrativa exaustivamente. Vez ou outra surge um “500 dias com ela” da vida, para salvar a pátria, mas é raro.

Recentemente assisti o delicioso “Amizade Colorida” que também foge da tal fórmula e diverte (e muito) sem subestimar a inteligência do espectador. Mas é “A amor a toda prova” que me fez rever o meu preconceito contra comédias românticas. Assisti meio desarmado, não li nada a respeito, pois nem sabia direito que esse filme existia e isso só contribuiu para que a experiência fosse ainda melhor.

Não sei ao certo se dá para classificá-lo como comédia romântica, pois em meio às gargalhadas podem surgir muitas lágrimas. O elenco todo é espetacular, estão lá: Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Marisa Tomei e Kevin Bacon. O filme conta a história de um casamento desgastado que desaba de vez após a revelação de que houve uma traição. A partir daí o marido (Carrell, sempre brilhante) tentará se reconstruir como homem e para isso terá a ajuda do garanhão Jacob (Gosling) que frequenta o mesmo bar que ele e já está de saco cheio de vê-lo reclamar da vida. Paralelamente temos a história do filho mais novo, que se vê apaixonado pela babá adolescente, a qual está apaixonada pelo pai do garoto.

Lendo este breve resumo a sensação que temos é de que já vimos essa história e que o filme não passa de uma repetição de clichês. Mas a solução encontrada pelos roteiristas para desenvolver estes arcos dramáticos é de uma sensibilidade impressionante, pois consegue mesclar cenas absurdas e engraçadas, com outras sensíveis e dramáticas. Isso tudo sem o uso de narradores ou muita verborragia.  A história vai se construindo com vários momentos de silêncio, de coisas não-ditas, que fazem com o espectador preencha as lacunas e ajude a construir a história dos personagens.

O filme não só escapa dos clichês como faz piadas com eles. Num certo momento (aviso: talvez isso seja um pequeno spoiler), após a hilária cena do tanquinho, Jacob oferece bebida para a garota e então eu logo pensei “Pronto, ele vai fazê-la dormir, não transará com ela por respeito e eles se apaixonarão”. Foi só eu pensar isso e a personagem disse “ok, já conheço isso, você vai me fazer dormir, não transará comigo e...”. Eu quase rolei de rir por causa disso.

“Amor a toda prova” está muito além das comédias românticas. É um belo filme (um dos mais belos que assisti nos últimos anos) sobre o amor, sobre o valor da família e dos amigos. E embora tudo isso possa parecer muito clichê, é muito bom quando um filme consegue nos fazer enxergar o óbvio de maneira tão bonita.

 

Avaliação: @@@@



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h17
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