BELO DIA PARA UM SUICÍDIO

["Estava especialmente tranqüilo desta vez e não desacelerou o processo, como sempre fazia com intuito secreto de dar chance para o arrependimento covarde. Com destreza fez o nó, subiu na cadeira e passou a corda pelo pescoço"]
É irônico que isso tenha acontecido em uma tarde de tanto sol, pois tanto a morte, quanto Curitiba não combinam com roupas coloridas e rostos felizes. Talvez fosse esse tipo de discrepância que rondava a mente daquele homem, enquanto ele apertava o nó com a destreza de um marujo experiente. Pudera, foram tantas as tentativas.
A pequena janela abocanhava seu pedaço de claridade que escapava através das frestas dos prédios da Lamenha Lins. A sensação se assemelhava a de um forno recém aberto, mas sem o cheiro de comida como consolo. O homem sentia em seu buço a formação daquelas pequenas gotinhas irritantes, que teimavam em salgar os lábios, enquanto pensava nos parques que estariam lotados àquela hora. Ele imaginava as senhoras do Batel e seus óculos enormes, com maquiagens multicoloridas escondendo seus rostos enquanto passeavam pelo Jardim Botânico ou pelo Barigüi, “com seus cachorros de revista que cagam em tudo enquanto as donas cagam pra tudo”, como costumava dizer um colega seu. No Passeio, os irritantes sorrisos de porcelana se repetindo, como se fossem feitos para revender. Agora até seu tédio diante da vida parecia estar na prateleira, pois não era só com ele que isso acontecia, na verdade ninguém mais suporta a felicidade alheia. Quem sabe o ritmo de competição, comum nestes tempos de capitalismo corrosivo, tenha desregulado alguma coisa dentro das pessoas, a sensação térmica talvez, pois a sensação de frio ocorria mesmo em dias insuportavelmente quentes como aquele.
Considerava-se um sujeito crítico e justamente por isso levou uma vida que poderia ser classificada como fracassada. O livro que ambicionava escrever ruiu na página oitenta, perdido em imbróglios sintáticos e enredos excessivamente herméticos. Nunca permitiu-se ir adiante com algo medíocre, suas produções deveriam ser perfeitas ou não deveriam existir. A segunda opção prosperou. E agora percebe que foi um erro ter largado as aulas no colégio particular, pelo menos na gramática cada coisa parecia estar em seu devido lugar. Sabe que, a esta altura, ler as pilhas de livros que se espalham pela casa não daria conta de garantir três refeições diárias para sua família. O salário que a esposa recebia como professora do estado era a única fonte de renda da casa. O filho de nove anos teve que voltar para a escola pública e naquele momento estava à mesa da cozinha, fazendo a lição de casa.
Aquele homem tinha consciência de que suas vaidosas ambições literárias acabaram por decretar a ruína de sua família. Desta forma, pensava em suicídio com mais freqüência do que uma pessoa normal, pois as pessoas normais insunuam-se com giletes e venenos apenas quando suas vidas fraquejam e então se dão conta da noção de ‘câmbio automático’ que é a existência, e mesmo assim, isso não passa de um recurso retórico para inspirar a piedade dos seus. Essas pessoas nunca vão adiante com seus sonhos, pois consideram o argumento contrário mais cômodo, elas bastam-se em suas justificativas e seguem em estado de repouso. Mas dentro deste microcosmo mesquinho, ele considerava-se singular, percebia a morte como algo necessariamente empírico e não apenas especulativo, via de regra bastava-lhe alguma alegria sufocante, como o sorriso do filho, para que ele se imaginasse borrado de sangue no piso do banheiro. Não se julgava digno deste amor absurdamente sincero e era apenas esta autocrítica que seu discurso egoísta lhe permitia. Pensava em desistir da vida justamente por não conseguir aceitar as coisas boas que ela lhe proporcionava e isso, segundo ele próprio, o fazia diferente dos demais.
Tentou suicidar-se diversas vezes. Em todas elas algo deu errado, mas não foram apenas comprimidos insuficientes ou cortes muito superficiais, na verdade, era sua coragem que vacilava diante da alternativa que tantos consideravam como sendo “a mais fácil para resolver todos os problemas”. Para ele, o suicídio era um gesto de bravura.
Desde que comprou o rolo de corda no começo do ano, faz e desfaz o nó como quem amarra o cadarço do tênis, pensando que talvez a repetição o levasse à naturalidade. Desta vez estava decidido a levar o plano a cabo e a sensação de calor insuportável o impelia a acabar de uma vez por todas com aquele inferno. Com uma talhadeira e um martelo, arrancou partes do forro para afixar a corda em um caibro forte, que obviamente conseguisse sustentar o peso do seu corpo. Disse para o filho que estava arrumando a rede elétrica, o menino deu de ombros. Estava especialmente tranqüilo desta vez e não desacelerou o processo, como sempre fazia com intuito secreto de dar chance para o arrependimento covarde. Com destreza fez o nó, subiu na cadeira e passou a corda pelo pescoço. Pensou, não sem tristeza, que lá fora a cidade acontecia de maneira natural, alheia às tragédias que cada lar escondia sob o segredo de suas paredes.
O filho não sabia se a palavra “descansar” era com “s’ ou cedilha e resolveu perguntar ao pai. O silêncio que se sucedeu após a barulhenta destruição do forro não causou estranheza no menino, afinal o pai sempre ficava ali no quarto dos fundos, quieto lendo alguma coisa e não gostava muito de ser incomodado. Bateu duas vezes e abriu a porta, o bafo do calor enclausurado soprou pelo seu rosto e a primeira coisa que o menino viu foi o bilhete sobre a escrivaninha.
Depois, observou o redor, o quarto estava vazio, mas ainda exalava o cheiro de suor que lhe era familiar. No teto, o buraco incompreensível do forro se assemelhava à boca desdentada de algum monstro estúpido, desses de desenho animado. Correu os olhos pela letra arredondada do pai, que informava que ele fora caminhar na praça, para descansar um pouco a cabeça e que logo voltava. O menino foi para a cozinha rindo daquela coincidência, já desconfiava mesmo que se escrevia com “s”. Ele adorava aqueles bilhetes. Voltou para sua lição e mal se deu conta do rolo de corda que jazia no canto da cama, com o nó desfeito.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h20
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
VIDA EM RASCUNHO

adoecem-me nos olhos
os parcos sonhos
que ousei desenhar
poesia que apodrece,
numa sina vaidosa
de querer tudo versar
sangra por entre versos
este pobre lamento
por alguém que não pude amar
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h18
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
FÁBULA DE ISOPOR
O MENININHO CINZA

Oswaldo Goeldi - “Beco”
Era uma vez um menininho cinza. Um menininho cinza muito esperto, que sabia dançar, que sabia se esconder, que sabia fazer malabarismos, que sabia até dormir com o pé gelado. O menininho cinza morava numa cidade enorme e quando passeava pelas ruas ele não era notado, pois sua pele era da mesma cor que o asfalto, que os prédios e que o céu. Sendo assim, ele gostava de brincar de homem-invisível. Passava perto das pessoas, falava qualquer coisa e elas logo fugiam assustadas. De certo um fantasma, talvez eles pensassem. E ele ria. Certa vez, numa destas certas vezes em que lhe doía a barriga, passou por uma feira e viu um cachorro roendo uma coxa de frango que alguém descartara no chão. Sua boca encheu-se de água. O menininho aproveitando-se de sua invisibilidade foi até o bicho e roubou-lhe a comida, mas para sua surpresa ele o enxergou e não gostou nada nada daquilo, pois rosnou mostrando-lhe os dentes afiados. O cachorro disse-lhe algo, afinal era uma fábula, mas o menininho cinza não entendeu. Rapidamente todas as pessoas que estavam na feira olharam para a pequena figura que estava com a coxa de frango na mão. Ele não estava mais invisível. Aqueles olhos eram olhos de condenação ou de pena, não se sabe. O menininho cinza ficou confuso e sentiu-se muito envergonhado. A solução era sair dali. Então ele correu, correu, correu até não mais sentir a sola dos pés. Entrou num beco e enfiou-se numa caixa de televisão, seu esconderijo secreto. Naquele dia, naquele Era uma vez, o menininho cinza ficou triste, mas também ficou contente. Triste porque perdeu os seus super-poderes e contente por ter ficado com a coxa de frango.
MORAL DA HISTÓRIA: "O que é do bicho, o homem come"
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h59
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
o amor na gaveta

plásticas partes de mim
que justapõem
inconstâncias constantes
são lápides - a cada dia um epitáfio
que lembra cada lembrança:
a dança, a lança...
um sem fim de palavras
e facas
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h28
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
HERDEIROS DO CRÉU

Recentemente ouvi uma mulher comentando com a amiga que seu filho de dois anos sabia dançar o novo hit-acéfalo do momento, a tal “Dança do Créu”. Ela estava muito orgulhosa pela desenvoltura do garoto que simulava perfeitamente as posições sexuais sugeridas pela música. Os pais aplaudiam e a criança repetia.
Quando pensávamos que a dança da “Boquinha da Garrafa” seria o fim do mundo, vêm os novos poetas do funk carioca e nos surpreendem com uma nova obra-prima significativa para cultura nacional. Esta é a herança maldita que deixaremos para a geração seguinte, mais conhecida como Futuro da Nação? É claro que sim, o que mais temos a oferecer?
Se no turbulento ano de 1968 os jovens de todo o mundo saiam às ruas para protestar contra tudo e contra todos (foi nessa época que inventaram o famoso esporte Lançamento de Paralelepípedo), defendendo o livre pensamento, questionando os valores políticos e éticos (sim, são coisas diferentes) de sua geração. No ano 2008 as únicas cenas em que vemos jovens reunidos por uma causa é em dia de jogo. E o esporte aprendido quarenta anos antes continua sendo praticado, o que mudou foram as motivações e os alvos.
Nos anos 80 Cazuza lançou um olhar para o passado “meus heróis morreram de overdose”, Renato Russo apontou para o futuro “mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão, quando vendermos todas as almas dos nossos índios no leilão” e os Titãs questionaram o presente “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.
Foi mais ou menos por aí que se passou a questionar o título de “País do futuro”. Não havia futuro, restava apenas um país em franco declínio econômico, abatido pela inflação estrondosa e pelo monstro norte-americano do FMI, além de uma política ineficiente sustentada por um sistema corrupto (o verbo pode ser lido no presente também ok?). Com um horizonte pessimista destes, restava viver o agora intensamente, e isso significava detonar todos os neurônios com os alucinógenos disponíveis, estourar os tímpanos ouvindo punk-rock e questionar todos os valores sociais (acho que foi por isso que nessa década a gente usava aqueles penteados e aquelas roupas horríveis, talvez uma forma de protesto contra a estética?).
Se os heróis desses chapadões já haviam morrido de overdose, imagine só os heróis dos jovens de agora!! Melhor nem imaginar né? A nova geração é herdeira da falta de esperança. Desta forma, ocorreu um esvaziamento de sentido e de valores da sociedade, principalmente por não haver perspectivas futuras. A cultura fastfood que se alimenta do momento, do instantâneo, acabou por diluir com katchup as poucas possibilidades de criação de algo duradouro ou mesmo de algo que possibilite o mínimo de reflexão. Tudo é consumido rapidamente e as sobras vão para lata de lixo (reciclável é claro), portanto...
Cartola nos presenteou com “O mundo é um Moinho”, Chico Buarque com “Construção”, Djavan com “Flor de lis”, Lobão com “Essa noite não”, Cazuza com “Ideologia”, Renato Russo com “Perfeição”, Nando Reis com “Relicário”, Marisa Monte com “Vilarejo”, etc, etc e etc. E hoje, como um sinal dos tempos e como se tivéssemos que pagar por todas as atrocidades cometidas por Hitler, Stalin e Paulo Coelho de uma só vez, temos o Mc Créu e o seu presente de grego, que mais parece uma punição divina. Resta apenas a pergunta feita pelo compositor João Sérgio, “O que será amanhã? Responda quem puder”! Mas pensando bem, é melhor nem responder.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h32
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
PARALELAS

Meses se passaram e como não foi registrada nenhuma visita de parentes para reconhecimento do corpo, recebeu etiqueta de indigente. A documentação foi acertada e ele foi doado como material didático ao curso de medicina da UFPR. Na aula de anatomia o amigo chama o Cunha. Cara, não é igualzinho teu pai, tipo naquela foto que vocês tiraram no jogo do Paraná? O Cunha olha, vê e depois enxerga. Não, não é ele, certeza. E volta rápido para o seu lugar. Antes de dormir a mãe do jovem estranha a movimentação no quarto e, como de costume, abre a porta sem bater. Vários álbuns da família espalhados pelo chão, o Cunha sentado ao pé da cama com um leque de fotos nas mãos, olhos congestionados de desespero. Onde estão? Onde estão aquelas do jogo?
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h28
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|
|
 |



|
Meu perfil
BRASIL, Sul, ARAUCARIA, Homem, de 20 a 25 anos, Livros, Cinema e vídeo, Contos, Crônicas, Críticas
|
|