gosto incolor

este gosto que gira na tua boca
dizendo que a vida passou;
que você nada fez dos teus dias,
é o gosto da papel amarelando
numa fotografia que a tudo devora e
faz-te apodrecer preso na moldura,
isto é o que te reserva o futuro
já que sonho é apenas lembrança
e a esperança está em preto-e-branco
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h49
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AMOR E OUTROS PECADOS
QUE SE PODE COMPRAR

Eu já não pensava tanto na Lúcia, na boca da Lúcia, nas coxas da Lúcia, na boceta da Lúcia. No cabelo eu pensava um pouco, só um pouco. É que eu respirava o cabelo da Lúcia quando ela dormia de costas pra mim, essas coisas são foda de esquecer.
No começo, pouco depois da Lúcia desaparecer, eu comia alguma guria e não conseguia gozar. Então, eu pedia pra a guria ficar de costas, ela ficava de costas e eu pensava nas costas da Lúcia, na bunda da Lúcia, só assim eu gozava de verdade. Mas achava sacanagem fazer isso com elas, então eu só fingia que gozava e escondia a camisinha. Depois ficava olhando pro teto, pensando onde diabos a lazarenta da Lúcia tinha se metido.
O tempo que sobrava todo dia é que me deixava mais louco. As horas deveriam estar todas preenchidas quando você pretende esquecer alguém, pra não dar chance ao diabo. Mas isso não acontecia e qualquer boteco engordurado parecia melhor que a minha casa, com aquelas paredes caladas crescendo feito unhas e me tornando cada vez menor, insignificante sob os lençóis.
Atrasava o passo, perdia o ônibus, mastigava as refeições com vagar, apagava os textos sem salvar, recomeçava. Recomeçava, pois os dias eram sempre o mesmo dia, dia após dia. E as horas sempre sobrando e tudo faltando. Se um dia achasse a Lúcia, iria matá-la.
Dormia nadando em rabos-de-galo, absintos e ypiocas. Acordava afogado em restos de comida e de bebida sobre a tampa do vaso, sempre fechada, o vômito secando no canto da boca com o gosto do desprezo de Lúcia.
Masturbava-me até não mais sentir os dedos, trocava de mão e imaginava mil posições em que Lúcia me deixaria amá-la. Ligava a TV e toda mulher que aparecia na novela das oito estava tirando a roupa, estava olhando para mim, querendo me chupar, com aquela língua já tão familiar. Então eu desligava e apagava a luz, o braço adormecido. Ficava no escuro cheirando meu próprio sêmen, com pena do que sobrou de mim.
Muitos colegas me falavam do lugar, diziam que seria ótimo para curar minha tristeza, que me faria bem e que eu esqueceria a Lúcia de uma vez por todas. Eu teria vergonha de aparecer lá com todos eles, afinal, eram casados, só queriam farrear, eu não. Então eu fingia estar muito bêbado e no dia seguinte desconversava. Fui num domingo, pois sabia que ninguém conhecido estaria lá.
Comprei o ingresso e mal olhei para o leão-de-chácara à porta, passei por uma piscina vazia (era inverno) e entrei no salão. Estava mais cheio do que eu esperava, os homens e mulheres escondiam-se por detrás da fumaça e das maquiagens exageradas. Algumas mesas abarrotadas de garrafas de cerveja, muitos espelhos e luzes em tons avermelhados. Uma garota acabara de subir ao palco. Sempre faço o sinal da cruz antes de entrar no palco, pois quando eu era pequena via os jogadores fazerem assim antes do jogo, achava bonito. Hoje escolhi “O amor e o poder” da Rosana, todo mundo canta junto, é ótima. Subir aqui dá uma sensação indescritível. Quando estou de costas, ergo bem a bunda e vejo pelo espelho o reflexo de todos os homens me desejando ao mesmo tempo, sei que todos ali querem colocar o pau em algum buraco meu e o que eles podem fazer enquanto estão na platéia é apenas isso, desejar, querer. Despertar esse sentimento é a minha forma de exibir poder e isso me deixa com muito tesão.
Não é arte coisa nenhuma, tem umas colegas que tentam dar um tom chique à coisa toda, dizer que é dança e blá, blá. Pra mim é parte do trabalho de prostituta mesmo, quando eu descer algum cara vai me comer e desembolsar uma boa grana para isso. Não vejo glamour algum e estou há bastante tempo nisso para agora fantasiar historinhas de puta borralheira. Tem menina aqui que acha que vai ser descoberta, que vai dançar no Luciano Huck, no Faustão. É o caralho! deviam ficar contentes por terem o que dar de comer aos filhos. Então se um cara vem com proposta de amor eu mando logo tomar no meio do cu, e não foi uma nem duas vezes que eu já fiz isso. Nem todo mundo precisa de amor nessa vida e eu me viro bem sem ele.
Mas a maioria que vem aqui é pé-rapado mesmo. São os pobres e os feios, são os casados que não fazem sexo com a esposa desde a lua-de-mel, são uns caras de óculos que não comeram ninguém nem mesmo durante a faculdade e vêm aqui com os joelhos tremendo. Esses caras sempre broxam e ficam chorando, é foda ter que fazer o papel de mãe, mas as vezes acontece. Os perdedores e os bêbados, os fracassados e os ninfomaníacos, os fiéis e os infiéis, todos rezam o mesmo evangelho podre e só querem terminar a farra beijando alguma bunda cheia de feridinhas.
Hoje tem pouca gente, os de sempre. O cara da jaqueta de couro falsa, o velhinho de chapéu sertanejo, o Tonico da autopeça e os amigos do Ramalho. O único diferente é o cara de camisa cinza, mas se não me engano eu já falei com ele, ou vi no ônibus, ou estava no mercadinho, ou sei lá.
Terminou a música da Rosana eu fiz o último movimento, um giro de 360º que saiu meio torto, mas até que foi sincronizado. A homarada aplaudiu. Juntei a minha roupa e saí pelo lado direito, enquanto o Rô, o cara do som, anunciava a próxima gatinha. Quando desci as escadinhas o cara de camisa cinza estava me esperando, nem sei como ele deu a volta tão rápido.
Fomos para o quarto de vinte, com banheiro. Falei que o programa era trinta. Ele falou que tudo bem. Ele perguntou o meu nome. Eu disse que era Laura. Ele perguntou se não era Lúcia. Fiquei assustada, como assim? Eu respondi que não era Lúcia, era Laura. Ele perguntou se podia me chamar de Lúcia, mesmo o meu nome sendo Laura. Eu achei esquisito, mas falei que tudo bem, que me chamasse de Lúcia então. Então ele me chamou de Lúcia e tirou alguma coisa de dentro da jaqueta.
Não sei direito, senhor. Achei que ele não tinha dinheiro para pagar o programa, isso acontece às vezes aqui no meu bar, sabe como é, esses bêbados torram o que não tem e daí já viu. Depois do tiro foi um tumulto só, as meninas correram pra dentro do bar e eu não vi mais nada, pensei que ele tinha fugido, mas não. Quando entraram no quarto, encontraram o cara deitado ao lado do corpo dela. Estava todo lambuzado de sangue, com o nariz enfiado no meio dos cabelos da guria.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h58
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Ian McEwan - Parte III
Tragédia à beira mar

Fechando a seqüência de textos sobre o escritor inglês Ian McEwan, falarei um pouco sobre o seu último livro publicado aqui no Brasil.
A narrativa de Na Praia é tão curtinha (pouco mais de 100 páginas) que não dá nem para classificá-lo como um romance e sim como uma novela. Uma boa novela sobre um amor que não deu certo.
Estamos no início dos anos 1960, os jovens que cresceram sob a pressão do conservadorismo agora se deparam com um mundo que abre as portas para a liberdade sexual. Porém, as seqüelas adquiridas pelo contexto social anterior não foram superadas.
Edward e Florence são um casal apaixonado que está em plena noite de núpcias, ambos são virgens e estão confusos com a situação. Ele está ansioso, pois tem medo de decepcioná-la, já que sabe-se um sujeito inexperiente que mal consegue conter o seu desejo pela nova esposa. Ela está preocupada, pois ainda não contou a Edward que sente repulsa ao sexo, que entende o ato sexual como algo nojento e doloroso, algo que se assemelha a uma faca sendo cravada na carne. E ela tem seus motivos para pensar assim.
O leitor descobre o que cada um deles está pensando e logo se envolve no clima de tensão que vai aumentando lentamente, nos deixando ansiosos, pois sabemos que aquilo tudo não vai dar certo. Mais uma vez o autor nos passa a rasteira ao fazer com que nossas suposições sobre o que irá acontecer escorram pelo ralo. Com a ajuda de alguns flashbacks ficamos sabendo um pouco mais sobre o passado recente dos personagens, as relações em família, o primeiro encontro e os planos para o futuro. Não cabe aqui detalhar essas informações para não estragar a interpretação que cada um fará dos acontecimentos, mas é óbvio que passamos a melhor entender o comportamento do casal depois disto. Ambos são representantes involuntários da quebra de um período de inocência (acho que ‘período de castração’ fica melhor, pois até mesmo o diálogo sobre sexo era um tabu), sobre a qual não possuem nenhum controle, sendo assim eles sabem que estão diante de uma panela de pressão prestes a explodir e para piorar nem mesmo conseguem verbalizar os seus medos.
O bacana é que McEwan coloca o leitor na condição de voyeur, como se ele estivesse escondido num canto da suíte nupcial e assistisse a todos os detalhes da discussão. As minúcias de cada movimento corporal são descritas com grande habilidade, cada gesto dos personagens acaba representando uma tentativa nula de ocultar o pavor que vai tomando toda a situação.
É interessante que o autor utilize praticamente todas as páginas descrevendo o acontecimento que dura poucas horas e reserve apenas duas ou três páginas para relatar as conseqüências, descrevendo rapidamente o que aconteceu nos anos seguintes. Isso me fez pensar no impacto que um gesto breve do passado pode causar no futuro. A investigação do detalhe abre uma perspectiva muito mais rica para repensar nossas vidas numa visão mais abrangente, mas não como forma de encontrar justificativas ou redenção e sim como uma maneira de tentar entender certas motivações, pois algo que em uma época foi considerado apenas um gesto imaturo, pode contaminar toda uma existência. Aqui Ian McEwan retoma o tema desenvolvido em Reparação e acerta em não nos apresentar uma perspectiva otimista sobre a possibilidade de consertar os nossos erros, pois são basicamente eles que decretam quem nós realmente somos no presente. Negar o passado seria um erro imperdoável e McEwan, um experiente escritor, não cai na armadilha.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h24
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Ian McEwan - Parte II
SOBRE CRIMES E CASTIGOS

È bastante comum encontrarmos referências a Ian McEwan em jornais e revistas como sendo o autor do “melhor livro da década”. Guardados os exageros, dá pra dizer que Reparação é um brilhante trabalho de um escritor que sabe muito bem o que faz com as palavras (mas não que este seja o melhor livro, até porque eu gostei bem mais do Sábado).
O livro inicia pouco antes da 2ª Guerra e percorre três fases da vida de Briony Tallis, uma jovem muito criativa que ambiciona ser uma escritora famosa e que invariavelmente ficcionaliza praticamente tudo o que vê.
Não é à toa que há uma epígrafe de Jane Austen antes do primeiro capítulo, pois o que temos aqui é um romance de época bem ao estilo da aclamada escritora inglesa, porém não se trata de mera repetição de estilo, pois McEwan vai além e empresta um toque de modernidade à narrativa. Isso ocorre devido à feliz opção do autor em narrar os fatos a partir de diferentes pontos de vista. Ou seja, a mesma cena é mostrada de ângulos diferentes (ecos do cinema?) proporcionando interpretações diferentes para o mesmo fato. Aliás, esta é a chave do livro e também o que há de mais bacana nele, pois desta forma o escritor foge do maniqueísmo e proporciona maior dignidade à personagem (afinal, julgá-la como sendo boa ou má não é lá uma coisa muito fácil, depois que ‘enxergamos’ as coisas do ponto de vista dela), que comete um grave erro na infância, erro este que irá modificar a vida de todos os personagens da trama.
Briony vê, ou acha que vê, sua irmã mais velha, Cecília, sofrer assédio de um dos empregados da mansão em que mora. Este fato soma-se a uma série de infelizes coincidências (que alguns momentos soam bem forçadas, mas a gente finge que não vê, pois a essa altura já estamos ‘grudados’ na história) que acabam por encaminhar a trama para um clima de tensão e sensualidade, cujas conseqüências já prevemos que sejam trágicas.
Este é um livro sobre o arrependimento, sobre a impossibilidade de consertar as falhas cometidas no passado. É uma obra que investiga as particularidades psicológicas de praticamente todos os personagens, até mesmo daqueles que no cinema seriam ‘apenas’ coadjuvantes tratados de forma superficial (bom exemplo disto são os irmãos gêmeos que no livro possuem características muito interessantes e no filme apenas ‘cumprem tabela’ e logo são esquecidos). O narrador onisciente em terceira pessoa explora o fluxo de consciência de cada personagem de maneira deslumbrante; como por exemplo, a inconstância da ‘verdade’ defendida por Briony, os pensamentos de sua mãe, que permanece deitada em seu quarto enquanto identifica cada movimento da casa apenas pelos sons das pessoas movendo-se, os detalhes que permeiam a cabeça dos jovens soldados em meio a tantas desgraças, a mistura de sentimentos que confundem o coração de Cecília. Enfim, são detalhes saborosos que dão consistência e verossimilhança aos personagens, fazendo que compreendamos melhor suas atitudes.

Cena do filme "Desejo e Reparação"
O livro foi adaptado com sucesso para o cinema (recebeu 7 indicações ao Oscar). A versão para a telona até que ficou legal (em termos de trilha sonora, ambientação, cenários, fotografia, enredo, eu diria que ficou perfeito, mas também pudera, os caras torraram um dinheirão com a produção). Mas o que há de mais bacana no livro são as reflexões dos personagens, suas digressões e devaneios, coisa que não acontece no filme. Ao optar por apenas contar a ‘historinha’ o filme perde alguns pontos, mas não deixa de ser muito bom. O grande destaque é a cena da guerra, quando os soldados retornam para a praia e aguardam resgate. A câmera passeia em meio a centenas de figurantes, animais, carros e casas destruídas, numa seqüência minuciosamente ensaiada de uns 10 minutos ou mais de duração, tudo isso sem cortes! Um desbunde técnico que merece ser conferido.
Mas se puder escolher, fique com o livro, é óbvio.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h59
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Ian McEwan - Parte I
Clássico comtemporâneo

Vencedor do Booker Prize
O bacana de ser um rato de sebo é que quando você está procurando alguma coisa específica, nunca acha, mas acaba esbarrando em outras obras que acabam te surpreendendo. Foi em meio ao labirinto de lombadas coloridas, capas duras, brochuras e traças, enquanto eu procurava alguma coisa de lingüística, que eu acabei encontrando o livro Sábado, do inglês Ian McEwan. E até então eu sabia apenas que ele era o autor do livro que inspirou o filme Desejo e Reparação (indicado ao Oscar de melhor filme). Pois bem, Sábado foi tão arrebatador para mim que logo mergulhei em outras duas obras dele que estão disponíveis nas livrarias Reparação e Na Praia.
Farei então durante esta semana três posts a respeito de cada um deles. Começando pelo melhor de todos:
SÁBADO

Assim como em Ulisses de James Joyce, a narrativa de Sábado percorre ‘apenas’ 24 horas da vida de um homem. Se o recurso não é original, temos que admitir que seja, no mínimo, corajosa a tentativa de descrever e, sobretudo, refletir a respeito de cada detalhe de um dia na vida de uma pessoa. Como fazê-lo sem que o leitor desabe tomado pelo tédio em cima do livro? Ian McEwan sabe.
Afinal, como resistir a um trecho tão provocante como este:
“... Perowne adota a opinião tradicional – a busca da utopia termina por autorizar toda forma de excesso, todos os meios cruéis, em vista da sua realização. Se todos estão certos de que, no fim, vão ser felizes para sempre, que crime pode haver em massacrar um milhão ou dois, hoje?”
Além de utilizar uma narrativa bastante elegante, principalmente nas descrições de pessoas e lugares, coisa que provavelmente aprendeu lendo seus conterrâneos ingleses do séc. XIX, o autor aborda inúmeros temas como invasão do Iraque, política, violência urbana, conflitos familiares, literatura, blues, etc, construindo assim um painel muito interessante da sociedade moderna pós -11/09.
Estamos no dia 15 de fevereiro de 2003, o neurocirurgião Henry Perowne, casado e pai de dois filhos, acorda de madrugada e vai até a janela do seu quarto, observa a cidade ainda vazia enquanto pensa sobre o que fará nas próximas horas. Desconfia que este não será um sábado qualquer, pois as ruas logo se encherão de manifestantes que irão protestar contra o apoio da Inglaterra à invasão do Iraque, manifestação esta que ele não faz questão de participar. Além disso, pela frente ele ainda tem uma partida de Squash com um colega de trabalho, o trânsito lotado no caminho até o mercado, pois deve comprar um pouco de peixe para o jantar e ainda preparar a recepção ao sogro e à filha, que estão retornando da França. Ainda à janela, ele se surpreende ao observar um avião pegando fogo cortar o céu de Londres. Será um novo ataque terrorista?
O clima de tensão e suspense é orquestrado com competência por McEwan, que eleva ainda mais a sua obra ao descrever com detalhes saborosos as minúcias dos devaneios e digressões do personagem. É ao ‘entrar’ na mente dos personagens que o romance tem seus melhores momentos:
Filho de Perowne, ao refletir sobre o pensamento, digamos ‘desarraigado’, dos jovens com relação à guerra:
“Quando a gente olha para as coisas grandes, a situação política, o aquecimento global, a pobreza do mundo, tudo parece mesmo horrível, nada está melhorando, não há nada de bom para esperar. Mas então eu penso nas coisas pequenas, próximas... sabe como é, uma garota que acabei de conhecer, ou essa música que a gente vai tocar (...) e aí parece ótimo. Então, o meu lema será este: pense nas coisas pequenas”
Ou ainda Henry pensando na relação da filha, uma poetisa, com a literatura (este parágrafo é uma das coisas mais bonitas que li recentemente em um autor contemporâneo):
“Quando a família saiu para passear pelos campos, numa tarde, deixaram-na com as últimas quarenta e uma páginas do livro. Quando voltaram, a encontraram chorando, debaixo de uma árvore, perto do pombal, não por causa da história, mas porque tinha terminado, e ela saíra de um sonho, para se dar conta de que tudo era criação de uma mulher que ela jamais conhecera. Chorava, explicou Daisy, de admiração, de alegria, por coisas assim poderem ser inventadas”
Perowne é médico, pensa de uma maneira completamente diferente de sua filha, aliás, o diálogo entre os dois é o ponto alto do livro na questão da discussão política. Ele tem uma visão mais objetiva da vida, dentro da qual tudo deve ter uma resposta ou um método, assim como em suas cirurgias (descritas com uma riqueza de detalhes absurda, pois McEwan freqüentou um hospital e entrevistou neurocirurgiões durante dois anos antes de começar a escrever o livro, todo esse trabalho valeu à pena, acredite). O melhor de tudo é que o escritor não poupa talento e lança mão de uma história totalmente imprevisível, com momentos que frustram a expectativa do leitor (ainda bem), com quebras inesperadas do ritmo narrativo, e outros que causam encantamento dada a percepção de fragilidade da vida.
Desta forma, o apelo político que poderia ser explorado até se esvaziar na mão de algum autor inexperiente, aqui serve apenas como plano de fundo. A marcha de manifestantes está sempre ao longe (e ao mesmo tempo tão próxima!), pois o que realmente salta aos olhos durante a leitura são as questões humanas de caráter, de medo e de equívocos, enfim, as questões universais.
A construção das nuances de cada personagem é excelente. Ao apresentar a fidelidade do médico para com a esposa, como uma coisa deslocada de seu tempo, fora dos padrões modernos, Ian McEwan sugere uma boa reflexão a respeito da literatura contemporânea, na qual a exploração de personagens ‘à margem da sociedade’ ou ‘de caráter duvidoso’ já se tornou recorrente, talvez até demasiadamente recorrente. Há coisas boas é claro, não quero generalizar, mas é algo que infelizmente tem gerado desgastantes repetições de idéias, afinal, somos todos assim tão ruins? Somos o tempo todo cruéis e infelizes? Talvez sim, mas é bom saber que alguém pensa diferente às vezes. As construções destas nuances são tão boas que, quando terminei o livro, fiquei pensando em Perowne não como elemento de um livro e sim como alguém que realmente existe e está lá, em sua casa, em algum lugar de Londres, olhando pela janela e pensando sobre a sua vida e a de todos nós.
Que bom por “coisas assim poderem ser inventadas”.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h27
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PALAVRA NA VEIA

O cara usa a primeira vez por curiosidade, se tem tanta gente que diz que o negócio é bom, talvez seja mesmo. Se escolher bem o produto, ele viaja por um tempão, tanto que não quer nem mais voltar. Mas se escolher mal resolve deixar de lado, isso não é pra ele não. A segunda vez já ocorre por influência, vê alguém usando e fica com vontade, chega a dar água na boca. Da terceira vez em diante já não tem mais jeito, o cara se entrega ao vício e não consegue viver sem ele.
Eu comecei de leve, com um pouco de Stephen King e Agatha Christie, só para experimentar. Usava todo dia, só pra curtir, não conseguia dormir direito se não desse um tapinha de dois ou três capítulos. Nessa fase qualquer bosta que caía na mão era legal, achava que tudo era ótimo, até Paulo Coelho era o máximo.
Mas aí o tempo passou e eu percebi que aquilo ali era muito pouco para destruir meus nervos e meus neurônios, tudo muito fraco, aquilo já não estava fazendo mais efeito na minha cabeça. Parti então para uns troços mais pesados, que os caras mais fodões já usavam, tipo Graciliano Ramos e Machado de Assis. Usei escondido, nos intervalos das aulas ou trancado no meu quarto. Foram dias em que fiquei completamente chapado, num êxtase que parecia não ter fim.
Como não tinha dinheiro para comprar e não gostava de ficar emprestando as minhas paradas, comecei a roubar. Comecei pela biblioteca da escola e depois fui para a municipal. Escondia tudo no fundo do guarda-roupa para minha mãe não pegar e depois usava quando sentia vontade, em qualquer horário da madrugada.
Fiquei pirando nessas paradas durante um tempão até perceber que esses caras brasileiros usavam uns caras de outros países. O grande lance então era os gringos, principalmente os das antiga. Foi então que usei um pouco de francês, Zola eu acho, durante uma semana sem parar, fiquei bem louco e emendei com um tanto de Flaubert e Balzac. Quando dei por mim, eu já nem sabia quem eu era direito, andava pra lá e pra cá com um Dostoievski escondido na mochila.
Para quem não está nessa vida ou que nunca tenha usado essas coisas, talvez seja difícil entender o que se passa na cabeça da gente. O cara que se revira na cama depois de ter usado Clarice Lispector ou Kafka, faz isso não porque é um fraco e sim porque não suporta a vida assim como ela é, esse amontoado de dias sem graça, em desgraça.
A tendência é piorar. O cara vai se degradando e se destruindo aos poucos. Não dá pra levar uma vida feliz depois de usar Germinal, por exemplo, pois ele age diretamente nos neurônios e te coloca num estado de destruição irrecuperável.
Quem entra nessa parada sabe que o caminho é escuro e sem volta. O problema é que quem já está nessa vida sabe que este é o único caminho possível. E fica contente, por desconfiar que seu vício seja uma coisa boa, talvez a única coisa boa na sua vida.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h37
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LONGE DELA

Com o novo Indiana Jones e o Homem de Ferro dominando praticamente todas as salas de cinema, sobra pouco espaço para filmes mais autorais no circuito nacional. Mas este pouco espaço que resta é muito bem aproveitado por um pequeno grande filme chamado Longe Dela.
É de se estranhar que um filme protagonizado por atores sexagenários seja dirigido e roteirizado por uma jovem de apenas 28 anos. Porém, em seu filme de debute, Sarah Polley, demonstrar ser dotada de bastante maturidade e, principalmente, muita sensibilidade para contar a história de Fiona (a sempre bela Julie Christie, aos 66 anos, indicada ao Oscar pelo papel) e Grant (Gordon Pinsent).
A trama é bem simples, um casal que está junto há 44 anos vê sua relação ser abalada pelo Mal de Alzheimer. Ao ver a esposa guardar uma frigideira na geladeira e esquecer a palavra “vinho” mesmo estando com uma garrafa na mão, Grant percebe que muitas dificuldades estão por vir, mas tenta negar o problema que se aproxima. Contudo, como é de se esperar, a doença avança e vai aos poucos corroendo a memória de Fiona, que sente medo, por exemplo, de esquecer a cor amarela, a mesma cor de uma flor que ela admira muito. O filme é basicamente sobre isso, sobre ver o amor da sua vida se extinguir e não poder fazer nada para impedir.
A história, embora contada do ponto de vista de Grant, é apresentada de maneira não linear, o que nos ajuda a melhor compreender a sensação de “quebra-cabeça” que é a memória fragmentada de Fiona. Descobrimos informações importantes sobre o passado do casal à medida que o filme avança, pois narrativa segue os passos da doença, que parte da memória recente e avança apagando as memórias mais antigas. Desta forma, nada vem mastigado para o espectador, que se deslumbra com uma fotografia magnífica (por que filme que tem neve geralmente é tão bonito?) enquanto acompanha o angustiante desenvolvimento dos personagens que rumam por caminhos cada vez mais tortuosos. Percebemos então que os personagens são um tanto quanto ambíguos e que aquele amor, pode não ser assim tão perfeito quanto parece.
Mas o que realmente impressiona e talvez torne o filme obrigatório, é a honestidade do sentimento que Grant nutre por Fiona. Não posso falar muito sobre isso sem estragar as “surpresas” do roteiro, mas basta dizer que é uma das coisas mais poéticas que vi no cinema recente.
A genialidade do filme está mesmo nas atuações impecáveis, tanto dos protagonistas quanto dos coadjuvantes (a cena da mulher sentada à mesa, olhando para o nada, tentando segurar o choro, enquanto ouvimos o telefonema que ela acabou de dar, é de cortar o coração, e é mais uma prova da qualidade dos atores e da boa direção). O mesmo acontece na cena em que Grant tenta fazer Fiona se lembrar do livro que ele sempre lia quando estavam juntos. Neste momento a atuação de Julie Christie, tentando formular o que está pensando, mas apenas repetindo frases soltas, é memorável, pois o seu olhar exprime de forma arrebatadora o sofrimento das pessoas que sentem suas vidas se esfarelarem ao passo que permanecem “presas” dentro de seu próprio corpo.
Você pode preferir os efeitos especiais incríveis e as boas histórias dos blockbusters citados (eu até gostei do Homem de Ferro, achei melhor do que eu esperava e o Indiana Jones ainda não vi), mas com absoluta certeza nenhum deles proporcionará um experiência tão incrível e tão humana quanto Longe Dela.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h32
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