R$ 1,96

 

            Ao passar pelo corredor de produtos de limpeza ele procurou estabelecer os critérios para que a ação se desse de maneira segura. Não pretendia sair dali com uma bala no intestino, mas também não pretendia sair de mãos abanando. Concluiu que esconder a caixa de leite na jaqueta, embora fosse o recurso mais do que óbvio, era a opção ideal, pois jamais o segurança iria abordar um trabalhador como ele, ainda mais um cliente antigo.

            Comprou cinco pães para disfarçar a situação e sentiu o suor transbordar o seu pavor através de cada poro quando a menina do caixa chamou a gerente. Nos trinta segundos seguintes ele visualizou sua dignidade sendo pisoteada na lama, a esposa apontando o dedo para sua vergonha com cara de ‘eu já sabia’, o filho querendo descer do seu colo em dia de visita na cadeia, dois estranhos. Digitei o valor errado, pode desbloquear a registradora pra mim? Deu sorte dessa vez. A sensação de alívio cegou-lhe e quando achou-se em si novamente deu continuidade ao plano. Entrou no boteco do outro lado da rua.

            O troco do pão sobre o balcão, me vê tudo de pinga. Virou de uma vez e sentiu o líquido se agarrar com unhas de fogo nas paredes da garganta. A alma-ardente revolveu-lhe o estômago e devolveu-lhe uma réstia de sanidade, talvez o resquício de um caráter envelhecido, desses que vão rareando conforme as tardes se firmam como dia ruim, mês ruim, ano ruim. Tanta vida adiante, ainda.

            Procurou desviar a atenção de seus pensamentos para outro objeto que não o seu cotidiano oco. Girou o copo americano, mas a textura trabalhada deste em contraste com a luz que avançava pela porta reproduziu uma perspectiva caleidoscópica naqueles reflexos que repetiam várias vezes o mesmo rosto com a barba por fazer. Encontrar-se tantas vezes só fez doer seu coração, pois que esperava mais de si mesmo e de sua vida. Mas naquele momento já não era possível ignorar o volume em sua jaqueta; a esposa indignada que tanto ralhou para lhe dar o dinheiro; o filho esperando sua chegada, talvez até chorando de fome? Ah, maldito seja o criador disso tudo, que tipo de clichê imbecil fui me enfiar?

            Abandonou o copo e saiu do boteco já meio de lado sentindo a cabeça zonzear. Diabos, almoçara ontem ou hoje? Atravessou a rua pensando em como explicaria à esposa o que tinha feito com o troco do pão. De qualquer forma ele poderia ir para cama sem nada falar, como de costume, mas aí perderia o jantar. Quando alcançou a calçada ouviu alguém chamá-lo. Era o segurança do mercado.

            Imaginou a caixa de leite caindo no chão e explodindo, o líquido branco aos poucos sendo absorvido, a lama avançando sob seus pés.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h10
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EM BELÍSSIMA HOMENGEM AO CINEMA MUDO, PIXAR PRESENTEIA O PÚBLICO COM UMA OBRA-PRIMA DA ANIMAÇÃO

 

Com Toy Store (1999) a Pixar já mostrou a que veio. Revolucionou o mercado de animações 3D e de quebra conseguiu aliar (de forma inteligente!) tecnologia e texto. Depois disso o cinema nunca mais foi o mesmo (os pobres desenhos em 2D que acabaram ficando desempregados que o digam! Ainda bem que pelo menos os Simpsons resistiram ao tempo bravamente).

A diferença, aliás, a grande diferença é que os personagens criados pelo estúdio não são apenas seres bonitinhos que se movem de maneira engraçada, eles são elementos que reproduzem muito do caráter e da complexidade humana. Os temas que em primeira análise parecem apenas infantis possuem, em seu desenrolar, conflitos de aspecto adulto, como solidão, fracasso, etc. Como exemplo disso posso citar, ainda falando em Toy Store, a cena da máquina de bichinhos de pelúcia, na qual todos são iguais (alienígenas verdes com muitos olhos, repetindo, muitos olhos!!) e aguardam passivamente a chegada de um salvador, a garra de metal que os libertará daquela vida sem sentido (!). É disso que estou falando, infantil e adulto ao mesmo tempo. Ao abrir essas possibilidades de leitura, os roteiros da Pixar acabaram garantindo um conceito de qualidade muito superior aos seus concorrentes e, além disso, ditaram influências estéticas e definiram como seriam as animações a partir dali.

 

                              

 

Quase uma década depois temos o que talvez seja o amadurecimento máximo dessas idéias tão criativas. WALL.E é um solitário robozinho encarregado de recolher e compactar o lixo da Terra. Neste futuro muito provável, o planeta está abandonado e as pilhas de lixo já são maiores que os prédios. Percebe-se já de cara que a humanidade não deu conta de controlar seus exageros, destruiu tudo, não conseguiu reciclar sua própria casa e resolveu abandonar o barco.  Essa visão apocalíptica só é abrandada quando vemos o robô (que possui movimentos recheados de nuances humanas, a profundidade do olhar, por exemplo, algo que gera empatia imediata do público), separar os objetos que são mais interessantes em meio ao lixo numa série de esquetes hilárias.

O desenho praticamente não possui falas, toda a construção do enredo é dada pela trilha sonora (ótima por sinal) e também pelos gestos dos personagens, assim como no cinema mudo. O humor físico não é uma coisa fácil de se fazer, pois corre-se o risco de cair na superficialidade ou mesmo na imbecilidade, assim como vemos nos programas de humor da atualidade como Zorra Total, Casseta e Planeta, etc. Já em WALL.E temos o oposto, é possível perceber a leveza dos movimentos, pois cada um deles foi muito bem pensado e acontecem no momento correto, sem atropelos ou urgências, como se houvesse a coreografia de um balé (aliás, a cena da dança com o extintor certamente ficará para a história, assim como as cenas das vassouras com baldes de água em Fantasia). 

Ao transitar com tanta desenvoltura entre o humor e o drama, percebemos na solidão e nas trapalhadas de WALL.E, uma bela homenagem ao gênio do cinema Charles Chaplin. Estão lá os olhos tristes e ao mesmo tempo enternecedores, a maneira singular de caminhar, o jeito desengonçado de dançar, etc. É ao emprestar características humanas a objetos aparentemente inanimados, e com detalhes tão bem trabalhados, que a animação ganha o público adulto que por ora deixa-se levar pelo encanto do fantástico, da imaginação, da criatividade e da beleza contida nisso tudo.

Há ainda espaço para história de amor, críticas corrosivas à sociedade consumista, defesa de causas ambientais, enfim, um trabalho que inspira inúmeras discussões como toda boa obra-prima deve ser.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h42
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RETICÊNCIA

Penso que os primeiros versos roçaram-lhe o peito feito a chegada de um buquê de rosas numa terça-feira chuvosa. Logo, aguardar a resposta das tuas cartas tornou-se angustiante tortura. Afinal, o que há no não dito? Manda-me beijos quando outrora assinava apenas o primeiro nome! Ou acaso sou isso, um caso? Não, nós não permitiríamos tal redução, pois somos tão maiores que tudo isso. Somos ficção! Sim, aquele livro, aquele filme, que ninguém mais leu, que ninguém mais assistiu, fizeram florescer e depois abortaram o gosto da esperança em minha boca. Ora, sempre aprendo que não aprendi.

Aqui sem você percebo que foram-se o chão e as palavras. Minha língua tornou-se estrangeira, perdida numa gramática mal dormida, pois nessa nossa reticência nós não nos falamos em objeto direto, apenas em verbo de ligação. Ai de mim, um ateu de lábios ágrafos que já esqueceu como se unem as bocas e as orações! Mas tento prometer-te verbos: O mundo te dou; sei que não o tenho. E assim minha mentira torna-se conforto, afeto, falseando a falácia de que amanhã será melhor. Pois bem, assim o amor exibi-se em dor feito linha reta: insinua-se infinito quando já é tarde, quando já sabemos qual é a poesia que fecha a antologia. Então, sobra-me apenas a tua epígrafe na minha pele, desenhada com a fonte que você mesma criou. Promessa, pó.

Há um braço de felicidade que se estende sobre nós quando vemos o mundo pelos os olhos do outro – Atrás dos óculos, seus olhos aconchegantes. A doença é que agora não encontro mais o meu próprio olhar.

E bate-me à porta, quer me ver. Pelo olho mágico vejo a tua saudade respirar ofegante. Sinto tanto a sua falta e tenho tanto a dizer... Giro a chave até o meio e a quebro na fechadura. Corro para a cozinha e depois retorno com o bilhete que rapidamente passo por debaixo da porta. Não me permito te decepcionar, sei que você me prefere por escrito. Mas se pelo menos as palavras ainda existissem...


 

Para receber (ou deixar de receber rsr) um aviso de atualização deste blog, mande um e-mail para eder_ceima@yahoo.com.br



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h45
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Olá leitores do Devaneios do Cotidiano

 

Andei verificando a contagem de visitas deste blog e constatei que apesar dos poucos comentários (quase nenhum que pobreza! rsrs), há uma freqüência de cerca de 300 leitores semanalmente, número que me deixa bastante contente.

Tendo em vista que a minha periodicidade de atualização é “devezenquandamente” (a meta é duas vezes por semana, mas está difícil), também levando em conta que eu perdi o controle da minha lista de e-mails e acabei incomodando um bocado de gente que não estava muito a fim de receber meus avisos. Peço por gentileza para que se vocês quiserem ser avisados das atualizações deste blog mandem um e-mail para eder_ceima@yahoo.com.br. Salvarei o nome de vocês na lista e então garanto que toda vez que eu postar um texto novo mandarei na hora um e-mail avisando ok? Sei que esse é um recurso meio de “mendigo pidão”, mas isso funciona muito bem como ferramenta de divulgação, as listas vão se espalhando e como o objetivo é mesmo dominar o mundo...rsrs

Agradeço todo mundo que tem passado por aqui toda semana, valeu mesmo!

 

Segue abaixo a opinião sobre o último filme que assisti.

 

Até mais.

 

Eder



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h18
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O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

EXCELENTE, MAS NÃO VÁ AO CINEMA

 

Esse filme conta a história real de um homem que sofre um derrame cerebral e fica com 99% do corpo paralisado. O 1% restante é o seu olho esquerdo, com o qual ele se comunicará com o mundo. Piscar uma vez significa ‘sim’, duas vezes ‘não’. Depois esse procedimento avança para uma tabela com as letras do alfabeto, alguém vai lendo letra por letra bem devagar e quando chega a letra desejada ele pisca uma vez. E então o longo processo se repete até que se formem as palavras. Incrível, não? E o cara ainda escreveu um livro utilizando este método!! Pode procurar na livraria, tem o mesmo título (só não sei se é tão bom quanto o filme).

Histórias sobre inválidos geralmente causam comoção, pois normalmente implicam em chances de recuperação, renovam as esperanças, etc. E no fim das contas o povo adora uma ‘volta por cima’. Esse é o grande problema de filmes com o selo ‘baseado em fatos reais’, pois se formou uma modinha de adoração a esse tipo de obra em que todo mundo vai atrás de novas ‘lições para a vida’ (vemos isso aos quilos nas livrarias), pois o pensamento de que ‘eu posso estar na merda, mas sempre tem alguém em condição pior’ é reconfortante para muitos. Resultado: salas abarrotadas de gente buscando uma historinha de auto-ajuda. Ou seja, se você pretende ir ao cinema para ver tranquilamente um filme francês (tipo de filme que você adora e sempre soube que o povão do Mac Lanche feliz odeia), esqueça!

Voltando ao filme. O argumento de “Escafandro e a borboleta” é muito parecido com o do excelente filme espanhol “Mar adentro” (que tinha como protagonista-inválido Javier Bardem, o louquinho psicopata que ganhou o Oscar de melhor ator em “Onde os fracos não tem vez”). Neste filme (também baseada em um fato real) um homem fica tetraplégico após um acidente ao mergulhar num rio, cometendo erro de cálculo quanto à profundidade deste. Mas a questão discutida em ‘Mar adentro’ é a eutanásia, já que o protagonista abomina a idéia de ter se tornado um inválido e lutará na justiça pelo direito à própria morte.

Já em Escafandro, não há discussões polêmicas. O diretor Julian Schnabel optou por colocar o espectador ‘na pele’ do protagonista, ou seja, durante boa parte do filme vemos tudo em primeira pessoa, sempre no ângulo em que está a cabeça do personagem. Este recurso técnico torna o filme brilhante, pois a câmera fica várias vezes fora de foco ou embaçada (conforme a consciência e o humor do personagem). E em alguns momentos enxergamos apenas metade do corpo das pessoas, geralmente na altura do tórax. Os médicos e enfermeiras se abaixam para falar com ele e é como se estivessem falando conosco, a sensação de imobilidade é horrível, enfim, é um deleite para quem espera um algo mais da sétima arte.

A metáfora do título basicamente define o que veremos neste filme, o qual explora a discrepância entre a ‘imobilidade’, o escafandro (lembrando que escafandro é como se chama aquela roupa pesada de mergulho) e a ‘imaginação’, a borboleta. Pois é apenas através da imaginação que ele consegue ‘sair’ do seu corpo e vagar livremente pelo mundo. Mas não espere por lições de superação ou qualquer porcaria deste tipo, o máximo que você vai conseguir neste sentido é pensar “putz, tomara que eu nunca tenha um AVC” ou “Orra, o cara escreveu um livro com um olho só e eu aqui com dez dedos sobrando!”. Já se a sua opção é por cinema bem feito, então não perca.

                                  



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h15
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RENATO RUSSO: A PEÇA

 

Aquele cara no palco do Teatro Fernanda Montenegro sábado à noite era o Renato Russo de verdade, não era? Ainda não me convenci de que o sujeito que dançou, tocou, fez todo mundo rir e ainda emocionou a platéia que lotava o teatro, era apenas um ator.   

Quando os primeiros acordes de Há tempos rompeu o silêncio (ok, a galera nem estava tão assim em silêncio, sabe como curitibano-quase-um-europeu é educado né? Rolaram até longas conversas ao celular bem no meio da peça tipo “Alô! Oi, tô aqui na peça do Renato Russo. Não, deixei a chave atrás da plantinha ...”, mas enfim...) a figura de camisa branca surgiu tocando seu violão e dançando com seu jeitão todo esquisito. Lá estava o “Trovador solitário” que mudou a cara do Rock nacional e arrastou multidões de fãs (ou “fiéis” se você preferir) aos estádios, fazendo a cabeça de toda uma geração (e aí eu me incluo) que passou a ver a vida através dos olhos críticos deste poeta triste.

As letras dele dominaram a minha mente por um tempão. Aquela mistura de literatura e punk era muito phoda! (Hoje em dia eu leio alguns clássicos e penso “lazarento, ele tirou aquela música daqui”. Algumas de suas composições nem tinham nada de original, eram quase monografias, ou seja, a colagem de vários textos bacanas respeitados por intelectuais. Grande sacada!) Um gênio-burguês-porra-louca sem igual e insubstituível (tá, o Cazuza também foi bem legal, também sou fã, mas sou muito mais Renato). E depois que ouvi Legião Urbana uma coisa ficou impregnada em mim: se a letra não fosse boa com certeza eu não gostava da música, provavelmente por isso eu tenha tão pouco interesse por música estrangeira ou instrumental até hoje.

Ok, voltando para a peça. O ator Bruce Gomlevsky (foto) é praticamente a encarnação de Renato Russo. A fala arrastada, os trejeitos, o humor, está tudo lá numa atuação arrebatadora! A vida polêmica do cantor é encenada neste monólogo/musical entremeada por mais de 20 canções (priorizando os grandes sucessos, bem ao estilo Mais do Mesmo, uma pena, mas tudo bem, pelo menos sobra tempo para ele tocar Andréa Dória). O bacana é que a narrativa é não linear, então ora estamos diante de um Renato de saco cheio com o sucesso, ora estamos diante de um garotinho que sonha com a carreira militar. Outro aspecto importantíssimo é a utilização de um telão com imagens que dialogam com o texto. E atrás dele, num jogo de sombras bem interessante, fica a banda Arte Profana, que toca ao vivo todas as músicas enquanto a platéia, assim como nos shows da Legião, canta junto com Bruce (ou Renato, ou quem ele for) numa interação muito emocionante (Pais e Filhos parece até um hino evangélico, todo mundo com o braço erguido e os olhos fechados, de arrepiar. Não dá pra não se converter!). Relacionar as letras da música e os acontecimentos da vida de Renato é a grande sacada da peça. As músicas que não são cantadas estão ‘entrelinhas’ em muitas das falas (para os fãs como eu, é um deleite ficar decifrando cada uma delas).

A peça já foi vista por mais de 80 mil pessoas e recebeu uma porrada de prêmios por aí, incluindo o Prêmio Shell (tipo o Jabuti, da dramaturgia nacional). Ela foi produzida em 2006, mas só agora chegou para uma curta temporada em Curitiba (quem não foi, já era). Mas enfim, todo esse sucesso é totalmente merecido, pois assistir à peça é como estar presente a um show da Legião Urbana, sem exagero.

Se Cazuza foi homenageado com um filme bem bacana, Renato Russo não ficou atrás e está muito bem representado nesta peça brilhante. Que voltem mais vezes à Curitiba.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h34
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AZUL TURQUESA

             Lamentável que todas as garrafas e copos ainda estejam azul-turquesa. Lembro que naquela noite, pedi para que usasse o vestido preto. Que não, que já o havia usado no casamento da prima. Desceu todo o guarda-roupa sobre a superfície lisa da colcha da cama formando uma aquarela de cabides, laços, lantejoulas, babados e presilhas. Esse ficou bom, o azul-turquesa. Decote generoso, ainda inédito nas festas da família. Perfeito. Durante o jantar a ausência dela tornava o ar lodoso: os convidados à mesa trocavam segredos e sorrisos maliciosos ao pé do ouvido. O guardanapo amassado sobre a mesa, fui procurá-la. No banheiro não estava, a moça desconhecida investigou. Atrás do bar, a porta do almoxarifado entreaberta deixou escapar os sons diabólicos do pecado. A alça azul-turquesa deslizando pelo ombro direito, a boca engolindo o pênis de uma sombra qualquer. Aquela cor impregnando as garrafas, os copos, os meus olhos. E tudo virou mar num pesadelo monocromático.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
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A LADEIRA

 

O menino voltava do futebol montado em sua BMX Superstar vermelha. Avançava com toda a velocidade que os aros 20 lhe permitiam quando reparou que havia algo estranho no meio da rua logo no fim da ladeira. O freio não estava bom, então ele enfiou sua havaiana direita entre o pneu dianteiro e o garfo da bicicleta, conseguindo por sorte parar a alguns centímetros do gato morto. Era um gato cinza e estava com a cabeça esmagada. Apenas um dos olhos ainda resistia no crânio feito uma bola-de-gude.

O menino distraído com o cadáver do gato não percebeu logo atrás de si a aproximação do Chevett branco ano 79 descendo a ladeira. O cara do Chevett distraído com o lado b da fita do Amado Batista não viu o menino distraído com o cadáver do gato de um olho só.

O pára-choque quebrou o lado direito do quadril do menino, a roda dianteira partiu o fêmur em três e o quadro da bicicleta em dois. A freada, precisamente em cima da cabeça do menino, fez arrastar o corpo por cerca de dois metros. O cara do Chevett levou um susto, aquilo parecia um cachorro, Deus, que seja um cachorro! E na hora ele esqueceu a fita do Amado Batista. Chocalhou com o forte solavanco, afundou o pé no freio e sentiu o pneu deslizar macio.

Enquanto o cara do Chevett tentava acreditar que aquilo que tinha acontecido, não tinha acontecido, o gato com a cabeça esmaga levantou-se e saiu dali rapidamente. O cara do Chevett preferiu não acreditar que aquilo que tinha acontecido, tinha realmente acontecido. Então acelerou tudo o que o motor 1.0 permitia e saiu costurando quadras e ruas e ladeiras na esperteza de despistar uma eventual testemunha.

A guria com o Walkman Aiwa viu o Chevett passar a toda, mas não deu importância. Virou a esquina estalando os dedos acompanhando o ritmo da música que só ela ouvia. De quando em vez fechava os olhos e balançava a cabeça perdida em sua catarse íntima. Quase tropeçou no corpo do menino atropelado.

Achou que ninguém tinha ouvido o seu grito de susto, por causa do som alto, mas quando se deu conta duas ou três pessoas da vizinhança já se aproximavam correndo para somar tumulto. 

Logo a rodinha de curiosos foi engrossando e em pouco tempo a ruazinha sumiu debaixo de chinelos e meias. O povo distraído com o risco de sangue no chão, com o barulho que alguém ouviu quando os ossos do menino quebraram, com a certeza de que o menino morava ali perto, com o finzinho de tarde já abocanhando metade do céu, com a hora de ir que tinha que fazer janta, com as histórias de quem diz que viu, mas não viu nada; não perceberam o ônibus dobrando a esquina.

O motorista do ônibus girou o volante em conformidade com lei, pois estava na preferencial e não tinha por que frear ou diminuir a velocidade. O pessoal disse que foi como num jogo de boliche, o ônibus espatifando um por um e desmanchando o tumulto com a violência e a facilidade que só as máquinas possibilitam. Alguém gritou Foi um estráique! Os passageiros desceram do ônibus e começaram a gritar ao verem tantos corpos espalhados.

Lá atrás, ninguém viu, o menino do primeiro atropelamento descolou os restos do rosto do chão e se levantou, apanhou sua bicicleta retorcida e subiu a ladeira sem olhar para trás.

Enquanto os passageiros abraçavam-se em desespero uníssono, o motorista andava de um lado para outro arrancando os próprios cabelos. Dois homens correram para acudir a mulher de vestido azul-marinho que não agüentou ver todo aquele horror e sentiu uma pontada no peito. Neste momento a guria saiu debaixo do ônibus.    

Ela estava com o lado esquerdo do rosto arruinado. Seu antebraço direito partira-se e rompera a pele, o osso absurdamente branco exibia-se para quem quisesse ver. Deu alguns passos procurando algo no chão, já estava bem escuro, até que encontrou o seu Walkaman Aiwa destruído perto do meio-fio. Colocou os fones no que sobrou dos ouvidos, aumentou o volume e desceu a rua.

Alguém no meio da multidão que se formou em volta do ônibus ouviu o barulho de uma ambulância se aproximar em alta velocidade.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h30
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ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Este poderia ser apenas mais um filme de assalto daqueles que as distribuidoras destacam como sendo mais um “plano perfeito” ou “quase perfeito”. Poderia, mas não é.  Dois motivos garantem este filme como acima da média: os atores envolvidos, Phillip Seymour Hoffman (Capote) e Ethan Hawke (Antes do Pôr-do-Sol); e também a ótima opção do diretor Sidney Lumet em utilizar uma narrativa fragmentada que se baseia nos múltiplos ângulos da mesma cena. Ou seja, a história é contada várias vezes, cada vez de um ponto de vista diferente, explorando desta forma, as motivações de cada um dos personagens e construindo aos poucos um quebra-cabeça surpreendente.

Dois irmãos planejam um assalto a uma relojoaria. Que o assalto parece perfeito e que mesmo assim tudo dará errado nós já sabemos, pois Antes que o diabo... não foge (e talvez nem queira fugir) do estereotipo de “filme de assalto”, pelo contrário, assume isso ao passar pelas cenas-clichê: planejamento do assalto, insegurança do assaltante (que, lógico, não é um profissional), o imprevisto, as conseqüências. Mas o diferencial aqui é que o diretor parece pouco se importar com o assalto em si, dando muito mais importância ao comportamento de cada personagem, suas ambigüidades, suas reações imprevisíveis, etc.

Neste sentido, o vencedor do Oscar Philip Seymour Hoffman rouba (literalmente) a cena e entrega um personagem extremamente complexo, que ora aparenta ser um homem centrado, porém ambicioso e em outros momentos mais parece um psicopata fora de controle. Tudo isso de maneira contida, sem exageros de interpretação. A cena em que ele transtornado com a notícia que acabou de receber, “destrói” lentamente o seu apartamento, nos faz entender porque ele é um ator tão elogiado. Isso sem falar na relação dele com o pai (as melhores cenas do filme, que em certos momentos flerta com o melodrama, mas no bom sentido).

Em O Plano Perfeito do diretor Spike Lee (outro filme de assalto bem bacana), o que surpreende é a trama bem amarrada e inteligente. Antes que o diabo... tem tudo isso e de quebra ainda explora os aspectos psicológicos dos personagens. Recomendo.

 

                                     

                                                 Ethan Hawke e Phillip Seymour Hoffman 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h52
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