CINEMA: FELIZ NATAL

               A ESTRÉIA DE SELTON MELLO NA DIREÇÃO

                                                                               

      Assim como Matheus Nachtergaele (diretor de A festa da Menina Morta, ainda inédito no circuito nacional, mas que eu pude conferir em primeira mão no Festival de Gramado deste ano), Selton Mello, um dos mais talentosos atores da nova geração, estréia com o pé direito atrás das câmeras.

      "Segurança" é palavra que meio quilo de críticos de cinema utilizou para definir a direção de Selton, mas esses mesmos senhores também utilizam a palavra "pretensioso" para definir um sujeito que não teve medo de arriscar, considerando esse exercício estético como "pesar a mão" ou soberba, ou sei lá o quê, vai entender...

   Ora, é normal que se crie grande expectativa em cima de um novo trabalho de um cara que praticamente deu aula de interpretação no recente O cheiro do Ralo, e ainda mostrou que pode haver vida inteligente na TV aberta com Os Aspones, O auto da compadecida, O Sistema e em tantos outros trabalhos. Mas enfim, vamos ao filme que é o que interessa.

                                          

      Já nos primeiros e silenciosos minutos de Feliz Natal - num plano que capta, através de um buraco do portão enferrujado, a movimentação do personagem principal andando por entre as carcaças de carros de um ferro-velho; a câmera sobe para um plano mais aberto, que amplia a dimensão daqueles destroços (e, por conseguinte, das vidas que ali habitam) - percebemos que estamos diante de um trabalho bastante distante do chamado cinema comercial, pelo contrário, há uma preocupação evidente em imprimir um tom autoral (ainda em desenvolvimento, é claro, mas nem parece que estamos diante de um "novato").

      Caio (Leonardo Medeiros), o dono do ferro-velho, é um homem tem contas a acertar com seu passado. Ele retorna à casa da família na noite de Natal e lá se vê diante de mais destroços: a mãe (Darlene Glória, sem dúvidas a personagem mais interessante do longa) está visivelmente perturbada devido ao uso de remédios misturados a medicamentos; o pai (Lúcio Mauro) o ignora completamente; o irmão e a cunhada tentam manter as aparências numa festa que já beira o melancólico, quem sabe até mesmo o trágico (como tantas outras por aí).

      Se o tema não é lá uma coisa muito original (a peça Apenas o fim do mundo, do fracês? Jean-Luc Lagarce, por exemplo, vai muito mais além ao falar sobre "voltar para casa"), as ótimas atuações garantem a profundidade do filme. Os diálogos são tão bem construídos, tão verossímeis (preste atenção nas conversas entre Caio e seus amigos bebuns), que é até um pouco difícil identificar o que é improvisação e o que é decorado. E desta forma, a "grande revelação" proposta pelo enredo acaba não tendo lá muita importância, o que considero um ponto positivo, haja vista que o "peso" do filme, sua qualidade, acaba se dividindo por entre vários elementos e não apenas se concentrando numa única "sacada" do roteiro.

      A tal da cena em que a atriz Graziella Moretto (que vive a cunhada de Caio) aparece nua e que, aparentemente, fez repercutir aquele ridículo protesto contra a nudez no cinema, feito pelo marido dela, o também ator Pedro Cardoso (se você não ficou sabendo do barraco, é só perguntar para o São Google), não é, de forma alguma desnecessária, a cena é, na verdade, fundamental para entendermos a densidade da personagem.

      A fotografia utilizada por Lula Carvalho é escura, assim como é escura a vida de cada um desses personagens. Não há espaço para felicidade ou redenção nesse mundo (pessimista? apenas realista?) criado por Selton Mello. A frase dita a certa altura, pelo sobrinho do protagonista, enquanto brinca de carrinho sobre mesa onde está o presépio, define bem essa idéia: "bi, bi, dá licença 'nascimento-do-menino-jesus', que eu tenho que passar". Não, neste mundo o Natal não significa paz e prosperidade, também não significa festa e comemoração, na verdade ele significa dor, desilusão e ausência. Aqui a noite não é feliz. A fé pode até existe, mas o problema é que ela já não move as carcaças dos carros esquecidas no ferro-velho.

                                                             



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 18h03
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CINEMA: O SILÊNCIO DE LORNA

O SILÊNCIO DE LORNA

Quando assisti ao filme A criança (2005), fiquei surpreso com o estilo seco e realista, adotado pelos irmãos Dardenne, para contar a história de um sujeito que vende o próprio filho: ausência de trilha sonora, o primeiro mundo sendo mostrado pelo viés mais sujo e empobrecido das metrópoles, a câmera acompanhando gestos dos personagens nos mínimos detalhes, ações aparentemente desimportantes, enfim, características que imprimiam um tom autoral e bastante interessante aos trabalhos dos diretores belgas.

Em O Silêncio de Lorna estes elementos também estão presentes, mas felizmente não se trata de uma mera repetição. Na história, Lorna é uma jovem imigrante albanesa que conseguiu cidadania belga por meio de um casamento forjado com um viciado. O homem que articulou esta união pretende se aproveitar desta nova situação para conseguir outro casamento, dessa vez com um russo endinheirado.

O problema é que nem mesmo um divórcio às pressas explicaria um segundo casamento tão repentino, desta forma, a única solução encontrada (talvez um opção um tanto equivocada, proposta pelo roteiro) é matar o atual marido de Lorna forçando uma suposta overdose (mas afinal, naquelas circunstâncias, um novo casamento não soaria suspeito independentemente se fosse posterior a uma morte ou a um divórcio?).  

O filme tem lá suas falhas no roteiro (a cena de sexo embora seja bonita e esquisita - e até mesmo fundamental para entendermos a personalidade de Lorna - não é lá algo muito verossímil, soa até um pouco forçada). Entretanto a condução do enredo é perfeita, pois o clima de tensão cresce gradualmente. De maneira bastante convincente nós vamos acompanhando o desenvolvimento da personagem, bastante complexa e ambígua na medida certa. E através de uma elipse surpreendente os diretores simplesmente nos privam do clímax do filme, o que demonstra que os irmãos não estão interessados em contar uma história da maneira tradicional e que, de certa forma, eles nos convidam a participar da construção deste enredo tão dolorosamente humano.

Se O Silêncio de Lorna tivesse 20 minutos a menos, eu diria que ele seria um filme excelente. Mas a parte final (calma, não vou contá-la) tem sérios problemas de (falta de) rumo. A sensação que fica no espectador (pelo menos comigo foi assim) é de que os Dardenne não sabiam direito como finalizar o filme. Sou totalmente a favor de finais em aberto, mas o que temos aqui é apenas uma conclusão fraquinha, fraquinha, que nem mesmo combina com o que vimos anteriormente. Mas isso não joga o filme na vala comum, pois ainda sim, principalmente pela qualidade da direção, trata-se de um bom filme, um o tipo de cinema feito com seriedade e sem medo de arriscar.

 

                                



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h56
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