CINEMA: MADAGASCAR

EU NÃO ME REMEXO NEM UM POUCO

 

           Madagascar 2 é melhor que o primeiro. Mas infelizmente isso não quer dizer muita coisa. O grande problema desse desenho, além da falta de originalidade (fala sério, quem é que agüenta mais uma dessas animaçõeszinhas bobinhas com bichinhos bonitinhos e engraçadinhos em situações estupidinhas? Ok, o Era do Gelo3 vem aí, mas Era do Gelo já é outro nível). Continuando, o grande problema é que, assim como no anterior, o protagonista é muito sem graça.

         O draminha entre pai e filho vivido por Alex, o leão homossexual (ah tá, vai dizer que ele não é?), é uma cópia descarada do ótimo filme Billy Elliot (2000), do inglês Stephen Daldry. Digo "cópia descarada" porque não se trata apenas de uma simples referência ou homenagem, como ocorre, por exemplo, na cena em que o tal do rei (o bichinho do "eu me remexo muito") aparece com um turbante, numa clara alusão ao clássico Lawrence da Arábia. Essa cena é rápida e discreta. Já a história do leão não, percebemos que o roteiro de Billy Elliot é usurpado na cara dura, desde o conflito inicial até a aceitação no final (opa, contei o desfecho feliz, aposto que você nem tinha imaginado, foi mal).

          O festival de clichês vividos pelos outros personagens (a crise de identidade da Zebra, o amor platônico da Girafa (que dessa vez não está tão hipocondríaca, perdendo um pouco da sua graça, mas ainda assim segue como a personagem mais interessante do quarteto), e o relacionamento "da" Hipopótamo com um carinha marombado) são na verdade aquela velha enxurrada de lições de moral, que servem para a criançada sair do cinema mais domesticada, "respeitando as diferenças" (blargh!).

           O aspecto positivo, talvez o único (ok o visual é deslumbrante, mas hoje em dia isso é praticamente uma obrigação), é que os criadores do Madagascar2 resolveram dar mais espaço à única coisa engraçada presente no primeiro longa: os coadjuvantes. Em especial os pingüins militares. O carinha do "eu me remexo muito" tem uma ou duas cenas engraçadinhas. Mas confesso que a possibilidade de rever aqueles pingüins paranóicos em ação mais uma vez foi o único motivo que me levou a pagar para ver esse desenho no cinema.

          Desde a sacanagem, quando o desenho ainda nem começou, com o logotipo da Dreamworks até a contratação de macacos para o serviço braçal (com direito a sindicato!), os pingüins são a única coisa que realmente faz rir. Mas num ano em que tivemos Wall-e, Madacascar2 passa completamente despercebido, com ou sem pingüins sacanas.

                                                       



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h58
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CINEMA: QUEIME DEPOIS DE LER

SÓ QUEIME DEPOIS DE VER

 

           Quando os irmãos Coen receberam o Oscar de melhor filme no início deste ano (por Onde os Fracos Não têm Vez), eles fizeram aquela cara de "nossa, que ótimo, ganhamos uma coxinha de rodoviária!". Pois é, eles demonstraram claramente que estavam cagando para o reconhecimento de Hollywood. A atitude dos dois diretores pode até ser entendida como desdém, mas na verdade eu prefiro entendê-los como dois sujeitos inteligentes e irônicos, que não hesitam em mandar às favas o politicamente correto.

          E é justamente essa ironia a força motriz de Queime depois de ler. O enredo do filme é tão idiota e tão inverossímil que fica evidente o clima de "ah, não se leve muito a sério, apenas se divirta!". Mas não é todo mundo que compra esse perfil dos filmes dos Coen (algo parecido também acontece com Woody Allen. Geralmente acontece o seguinte: ou você ama e vira fã, ou você odeia e fica falando mal pra todo mundo), então não foram poucas as pessoas que eu vi saindo do cinema dizendo que o filme era "chato, "ridículo", "imbecil", "retardado", etc. Ora, é justamente por ser assumidamente "retardado" que o filme é engraçado! Se humor fosse involuntário tudo bem, mas não é o caso, o que temos aqui são diálogos muito bem elaborados e cenas construídas exatamente para serem absurdas.

            Eu sinceramente não consigo imaginar como alguém consegue não rir daquele personagem ridículo vivido pelo Brad Pitt (de longe o grande nome do filme) - a cena dele tentando negociar o cd com John Malkovich (ótimo na pele de ex-agente que praticamente usa palavrões no lugar das vírgulas durante seus surtos histéricos; e olha que nem a legenda dá conta de tanto fuck) é uma das coisas mais engraçadas que eu vi esse ano.

                                       

           Isso sem falar na grande sacada dos Coen ao aliarem sangue e riso na mesma cena. O humor negro é tão surpreendente e tão engraçado, que faz a agente se sentir mal por gargalhar ao ver uma atrocidade daquelas.

             George Clooney também vai bem no papel de homem "porcão". Tipo de cara que não se contenta em trair apenas a esposa. Os olhos esbulhados enquanto grita "Who are you?" e a "surpresinha" que fabrica para a mulher são impagáveis. 

            E a história do filme? Sei lá, ela praticamente não interessa - mas se você insiste: Dois idiotas que trabalham numa academia de ginástica encontram um Cd que contém as memórias de um ex-agente da CIA. De posse dessas informações "sigilosas", eles então decidem chantageá-lo, ameaçando entregar as informações para os russos (!?) - na verdade, o roteiro é um amontoado de encontros e desencontros que levam os personagens do nada para lugar nenhum. A idéia é apenas fazer piada com os cacoetes dos filmes de espionagem (câmera em forma de mira, satélites, intrigas internacionais, etc) e, é claro, fazer o espectador rir, simplesmente isso. Mas não engane-se achando que esse é apenas um filme "burro" ou então um cult supervalorizado, muito pelo contrário, Queime depois de ler é uma experiência que... bem, melhor você assistir, o último diálogo do filme, entre o chefe da CIA e um comandante, resume exatamente o que todos nós podemos aprender com um filme como esse. Recomendo.

                                        



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
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