CONTO: NÃO NATAL

NÃO NATAL

 

         Quando estaciona o carro na calçada, percebe que todos já chegaram. Desliga o motor e permanece imóvel ao volante. Sonha a possibilidade de não ser notado, de permanecer atrás de vidros escuros durante uma ou duas eternidades: o gosto do conhaque na boca, especial do Roberto Carlos na tv, pedaços de unhas roídas raspando embaixo da língua. É o refluxo dos anos que se misturaram, dissolvendo-o por dentro. Efervescente, enfermo, inferno.

            A sobrinha pequena bate na janela. Não vai entrar não? A boneca que acabou de ganhar chora de verdade, ela mostra. Chora de verdade, repete. Sorri de mentira, remói.

            Antes de sair do carro abre o porta-luvas e procura alguma coisa, não acha. Esquece. Tira a chave da ignição e a coloca no bolso. Sente o volume dos projéteis.  Seis. Agora lembra: a caixa dentro do armário. Resolve entrar.

         Sem graça, oferece um "Feliz Natal" de mentira para todos os presentes que, distraídos, sinceramente não retribuem. Talvez um aceno de alguém atrás da mesa, um gemido gutural de uma criança que não existia no ano passado ou um par de sobrancelhas erguidas em forma de "oi", não sabe ao certo, difícil desenhar desdenho. Já estudou isso. Ou inventou? Melhor escrever antes que vire um tumor.

         Então repete a tela: O olhar acovardado não fotografa a imagem à sua frente, ele apenas borra as cores e os sons e os cheiros, tornando-os uma coisa só. Essa é sua defesa, é seu escudo para melhor suportar o insuportável. O esforço da memória, ao tentar recobrar o passado, talvez seja uma tentativa de reproduzir essas impressões repetidas vezes até que elas se transformem em lembranças concretas, boas ou ruins, mas tão falsas quanto à própria realidade. Mais um gole de cidra quente, de onde surgiu? Não, não foi ele quem inventou essa teoria. Retórica inverossímil. Passa a desconfiar de suas próprias palavras, mas segue pintor de presentes. Imprecisões à óleo.

         O restante da casa é comida e presépio. Gosto de uva-passa nas paredes, o chão ainda grudento. Tantos natais incrustados no mármore. À mesa, serve-se da comida cenográfica e desvia-se dos olhares marginais que o fuzilam. Festa, farsa, forca.

         Ouve conversas. Onde ele está? No quarto, passou mal durante a tarde.

         Imagina então o pai cheio de tubos colados à boca e à bunda. Imagina os aparelhos sendo desligados. Imagina os desfibriladores. Imagina a encomenda na floricultura: Não, desta vez não quero um buquê.

         Na taça vazia, o reflexo irritante do pisca-pisca que enfeita o pinheirinho. Acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, apaga-Natal, acende-Feliz, apaga-acende, Natal-Feliz, apaga-acende, Natal-Natal, apaga-Fe, apaga-liz. Apaga. Natal. Afaga. Afoga. Apaga.

         Planeja contar tudo à mãe, ou insinuar ao irmão, ou simplesmente se calar diante do pai. O medo ainda o estrangula. Teria coragem de seguir em frente com essa insensatez, mesmo após verbalizar aquilo tudo que pede palavra em seu choro? Já não faria sentido. Não faria sentido! Pincela novamente para ficar mais nítido. Tenta calar cada cor que destoa do seu corpo. Mas os natais passados rodopiam no fundo do copo de refrigerante da menininha enquanto a boneca não pára de chorar. De verdade, não pára. As histórias da velha casa passam correndo por entre suas pernas, puxam a sua calça e depois se escondem atrás dos móveis. Quem sabe dentro do armário.

         Antes que enlouqueça, pensa. Sobe para o quarto do irmão e vai direto ao armário. Antes que enlouqueça de vez, repete para afastar a faísca de insanidade. Retira a velha caixa de sapatos. Não é mais o seu armário, é o armário de um filme americano. As fotos dentro da caixa não são suas, são de um personagem de um filme americano. De um filme americano, repete, mas não consegue imaginar. O verbo não se fez carne e nem se fez imagem, só som, só som, só som. Tudo acontece duas vezes. Ele ainda está ali, mãos suadas. Apanha o revólver no fundo da caixa e vai para o quarto do pai.

         Não há tubos nem desfibriladores, o velho dorme. O pesadelo está travestido de sonho. Engatilha o revolver assim como viu no filme americano. Essa cena já aconteceu? Encosta a arma na cabeça do velho, que não acorda nem mesmo após o contato com o metal. O cheiro azedo que vem da sua pele é a infância correndo pelo quarto. Da pele de qual dos dois ele vem? Barulhos no corredor, alguém se aproxima. A boneca? Precisa agir antes que seja tarde. As mãos derretendo, desmanchando. Antes que enlouqueça de vez. Antes que. Afasta-se da cama, coloca o cano do revólver na boca, fecha os olhos e dispara. A cena se repete. Coloca o cano do revólver na boca, fecha os olhos e dispara.

         A porta abre. É a mãe, veio trazer remédio. Fazendo o quê aí no chão? Nada não, vim ver o pai. Esconde o rosto, seu choro também é de verdade. Esconde a arma na calça. Coitado, até comeu um tantinho de panetone de manhã, mas não adianta, ele vomita tudo. Ela ajeita o travesseiro e apanha a jarra d'água. Ele se esquiva de qualquer resposta, sai do quarto antes que o torpor de alegria que o toma confunda ainda mais a situação. Vomita tudo, o pai vomita tudo, repete sorrido.

         Quando chega à sala, boa parte das pessoas já foi embora. O pisca-pisca não pisca. O peru está pela metade, será requentado no almoço de amanhã. Sai. Entra no carro e guarda o revólver no porta-luvas. O gesto se repete, guarda o revólver no porta-luvas. Rói as unhas para se acalmar. Imagina o velório do pai. Imagina o próprio velório. Ao lado do caixão, a família gotejando porquês. Nada. Natal. Nódoas.

         A sobrinha pequena bate na janela. Não vai entrar não? A boneca que acabou de ganhar chora de verdade, ela mostra. Chora de verdade, repete. Sorri de mentira, remói.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h35
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NOVISSISSÍSSIMO MANUAL DE TEORIA LITERÁRIA

 NOVISSISSÍSSIMO MANUAL DE TEORIA LITERÁRIA - PARTE I

 

A POESIA E A NOVA MPB (MÚSICA POPULARESCA BRASILEIRA) - E UM POUCO DE HISTÓRIA NACIONAL TAMBÉM - SOB A ÓTICA PSEUDO-INTELECTUAL DE UM PRECONCEITUOSO IGNORANTE METIDO A ESPERTO

PALAVRA-CHAVE: CRÉU

 

     Constam em inúmeras obras analisadas durante a feitura desta pesquisa que ao longo de muitos anos o povo brasileiro sofreu privações quando da sua liberdade de expressão (Nota: Embora o povão não tenha lá muito o que expressar, já que não sabe nem falar direito (certo? errado?. ver: Marcos Bagno), é direito seu poder palestrar pelos cotovelos) - a saber: o problema ocorre desde o início da ditadura militar, quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil municiado com suas metralhadoras, cruzes, espelhos e principalmente seus tanques blindados, pintados com a Cruz de Malta do time carioca, rebaixado este ano para a segunda divisão, Vasco da Gama.

       Aliás, alguns historiadores afirmam que Cabral e sua gangue lusitana foram vistos chegando em nossas praias, provavelmente Copacabana (ver: Manual Carlos), com várias velas rumo à Aparecida do Norte, que ainda nem existia, numa clara evidência da absurda imposição religiosa efetuada pelos portugueses já no ato da colonização (alguns estudiosos afirmam que, assim como muitos romeiros católicos, eles não vieram para rezar e sim para comprar muambas). Sendo esta, portanto, uma provável retaliação às piadinhas de português já famosas entre os índios Caetés, os primeiros e famintos (ver: Dom Pero Fernandes Sardinha) habitantes do país, sujeitos estes que ainda não sabiam que o chão se tratava de um país e nem o que significava as palavras 'habitante' ou 'sujeito", pois eram muito burros (ver: José de Alencar).

     Os Portugueses instalaram suas padarias e igrejas, acabaram com as comidas diet coloridas (também fecharam todas as lanchonetes Subway), passaram uma borracha nos deuses indígenas e os substituíram por velas, estátuas e bandeirinhas de times do compeonato europeu (inclusive, recentemente foi encontrada em uma ruína na Amazônia, próximo à divisa com o México, uma camisa do Real Madrid datada do início do século XVI. O que nos leva a crer que o processo de colonização não aconteceu bem assim não como está explicada nos livros didáticos, pelo jeito o povo catalão também andou usando índio como adubo no norte do país).

      Como castigo pelas piadas infames e preconceituosas (típicas de um povo selvagem), todos os índios tiveram que trocar suas esposas por Cd's Players (naquela época ainda não havia o mp3) para que pudessem fezer o curso multimídia de Língua Portuguesa do Professor Pasquale e, finalmente, se comunicarem numa língua descente.

      Por fim, a língua evoluiu tanto, mas tanto (após vários acordos ortográficos/econômicos com os Estados Unidos), que tornou-se possível expressar através da linguagem absolutamente tudo o que tinham na cabeça (mais ou menos 32 ou 33 palavras, exetuando, obviamente, as gírias e termos de baixo calão, esses resumidos, abrangem cerca 3.221 ou 3.222 palavras). Dái o interesse dos detentores do poder (presidente dos EUA Jorge Buchi, presidente da Venezuela Hugo Chapolin e a primeira ministra do mundo, a cantora Madonna) em inviabilizar a liberdade de expressão.

     Mas é neste momento importantíssimo da nossa história que se fez valer o talento nacional. Pois os artista brasileiros, sabendo que os militares era semi-analfabetos, fizeram várias músicas com mensagens de duplo sentido; cheias de sacadinhas intelectuais que só os intelectuais (vulgo ricos) poderiam endender. Foi nesse período fértil da nossa cultura, em que ninguém entendia porcaria nenhuma do que estava acontecendo, que surgiu uma das mentes mais brilhantes da música nacional tupiniquim brasileira do Brasil: Mc Créu. A obra deste importante filósofo e compositor abre com chave de ouro essa nossa pesquisa tão significativa para o desenvolvimento da teoria literária nacional.

 

Análise da música "Dança do Créu", uma composição de Mc Créu.

 

Dança do Créu

É créu!
É créu nelas!
É créu!
É créu nelas!
"Vambora, que vamo"!
"Vambora, que vamo"!

Prá dança créu
Tem que ter disposição
Prá dança créu
Tem que ter habilidade
Pois essa dança
Ela não é mole não
Eu venho te lembrar
Que são 5 velocidades...(2x)

A primeira é devagarzinho
Só o aprendizado.
É assim, oh!
Créeeeu...(3x)
Se ligou? De novo!
Crééééu...(3x)

Número 2! (repete até o 5)
Créu, créu, créu
Créu, créu, créu
Continua fácil, né?
De novo!
Créu, créu, créu,
Créu, créu, créu!

       A genialidade deste compositor está presente já na escolha do título, percebemos aqui, através da autoreferência proposta por ele como forma de ironia (Eu mesmo=Eu Lírico - Créu Mc=Créu Lírico), um artista que se debruça sobre sua própria complexidade. Ora, a visão antropomórfica de mundo é uma marca representativa da contemporaneidade atual do mundo de hoje em dia. O homencentrismo ou metrossexualismo é a chave para entendermos a sociedade pós-moderna, em que o espelho é o símbolo máximo da ausência de solidão. Quando o homem passa a amar a sim mesmo (ver: Dicionário Aurélio: masturbação)  ele consegue perceber que os outros seres humanos fazem apenas parte do cenário, do plano de fundo de suas vidas. Sendo todos eles, portanto, descartáveis, principalmente as mulhes, pois são seres completamente diferentes dos corpos que eles estão acostumados a ver e admirar diante do espelho (ver: academia, musculação).

    Ao tratar a mulher como sendo apenas um pedaço de carne pendurado no açougue, como vemos no iluminado verso "É créu nelas!", que aliás é claramente inspirado na poesia clássica grega, dada a sua sutilieza, percebemos a acuidade da crítica que se pretende fazer à essa sociedade contemporânea, dominada por valores efêmeros.

    É vidente que um poeta do quilate de Mc Créu não preocuparia-se em orquestrar seu arsenal intelectual com apenas uma série de idéias jogadas ao vento. É, sobretudo, na preocupação estética presente na poesia do gênio, que nós percebemos a importância de sua obra. Tento em vista a degradação da mentalidade do povo e da rápida ("são 5 velocidades") propagação das idéias mastigadas pela mídia, o poeta (brilhantemente, diga-se) conseguiu transpor para a música, a sensação perturbadora de repetição, de sofrimento cíclico do qual a humanidade não consegue se desvencilhar: "Créu, créu, créu" (ver: eleições 2008).

    A inadequação do homem diante dessa sociedade, com um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente, está presente nos versos "Tem que ter disposição", "Tem que ter habilidade". Todas as forças do homem são sugadas por este mundo corporativista, no qual a felicidade é apenas um item obsoleto desta existência tão aterradora, "Ela não é mole não".

    Mc Créu nos deixa, através de sua magnífica obra, de indizível importância, a mensagem (ver: Paulo Coelho) de que todo esse sofrimento é "Só o aprendizado" e que as quedas fazem parte desta nossa evolução enquanto seres humanos, que não podemos desistir diante da primeira dificuldade, embora saibamos que "A primeira é devagarzinho", temos consciência de que podemos superá-la com rapidez, dependendo apenas de nós mesmos e da pedra filosofal (ver: J. K. Rowling).



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h04
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