CINEMA - GOMORRA
DON CORLEONE É O C*, MEU NOME É ZÉ PEQUENO, P* !

Gomorra é um filme um pouco difícil, tanto pelo grande número de histórias que ocorrem simultaneamente (cinco), quanto pela maneira naturalista, quase documental, como essas histórias brutais são contadas. Baseado no livro do jornalista Roberto Saviano (que foi ameaçado de morte graças às denúncias feitas em sua obra), o filme de Matheu Garrone segue os passos de seis personagens que, cada qual a sua maneira, acaba se envolvendo com a Camorra, a ultra-violenta máfia italiana, (permitam-me um didatismo provavelmente desnecessário: o título do filme inverte as letras e faz um ótimo trocadilho com a cidade mencionada na bíblia, a qual foi destruída por Deus em virtude das imoralidades cometidas por seus habitantes).
Esqueça o Don Corleone de Marlon Brando, esqueça a riqueza e o glamour ao redor dos poderosos chefões. Em Gomorra observamos as pessoas que estão (bem) abaixo deles, estamos diante dos caras que realmente fazem o serviço sujo e nesse mundo obscuro em que eles rastejam só há violência e miséria. Tudo, inclusive o ser humano, é muito pobre e sujo e feio (perceba a ironia da primeira e violenta cena do filme, que se dá nada mais nada menos do que em uma clínica de estética).
As pessoas vivem em prédios semi-abandonados, que não ficam devendo em nada ao cortiço descrito por Aluízio Azevedo. As ótimas tomadas aéreas, que dão conta de mostrar grandiosidade desses "monumentos" miseráveis, se parecem com imagens de uma cidade da América do Sul. Fica até difícil de acreditar que o que estamos vendo é a Europa, que aquilo é o primeiro mundo. Tão diferente da ilusória propaganda que nos vendem pela televisão.

É nesse cenário terrível que acompanhamos cinco histórias: um menino que quer entrar para o "movimento"; um velho encarregado de entregar dinheiro às famílias dos mafiosos que estão presos; um executivo que ganha dinheiro enterrando lixo tóxico de grandes indústrias em áreas próximas a moradias mais pobres (elevando em até 20% as ocorrências de câncer entre os moradores desses locais), um costureiro que trabalha para um dos chefes da máfia e que acaba se envolvendo com os chineses em busca de reconhecimento; e, finalmente, os dois amigos imbecis (os caras de cueca na capa) que vivem de pequenos golpes e tentam "glamurizar" o mundo da máfia, fantasiando a realidade cruel como sendo a dos filmes de Hollywood. Sujeitos que são capazes, de atitudes tão violentas quanto burras, mas que no fundo (ou talvez nem tão fundo assim) não passam de duas crianças "inocentes" brincando de bag-bang.
As histórias são simples, cruéis, mas bastante simples. O bacana é que o diretor resolveu fragmentá-las e contá-las todas ao mesmo tempo, sem a preocupação de desenvolver um fio condutor que facilite a vida do espectador ou mesmo algum elemento comum que interligue as narrativas (o que explica algumas pessoas saindo da sessão antes do filme acabar). Nesse sentido, Gomorra é um tanto exigente, o que é ótimo. Como sou meio lerdo, quando o filme já estava quase em sua terça parte eu ainda não estava conseguindo "ligar os pontos" de umas duas histórias, contudo a edição (assim como a câmera digital, demasiadamente escura em alguns momentos, diga-se, mas sempre bem enquadrada, com movimentos bastante bonitos), é tão bem feita que tudo se torna inteligível sem ser, em momento algum, óbvio.
Gomorra está sendo vendido no Brasil como o "Cidade de Deus italiano". Embora sejam filmes bastante distintos, principalmente na questão da composição do roteiro e do ritmo da narrativa (Gomorra é muito mais lento, mesmo embora a ação ocorra num tempo/espaço (dias) bem menor do que o de Cidade de Deus (décadas). Isso se dá, pois o diretor procurou desenvolver de maneira convincente cada um dos personagens, emprestando uma sensação perturbadora de realidade e fazendo com que o espectador desenvolva empatia por eles, para posteriormente causar o forte impacto, ao colocá-los no olho do furacão).
Mas de fato há algumas aproximações entre os dois filmes. Os mafiosos italianos estão mais para Zé Pequeno do que para Don Corleone, a complexa organização dos mafiosos se assemelha a dos traficantes nos morros cariocas, o envolvimento de crianças no mundo do crime também se dá em virtude de um equivocado deslumbre diante de uma "carreira" bem sucedida, e também em ambos os filmes o aspecto de "filme-denúncia" é o mesmo, misturando positivamente ficção e realidade.
A preocupação dos dois filmes, creio eu, não é banalizar a violência ou simplesmente reproduzir o que vemos nos jornais. Ao recriar a realidade de maneira tão verossímil, esses filmes possibilitam observar a questão da violência com uma lente de aumento, uma lente de aumento que causa desconforto, um desconforto que gera indignação, uma indignação que, por sua vez, pode gerar importantes questionamentos... Enfim, talvez o cinema não seja apenas uma mera ferramenta de entretenimento.
Nota: 9,5
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h52
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CINEMA: MARLEY E EU
O PIOR CACHORRO DO MUNDO

Surpreendente esse Marley e Eu. Fui assistir já antecipando que seria uma droga (embora uma amiga em cuja opinião eu confie bastante, tenha insistido em defendê-lo, afirmando que o livro que inspirou o filme (o qual não li) não é uma porcaria e que também não é mais um best-seller de auto-ajuda. Ainda assim, fiquei desconfiado). Para agravar a situação, em virtude da minha costumeira desatenção, acabei entrando numa sessão dublada! Pronto, minha avaliação do filme iria de "o que é que eu estou fazendo aqui?" para "quero arrancar meus olhos com uma colher".
Mas não foi bem assim. Para minha surpresa o filme é, dentro de suas limitações, bem bom. Consegue transmitir uma atmosfera positiva, de valorização da família, sem ser (muito) piegas. O filme não é sobre o cão (o que é ótimo) e sim sobre os percalços de um casal bastante comum, que briga, que ri e que tenta se ajudar, enquanto cuida dos filhos e do "pior cachorro do mundo" (ele come tudo o que vê pela frente, isso inclui sofás, travesseiros, aparelhos de telefone, etc.). Aliás, é tocante a cena em que o marido fala com bastante naturalidade para o amigo que apesar das dificuldades jamais pensou em separação, pois "tudo pode ser resolvido com o diálogo".
Um crítico do site Omelete, afirmou, com outras palavras, que o Marley e Eu era uma droga, pois se tratava de um filme sobre "resignação", sobre pessoas "conformistas" que simplesmente abrem mão de seus sonhos. Discordo completamente. Na verdade, o que temos nesse filme é uma reflexão (não muito profunda, não vamos exagerar, trata-se de um filme popular) sobre "tolerância" e não sobre "resignação". O filme fala sobre respeitar a pessoa amada, independentemente das dificuldades, e entender que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo, sendo que a vida nem sempre seguirá como planejamos ou sonhamos. Eu sei, nesse nosso mundo capitalista é até difícil discordar do crítico, talvez ele esteja certo, talvez os treinamentos/lavagens cerebrais das empresas esteja certo, o lema é: "foda-se as pessoas ao seu redor, o que importa é apenas você e o seu sucesso profissional/financeiro". Ingenuidade ou não, fico com o Marley.
Voltando ao filme. O ponto alto, além do roteiro que é bastante eficiente, é a edição do filme, que sem nenhum didatismo consegue transmitir de forma convincente a passagem dos anos. Por exemplo, em vez de utilizar o pouco criativo "alguns meses depois...", o que vemos é uma seqüência belíssima de alguns momentos da família, acompanhada de uma narração ágil e de pequenos trechos dos textos escritos pelo personagem principal. Ainda nessa questão (a passagem de tempo), vemos outra boa sacada da direção de arte (item que nem sempre recebe atenção dos espectadores), que, sem aviso ou letreiros, vai trocando várias vezes o carro do protagonista, que começa com um carro popular (tipo um Fiat 147) e depois evolui para modelos mais modernos, representando a estabilidade financeira do casal.
Marley e Eu é um filme feito para fazer o espectador chorar. Ou seja, ele é descaradamente um melodrama (e não pretende ser mais do que isso), logo, se você não gosta de sair com o olho vermelho do cinema e quer manter a pose de machão perto da namorada, fique longe desse longa. Nos filmes estilo "sessão-da-tarde", o choro é programado, algo que normalmente resvala no piegas e no previsível. E isso quase acontece em Marley e eu, mas a cena final é tão bem construída, as atuações são tão bacanas, que o filme acaba realmente emocionando mesmo que a gente saiba exatamente o que vai acontecer.
Nota: 7,0
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h39
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ANO NOVO VIDA VELHA
ANO NOVO VIDA VELHA

Não mentirei nem mesmo quando a verdade for tão ruim que a pessoa se arrependa amargamente por ter pedido para eu ser sincero. Não beberei quando estiver deprimido. Não ficarei reclamando que não estou estudando. Não ficarei reclamando que estou estudando demais. Não assistirei a cinco filmes do Woody Allen de uma só vez, para não me sentir deprimido para não ter que beber para não acabar me matando para não dar trabalho para a minha família. Não ficarei irritado quando eu enfrentar uma fila gigante, entrar no cinema, sentar num lugar horrível e só depois descobrir que a bosta do filme é dublado. Não comprarei livros que não terei tempo para ler. Não comprarei revistas que só lerei pela metade. Não perderei o ônibus todos os dias por causa de dois malditos minutos. Não esquecerei onde deixo o meu celular. Não lerei três livros ao mesmo tempo. Não comerei fast foods que parecem ser feitos de isopor ou de plástico. Não tentarei converter as pessoas ao agnosticismo quando estiver bêbado. Não economizarei esforços para me adaptar ao novo acordo ortográfico. Não deixarei que uma cárie demoníaca destrua o meu dente do siso. Não farei comentários irônicos no texto da minha monografia só porque não recebi orientação e tive que escrevê-la sozinho. Não falarei tanto palavrão. Não comerei coisas bizarras tipo pastel de tabasco. Não serei tão pessimista quanto normalmente sou. Não desejarei que o celular com alto-falante ensurdecedor do hip-hopero, que pega ônibus lotado comigo todo dia, exploda e que os pedaços do plástico e metal do aparelho fiquem grudados na sua pele e façam com que seu rosto fique deformado e dolorido pelo o resto da vida. Não farei piadinhas de humor-negro. Não escreverei posts com mais de trezentas palavras.
Dadas as exigências, creio que não será esse o ano em que eu me tornarei uma boa pessoa.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h48
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