LITERATURA: A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA (AUTOR: LOURENÇO MUTARELLI)

 O ENSAIO SOBRE A DEPRESSÃO

 

     Júnior é um cara que acabou de largar o emprego e a família. O motivo que o levou ao duplo abandono é extremamente dolorido, tanto pela singularidade do fato (que eu não vou contar, é claro) quanto pela vergonha gerada por ele. Sem ter para onde ir, Júnior retorna à casa do pai. E lá, em meio a uma rotina de com poucas variações entre cafés, cigarros e cochilos no sofá mofado (que ainda possui o cheiro da cadela que sempre dormia ali), que ele desenvolve a consciência tardia de que é um fracassado.

      Nem mesmo a presença da bela inquilina Bruna ou os misteriosos pacotes que chegam à portaria, o tiram do estado de letargia. Júnior segue rumo ao abismo da depressão e nós, leitores, somos a "câmera" que acompanha sua ida ao inferno.

     Lourenço Mutarelli é o autor do livro O Cheiro do Ralo, que recentemente foi adaptado com bastante sucesso para o cinema (uma curiosidade, o autor faz uma ponta no filme, ele é aquele segurança tosco que usa uma roupa brega vermelha). Oriundo do mundo dos quadrinhos, Mutarelli tem bastante habilidade também com as palavras. Inclusive, sabe emprestar das HQ's uma boa noção de "enquadramento" das cenas, algo que torna a narrativa bastante dinâmica e visual, semelhante a um roteiro cinematográfico. Para muita gente isso pode parecer um problema, mas não creio que o seja, pois o fato de uma obra ser visual trata-se de uma possibilidade estética e isso não necessariamente a determina como sendo oca ou superficial.

      A arte... com certeza é um livro mais denso que O cheiro do Ralo, pois neste livro, o foco é todo voltado à degradação gradual da mente do personagem  (o que se dá principalmente pela linguagem). É a depressão explorada pelo lado de dentro, o lado mais doloroso, e talvez o lado mais incompreensível para quem esteja de fora. Não há nem mesmo aqueles momentos de humor negro, presentes na obra anterior, para quebrar o ritmo de declínio do protagonista. O clima de tensão só faz aumentar conforme vamos percebendo que não há mais esperança de retorno.

     O bacana é que conforme a narrativa avança, a linguagem (e as atitudes do personagem) vão ficando cada vez mais surreais. A depressão, na obra de Mutarelli, pinta a realidade com cores kafkanianas, o que torna a história ainda mais interessante, haja vista que não há muita preocupação em mostrar ou mesmo explicar os fatos de maneira óbvia.

     Segue um trecho bastante interessante dessa obra:

  "(...)

- Dia estranho, não é mesmo?
- Como?
- Dia estranho.
- Todo dia é estranho.
- Não. Hoje... essa névoa.., as ruas desertas...
- Pra mim, todo dia é estranho. Eles nunca me convencem.
- Quem não te convence?
- Os dias... são falsos... estranhos... isso não pode ser a realidade... não é possível que seja... isso é... sei lá que porra é isso tudo.
- Talvez...
- Sabe? Eu descobri como funciona esse esquema.
- Ah, é?
- Você já viu aquele planetinha daquele livro do Pequeno Príncipe?
- Sei, acho que me lembro.
O outro faz um gesto com as mãos formando uma esfera no ar.
- É um planetinha, pequeno... Tem uma flor e acho que uma casinha... É assim.
Diz isso projetando a pequena esfera na direção de  Júnior.
- Sei, sei...
- É isso, porra! É isso...
- Entendo.
- Entende, nada. Entende?!
O outro faz um gesto de desprezo que desmancha a esfera.
- Eles botaram a gente aqui.
- Claro...
- Deus botou a gente nesse planetinha do caralho. Do caralho do Pequeno Príncipe. Aí ele falou: Meu amigo, tudo isso é seu. Tem ali uma plantinha de merda que dá um fruto gostoso. Ali tem uma vaquinha de bosta que dá leite. E tem trigo pra fazer pão. Até aí tudo bem, não é?
- É tudo o que precisamos...
- É. Mas aí ele mostra um buraco na terra. Um buraco feito uma cova.
- Certo...
- Então ele diz: Tudo isso é seu. E ainda vou te mandar uma mulher e umas crianças... Isso eu acho que é só pra encher o nosso saco e distrair a gente dessa merda toda. Assim não sacamos o esquema, tá ligado?
- E qual é o esquema?
- Posso continuar?
- Claro.
- Então faz favor de não ficar me interrompendo. Bom Aí Deus explica o esquema. Ele diz: Meu filho, tudo isso é seu. A única coisa que você precisa fazer é tapar aquele buraco. A tal cova que eu te falei.
- Sei.
- Pois então. Cada vez que esse homenzinho tapa a porra do buraco, acaba fazendo outro do mesmo tamanho. Percebe?
- Entendo.
- Então. É isso. É isso sem fim. Tapa um buraco, faz outro igual. Tapa um, faz outro. Até o dia em que o infeliz morre. Só assim você pode tapar o buraco sem fazer outro igual. O buraco é sob medida.
- Legal.
- Porra! Legal, o caralho!
- A história, quis dizer.
- Ou seja, é pau no teu cu. Percebe? É isso. Pra Deus nós somos apenas os que podem tapar o buraco que ele não conseguiu tapar. Entende? É como na obra. Se falta areia, cê não faz parede. Não adianta tijolo, nem cimento. Eu acho que Deus errou nos cálculos. Aí. como já estava de saco cheio, inventou a gente. Tipo umas formigas. Uns formigões. Sacou?

(...)"



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h20
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