CONTO: ESTIVE NO INFERNO E LEMBREI-ME DE VOCÊ
ESTIVE NO INFERNO E LEMBREI-ME DE VOCÊ

A vida, essa que nós assistimos e pensamos que fazemos parte significativa, parece a obra de um titereiro sem talento. Sobram fios amarrados ao nosso corpo, os movimentos são irreais, a cortina tapa metade da visão e a pintura das marionetes está sempre descascada. Nosso espetáculo, aqui nesse teatro abandonado, é simplesmente um fiasco. A sensação é a de que Deus saiu para comprar cigarros e errou o caminho de volta, ou que talvez ele tenha encontrado Godot pelo caminho e os dois resolveram sair para sacanear algum vagabundo dormindo na rua. E a gente fica aqui, esperando, procurando o que fazer e tentando dar sentido a coisas que não têm sentido, enquanto eles não voltam.
O pior é que o amor acha de aparecer bem nessas horas em que os dvd's da locadora já são todos repetidos e os livros na sua estante não inspiram releituras. A repetição dos dias contamina a paciência e a vontade de manter-se bêbado é maior do que o estômago pode agüentar. Pois bem, resolvi preencher esse vazio todo com você e essa sua bunda e essa sua pose de ninfa e essa sua cara de intelectual, mas como você sabe, eu também poderia ter preenchido esse vazio com uma pizza de calabresa e um pouco de ketchup.
Quando me lembro de você batendo a porta, a primeira coisa que penso é "Por que ela não espremeu os dedos?". E então vou até lá, coloco meus dedos na quina e os esmago até a dor sugar toda irrealidade desse apartamento.
Não pense que você foi assim tão importante. Na verdade, sem você, eu sigo sem adoecer. O mal sempre esteve aqui dentro. Sempre fui meio ansioso: mando e-mails para listas desconhecidas, aguardando um novo contato improvável, um sexo casual ou mesmo uma conversa sobre algum filme do Bergman; compro duas caixas de Skol e as tomo assistindo Sessão da Tarde; fumo charutos vagabundos e fico tossindo engasgado; tomo vários banhos para me livrar do cheiro dos charutos vagabundos; ouço minha própria tosse e espero um eco, uma resposta vinda de outro cômodo; ligo a tv e o rádio ao mesmo tempo para fingir que tem mais alguém em casa; escrevo uma porção de poesias para mandar para meus amigos esperando que eles me devolvam elogios e lustrem o meu ego; dou voltas na quadra buscando inspiração para uma história diferente, mas só consigo pensar em clichês ou no meu próprio umbigo.
Como vê, não mudou muita coisa. Resta-me o café, companheiro que dilui algumas horas insuportáveis. O problema é que o café já não me basta como fé. Tenho pensado em comer a borda da caneca - a amarela, aquela mesma que você derrubou cem vezes. As rachaduras e a gordura na louça ainda evocam demônios e geografias dos teus descaminhos sujos aqui na minha vida; desculpe o vocabulário, minha mente anda, ou talvez pare, um tanto confusa -, creio que mascar um pouco de cerâmica talvez me devolva um pouco do gosto da tua pele.
O fato é que não tenho mais estômago para essa sua cara amorfa, que finge interesse enquanto falo de literatura, quando na verdade você gostaria de estar no banheiro, vomitando ou lendo Caras. Aliás, me devolva o livro do Chico que eu te emprestei e você nem leu. Não, pensando bem não devolva nada, o seu retorno tem cheiro de ameaça. A ameaça de que tudo volte a ser como era antes: feliz. Essa felicidade burra que nos cega e nos impede de raciocinar, dois mais dois, fazendo com que nós acreditemos na fábula absurda da convivência possível.
Depois fico procurando respostas, não sossego enquanto não sangro. O seu tédio sempre me pareceu falta de talento para a vida, mas agora, contaminado pela sua ausência, fico procurando em mim a nascente desse rio que já nasceu poluído.
Gasto horas colocando defeitos em tudo o que faço, encenando nossas discussões, formulando frases que não tive coragem de falar, lamentando as oportunidades que perdi de te humilhar, depois relembro cada detalhe disso tudo e choro com pena de mim mesmo. E depois eu fico rindo. E depois eu fico triste. E depois eu fico bêbado. E quando a companhia toca, eu penso que é você, com seu rosto lindo e sua expressão de arrependida, uma expressão tão meiga que faria eu te perdoar. Mas quem sabe seja outra pessoa, talvez seja Deus, que achou o rumo de casa e veio me salvar de você. Não. É só o cara da pizza. Pago e recebo o troco, é assim que funciona. Vou voltar para frente da tv, acho que ainda sobraram algumas latinhas de cerveja quente. Acordo de madrugada com um gosto azedo na boca. Não lembro se vomitei. Talvez tenha sido apenas a lembrança de um beijo seu. Adormeço novamente pensando no fim de um espetáculo em que ninguém aplaude.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h50
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CINEMA: O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON
A POESIA SEGUNDO DAVID FINCHER

David Fincher é o diretor de um dos filmes que está sempre presente na minha lista mutante de "melhores filmes da minha vida", trata-se de Clube da Luta, produção de 1999 com Brad Pitt e Edward Norton, vivendo dois personagens que considero fundamentais para entendermos a chamada pós-modernidade. O cineasta é também o responsável por dois outros marcos do cinema recente, Se7en - Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco (ambos os trabalhos, em especial o segundo, desenvolvem a temática de "filme policial" de maneira bastante singular, explorando as nuances psicológicas dos personagens e utilizando uma narrativa muito mais densa do que normalmente encontraríamos nesse gênero).
E sabe qual é a semelhança entre os três filmes citados e O Curioso Caso de Benjamin Button, o seu mais novo trabalho? Praticamente nenhuma. Excetuando a presença de Pitt nos dois primeiros e neste último, aparentemente nada se repete na filmografia deste curioso diretor. O bacana é que ele não vê necessidade alguma de repetir uma fórmula apenas porque ela fez sucesso anteriormente (ai ai, bem que alguns diretores, como por exemplo o Daniel Filho (Se eu fosse você), poderiam aprender alguma coisinhas com ele).

O que percebemos, ao analisarmos o conjunto da obra, é uma enorme preocupação, por parte do cineasta, em sempre tentar alcançar a perfeição artística (se você também for do tipo fanático, confira os extras do Dvd do filme Zodíaco, e veja até que ponto chega o perfeccionismo do diretor, que troca até mesmo árvores de lugar, para que uma cena fique exatamente como o planejado). Desta forma, creio que em O Curioso Caso de Benjamin Button, Fincher chegou lá.
O filme conta a fantástica história (baseada em um conto de F. Scott Fitzgerald) de um bebê que nasceu velho e que com o passar dos anos foi rejuvenescendo. Esse absurdo relógio ao contrário desperta estranheza e também dramaticidade. É um tanto quanto esquisito ver um bebê com a cara do Brad Pitt e ainda por cima envelhecido (mérito da esplêndida maquiagem utilizada e também dos convincentes efeitos visuais), assim como também é extremamente triste acompanhar um personagem que vê praticamente todas as pessoas que ama irem morrendo aos poucos enquanto ele vai ficando cada vez mais saudável.

O excelente roteiro de Eric Roth (que também escreveu Forrest Gump) contempla diversos momentos históricos, desde o fim da Primeira Guerra até a chegada do Furacão Katrina à Nova Orleans em 2005. Esses fatos reais, aliados a um ritmo de contemplação da natureza humana, faz com que o lado "fantástico" da história seja logo tomado como "realidade", que funciona de maneira bastante crível dentro deste universo ficcional. Em poucos minutos de filme, já não é mais assim tão estranho ver um garoto de sete anos andando com auxílio de bengala e sofrendo com a osteoporose.
O elenco está magnífico. Destaque, óbvio, para Brad Pitt, totalmente convincente na pele deste complexo personagem. Mas chama atenção também a atuação de Cate Blanchett (como sempre linda, elegante, delicada, sensível, talentosa, etc, etc, etc... ai ai), que vive o par romântico de Benjamin. Blanchett é uma atriz que consegue beleza natural em cada gesto, cada movimento, o que é uma coisa eu acho incrível (e apaixonante, é claro) e que talvez só a Kate Winslet, também consiga fazer atualmente.

As qualidades técnicas são incríveis. Desde a maquiagem perfeita, passando pelas impecáveis reproduções de época, até chegar à poética fotografia do diretor Claudio Miranda. Enfim, é certo que esse filme vai fazer miséria no Oscar 2009.
O Curioso Caso de Benjamin Button é uma grande homenagem à vida, uma celebração da nossa existência. É também uma importante reflexão a respeito da morte e principalmente a respeito do Tempo, senhor de tudo. Afinal, como encaramos a terrível idéia de que nós não somos eternos? Ou pior ainda, como encaramos a certeza mais terrível de todas: a certeza de que as pessoas que amamos também não são eternas?
NOTA: 10
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h58
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