A VIDA COMO ELA É 
Ai, ai, férias têm lá as suas vantagens (pena que acabou). Uma delas é poder ir ao cinema no meio da tarde de uma quarta-feira, por exemplo. Numa dessas, consegui assistir Linha de Passe, do Walter Salles, filme que já tinha saído de cartaz, mas que voltou ao Cinemark na sessão Cult (sempre às 15h (?!), vamos e venhamos, que horário mais sem vergonha hein!! Só poderei ir novamente nas férias do ano que vem!!). Resultado: aquela sala enorme e aquela tela gigantesca só para mim e mais uns dois três ratos de cinema (praticamente o paraíso dos cinéfilos: nada de pipoca, conversas, chutes na poltrona, celulares, risadas fora de hora...). Ok, vamos ao filme. O cinema nacional recente tem explorado bastante (em demasia?) a violência e a pobreza, tão recorrente no dia-a-dia, chegando a criar uma espécie de subgênero, o filme-de-favela (filmes que nada mais são do que meros filhotinhos do Cidade de Deus). Essa repetição acaba gerando (ou fazendo crer que há) certa falta de originalidade de nossos cineastas – a história do “sujeito que tinha tudo pra ser bonzinho e honesto, mas que foi vítima do “sistema” e acabou se tornando um bandido cruel” já está mais que batida. Linha de Passe (que entrou para lista dos melhores filmes da revista britânica Empire) foge à regra, mas em alguns momentos passa raspando. O filme conta o drama de uma família pobre que vive em Cidade Líder (em São Paulo). São quatro filhos: O mais velho é um evangélico recém convertido, os amigos “das antigas” ainda tiram sarro da sua nova escolha (indicando que seu passado não foi lá muito cristão) e trabalha num posto de gasolina, onde é constantemente ofendido pelo seu chefe. Outro filho é moto-boy, ganha a vida fazendo pequenas entregas e se aventurando por entre caminhões e ônibus fumacentos. Os dois outros filhos possuem as histórias mais interessantes: Dario, vivido por Vinícius de Oliveira (aquele menininho do Central do Brasil, lembra?) é um jovem que acaba de completar 18 anos. Ele vê no futebol, através das “peneiras” (espécie de processo seletivo que visa descobrir talentos e encaminhá-los para clubes profissionais), a única chance de melhorar a sua vida e a da sua família. O problema é que ele já está ficando “velho” para iniciar uma carreira nos gramados, o tempo vai ficando cada vez mais curto e, de peneira em peneira, o horizonte já não aponta muita esperança. Já o filho mais novo, Reginaldo (o ótimo Kaique Jesus Santos), passa todos os seus dias andando de ônibus, na esperança de encontrar seu pai, que dizem ser um motorista. A mãe, vivida por Sandra Corveloni (premiado no Festival de Cannes) está grávida mais uma vez, e novamente trata-se de um pai desconhecido. É curioso como essa personagem transborda ambigüidades: num momento é uma mãe carinhosa, em outro é agressiva, mas sempre que ela agride um filho, na verdade ela está reagindo ao medo, ao pavor de que seus filhos se “percam” em caminhos tortuosos. Outro fator a se observar, é que ela está grávida, mas isso não a impede de fumar e beber uma cervejinha no boteco; ela gosta da sua patroa, mas quando vê seu emprego ameaçado, se apressa em julgá-la de forma negativa. Temos então aqui um discurso bastante complexo, diferente do “coitadismo” que normalmente vemos quando os pobres são retratados no cinema: ela é boa ou ruim? Ou apenas desinformada, reflexo de suas condições precárias? Linha de Passe é um filme pesado, não há soluções fáceis e nem mesmo redenção para os personagens. A vida segue inalterada: se estava tudo uma droga, continuará assim por muito e muito tempo, pois afinal, por que seria diferente? Quem disse que a vida é justa? A primeira cena do filme (que, aliás, é excelente!), quando vemos as mãos levantadas aos céus, tanto no jogo do Corinthians, quanto no culto evangélico, ilustra muito bem o caminho desses personagens. Eles estarão fadados a sempre pedir e implorar por uma vida melhor, mas as suas súplicas se perderão em meio ao grito da multidão e o fato de não perceberem (ou corajosamente não aceitarem) que simplesmente não há esperança, talvez seja a única força que tenham para seguir adiante.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h59
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