SOB O SOL QUE ARDE

 

 

O céu poderia muito bem estar cinza naquele dia, como um acolchoado de nuvens escuras nos cobrindo e nos preservando da agressividade da luz - do mundo.  Mas não, estava um belo dia e um belo dia é o anúncio sínico de que uma tragédia vai acontecer.

Ela estava sentada próxima à janela quando deu a notícia. Aquele canto perto da janela era o seu lugar, o lugar-de-sempre, uma delimitação geográfica estabelecida por uma convenção desconhecida, maturidade conjugal quem sabe. Eu poderia sentar em qualquer cadeira, menos naquela. E como não tinha nenhum canto favorito, me contentava em caminhar em círculos pela cozinha enquanto falava.

Alguma frase foi interrompida pela metade, mas não lamentei muito, pois a conversa já havia se despedaçado há muito tempo. Olhos fixos e expressão séria - raiva ou resquícios de um amor apodrecido? Seu espírito era nebuloso, com ela, era sempre melhor não apostar no óbvio.

Se dizia que precisava conversar quando já estávamos conversando significava que algo muito ruim sairia de sua boca, algo que provavelmente determinaria um longo período de silêncio entre nós. Eu não saberia o que responder ou provavelmente responderia de forma imbecil - uma imbecilidade programada para feri-la: instinto de autodefesa, alguns diriam. Agredir ou ser estúpido para encurtar o assunto, preservar um pouco de bom senso e evitar o azedume; partir logo de uma vez para o uísque e para a insônia no sofá, o forro estalando na madrugada, a indecisão do dia seguinte, bom dia ou não?

As xícaras dispostas sobre a mesa, duas trincheiras.

Depois, olhando para o café e enxergando um abismo, diríamos que não era bem aquilo, que não pensamos antes de falar ou que pensamos demais antes de falar. Um toque gentil - no antebraço - enquanto colocássemos a louça na pia ou quando nos esbarrássemos no corredor e tudo voltaria a ser como antes.

Mas dessa vez errei os cálculos e a notícia me pegou realmente de surpresa - logo a mim, sujeito prevenido contra tudo e todos, que sempre acertei ao antecipar o que me diriam para então poder fingir indiferença ou algum tipo de segurança teatral. Falhei. Súbito, o chão faltando sob meus pés.

Enquanto ela choramingava fiquei pensando se de alguma forma eu poderia evitar que tudo aquilo - um “nós” já distante, fechando a tampa do bueiro - naufragasse daquele modo estúpido, mas parece que não se pode fazer nada quando algo ruim já está em trânsito. É como alertar um suicida, que já saltou de um prédio, a respeito da aspereza da calçada que se aproxima. Pura insensatez, li em algum lugar que o semáforo sempre está verde quando o caminho é para baixo.

Ela continuou então a falar, talvez para prolongar ainda mais aquele sofrimento, mas não a condeno por isso, afinal, nos ensinaram que as cicatrizes são troféus a serem exibidos na sala de estar. E além do mais, isso tudo que estou contando agora não seria um singelo enfeite de mau gosto para se colocar numa estante? Ela simplesmente viu o sinal verde e avançou, mas sem fechar os olhos, pois sabe que a ingenuidade, neste século, não é graça nem sedução, é burrice mesmo.

A ladeira ficou ainda mais íngreme. O sol arranhava o vidro e lançava luz sobre seus lábios como que para intensificar a nitidez amarga de cada palavra. E a palavra é voraz, exige outras para se sentir viva: respostas, decisões. Mas no momento eu só dispunha de silêncio e perplexidade.

Que tal pelo menos escolher um nome para ele? Questionou chorando. Que nome se dá para tudo aquilo que não sabemos explicar? Não respondi.

Enquanto ela revirou o guarda-roupa com violência, arrancou gavetas, arrumou as malas e bateu a porta eu permaneci imóvel e em silêncio, olhando para o teto e procurando significados nas manchas desenhadas por infiltrações antigas.

Não foi indiferença, foi só um suicida que saltou.

 

__

 

Ainda hoje procuro inventar um canto favorito nessa casa, mas não consigo. Sinto falta das convenções simples: a organização das escovas no armário do banheiro, o travesseiro preferido, o garfo com o cabo queimado, as garrafinhas com água na geladeira, os dvds em ordem alfabética, cinzas... Parece futilidade, eu sei, mas aquelas convenções estavam lá para colocar ordem nesse mundo trincado, prestes a se partir, um globo de vidro que tentamos inutilmente colar para que fique pelo menos um pouco parecido como o que era antes. Engraçado como mal nos damos conta de que essa tentativa é absurda e patética, ainda mais quando o passado é tão repugnante quanto o presente.

Em pé, na cozinha, contemplo a mesa vazia e o canto perto da janela - todo iluminado. Lá fora, um belo dia se insinua por entre as árvores e as roupas no varal da vizinha, ridículo: parece que a qualquer momento alguém baterá à porta querendo fazer um teste do sabão que lava mais branco! Amaldiçoo o sol e clamo por um dia cinzento. Mas não há nuvens, então não há lugar para um deus se sentar e me devolver alguma resposta em forma de trovoada.

Sento-me numa cadeira - não a dela - coloco um cigarro apagado na boca e fico alguns minutos olhando para o galão de gasolina em cima da pia. Apalpo os bolsos do jeans, onde coloquei o isqueiro?

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h28
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CAPTAIN! MY CAPTAIN!

O cinema costuma retratar a figura do professor como uma espécie de “messias”, que com sua personalidade carismática ou autoritária, consegue salvar e transformar a vida de todos os seus alunos. Nesse tipo de filme, o que não faltam são as mensagens edificantes e as lições de superação. É uma fórmula que até certo ponto funciona, afinal, quem não se emociona com a cena dos alunos subindo nas carteiras em “A sociedade dos poetas mortos”? Sim, é uma homenagem muito bonita, mas será que ela consegue representar o que de fato acontece na realidade das escolas públicas e privadas? Improvável.

O diretor Laurent Cantet, aposta numa visão mais realista deste tema. O cineasta resolveu contar a história de Entre os muros da escola - drama baseado na autobiografia Entre les Murs, do professor de língua francesa François Bégaudeau (que ainda interpreta o protagonista do longa) - de maneira quase documental: o elenco é todo formado por não-atores, desde os funcionários do colégio, os alunos até o próprio professor, Bégaudeau. Além de emprestar os nomes verdadeiros aos personagens, foram realizados vários ensaios com sugestões de alguns temas a serem discutidos, sempre de maneira livre para se aproximar da naturalidade. Posteriormente, em sala de aula, três câmeras foram posicionadas para captar todos os detalhes de uma aula “de verdade” numa 7ª série. O resultado é sufocante.

Espelho de uma Europa que ainda não aprendeu a lidar com as mudanças provocadas pelo elevado número de imigrantes em seu território, a turma retratada no filme é composta por alunos das mais diversas localidades: africanos, chineses, marroquinos, etc. As diferenças culturais, econômicas e linguísticas são enormes e formam barreiras que praticamente impossibilitam a comunicação e o respeito entre eles.

François é sujeito carismático, que domina muito bem o idioma e que aparenta gostar muito da posição de docente. Porém, esses atributos, ao contrário do que acontece no já citado “A Sociedade dos Poetas Mortos”, não lhe garantem um lugar no hall dos professores “que mudaram a vida dos alunos”. Ele é apenas mais um professor entre tantos outros. Ao explicar no quadro uma questão gramatical, ele utiliza o nome “Bill”, como sujeito de uma frase e logo é questionado pelos alunos: “Por que Bill? Tem que ser um nome americano? Por que você nunca utiliza um nome africano?”. E os questionamentos se sucedem, emprestando a idéia de que, se discutido afundo, aquele problema jamais teria fim. Afinal, se ele utilizasse como exemplo um nome africano, o que diria o aluno chinês? E o marroquino? E o americano? Fronçois procura se desdobrar para que sua aula seja produtiva para todos os alunos, mas não é necessário muito esforço para percebermos que isso é praticamente impossível.

“Entre os muros da escola” (vencedor da Palma de Ouro de melhor filme, no festival de Cannes de 2008) incomoda, pois não apresenta soluções fáceis e muito menos mensagens edificantes. É um filme sobre a decepção, sobre a frustração de não alcançar objetivos ou sonhos. Ao não apresentar nenhuma fórmula para amenizar tal realidade, o diretor Laurent Cantet, demonstra estar muito mais preocupado em levantar questões do que apenas respondê-las. Sugerir reflexão, muitas vezes, é mais importante do que simplesmente mostrar a caminho.

 

 

NOTA: 9,5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h57
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