CINEMA: 3 MACACOS
PAPO DE SURDO E MUDO (E CEGO)

A famosa figura oriental dos três macacos (um não vê, outro não ouve e outro não fala) é utilizada como metáfora pelo diretor turco Nuri Bilge Ceylan - que levou para casa o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes no ano passado – para narrar o processo de degradação e incomunicabilidade de uma família. A história começa quando um importante político dorme ao volante e atropela um desconhecido (Detalhe, nós não vemos a cena do acidente e nem vários outros momentos importantes ao longo do filme. Através dessas elipses, Ceylan nos priva de alguns detalhes o nos remete a um regime de colaboração com o roteiro, fica a cargo do espectador, imaginar as peças que estão faltando no quebra-cabeça, ou seja, não vá achando que esse é apenas mais um filme esquisitinho e triste, ele é, na verdade, difícil, angustiante, perturbador. Ah ok, e é triste sim, bem triste, diga-se de passagem). Voltando ao filme. Preocupado com a repercussão negativa que um homicídio culposo pode causar à sua candidatura às eleições que se aproximam, o político liga no meio da noite para o seu motorista e lhe faz uma proposta: que ele assuma a culpa e vá preso em seu lugar (já que é “apenas” um motorista, ninguém irá desconfiar), em troca, receberá muito dinheiro quando for solto e nesse meio tempo de reclusão (“alguns meses, no máximo um ano”) sua família receberá uma ajuda financeira. Sem muitas perspectivas de futuro, o motorista aceita. A partir daí, a vida de todos eles tomará rumos inesperados. 
O olhar do cineasta apresenta a Turquia através de uma fotografia acinzentada, sufocante, (as imagens foram capturadas com câmeras digitais, mas com uma textura pálida – o que normalmente é um problema nesse tipo de mídia, por causa dos tons brancos que acabam distorcendo ou “cegando” as cenas –, tão boa e bonita que até lembra a película em alguns momentos). É um filme quase sem diálogos, o que faz com que o valor simbólico da imagem seja ainda mais valorizado. Por exemplo: é interessante perceber que ao lado da casa da família de protagonistas há uma linha de trem. Tanto o pai quanto a mãe, atravessam o túnel por baixo dos trilhos. Já o menino não, todas as vezes ele pula a grade de segurança e passa por cima da linha. De certa forma ele é o único a atravessá-la (não escolhe um desvio), assim como na narrativa, pois ele é único a quebrar o esquema dos três macacos, uma vez que, diante da tragédia que se anuncia, já não consegue fingir que não vê, não ouve e não fala. Se esteticamente 3 macacos já é uma grande obra, o roteiro bem construído também colabora para que seja um filme acima da média. O desenvolvimento dos personagens é ótimo e empresta uma carga de realidade que impressiona, principalmente na questão da imprevisibilidade dos atos de cada um deles (aliás, o final também é do tipo “surpreendente”). 
Nota: 8,5
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h05
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