10 DICAS PARA FAZER UM FILME DE SUSPENSE BEM SUCEDIDO

 

 

   1º - Idéias originais são arriscadas, então aposte no que já é sucesso. Faça o seguinte: pegue um desconhecido filme de terror japonês ou coreano (esses caras são bem melhores nisso do que Hollywood), copie descaradamente o roteiro, depois substitua o casal de protagonista por dois legítimos americanos (de preferência loiros). Não é necessário nem mesmo mudar a locação, argumente que os personagens, que moram em São Francisco ou Nova York, foram promovidos e tiveram que se mudar para Tóquio ou Hong Kong a fim de trabalhar.

 

   2º - O cara é o único que trabalha, a mulher fica em casa sem fazer nada. Na primeira parte do filme é importante que ela aparente ser burra e ao mesmo tempo sensível. Uma ou duas cenas de nudez gratuita também são bem vindas (esse aspecto machista é extremamente necessário para desenvolver a “reviravolta” no roteiro, afinal é essa personagem que passará a ver as “coisas estranhas” acontecendo no meio do filme. Desta forma, ela deve começar como uma personagem frágil e fútil, e depois evoluir para uma mulher corajosa e ultraviolenta, quase uma Xena, que irá mandar o assassino ou o espírito mal para o inferno - ou para o céu, dependendo do ponto de vista).

 

 

   3º - Já no início mostre uma cena banal, mas que no fundo será a “chave” para solucionar o mistério que ainda nem começou. Coloque algum quadro bizarro no fundo da sala, algum tiozinho vesgo ou desdentado numa foto de família, um sujeito mal encarado cutucando o nariz na mesa de trás do restaurante, um bebê sem olhos engatinhando no teto, etc, qualquer coisa que passe despercebido no começo e que depois será mostrado com zoom e em câmera lenta. Isso tudo só para o espectador se achar burro “Nossa! Como eu não percebi isso antes?” e achar que você é um cineasta inteligente “Esse cara é f...”.

 

   4º - O novo lar do casal tem que ser um lugar sombrio e de preferência ter uma história horrível. Logicamente, é imprescindível que alguém tenha morrido ali a alguns anos, de maneira trágica, como um cara electrocutado enquanto fazia a barba, uma modelo que enfiou a cara no espelho, uma dona de casa que passou a camisa do marido com ele dentro, etc (pode contar isso já de cara ou ir revelando aos poucos, para parecer que você é um roteirista esperto).

 

 

   5º - As “coisas estranhas” começam a acontecer. A tendência de mercado atual é explorar o sobrenatural. Psicopatas que fogem do manicômio e resolvem matar a rainha do baile já não vende tanto quanto nos anos 80. Então é melhor trabalhar com o espírito do irmãozinho da menininha que ateou fogo nos pais dos vizinhos enquanto eles transavam, ou o espírito da menininha que matou a coleguinha da creche, pois foi enfeitiçada por uma boneca da Xuxa (como você já deve ter percebido, personagens infantis encapetados são mais recorrentes na pós-modernidade). A opção pelo sobrenatural (fantasminha + luzinhas + gelo seco) em detrimento do tradicional psicopata que mata “na raça” (doido + tesoura de cortar grama + groselha) é um recurso que visa ocultar falhas no roteiro. Ocorre o seguinte: se um crítico invejoso disser que há um “erro de continuidade” ou um “furo” na sua história, você pode argumentar que se trata do mundo sobrenatural e que, portanto, não há como seguir as regras de verossimilhança estabelecida pelos mortais.

 

   6º - Pois bem, já estamos no meio do filme, a mulher já está quase louca por ficar em casa sem ter o que fazer e ainda tendo que agüentar as provocações de um demônio infantil. É nesse momento que todos os personagens ficam mais inteligentes e se tornam detetives. A esposa e a manicure cega (não é necessário explicar por que essa personagem secundária apareceu no meio da história e nem por que ela é cega, isso não é importante, pois logo morrerá) que ela acabou de conheceu no cemitério (é sempre bom ter uma cena de enterro, seja lá de quem for, até de cachorro serve), resolvem ir à biblioteca da cidade (sempre há uma biblioteca, afinal todas as repostas estão lá) para investigar o caso paranormal. Vendo os jornais de cem anos atrás, descobrem que de fato houve uma morte horrível naquela casa: um gatinho engoliu sua própria dona, uma menininha de cinco anos, e depois a vomitou num pires. Desde então a alma dela ficou presa no pires e resolveu atormentar todos que ousaram colocar leite ali.

 

 

   7º - Estamos quase no final. Agora a personagem ex-burra-submissa descobre a trama diabólica e é lógico que também descobre que o marido estava envolvido num ritual satânico. Há vários anos ele participava de uma seita que adorava ao Pires da Menininha Vomitada no sul da África. OBS: Nesse momento é importante reapresentar várias cenas do início do filme (em preto-e-branco, para não confundir o espectador) que denunciam o comportamento bizarro do marido (ver item 2: Exemplo: quando era pequeno, ele não tinha olhos e engatinhava pelado pelo teto).

 

   8º - Clímax. Elas estão voltando para casa em alta velocidade, para tentar quebrar a maldição antes que seja tarde, mas no meio do caminho a manicure cega, tomada pelo espírito demoníaco se joga do carro em movimento e é atropelada por um carrinho de sorvete. Sangue para todo lado. A mulher quase não consegue conter as lágrimas, afinal acabou de perder uma grande amiga, mas segue adiante assim mesmo (distraída, ela não  lembra de ligar para o Siate). Fura todos os sinais vermelhos, atropela várias pessoas e finalmente consegue chegar. As luzes da casa estão piscando freneticamente. Quando abre a porta, o marido está flutuando no meio da sala com o pires amaldiçoado na mão. Ela vê então uma doze (a mesma arma utilizada pelo Capitão Nascimento) sobre a mesa, diz uma frase de efeito como “engole essa” ou “você vai virar fumaça”, dá um salto mortal em câmera lenta, apanha a arma e atira cinco vezes antes de cair no chão, de pé. Close no rosto do marido: sofrimento, dor. Ele morreu? Música de suspense. A câmera se afasta, na verdade o marido não foi atingido, mas sim o pires, o qual ficou todo despedaçado no chão. O casal se abraça, as luzes param de piscar e o gelo seco desaparece. Tudo ficou bem, eles estão felizes e agora podem voltar para os EUA, lugar onde essas coisas bizarras de países subdesenvolvidos não acontecem.

 

 

   9º - Música de amor. Cena do carro indo embora numa estrada completamente vazia em direção ao horizonte. Corte. Música de suspense. A câmera passeia freneticamente pela casa amaldiçoada, close nos cacos de pires no chão. Gelo seco. Os cacos começam a se mexer e aos poucos vão se unindo novamente. Um gato sem olhos aparece do nada e começa a lamber o pires vazio. The End.

(Sugestão de título: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA – Parte II: De olhos bem fechados)

 

   10º - Troque o casal de protagonistas por atores africanos, iraquianos ou latinos e faça várias sequências utilizando a mesma história só que em países diferentes. Sucesso garantido!

 

   De nada.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h14
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