NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM MORTO
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Lendo Marina no ônibus, uma freada fez baralhar um verso noutro, perdi a página. Os passageiros amontoaram-se e grudaram as testas engorduradas nos vidros suados. Imprecisões: um homem morto na BR, bota preta num pé e noutro vento gelado. Jornal de ontem cobrindo o rosto com manchetes em vermelho. Um troço ruim no estômago, sei lá de repente um parente da gente. O ônibus acelerou e o corpo passou paisagem. Nem um pio no lado de dentro, só a sinfonia do motor e do vento que se estilhaçava contra as janelas. Olhares incomodados, vagando por detalhes e reflexos, quando se encontravam, tratavam de se esquivar. Voltei pra Marina, pois livro é meu jeito de evitar as pessoas. Resto do caminho, uma bobagem ou outra lá no banco de trás, mas ninguém achou graça. Afinal, não escapava o gosto inevitável de dia embolorado. Quando cheguei e fiz que não vi nem ouvi viva alma na sala, rosto no travesseiro pra proteger de pesadelos, percebi que aquele vazio impregnado não era meu, nem era emprestado de um livro de poesias. O silêncio era daquele homem morto que agora caminhava em mim.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h52
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