Cinema: CHE – O argentino

MAIS QUE UMA ESTAMPA DE CAMISA

 

A figura de Ernesto Guevara de La Serna, o Che, é talvez uma das mais populares e romantizadas do século passado. Alguns o veem como herói e outros como um assassino. Cabe dizer que é um ponto positivo deste filme de Steven Soderbergh, o fato de que ele contempla as várias faces do guerrilheiro sem o limitar a um estereótipo específico. Desta forma, temos tanto um sujeito extremamente altruísta, preocupado realmente com o bem estar das pessoas, inclusive com as que ele nem conhece, como também temos o líder irascível, quase um Roberto Justus de boné, que não poupa humilhações verbais a alguns de seus comandados e que, fazendo parte de uma guerra, logicamente também mata pessoas. 

 

Mas ao longo da projeção, fica tão evidente essa preocupação de Soderbergh em não criar polêmica, que o filme acaba sendo apenas correto, talvez um bom material didático para uma aula de História (e para aqueles que usam a famosa camiseta vermelha sem saber direito o que ela significa). E convenhamos que cinema é muito mais que isso, ou pelo menos deveria ser.

Está tudo lá, desde a chegada de Che (vivido brilhantemente por Benicio Del Toro) a Cuba, passando pelo antológico encontro com Fidel Castro e seu irmão Raúl, atual presidente da ilha (Rodrigo Santoro, competente como sempre), a organização da guerrilha em meio à selva, até chegar à batalha para derrubar Fulgencio Batista e finalmente a tomada de poder. A história é entrecortada por trechos em preto-e-branco granulado (muito bonito por sinal), que mostram momentos mais recentes, como o polêmico discurso de Che em Nova York, na Organização das Nações Unidas (pausa para uma reclamação às distribuidoras: Orra, legenda branca em cenas com fundo branco é uma palhaçada hein! Poderiam colocar pelo menos um contorno nas letras! Menos mal que o filme é em espanhol...).

Em Che – O argentino (lembrando que essa é só a primeira parte do filme, que ficou muito longo e teve que ser dividido em dois, a sequência, intitulada Che – A guerrilha, só chegará aqui lá pelo meio do ano) há momentos ótimos, como o final, por exemplo, e também o senso de humor dos personagens coadjuvantes, que são tratados de forma digna. Tecnicamente creio que não há muito que reclamar.

 Porém o roteiro peca, a meu ver, quando apresenta os militares de forma tão caricata. Lógico que não vou defender a ditadura (nem sou tão idiota para fazer isso), mas acho que independentemente do lado político em que o personagem está ele merece ser desenvolvido de maneira não-maniqueísta (já que o filme é tão comprometido com a realidade). Desta forma, quando vemos o general ou capitão, sei lá, após ser encurralado, trocando de roupa, colocando um chapéu e uma camisetinha daquelas de turistas (!) e se mandando da cidade, pode até soar engraçado, mas me parece um tanto desnecessário.

Em se tratando do diretor de Bubble (meu preferido) e Traffic (Oscar de melhor filme), eu sinceramente esperava mais. Resumindo, o filme não empolga, contudo é do tipo de obra que os cinéfilos e os interessados em História não podem deixar de ver.

 

Aguardamos a segunda parte.

 

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h45
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