UM CICLISTA NA CANALETA

UM CICLISTA NA CANALETA

 

     Enquanto o sol ainda não fermentou a urina dos mendigos nos muros da Travessa da Lapa, Curitiba se esconde atrás das lãs e fica um pouco mais curitibana, assim sem muito papo, andando rápido que está frio. É que o calçadão da XV e o cruzamento das marechais não combinam muito com colarinhos arreganhados e sovacos amarelados. Já o mofo do casaco orna muito bem com a naftalina da blusa e tudo se mistura para toda a gente se gabar do clima que mais parece das zoropa. Até já nevou, sabia não? A criançada de nariz vermelho não sente os dedos e se diverte: olha só sai até fumacinha - pose de caubói da Mallboro. O friozinho que resgata a jaquetas jeans das putas ali na esquina com a Visconde (mas ai daquela que não exibir pelo menos a meia-arrastão) esparrama preguiça pela cidade toda. Uma vontade lazarenta de ficar em casa, debaixo das cobertas, vendo sessão da tarde, comendo Milhopã e tomando Nescau. Que nada: trabalhar ganhar a vida vagabundo! E ainda que uns vão de carro, não sofrem dentro do latão: se não abrir a janela você pega meningite, se abrir o povo te xinga, o melhor mesmo é tentar respirar pouco e ficar longe de quem está tossindo. Outros, como o cara ali do título, vão de bicicleta mesmo.  Arregaça a barra da calça para não sujar a canela de graxa, sobe o zíper da blusa até cobrir a boca e desce vazado a Sete de setembro a não sei quantos por hora, loco de rápido. Não sei o turno da puta, se chegou de manhã ou se amanheceu, mas foi ela quem gritou na hora da pancada. E eu comendo uma coxinha ali na esquina e o grito dela se juntou com o barulho da freada do ônibus e foi aquele auê no boteco e no tamanho do susto quase que saiu frango pelo nariz.  Corri lá na canaleta e só vi o sangueiro, se a bicicleta virou num oito imagine só o piá com o ficou. O povo quis se juntar para linchar o motorista, mas viram que ele estava chorando e então ficaram com dó e deixaram quieto. As roda passou tudo por cima da cabeça do moço, a senhora de óculos apontou meio sorrindo meio chorando. Uma menininha, mochila da Hello Kitty arrastando no chão, puxou meu braço e perguntou: tio, quantas rodas tem num biarticulado?



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h26
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