Cinema: Dúvida
DÚVIDA

Nem sempre o Oscar é o parâmetro mais adequado para identificar os melhores trabalhos já realizados (o prêmio de melhor filme desse ano, por exemplo, me parece um tanto questionável). Além do mais, quem já se aventurou por entre os filmes produzidos na Europa, na Ásia e até mesmo aqui na América do Sul, sabe que o que há de melhor na sétima arte definitivamente não está na terra dos ianques. Contudo, tenho que admitir que a academia americana foi muito feliz ao indicar ao Oscar as atuações de praticamente todo o elenco principal de Dúvida (quatro ao todo). Esse elenco é encabeçado por Philip Seymour Hoffman (vencedor do Oscar de melhor ator por Capote) e que é, para mim, o melhor ator da atualidade (se você ainda tiver alguma dúvida disso, mesmo depois de ver Capote e Dúvida, assista então ao inquietante Antes que o diabo saiba que você está morto e ao depressivo Com Amor, Liza) e pela sempre genial Meryl Streep, preciso apresentá-la?

A história (adaptação de uma peça teatral) se passa em 1964 e toca num tema caro à igreja católica na atualidade: a pedofilia. Embora o diretor John Patrick Shanley procure preencher algumas nuances com metáforas (algumas até um pouco óbvias, como a das penas do travesseiro, que já foi até tema de um livro infantil da Madonna !?) e também exagere em alguns maneirismos (por que diabos, em algumas cenas, ele utiliza a câmera inclinada? Para fugir do clássico e ficar mais moderninho? Mais profundo?), afim, apensar disso tudo, são os atores, suas falas e suas expressões espetaculares que dominam toda a película, ou seja, quem assistir a esse filme na versão dublada, merecerá o fogo do inferno cinematográfico! Os questionamentos são muito bem elaborados (o diretor acerta ao não tomar partido de nenhum dos lados e por “esconder” alguns detalhes, deixando a cargo do espectador a opção de fazer qualquer julgamento), desta forma a trama se desenvolve por camadas, sem atropelos ou exageros. É praticamente um estudo sobre a noção do que é a certeza. Até que ponto “ter certeza” é sinônimo de “saber a verdade”? A certeza é plural, cada um tem a sua, já a verdade...

Sinceramente não saberia precisar qual é a melhor cena. Se é a longa discussão na sala da Irmã Beauvier, em que o padre Flynn se vê acuado (mas sem deixar transparecer se de fato esconde algum segredo) e o toque do telefone eleva a tensão a um nível insuportável, ou se é quando aparece a personagem de Viola Daves, que também recebeu a indicação ao Oscar de coadjuvante. Mas atenção para um detalhe: a atriz fica menos de dez minutos em cena! Parece pouco tempo, mas ela e Streep conseguem transformar um “simples” diálogo em uma cena memorável. Menção honrosa também para todas as cenas em que surge a personagem Irmã James (Amy Adams), a ternura e a bondade que ele transmite através do olhar é contagiante. Mesmo pendendo um pouco para o teatro, Dúvida é um filme que merece ser aplaudido em pé. 
Nota: 9,0
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h17
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SUA RESPOSTA VALE UM FIO DE CABELO

Dizer que o Brasil é um país de contrastes não passa de um lugar-comum, uma repetição de idéia pré-concebida, um chavão. No Rio de Janeiro (sim, um exemplo clichê, já que o objetivo aqui não é resvalar em alguma originalidade) favelas e prédios de luxo compõem o mesmo cartão-postal. Aqui em Curitiba os catadores de papel, com seus carrinhos despedaçados e cavalos esfomeados dividem espaço no trânsito com carros de luxo. Somos discrepantes até mesmo na questão climática, pois se num extremo do país sofremos com as chuvas, no outro sofremos com a seca, sendo que esta ordem pode ser invertida dependendo do humor maligno de São Pedro (os alagamentos recentes na região nordeste e as secas no sul só comprovam que o mundo está mesmo de cabeça para baixo). Nessa última semana assisti a duas reportagens que esclarecem de maneira quase didática (ironia para evitar a palavra ‘cruel’, outro chavão) essa questão dos contrastes. A primeira é a respeito do cabelo do Pelé. Para quem ainda não sabe (aliás, não consigo imaginar com alguém poderia viver sem saber de uma notícia como essa) Edson Arantes do Nascimento resolveu cortar o cabelo e, sendo ele um Rei, considerou um desperdício simplesmente jogar seus preciosos toquinhos de madeixas no lixo. Que fazer então? Simples: transformar os fios de cabelo em diamante! Yes, fazendo uso da nossa alta tecnologia e da Física super-desenvolvida isso é possível, só não me perguntem como e nem quanto isso vai custar. A outra reportagem é sobre uma mãe que mora numa região remota do Pará. Sem saber que estava sendo filmada, ela aceitou aliciar a própria filha de dezessete anos por apenas quatro cervejas, repito, um programa com a jovem custaria 4 cervejas (algo em torno de dez reais, pois era da mais barata, a cerveja). Não bastasse isso, o repórter sugeriu comprar (literalmente) a menina, para levá-la embora e utilizá-la como prostituta em outras regiões. Após pensar um pouco a mãe aceitou fechar o negócio em R$ 500,00 (o dobro da renda mensal da maioria das famílias da região). Não é necessário muito esforço para responder a seguinte questão: Quem vale mais? Uma adolescente miserável que mora num fim do mundo e se prostitui para sobreviver ou um fio de cabelo do melhor jogador do mundo? Bem, a resposta é tão óbvia que chega a ser mais um lugar-comum né? 
Portel, um "lugar-comum" no Pará
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h12
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