EU TWITTO, TU TWITTAS

Rapidez ou preguiça de pensar?

.

 

Quando criei o Devaneios do Cotidiano em 2004 (orra, 05 anos de idade já!), os Blogs eram uma febre. Eles surgiram como uma ferramenta moderna que funcionava como diário virtual e também como um ágil veículo de comunicação/informação. O que proporcionou o livre debate de idéias, muita diversão, porcarias, oportunidades para novos escritores e também a propagação de asneiras, já que não há quem regule ou controle tudo o que é escrito por aí (ainda bem!).

Hoje o Blog já tem cheiro de mofo, é coisa do passado. A nova moda é o Twitter, uma espécie de mini-blog que limita o tamanho de cada post a 140 caracteres (mais ou menos 1 linha e meia, em tamanho 12). O que parecia rápido e instantâneo no blog, foi potencializado com essa nova ferramenta.

A tentativa, me parece, é de “eliminar a gordura” e escrever apenas o que “interessa” e, se possível, em tempo real. É lógico que a ferramenta abre espaço para um monte de bobagens, pois tem cara que cria um twitter para contar que acabou de escovar os dentes, espremer o berne do cachorro, comer batata-frita com sorvete, etc. Enfim, a rapidez pode ser também parente próxima da preguiça de pensar.

Mas há, é claro, aspectos interessantíssimos, que me chamaram a atenção e me fizeram entrar nesse novo mundinho cibernético. Por exemplo, com a proibição da entrada de jornalistas no Irã, os moradores que estão enfrentando a crise política por lá descrevem a situação com detalhes que câmera nenhuma poderia captar. Leia esse trecho de uma matéria publicada na Gazeta do povo:

 

     “(...) Por volta das 15h30 da terça-feira passada (hora de Teerã), um estudante iraniano com o nickname Fair_vote_Iran escreveu a seguinte mensagem na sua página no Twitter: “Basij [a força paramilitar do governo] está atrás de nós. Dormi na rua noite passada. A maior parte da cidade está sem luz”. Momentos depois ele acrescentou: “5 mortos no dormitório feminino”. Depois, “Asad está morto & não sei onde está Mohsen. nos perdemos na multidão ontem”(...)”

           

            Além disso, a necessidade de “enquadrar” o discurso numa moldura com espaço delimitado possibilita o exercício dificílimo da concisão. Quem trabalha com texto, sabe o quanto é complicado (e necessário) cortar, substituir, reescrever, diminuir, eliminar, para que o discurso não vire uma “encheção de lingüiça” ou mera repetição de ideias. 

            Enfim, ainda não aprendi a mexer com esse negócio direito (e o fato de as ferramentas serem em inglês não facilita muito a minha vida), mas já estou twittando no endereço www.twitter.com/ederalex. Quanto ao conteúdo, vou seguir um padrão parecido com o daqui do blog (que permanecerá funcionando normalmente). A ideia é publicar diariamente rápidas observações sobre cinema/literatura. Também vou (tentar) elaborar alguns micro-contos, pois me parece um desafio interessante criar histórias utilizando apenas uma ou duas linhas.

            Para quem quiser conferir:

 

www.twitter.com/ederalex



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h25
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antes fosse fuligem

.

 

que ônibus fosse metrô

para fazer deslizar tristeza

apenas pelos subterrâneos.

expomos o ridículo da vida

quando andamos em plural.

 

doloroso ver o mundo parado por dentro

e o restante, a parte que talvez importe,

com cheiro e sabor,

girando pelo lado de fora.

vontade de não ser assim,

de não estar aqui, em mim.

um movimento que ensaia,

se insinua mesmo que ressabiado,

mas que não me salva

nem se ausenta.

aperto o campainha, mas não

sei se quero descer.

 

no quarto, antes de dormir,

folheio meus livros

com fome, com sede, repleto

de desespero: procuro um poema

que amorteça a queda,

que minta para mim

e que sutilmente

apodreça em versos

esse gosto azedo

que enfeita o dia

já estragado de repetições religiosas:

não acreditarás;

não encontrarás sentido;

não negarás a inclinação

de querer sempre desistir

de insistir (eco estúpido).

 

procuro uma entrelinha que

eleve o pensamento

e lave-me de deslumbre.

disperse palavra pelo ar

e dispare contra o vidro.

deixe sua marca,

mancha ou maravilha,

feito o fosco da fuligem

que pinta o vento de preto,

para que ele não passe rápido

ou despercebido a esses olhos

já cansados de repetição.

 

a paisagem passa. a dor não.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h22
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