LULA E SARNEY NO PAÍS DE GLAUBER ROCHA . 
No filme Terra em Transe (1967), marco do Cinema Novo, o cineasta Glauber Rocha conta a história de um poeta e jornalista que vive num miserável país imaginário, República de Eldorado, que está tomado pela corrupção. Insatisfeito com os políticos da situação, ele resolve apoiar e articular a ascensão da oposição ao governo. O desejo de mudança cai por terra quando o poeta finalmente percebe que, uma vez no poder, tanto a esquerda quanto a direita, acabam sucumbindo às imoralidades recorrentes no poder público. É curioso como um filme dos anos sessenta ecoa de forma tão lancinante nos dias de hoje. Pois quando abrimos o jornal e nos deparamos com a notícia de que o presidente Lula, mesmo após tantos escândalos, apóia abertamente a permanência de seu ex-adversário político, José Sarney, no comando do senado, com objetivo de fortalecer sua base aliada, estamos diante da mesma frustração que sofreu o poeta do filme ao perceber suas utopias se diluírem e se transformarem em nada: E gora que não consigo acreditar em mais ninguém, para que lado eu vou? 
Nesses tempos em que a notícia é tão rápida quanto os próprios fatos (às vezes até superando-os, como pateticamente ocorreu aqui em Curitiba no final do campeonato paranaense, quando o site do Atlético-Pr publicou entrevistas com os jogadores comentando a vitória do jogo que ainda não tinha nem acontecido), se faz necessária uma tomada de posição política. Se há tanta informação, não há escapatória, o sujeito é praticamente obrigado a defender alguma opinião (e essa “obrigação” me faz lembrar outro clássico do cinema, Dr. Jivago, também sobre um poeta, que vê o valor literário de sua obra ser questionado, ou até mesmo descartado, pelo fato de falar apenas sobre o amor e não defender interesses políticos). 
O problema é que num país em que a educação é relegada a segundo plano, muitas vezes o sujeito não dá conta de abstrair ou mesmo de entender tudo o que está acontecendo. Mesmo que consiga isso, e depois, o que ele vai fazer com tanta informação? E em quem ele vai confiar o seu voto quando já não restar praticamente ninguém imune às denúncias? A saída mais fácil (ou covarde, ou burra), talvez fosse se conformar e reproduzir o lugar-comum afirmando que todo político é ladrão e pronto. Ok, que seja, mas vale lembrar que antes de ocuparem cargos políticos, todos eles, sem exceção, são também cidadãos comuns, vieram do nosso meio, são frutos da sociedade da qual fazemos parte e não de uma galáxia distante. Seria de uma hipocrisia enorme afirmar que apenas os políticos são amorais e que só eles não perdem uma oportunidade de se dar bem, sempre arrumando um jeitinho para tudo. É importante não esquecer que os políticos ocupam os cargos, eles não são os cargos, por isso mesmo é que somos uma democracia, pois garantimos a rotatividade dessa dança das cadeiras através do voto. 
Há uma cena emblemática de Terra em Transe, em que Glauber elabora uma alegoria perturbadora daquilo que talvez fosse um dos efeitos do populismo. Na cena, se me lembro bem, dezenas de populares vão às ruas para reclamar da miséria nas cidades e da corrupção do atual presidente (e eles nem desconfiam que o candidato que estão apoiando, e que promete pão e circo, é tão ou mais corrupto que aquele que está no poder), então nesse momento um repórter fala direto para câmera algo como “Estamos aqui diante da população que está indignada com tanta roubalheira. Eles clamam por justiça e querem que a sua voz seja ouvida”, o repórter então se aproxima de um dos populares que está esbravejando e diz “eles querem tanto ser ouvidos, a voz do povo é a voz de Deus, então vamos lá: Fala povo!”, então a câmera fecha num close do rosto do sujeito pobre e desdentado, e em vez argumentar ele simplesmente se cala, envergonhado, não sabe o que dizer... Naqueles doloridos segundos de silêncio posteriores ao “Fala povo!”, frutos da genialidade de Glauber, estão contidos um sem fim de signos que representam séculos e mais séculos de injustiças sociais e de decepções políticas sofridas pela população de Eldorado, ou do Brasil, tanto faz, já que tudo é uma grande invenção. 
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h07
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