FAZEDOR DE FICÇÕES

.

 

Apanho a revista e começo a lê-la de trás para frente. Sempre faço isso, pois prefiro muito mais saber sobre quais são os lançamentos culturais da semana do que quais foram as falcatruas do senado.  A tv está ligada na Ana Maria Braga, ela fala diretamente para a câmera, mas não sei se está lendo uma mensagem de auto-ajuda ou se está vendendo um absorvente que absorve mais. Está no mudo. Que bom.

            O cara de gravata amarela ao meu lado não pegou nenhuma revista e não está assistindo à tv. Ele olha, contemplativo, as próprias mãos. É arrependimento, com certeza. Será que já matou alguém? Provavelmente estrangulou a vítima utilizando aquela mesma gravata amarela. Depois cortou o cadáver em pedaço, assou num George Forman Grill e comeu tudo assistindo um jogo do Corinthians. No filme do Hitchcock o estrangulador utiliza que cor de gravata?

Não. Acho que na verdade ele é apenas um segurança. Teve que largar os estudos pela metade para servir o exército e depois quando saiu percebeu que não tinha vocação para outra coisa que não fosse obedecer ordens ou atirar em alguém. Começou como leão-de-chácara no Boqueirão e depois evoluiu para segurança de farmácia. O salário diminuiu, mas a dignidade de poder contar para a família onde trabalhava valia muito mais.

Na verdade as mãos dele não se parecem com as de um trabalhador, pelo menos não de quem precise muito delas para desempenhar suas funções. Nas costas das mãos não há cicatrizes de quem socou a cara de alguém, nas palmas, não há sinais de calos decorrentes de atrito com armas, enxadas ou pás. O anelar da mão esquerda parece que será decepado a qualquer momento dado o diâmetro absurdamente limitado da aliança que o enfeita. Engordou porque seu relacionamento estava uma bosta e quando o dedo cair o casamento acabará de vez.

Pensando bem, ele é um advogado. Começou a trabalhar no escritório do tio do primo de um cara que conhece um vereador. O pai pagou a faculdade na PUC e lhe deu um carro zero quando passou no vestibular. Tinha tudo para ser um boçal idiota, mas até que não era tanto. Tinha namorada, mas acabou engravidando uma doida que conheceu no Largo da Ordem. Casou só para desbaratinar a encheção de saco da família, mas depois começou a gostar da guria de verdade. Ela estudava cinema na Fap e assistia a filmes franceses sem legenda. Falava ‘abajur’ com sotaque europeu só para forjar um charme blasé. Uma figura, aquela menina.

Não, acho que ele é vendedor de livros infantis evangélicos. Ele distribui os livros no ônibus lotado, até pra quem não quer ou está dormindo. Faz um oração em voz alta e depois volta recolhendo. Nenhum irmão colabora, mas mesmo assim ele agradece em nome de Jesus. Só invoca a palavra satanás quando tem safado que desce no ponto e leva o produto sem pagar. Ele também aborda as pessoas nas ruas, mas elas se afastam  por causa do cheiro de sovaco. Se bem, que ele não está fedendo tanto. Será que eu é que estou fedendo assim? Ameaço dar uma conferida na axila, mas a recepcionista está me olhando, fico com vergonha, deixa pra lá. Odeio essas salas de espera. Calor do caralho.

Tento voltar para a revista, mas o cara da gravata agora começou a roer as unhas. Lazarento. Quatro dedos enfiados na boca de uma só vez. É para emparelhá-las? Mais nojento que ver, é ouvir o barulho do troço. E a Ana Maria Braga não fala mais com a câmera, agora ela fala com um fantoche de um bicho verde. Sem som, só o suco de unhas misturadas com saliva logo ao lado. Penso em apertar o nó daquela maldita gravata amarela até que o filho da puta morra sufocado com os dedos nojentos entalados na goela, depois eu bato a cabeça dele contra esse televisão para explodir ele, a Ana Maria Braga e o fantoche verde da Ana Maria Braga tudo de uma só vez. Será que a tv explode se enfiar uma cabeça lá dentro? Nem bem termino de concluir o plano e a atendente me chama. Sorte dele.

Quando saio do consultório o cara não está mais lá, nem ele nem a gravata amarela dele. Alguns toquinhos de unha no chão. Acabo de me livrar de alguns anos de prisão. Se bem que ele é bem maior do que eu.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h26
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]





Meu perfil
BRASIL, Sul, ARAUCARIA, Homem, de 20 a 25 anos, Livros, Cinema e vídeo, Contos, Crônicas, Críticas


Histórico
    Votação
    Dê uma nota para meu blog


    Outros sites
    Jornal Rascunho
    Revista Cult
    Revista EntreLivros
    Quadrinhos - Malvados
    Provocações - TV Cultura
    Roda Viva
    Cinema - Omelete
    Cinema em Cena
    Los Hermanos
    Livros para Dowload - Domínio Público
    Macuco Blog
    Blog da Jaciele