VOCÊS, OS VIVOS

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O filme do sueco Roy Andersson desafia toda e qualquer definição. Ele faz com que os funcionários das locadoras (elas ainda existem, sabia?) fiquem meio perdidos quando tiverem que escolher uma prateleira para colocá-lo. É um drama? Uma comédia? Ou pior ainda, ele é mesmo um filme?

Complicado também é tentar analisá-lo, pois qual adjetivo cabe melhor: “Absurdo”, “Encantador”, “ridículo”, “esquisito”, “inteligente”? Fiquei aqui matutando alguma forma de escrever sobre essa obra-prima que não se enquadra em nenhuma estética específica (pelo menos não numa já utilizada anteriormente, que eu saiba) e cheguei à conclusão que ela é uma mistura de cinema e charge.

 

 

“Vocês, os vivos” é composto por 57 quadros (ou quadrinhos? Ou contos? Ou vinhetas?) de dois ou três minutos cada, sem cortes, quase todos captados com câmera totalmente estática (aí a semelhança com a charge) e um pouco elevada (Deus?). As pequenas histórias funcionam isoladas perfeitamente, mas também dialogam entre si, pois alguns personagens transitam entre uma e outra.

Há a mocinha apaixonada pela estrela do rock, a mulher que se sente rejeitada por todos, até pelo cachorro de estimação, e que ouve do marido: “a vida é dura, mas a gente tem que pelo menos tentar”, há também o psicólogo que já não suporta mais os seus pacientes “são todos uns egoístas!”, um cabeleireiro emocionalmente instável, um sujeito que resolve dar uma animadinha num jantar monótono e acaba indo para a cadeira elétrica, etc. Todos são pequenos fragmentos que unidos compõe o complexo retrato de uma metrópole, assim como o fez Will Eisner, gênio dos quadrinhos, na grafic novelNova York – A vida na grande cidade” (o tom triste/cômico é o mesmo nas duas obras).

 

 

O diretor consegue mesclar sutilmente o humor e melancolia (os inúmeros detalhes (o que significam aquelas suásticas na mesa?) a fotografia pálida e a maquiagem exagerada destacam bem esses aspectos). Muitas cenas são absurdas, chegando a flertar com o nonsense (o prédio deslizando feito um barco, me fez lembrar um dos melhores momentos do Monty Phyton), outras são tomadas pelo vazio, pelo banal, pelo tédio ou pelo ridículo da condição humana. Desta forma o filme consegue nos roubar boas gargalhadas, mas logo em seguida nos devolve um sorriso que vai murchando e aos poucos percebemos que aquela graça toda nada mais era do que um contido sentimento de angústia.

            A câmera de “Vocês, os vivos” lança um olhar repleto de ternura a seus personagens, todos eles “ridículos e belos”, demasiadamente humanos é claro. É o olhar de um Deus que se delicia com as imperfeições de sua criação.

            Um filme genial.

 

 

            Nota: 10,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h42
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