ENQUANTO AGONIZO Willian Faulkner 
Esse é um livro que surpreende pelo enredo um tanto quanto incomum: Após a morte da esposa, marido e filhos decidem atender ao último pedido dela: ser enterrada perto dos familiares, numa cidade distante. Eles então partem levando o corpo numa carroça caindo aos pedaços. A viagem dura muitos dias, há vários perigos pelo caminho e, é claro, não é possível conter a putrefação do cadáver. Embora pareça uma história bizarra ou sombria, Faulkner a desenvolve com outras cores, pois o que procura é descrever a América sulista, explorando a complexa relação desta família, acometida por ódios mal digeridos, e não apenas a perspectiva da morte. Então ao longo dessa viagem, acabamos descobrindo novas paisagens, novos detalhes sobre cada personagem, confissões, segredos obscuros, pois eles amadurecem a cada novo capítulo. E tudo isso só é possível graças à genialidade com que a história é contada. Enquanto Agonizo foi publicado em 1930, mas apresenta uma narração tão moderna que nos faz entender melhor de onde vem o estilo de muitos escritores contemporâneos. Cada capítulo é narrado em primeira pessoa por um personagem diferente, e são mais de dez ao todo se não me engano. Então, por exemplo, quando a filha, uma das personagens principais, vai à farmácia, quem descreve a ação não é ela e sim o balconista (se fosse cinema, dá pra dizer que a câmera fica atrás do balcão e capta a chegada da moça). Esse recurso possibilita ampliar a perspectiva de análise de cada personagem em diversos ângulos, até porque o autor utiliza bastante o famoso “fluxo de consciência” e também os “Flashbacks” o que, por conseguinte, torna o romance muito mais plural, com várias leituras possíveis. Ao propor uma estrutura não-linear, fica claro que Faulkner não estava lá muito preocupado em “facilitar” a vida de seu público, pois o que temos é um romance que exige a participação do leitor na construção da história. Ele nos dá as peças e nós é que montamos esse comovente quebra-cabeça. E essa é a característica fundamental de uma grande obra, ela não nos entrega uma resposta pronta (como ocorre com os livros de auto-ajuda), ela levanta várias indagações e nos deixa incomodados, perplexos, provocando reflexão, ou seja, a história não acaba quando fechamos o livro. OBS: A edição de bolso da L&PM, embora seja uma bela iniciativa e tenha um preço ótimo, apresenta alguns problemas de tradução e erros ortográficos. Não sei se a culpa é da editora ou do próprio autor (li por aí que ele escreveu esse romance em apenas algumas semanas e nunca o revisou). O crítico americano Harold Bloom disse certa vez que alguns escritores considerados cânones escreviam muito mal e que eram beneficiados pelas traduções (como, por exemplo, Edgar Alan Poe, que não por acaso ele odeia). Mas sinceramente não creio que esse seja o caso de Faulkner. Enfim, são problemas que não chegam a comprometer essa obra magnífica. Só espero que “Enquanto Agonizo” seja editado futuramente numa edição mais caprichada. Acompanhe o Devaneios do Cotidiano pelo twitter: www.twitter.com/ederalex (atualizações diárias)
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h09
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|