NÃO BASTA ROUBAR, TEM QUE SER POPULAR

.

 

John Dillinger, o assaltante vivido por Johnny Depp, é uma espécie de bandido popstar. Ele é um cara elegante, inteligente e que, segundo ele mesmo, consegue tudo o que quer. Para isso, veste-se com ternos caros, sapatos bem lustrados e alguns adereços básicos, como metralhadoras e pistolas. Tal como Robin Hood (que em Portugal chama-se “Robin dos Bosques”, tá e daí?), ele respeita um código moral distorcido que faz com que roube apenas dos ricos, ou seja, dos bancos (o que lhe conferiu o título de celebridade entre a população da época, que sucumbia aos desastres econômicos dos anos 30), mas a semelhança com herói de Sherwood para por aí, pois Dellinger não dá nada aos pobres, já que à sua frente está apenas o seu umbigo.   

A história é inspirada em alguns fatos reais, mas vale lembrar que essa moda de cultuar bandidos não é só coisa de norte americano não, lembra do Leonardo Pareja (clique)? O cara foi enterrado com a bandeira do Brasil sobre o caixão (!?).

 

 

Voltando ao filme. O diretor Michael Mann sabe como ninguém filmar um tiroteio. Foi assim em Fogo Contra Fogo, Miami Vice e Colateral (esse último ainda é, para mim, o seu melhor filme). E “Inimigos Públicos” não foge à regra, pois também tem seus tiroteios bem coreografados, como é o caso da empolgante cena da floresta.

Gosto da câmera digital utilizada em alguns desses trabalhos citados, mas em ‘Inimigos’ que é um filme de época, a imagem fica meio falsa, em alguns momentos parece que estamos assistindo àqueles telefilmes que passam de madrugada. Já a opção pela câmera na mão em alguns momentos é excelente.

Os personagens coadjuvantes são subaproveitados, eles aparecem aqui e ali de maneira um tanto confusa (ou fui eu que não prestei atenção direito?), eles possuem nomes, mas não personalidade e como todo mundo usa roupa parecida...

 

 

Na historinha de amor, a tal da química entre o casal acontece, mas aquela paixão avassaladora não é muito convincente no início, pois você mal olha pro lado e o “homem das cavernas já está batendo com tacape na cabeça da mulher e tentando arrastá-la pelos cabelos” (a cena do casaco é uma versão moderna disso, né não?).

A reconstituição de época é ótima, o figurino idem e dizer que Depp entrega mais uma atuação digna de prêmios é chover no molhado. Já Christian “Batman” Bale faz o que pode com um personagem plano (Melvin Purvis), com cara de bunda e mais nada. Pouco para um ator tão bom. O “duelo verbal” na cadeia é a melhor cena dos dois. E a mais marcante de todo o filme é a do cinema, quando o bandido vê nas estrelas de Hollywood uma projeção da sua própria vida e do seu grande amor (ecos de “A Rosa Púrpura do Cairo”?).

É bem bom, mas tinha potencial para muito mais.

 

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h00
[] [envie esta mensagem] []



VOCÊ QUER JOGAR?

.

 

Quem já assistiu ao filme francês “Caché”, sabe que o trabalho do diretor Michael Haneke não é nem um pouco convencional. No filme de 2005 o espectador é convidado (ou seria obrigado?) a abandonar sua suposta passividade (a de assistir ao filme, simplesmente) para quase que literalmente “assumir” um papel fundamental (e incômodo) no desenrolar da trama. Como isso ocorre? Procure pelo dvd na sua locadora e descubra, garanto que será um experiência fascinante.

Em “Violência Gratuita” (Funny Games - 2007), raro caso em que o título em português ficou adequado, Haneke abala novamente algumas estruturas narrativas, pois desconstrói a noção que temos de ficção/realidade e ainda subverte os clichês cinematográficos. O resultado é sem dúvida genial.

 

 

Na trama, uma família em férias recebe a visita de dois jovens muito carismáticos, com luvinhas brancas, que se dizem convidados ou parentes de seus vizinhos. Mas não demora muito para que eles se revelem dois sádicos prontos para começar um jogo apavorante.

Muito já se explorou o tal do terror psicológico, mas sinceramente não lembro um filme em que ele tenha sido utilizado de maneira tão inteligente. A câmera desvia sempre quando algo violento vai acontecer (aliás, quase sempre, o que rende um dos melhores momentos do filme), pois o objetivo é justamente frustrar a expectativa do público “sedento” pela violência gratuita do título. E ainda brinca com os clichês, quando um dos personagens diz “Eu sofri abuso na infância e por isso agora eu me tornei um psicopata. Não, não, eu sou um filho de papai que não vê sentido na vida e sai por aí matando, Não, não eu sou...”, como se dissesse “Escolha o lugar-comum que bem preferir”, a ideia não é encontrar justificativas ou tentar explicar o mundo, mas sim representá-lo, e isso já é complexo o bastante.

 

 

Então o que temos é um tapa de luvas na cara dos fãs de filmes como “Jogos Mortais”? Tapa de luvas acho que não, mas uma boa bordoada com taco de golf no joelho sim, pois é impressionante que o terror se instale naquela casa, justamente pelo carisma e educação dos dois jovens, que estão ali apenas para ”pedir alguns ovos emprestados”! Atitude que destoa completamente do que esperamos deles: que matem logo alguém, que sejam ríspidos, etc, nada disso, eles são gentis e isso torna a situação completamente aterrorizante. O clima de tensão do começo do filme, quando “nada” aconteceu ainda, é um negócio que incomoda, que perturba, que dá medo, enfim, é fruto de um roteiro muito bem desenvolvido e das boas atuações do elenco (Naomi Watts, Michael Pitt, Tim Roth, entre outros).

 

 

Não bastasse tudo isso, o diretor ainda explora a metalinguagem. Em vários momentos um dos psicopatas olha para a câmera e fala diretamente com o público. É sinistro! O que ele tenta demonstrar, creio eu, é que quem manda no filme é ele e não o espectador (já que alguns diretores entregam mastigado ao público exatamente o que ele espera), então não adianta esperar que as coisas se resolvam da maneira que Hollywood nos acostumou a pensar, pois o “não-personagem” está ali pra nos frustrar e fazer graça com a obviedade do nosso raciocínio (o close da faca caindo dentro do barco, no início do filme, e a importância dela no final, é um belo exemplo disso).

 Num dos diálogos, um dos jovens diz algo como “Entre a ficção e a realidade há uma espécie de abismo, um buraco-negro. Só o que você consegue ver é real”, e o outro argumenta “Um filme você vê, então ele é a realidade”. 

Imperdível!

 

*Disponível em DVD.

 

 

Nota: 10,0

 

Atualizações diárias também pelo Twitter: www.twitter.com.br/ederalex



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h21
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]





Meu perfil
BRASIL, Sul, ARAUCARIA, Homem, de 20 a 25 anos, Livros, Cinema e vídeo, Contos, Crônicas, Críticas


Histórico
    Votação
    Dê uma nota para meu blog


    Outros sites
    Jornal Rascunho
    Revista Cult
    Revista EntreLivros
    Quadrinhos - Malvados
    Provocações - TV Cultura
    Roda Viva
    Cinema - Omelete
    Cinema em Cena
    Los Hermanos
    Livros para Dowload - Domínio Público
    Macuco Blog
    Blog da Jaciele