MERIDIANOS

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            Ainda afrouxando o nó da gravata, saiu do prédio satisfeito pelo toque repentino da brisa do meio-dia. Uma brisa meio cinza de poluição, mas que não deixava de ser uma sensação cálida que falseava um movimento para frente - o mesmo sentimento de alívio do personagem que abre a janela e coloca a cabeça para fora do carro no clichê do filme – enfim, uma sensação boa que as paredes do escritório infelizmente obstruíam.

            Atravessou para o outro lado da calçada, em frente ao hospital, temendo seguir o mesmo caminho dos colegas de trabalho e acabar tendo que compartilhar a mesa do almoço no restaurante à quilo. Três meses de experiência, nenhum laço de amizade, e se tudo corresse bem, assim preservaria sua tímida sociabilidade. Estava cansado daquelas falsas relações, que só aconteciam dada a necessidade de se tolerar - preservando um pouco de polimento ou sanidade - a divisão de um mesmo espaço entre pessoas estranhas. Ninguém ali gostava das mesmas coisas que ele e ele pouco se interessava pelo que os colegas tinham a dizer. Sendo assim, almoçava sozinho, satisfeito.

             Mãos no bolso, pensava na insensatez de ter que fazer sua refeição quando ainda não tinha fome, só para cumprir o horário estipulado pela empresa. De qualquer forma, poder respirar um pouco de monóxido de carbono ainda lhe parecia uma atividade estimulante.

Aguardava o sinal abrir quando sentiu uma mão posar no seu braço. Há quanto tempo ninguém o tocava? A lembrança de uma despedida desajeitada, lágrimas contidas, meses antes, tomou forma rapidamente em sua mente, para logo se esfarelar e dar lugar àquela senhora que lhe olhava incomodamente nos olhos. “Meu neto recebeu alta hoje e a ambulância só vem de tarde e eu moro no interior. O moço não podia arrumar dinheirinho pra gente almoçá?”.

            Não acreditava em Deus e não via a solidariedade como uma forma de carimbar um passaporte para o céu, pelo contrário, muitas vezes enxergava a ajuda ao próximo como uma atitude sádica que visava tornar ainda mais elementar as extremidades da pirâmide social.

O olhar daquela velha senhora era meigo e, por isso mesmo, incômodo. Treinara a dissimulação diante do espelho ou a humilhação lhe abrandava as linhas do rosto? Lembrou-se, não sem um sorriso estúpido, que já cogitara a possibilidade de ligar para o Criança Esperança ou para aquelas associações de deficientes. Era uma boa forma de comprar uma espécie sintética de paz de espírito, ou de fazer um acordo de compensação, que de maneira um tanto nebulosa amenizaria o sentimento de culpa devido aos seus gastos exorbitantes com livros, revistas, dvds, entre outras ferramentas que o ajudavam a evitar os seres humanos. Ajudar as pessoas, para enfim conseguir ficar longe delas, sem dúvidas um paradoxo interessante.

            Telefonar para um 0800 é simples, mas estar frente a frente com a estatística é mais complicado, afinal, aquele olhar... “Acho que a gente não precisa ter vergonha de pedir quando tá precisando né?”. Tudo o que queria no mundo era ficar longe daqueles olhos que pareciam sustentar todo o peso da pirâmide. Não respondeu, abriu a carteira para retirar uma nota de dez e então a senhora se aproximou ainda mais. Iria roubá-lo? Não, o toque físico era sua forma de substituir as palavras e demonstrar gentileza ou agradecimento, sem dúvidas um expediente um tanto quanto anacrônico. O curioso é que ele conseguia sentir o cheiro dela, mesmo imposta a enorme distância entre aquelas duas dignidades. Tão real quanto a brisa do meio-dia.

            Deu o dinheiro e saiu caminhando rapidamente para o outro lado, esbarrou em algumas pessoas sem pedir desculpas. Quase não ouviu o “Deus que ajude”. À certa distância, olhou discretamente para atrás e, aliviado, constatou que ela não estava mais lá. Um senhor de óculos varria a calçada respingada de folhas.

 Almoçou sozinho, mas um pouco intranquilo, pois não conseguia evitar aquele sorriso desajeitado que despontava em seu lábio, quando tentava se convencer de que o que estava sentindo naquele momento era orgulho e não vergonha.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h47
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INVERNO NA ESTAÇÃO CENTRAL

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Rudolf Hausner "Gelber Narrenhut", 1955

 

 

O velhinho ajeitando o sobretudo

Sente o vento gelado passar feito navalha.

O chapéu quase voa, opa! Segue caminho.

Olha para trás e franze a testa, envergonhado.

Seu sorriso de tristeza, não há quem o receba.

Só um piazinho chorando aponta lá de longe,

Uma cópia dele mesmo quando criança.

Ai, ai essa vida, um esboço...

Um ligeirinho passa feito navalha

E então o chapéu dança no ar desengonçado

Para depois pousar todo torto no meio-fio

O piazinho afunda o rosto no peito da mãe,

Mas agora já não chora. 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h22
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COLISÃO

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Teu rosto atravessa o vidro

E se multiplica: versos reflexos

(luz que me escurece)

E cada caco que cai

crava você na minha pele



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h18
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