Cinema: Arraste-me para o inferno

O CRAMUNHÃO RETORNA AO CINEMA EM GRANDE ESTILO

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Tenho um carinho especial pelos filmes de terror, pois foi através deles que acabei “entrando” no mundo do cinema e também no da literatura. Sam Raimi (cineasta que dirige a franquia “Homem-Aranha”) foi um dos responsáveis por despertar esse fascínio em mim, pois sua trilogia “The Evil Dead”,1987 (“A morte do demônio” ou “Uma noite alucinante” I II e III - eu sei, é estranho, dois nomes diferentes para o mesmo filme, mas é que ele foi lançado no Brasil por duas distribuidoras diferentes e elas fizeram uma bagunça danada), foi um marco e ao mesmo tempo uma espécie de “evolução” do quesito “meter medo” no espectador.

Como assim? Afinal, amedrontar a plateia é algo explorado pelo cinema desde sempre, com direito a filmes que superaram o próprio gênero Terror (que muitas vezes é visto injustamente como um gênero “menor”) e que foram alçados a categoria de clássicos universais, como “Nosferatu” (1922), “Noite dos Mortos-Vivos” (1968) ou “O exorcista” (1973). E então, qual o diferencial dos filmes de Sam Raimi? Vários, mas creio que os mais gritantes (além do domínio total que ele possui do formato) são o humor e o excesso de nojeiras que vemos na tela.

 

 

Peter Jackson (diretor da trilogia “Senhor dos Anéis”) antes de se aventurar na terra dos Hobbits fez seu clássico trash “Fome Animal” (1992), talvez um dos filmes mais nojentos de todos os tempos, mas Raimi já há alguns anos brincava com essas gosmas e jorros de sangue (que tal aquela mão decepada que passa a “agir” por conta própria em Uma noite alucinante II? Ou melhor ainda, que tal substituir essa mão por uma moto-serra no III?).

Nos anos 2000 Sam Raimi deu um tempo no terror e resolveu ficar ainda mais milionário com a franquia do herói aracnídeo. Mas agora, quase uma década depois, ele felizmente retorna às origens com o cômico-nojento-horripilante “Arraste-me para o inferno”.

Nesse filme, uma jovem ambiciosa que trabalha num banco recusa ajuda a uma velha (e apavorantemente nojenta) cigana, que se sente humilhada e resolve se vingar com uma maldição: a garota será atormentada pelo capeta durante três longos dias e depois... e depois você já deve imaginar o acontece tendo em vista o título do longa.

 

 

O filme é recheado de sustos (contei pelo menos uns sete), de coisas nojentas que eventualmente vão parar dentro da boca da mocinha, de erros propositais de continuidade (repare na roupa da protagonista nas cenas com gosmas) e de muito bom humor (algumas piadas são claramente inspiradas nos desenhos animados, com direito a bigorna e tudo mais). Tudo isso para criar um clima tenso, de suspense e pavor, e ao mesmo tempo fazer brincadeira com o gênero.

A mosca que pousa na tela é um bom exemplo disso, é como se o diretor nos dissesse “você aí que está com medo! Calma, isso é só ficção”, só pra fazer com que o espectador relaxe e depois leve mais um susto. Isso que é legal no filme, você sabe que vai se assustar, mas não sabe direito como (diferentemente da recente safra de filmes de suspense ou de terror/mutilação).

O cineasta cria climas pouco convencionais nesse tipo de filme, emprestando um ritmo bem peculiar, como ocorre, por exemplo, na cena da luta dentro do carro já no início. Ela é muito mais longa do que estamos acostumados, pois quando achamos que tudo vai terminar num gesto violento, a velha desgraçada levanta e começa tudo novamente, como se o sobrenatural se confundisse com o real. Eliminando, portanto, o corte seco (típico dos filmes de terror, do tipo que no momento de perigo tudo fica escuro e o cara acorda no dia seguinte, tentando se lembrar do que aconteceu) para salvar a pele dos personagens. 

 Sam Raimi não reinventa a roda em “Arraste-me para o inferno”, pelo contrário, o argumento do filme não é original (quem já leu o livro “A maldição” do Stephen King, sabe o que eu estou dizendo), há excesso de efeitos especiais e o final é totalmente previsível (você pode até não saber exatamente o “como”, mas sabe com toda certeza “o que” vai acontecer). Mas mesmo assim, tudo é realizado com tanta maestria, as cenas funcionam com tanta segurança que você percebe que há alguém competente por trás daquele projeto. E como isso faz diferença! Os fãs do de filme de terror certamente não terão do que reclamar, pois os sustos e os risos estão garantidos.

 

 

 Nota: 9,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h43
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