Crônica: O chuveiro Yin Yang

O CHUVEIRO YIN E YANG

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Acho que o chuveiro quis me dizer alguma coisa ontem. Após um dia interminável de trabalho, ansiei por um momento de paz, com água corrente deslizando pelo meu rosto e levando para o ralo todo o cansaço de mais um dia com gosto de repetido.

Dizem que um bom banho nos renova, nos purifica, nos deixa “prontos para outra”. Concordo em partes, literalmente em partes. É que meu chuveiro, um tanto quanto temperamental, resolveu esquentar só de um lado. Algum problema na tal da resistência, fenômeno da natureza ou alguma piadinha divina, tanto faz, fato é que metade da água sai quente e a outra metade sai fria. E quem é do sul sabe o que eu quero dizer com a palavra “fria”.

Portanto, devido a esse problema de ordem hídrica, tenho andado com dificuldades de definir uma especificidade para o meu humor. É como se o chuveiro quisesse me dizer “Seu dia amanhã será ótimo, mas também será péssimo”. Difícil conviver com isso, pois é como se eu fosse obrigado a torcer e para o Palmeiras e para o Corinthians ao mesmo tempo, ou tivesse que gostar de Lost e da Hannah Montana, ou pior, ter que assistir a uma mesa redonda com o Garcia Márquez e o Paulo Coelho (e ainda só conseguir  me sentar perto do mago-da-propagando-de-carro).

Ok, dizer que essa “dicotomia moral” forçada por um chuveiro pode gerar uma espécie de bipolaridade em mim seria reduzir a complexidade da doença. Acho que basta tomar banho de lado e fazer a escolha do estado de espírito que desejo para aquele dia. E quando eu quiser parecer um pouco mais eclético, fico no meio e pronto. Isso faria de mim uma pessoa razoavelmente estável psicologicamente falando. Isso se o chuveiro não resolver voltar ao normal logo após eu me adaptar a essa nova rotina, sei lá, vai que ele se cansa de brincar de yin e yang.

O que me preocupa é que um objeto (aparentemente) inanimado está se intrometendo na minha vida (já não bastam a televisão e o computador?). Acho bacana que o caráter humano seja ambíguo, mas aí meu chuveiro querer ostentar personalidade também já é palhaçada.  



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h25
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"DEVANEIOS DO COTIDIANO" ENTRE OS MAIS LEGAIS DO UOL

   O blog "Devaneios do Cotidiano" foi selecionado como o "Mais Legal" dessa semana no site Uol

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(E antes que alguém faça piada eu já aviso: sim, eu vi que o link do meu blog ficou ao lado da foto de uma ex-bbb. Afinal, nem tudo é perfeito nessa vida. **Pelo menos fiquei na frente do blog da apresentadora Eliana "Dedinhos" Popstar) 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h17
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Conto: Queda Livre

QUEDA LIVRE

Conto: Eder Alex

Fotos: Nelson Lorenski

 

A fumaça ardeu-lhe os olhos e com a mão fez um gesto inútil tentando limpar o ar. Gostaria de poder pará-lo no tempo, uma caixa imaginária de ar puro. De longe, prédios e janelas proliferavam sem fim e a ponta acesa do seu cigarro parecia acenar num pedido de ajuda ou de resistência, um código luminoso que não obteve eco em resposta. Limpou a garganta e cuspiu. Doze andares, o catarro se desmancharia no ar antes de tocar o chão? Pensou, com nojo da palavra e não do fluído.

Tragou o cigarro mais uma vez e tentou sentir o gosto de Deus. Segurou o máximo que pode, mas a fumaça escapou-lhe pelo nariz e ela então teve um terrível acesso de tosse. Tossiu tanto que não estranharia uma bola de sangue brilhando no tapete. Ok, agora não posso nem mais fumar. O filho da puta do pulmão tem que ficar me avisando que existe? A julgar pelas dores espalhadas pelo corpo, ela estava quase certa de que fora atropelada e que quebrara uma ou duas costelas na bebedeira da noite anterior.

Escombros do churrasco com as amigas da faculdade. Começou tomando caipirinha, mas logo um copo de vinho estava em sua mão e depois um de tequila e depois um de pinga e depois um abacaxi com vodca e leite condensado e depois o mundo se liquefez num day after embaçado, todo pontilhado. Pelo menos não dei pra ninguém, isso já é uma evolução.

 Acordou cinco horas da tarde, virou num gole o resto de Coca que achou na geladeira e tentou requentar uma lasanha de micro-ondas, mas o queijo borbulhando revirou-lhe o estômago. Foi ao vaso sanitário, percebeu que não dera descarga da última vez, o cheiro azedo que subiu a faria vomitar tudo que tinha comido, mas nada regurgitou além do refrigerante preto. Dormiu no piso gelado do banheiro, abraçada ao vaso. Quando acordou novamente, a novela das oito já tinha acabado. Marcas de azulejos nas coxas nuas.

 

 

À janela do apartamento, derramou seu olhar por sobre a muralha de olhos acesos que ficavam caolhos à medida que os condôminos se preparavam para dormir.  Lá em baixo, a calçada e a terrível sensação de um passo adiante, sem direito à fraqueza do arrependimento. Sentiu um frio subindo pelo ventre, ela não era um desenho animado.

Acendeu outro cigarro e tentou pensar em algum significado para a sua vida, já que Deus evaporara pelo nariz na tentativa anterior. O amor estava fora de cogitação, não suportaria sentir o seu corpo se decompondo ao lado de outra pessoa. Seu namorado anterior brutalizou tanto a relação, que a impregnou de repulsa. Desde então, tal como uma puta, ou o ideal que ela fazia de uma puta, ausentava-se do próprio corpo e o entregava como quem atira uma esmola para o mendigo de boca apodrecida. Ironicamente passou a empregar o verbo “dar”, que tanto repudiava. Mas agora ele fazia sentido. Ela dava. Dava sua carne a qualquer um para esquecer um pouco de si e alimentar a miséria no outro, era essa a sua contribuição para a desordem da vida. E não que o nojo dessa entrega fosse mais suportável que ausência de respostas. Ela apenas desejava o abismo, desde que lá houvesse silêncio.

Mastigou o filtro amarelo e pensou em algum tipo de esperança cinzenta, com ratos andando em torno. Quem sabe arranjar uma verdadeira paixão ou responder ao olhar malicioso do pai. Poderia escrever um livro intelectual aclamado por críticos e empacado nas prateleiras. Poderia escrever um sucesso popular como ghost writer de um grande nome da literatura que estivesse em crise criativa ou que estivesse muito ocupado com palestras. Era jovem e ainda haveria tempo para essas coisas. Mas conseguia sentir o tempo fazendo o seu barulho ameaçador, arrastando suas correntes de fantasma e devorando cada minuto que lhe escapava pelos poros e células mortas. Sua maquiagem pesada tinha um quê de ressentimento com o mundo e sua lógica distraída.

Quem sabe uma cerveja para limpar o estômago? A imagem do líquido dourado girou no seu estômago e subiu ardendo pela garganta, pensou em correr para o banheiro, mas já não se lembrava se dera descarga na última vez. Respirou fundo e engoliu saliva. Calma, calma. Não adiantou. O jorro de vômito escapou-lhe por entre dentes e dedos, respingando o chão da sala, o sofá e a mesinha de centro. Dessa vez não fora só Coca. Pelo menos sentiu-se melhor, aliviada até. Era como se tivesse acabado de passar por uma lavagem estomacal divina, feita pelo próprio Cristo.

Nunca mais vou beber! Nunca mais vou beber! Repetiu o mantra que aprendeu após o primeiro porre aos 13 anos. O Álcool estava dilacerando sua memória e sua concentração. Quando conseguiu o emprego de revisora de textos, ficou contente por poder corrigir os erros dos outros. Gostava da palavra “corrigir”. Contudo não imaginava que teria que evitar ser ela mesma (dizia que sua essência estava no excesso) para conseguir um pouco de dinheiro.

Por alguns instantes ficou a observar as próprias mãos, as linhas pareciam trocar de lugar. Talvez ela estive entrando em estado de decomposição, mas com isso era possível, se estava só? Mas até que isso não seria um problema, disse para si e sorriu pela metade. Usava esse tipo de ironia com os outros e consigo mesma para ver se alguém sentia pena. Ela sentia, mas era difícil admitir.

Soluçou e um gosto azedo se acomodou debaixo da língua. O estômago ainda estava dolorido do último vômito. Mas não adiantava. Colocar apenas a sua miséria fisiológica para fora não daria um jeito em sua vida.  Nesse sentido, arrependera-se há muito, por ter lido Freud e Dostoievski. Será que esse horror à existência sai com Omo Dupla-Ação? Olhou para a mancha escura no chão. Era bastante possível que aquela nojeira toda interessasse a algum escritor contemporâneo dado a descrições grotescas, riu imaginando-se personagem. A ela não, que preferia organizar as palavras de forma sutil e poética, anacrônica talvez, mas que reservava um pouco de charme. Afinal, como descreveria o próprio vomito de maneira sutil? E na falta de um estilo próprio, a sedução e esse charme talvez lhe fossem úteis como arma. Mas contra quem lutava? Indefinições espocando no céu.

Sentiu-se infeliz. E a pena que sentia por si mesma ameaçava sufocar-lhe a garganta. A mancha de vômito já estava secando. Refletiu um pouco, e concluiu que as excreções ou regurgitações não arrastaram consigo o pior que havia dentro dela, pois o que existia de ruim estava sob a pele, atrás dos olhos, nos nós dos dedos, na língua, no sexo, no couro cabeludo, na carcaça do espírito.

Ela dominava aquilo tudo que era ruim, potencializava os próprios erros e os dos outros. Corrigia. Possuía um talento excepcional para a derrota. Sentia enorme prazer nesta constatação, mas ocultava de si mesma essa satisfação, com medo que alguém percebesse e anulasse aquilo que ela acreditava ingenuamente ser uma singularidade e não uma fraqueza.

Voltou à janela. Os prédios dormiam, mas vários olhos ainda estavam acesos: algumas crianças tiveram pesadelos naquela noite. Será que os adultos também acendem a luz quando estão com medo ou ocorre o contrário? De qualquer forma, naquele momento ela estava dentro de um desses olhos. À distância, apenas mais um pontinho indefinido. Tem alguém naquela janela? Acho que não, não dá pra ver.

Tentou se lembrar quando foi que comera a última vez e logo teve que afastar a imagem da lasanha borbulhante. Cogitou ir até o posto de gasolina para comprar mais cigarros, mas a infinidade de lances de escada (problemas com o elevador, de novo) dissuadiria até o espírito mais disposto.  A sua indecisão foi atrapalhada por uma súbita vontade de chorar, o nó na garganta não escapara pela janela. Sentiu-se ridícula. Onde já se viu chorar assim sem motivo? Calma, calma. Não adiantou.

Olhou então para baixo. A calçada delirava, distorcida pelo magnetismo. Apoiou então os braços na sacada e inclinou o tronco para frente. Dores pelo corpo todo. Será que também se desmancharia no ar antes de tocar o chão?

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h33
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