Minicontos - Parte III
Minicontos - Parte III 
As dobras do lençol formam um mapa da sua presença. Escuto o barulho na cozinha. Cheiro de café. Como é bom estar vivo e ter você por perto. O lago descansa, a superfície lisa absorve a folha caída, o singrado do pato. Tudo uma coisa só. Pássaros se agitam: Alguém jogou uma pedra. Sem perceber, ela fez a mesma piada de quando nos conhecemos. Ri, mas só para não desconsertá-la. Senti um gosto de leite coalhado na boca. Contou que estava doente, o pai disse é frescura. O porteiro do prédio ouviu o barulho lá atrás, na hora pensou que um cachorro tinha caído. O semáforo abriu. O menininho não viu. O motorista não viu. Deus não viu. Lamentou a monotonia da vida, dias amontoados. Nada de novo e tudo sem sentido. Perguntaram-lhe: qual o gosto da água? Ele não soube definir.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h28
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Cinema: Up - Altas Aventuras
A PIXAR CONSEGUIU (MAIS UMA VEZ...) . 
Quando assisti ao drama “Longe Dela”, saí do cinema ainda chorando, comovido com a história de amor que se desfaz em virtude do mal de Alzheimer. Após assistir recentemente “O visitante”, também saí com os olhos vermelhos e um nó na garganta, em virtude da história de um homem que tenta superar a morte da esposa. Até aí tudo bem, são dois dramas feitos exatamente para isso, emocionar. E além do mais eu sou meio chorão mesmo. O problema é que quando fui assistir “Up – Altas Aventuras”, o desenho ainda não tinha nem começado e eu já estava com os olhos marejados! A sala cheia de crianças rindo e eu lá, constrangido, tentando me esconder atrás dos óculos 3D (Depois fiquei sabendo que outras pessoas também passaram pelo mesmo “apuro” e fiquei mais tranqüilo). 
Elogiar o trabalho genial da Pixar já virou lugar-comum, pois um estúdio que nos presenteou com desenhos como “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Ratatouille” e “Wall-E”, já não precisam provar nada a ninguém. E o bacana é que mesmo assim os caras conseguem se superar a cada ano. Não sei qual é a fórmula para tanto sucesso (de crítica e de público, coisa rara), mas o documentário “The Pixar Story” dá uma dica: o foco principal do estúdio não é a tecnologia e sim a história, ou seja, eles gastam muito mais tempo elaborando o roteiro do que desenvolvendo efeitos especiais. E cá entre nós que, por mais simples que seja, uma história bem contada vale muito mais do que qualquer milhão de dólares explodindo numa cena de pirotecnia vazia de significado e de sentimento (os fãs do Transformes 2 e do Exterminador 4 que me desculpem). A Pixar encanta porque se preocupa com os detalhes, como os olhos meigos do Wall.E, por exemplo. E são esses detalhes que já podemos verificar no curta de animação que antecede a projeção de Up, “Parcialmente Nublado”, que fala sobre a relação de amizade/cumplicidade entre uma cegonha e uma nuvem. Os movimentos desengonçados da cegonha e os traços tristes da nuvem, só fazem aumentar a ternura dos personagens e o arrebatamento quando chegamos ao “final surpreendente” da história. Enfim, o objetivo desse post era falar sobre o Up... 
Quem já assistiu ao ótimo desenho japonês “O Castelo Animado”, do mestre Hayao Miyazaki, sabe bem onde os roteiristas da Pixar foram buscar inspiração. Nos dois casos temos o deslocamento literal (e surreal) de estruturas, de edificações, que no limitado “mundo real” permaneceriam fixadas ao solo. No desenho oriental um castelo enorme anda de um lado para outro. Em Up, um velhinho triste utiliza balões para suspender a sua casa e levá-la para América do Sul. Alguns cineastas defendem que os 15 primeiros minutos são cruciais para determinar se o filme é bom ou não. Se isso é verdade, dá pra dizer que Up se enquadra no primeiro grupo, e com louvor, pois as cenas em que acompanhamos a composição do personagem do velhinho (em boa dublagem do Chico Anísio) são simplesmente perfeitas. Em apenas alguns minutos, ficamos sabendo de forma bastante emocionante (aquele balão no quarto do hospital é de cortar o coração) por que o personagem exibe aquela cara quadrada de quem não está satisfeito com a vida. 
Os outros personagens também merecem destaque. O cão, com aquela personalidade própria da espécie, algo do tipo “sou bobo, mas sou leal”. O menininho escoteiro, com trejeitos engraçados, mas que guarda uma profunda tristeza, devido sua relação de poucas palavras com o pai. Aliás, a história desse garotinho - por mais previsível e melodramática que seja - foi um dos pontos que mais me tocou, pois o que emociona mais, além da identificação pessoal (óbvio), são os pequenos detalhes (eles novamente) como a lembrança dos tempos em que ele tomava sorvete sentado na calçada. Ao término da projeção fica aquela dúvida que os filmes da Pixar sempre deixam no ar: é um filme para crianças, mas que os adultos acabam gostando, ou é um filme para adultos que também agrada às crianças? Seja lá qual for a resposta, é sempre bom saber que a cada novo ano contaremos com uma obra belíssima que nos fará rir muito (e chorar mais ainda). 
Nota: 9,5
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h55
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