Crônica: Pelo direito de não ter que aproveitar cada minuto da minha vida
PELO DIRETO DE NÃO TER QUE APROVEITAR CADA MINUTO DA MINHA VIDA . 
Salvador Dali Curioso como alguns minutos sem nada para fazer podem nos deixar profundamente angustiados. Basta surgir pela frente uma fila inesperada ou retirar uma senha numa recepção qualquer para despertar o relógio interno do desespero: “Que diacho de tempo que não passa!”. A obrigação de ter que passar um tempo consigo mesmo faz com que você utilize alguns subterfúgios para enganar o cronômetro emperrado. Há muitos que optam por contar o número de cadeiras ou lajotas do lugar. Esse recurso é amplo em variações, uma vez que podemos contar apenas a lajotas pretas e depois as brancas, e ainda, já que o objetivo é perder tempo, ao final não é necessário somar os dois resultados, basta recontar tudo, só que sem preconceito de cor (e repetir essa ação de trás para frente fará com você ganhe (perca?) mais alguns segundos de sanidade). Os que gostam de ler normalmente sentem-se privilegiados nessas ocasiões, já que alguns minutos de sobra equivalem a uma longa viagem para um país ou mundo distante. Contudo, são eles, esses leitores que se acham espertos, os que mais sofrem quando são pegos de surpresa. O médico atrasou, a ônibus quebrou e o livro-de-bolso não está no bolso! E pior, não há nenhuma revista disponível, nem mesmo aquela falando que o ator que você não conhece casou com a filha do empresário que você também não conhece numa praia que você nem sabia que existia. Pronto, começa o desespero de ler toda e qualquer coisa que aparece pela frente: a tabela valores nutricionais das embalagens de comida, instruções de lavagem na etiqueta da roupa, contratos de banco, letras miúdas dos contratos de banco, cartazes, capa do livro dos outros, etiqueta de extintor, adesivos, pixações, etc. Tudo para não ficar ali, sozinho, tendo apenas a sua mente como companhia. Reclamamos muito da falta de tempo, mas quando ele surge à nossa frente feito abismo, tratamos de tapá-lo com livros, dvds e fones de ouvido, pois nesse estilo de vida moderna uma das únicas formas de suportar o avanço dele é não nos darmos conta da sua presença. Ao final de um expediente cheio de trabalho o sujeito fica contente porque o dia passou e ele nem viu, e já está na hora de ir embora! Quando nos divertimos com os amigos, “as horas passam voando”. Desta forma, não perceber o tempo passar talvez seja uma coisa boa (o insone que vara a madrugada contando cada segundo que (não) passa que o diga). Mas os manuais de autoajuda defendem que devemos aproveitar cada minuto da vida como se fosse o último (já percebeu que esses caras estão sempre querendo mandar em nós? Aliás, desafio um escritor desse gênero a escrever um livro inteirinho sem utilizar verbos no imperativo). Ora, quero defender o meu direito de não ter que aproveitar cada minuto da minha vida! Ainda mais se alguns deles forem insuportáveis. A “vida é curta e temos que aproveitá-la”, ditam esses “sábios”, colocando-nos nesse plural sem aviso prévio. E eu fico aqui pensando, será que teríamos saco para fazer esse “jogo do contente” o tempo todo? Será que a pessoa que tem uma dívida enorme e que perde o sono por conta disso, quer mesmo aproveitar cada minuto dessa preocupação? Será que alguém que acabou de perder uma pessoa querida quer viver cada segundo dessa dor? O sujeito que trabalha em péssimas condições e sente-se humilhado todos os dias quando acorda, quer mesmo aproveitar cada minuto de sua miséria? Isso me leva a crer que o cara que inventou o tal do carpe diem era o homem mais feliz do mundo (e que nunca teve que aguardar senha), mas isso resulta num paradoxo: se ele era feliz o tempo todo, provavelmente não se dava conta do tempo passando, se ele não percebia o tempo passando como poderia afirmar que aproveitava cada minuto como se fosse o último? Ele nunca desejou que aqueles minutos mais chatinhos passassem depressa? E se ele morresse exatamente num minuto chato, sei lá, no meio de uma propaganda das Casas Bahia, por exemplo? Sei não, acho que ele iria rever os próprios conceitos. Afinal a consciência de que há um “último minuto” já implica em uma preocupação, uma reflexão, e esse exercício mental anularia qualquer chance de se “aproveitar” a vida simplesmente, como se o mundo fosse um parque de diversões sem fim. Somos os únicos seres que têm a consciência da própria finitude, e é isso que nos torna diferentes de um ornitorrinco por exemplo. Negar essa consciência e fingir que tudo é maravilhoso pode até ser uma ferramenta bacana para se viver “melhor”, de maneira mais positiva e distante dos “pessimistas” (um mundo sem Woody Allen, Irmãos Dardenne, Dostoievski, Zola, Machado de Assis, etc), mas tendo em vista a ingenuidade desse ponto de vista, não consigo evitar o pensamento de que isso não passa de uma forma de autismo, e que ele dura apenas até a primeira queda no abismo do tempo e da vida real. Se você parar para pensar o minuto em sua totalidade, absorvê-lo, refleti-lo, você enlouquecerá antes dos trinta segundos. E o tempo está também presente aqui enquanto você disfarça-o lendo esse texto e só é possível suportá-lo (o tempo, não o texto!) porque não o percebemos. E não é a ilusão de que podemos mensurá-lo utilizando um relógio que me convencerá do contrário. Quem aguarda a sua vez numa fila de hospital sabe muito bem do que estou falando.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h52
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