Crônica: A Malvada Vox Populi

A MALVADA VOX POPULI

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Entre o tumulto de revistas apinhadas na prateleira da banquinha de revistas, uma se destaca. Ela traz na capa a curiosa manchete: “Público pede a morte de Helena”. Não sei o nome da publicação, mas é dessas que funcionam como uma espécie de horóscopo de novelas, que anteveem o futuro dos mocinhos e das mocinhas dos folhetins.

A tal Helena não é a de Tróia (que me desculpe o novo acordo ortográfico, mas Tróia sem acento fica muito feia) e sim a heroína da novela de Manoel Carlos, interpretada pela bela Taís Araújo. Não tenho assistido (ou seria “acompanhado”?) “Viver a vida”, por falta de tempo e principalmente porque essa high society carioca do Maneco pouco me inspira curiosidade. Mas acho interessante o fato do público querer matar a pobre (opa, ela é rica né?) personagem. Quando vi a revista logo me veio à mente a cena de algum filme bíblico, as pessoas reunidas gritando o imperativo pouco natural para um povo iletrado: “Cricifica-o, crucifica-o!” (até hoje tenho medo dessa gente).

Essa ilusão de poder divino é um efeito fascinante que a ficção proporciona. A já batida comparação de que o escritor é o Deus da história que está escrevendo (podendo até criar terremotos, tsunamis e doenças medonhas para matar seus personagens inocentes quando bem entender) perde um pouco da sua força quando se trata de uma novela.

O novelista é um Deus assalariado que não manda na sua própria história, pois tem sempre que estar atento a um poder ainda mais elevado: o ibope. É como se O Todo Poderoso tivesse que dar continuidade a sua obra conforme análise de um indicador de popularidade ou de satisfação do cliente. Nesse caso, não dá pra dizer que “a voz do povo é a voz de Deus”, principalmente se verificarmos que, se o público quer que uma personagem morra, então podemos afirma que provavelmente ele (o povo) pertence a outro plano, que não é lá muito divino.

O fato é que as pessoas gostam dessa ilusão de poder, caso contrário os Reality Shows não fariam tanto sucesso. Deixamos aflorar o psicopata sanguinário que existe dentro de nós, quando sabemos que podemos eliminar alguém da “nossa vida” com uma simples ligação a 30 centavos o minuto. Afinal, o verbo “eliminar” carrega consigo uma carga de poder muito tentadora.

Estamos lá sentados no alto do nosso trono/sofá e não achamos graça nas estripulias do bobo-da-corte/Protagonista da novela. Para evitar o enfado, ordenamos então que eles sejam guilhotinados (não sem antes bocejar um pouquinho). E logo depois mandamos entrar o próximo. Afinal, controle remoto e lâminas afiadas servem para essas coisas.           



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h39
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