VOADORA COM OS DOIS PÉS NO ESTÔMAGO

 

As frases de Eliane Brum deslizam como facas e abrem feridas que nos sorriem um sorriso sujo de sangue. E a escrita da autora é tão saborosa/dolorosa que não viramos para o lado quando esse sorriso vira uma gargalhada de desespero e o sangue respinga bem no nosso rosto.

Não, não se trata de um romance macabro sobre algum serial killer. “Uma Duas” é sobre a precária relação mãe e filha, aliás, sobre mãe filha, e também sobre o abismo que existe entre (e dentro de) uma e outra. Não é por acaso que não há vírgula nem conjunção neste título.

A filha ama e odeia a mãe –o ódio claramente prevalece - e agora terá que cuidar dela, já que a idosa foi encontrada quase morta em seu apartamento, cheio de fezes e urina no chão. Já de cara percebemos que a relação entre as duas nunca foi boa, então não caímos no clichê de já achar algum culpado por causa daquela situação. Está bem claro que a velha não ficou naquele estado (o gato até lhe comeu parte do pé) porque a filha supostamente a abandonou. Os olhares das pessoas ao redor condenam a filha desnaturada, mas sabemos que há muito mais por trás disso tudo, afinal a mãe não é tão boazinha assim.

Embora explore o fluxo de consciência dos personagens, a narrativa segue num ritmo rápido, com uma linguagem elaborada que flerta com o escatológico apenas quando necessário e com diálogos surgindo no meio das frases, sem aviso ou travessões. E esse recurso se mostra acertado, pois às vezes parece confundir fala e pensamento. As revelações das personagens são feitas de forma seca e impiedosa. Eliane Brum consegue muito bem transformar a dor em palavras e nesse sentido “Uma Duas” é muito mais que um soco no estômago. Lendo a brutalidade verbal dessa narrativa logo me lembrei de “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, que assim como Brum, faz o verbo virar carne e não se furta a passar uma lâmina para rasgá-lo ao meio e expor suas vísceras. Então vemos por escrito aquilo que pensamos em nosso íntimo, nos nossos abismos imundos, mas que não temos coragem de transformar em palavra (daí o fato interessante de misturar diálogos e fluxo de consciência). Pois a palavra nos remete ao labirinto da realidade e dá contornos a um mundo no qual não gostaríamos de nos perder.

Quando um autor dialoga conosco desta forma, “espera aí, ela leu meus pensamentos? Logo aqueles pensamentos que me envergonham tanto?” percebemos que fomos traídos, já não estamos lendo um livro, na verdade nós é que estamos sendo lidos por este livro e é a nossa feriada cheia de moscas ali exposta para todos verem. É uma leitura que não esquecemos simplesmente, pois mesmo que fechemos a capa do livro, sentimos a infecção avançar no nosso íntimo.

Mas há dois lados a serem observados nessa história. A certa altura do livro a mãe também passa a narrar e é neste momento que a leitura se torna devastadora. Quando você já tinha se convencido de que o livro é uma voadora com os dois pés no estômago, é novamente surpreendido e percebe que já havia uma faca cravada ali. Então ficamos sem saber se ela foi mesmo cravada ou se simplesmente brotou já que não é uma faca desconhecida, pois como escreveu João Cabral: “qual uma faca íntima / ou faca de uso interno/ habitando num corpo / como o próprio esqueleto”.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
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ACORDAR NUMA SEGUNDA-FEIRA

Fonte

 

O celular desperta. Na verdade eu desperto, pois o celular toca o despertador. A música não é irritante. Pelo menos não tão irritante quanto as três anteriores. Aliás, não é nem música, é um toque, um ringtone, um barulho. Não coloco mais músicas para tocar quando acordo, pois passo a odiar a melodia já no segundo dia, pois costumo relacionar as músicas ao momento da minha vida em que eu as escutei - por isso, às vezes, temos até vergonha de admitir que gostamos de uma música meio ridícula. Não gostamos da música ruim, gostamos da lembrança que ela nos traz -, portanto qualquer som que eu escute às 6:25h de uma segunda-feira sempre me trará a lembrança de uma manhã de segunda-feira, mesmo que seja Beatles. Creio que no inferno as horas não passam (pra quê medir a eternidade?), mas lá devem existir muitos relógios, milhões de relógios parados espalhados para todos os lados, só de sacanagem. E adivinhem o horário que os ponteiros infinitos marcam?

            Despertamos, eu e o celular, cada qual com seu resmungo. No quarto ainda escuro sinto a tristeza arranhar o estômago. O cérebro é o chefe, mas quando o sentimento é intenso (caralho, cadê minha carteira?; Quem morreu?; Desculpe, mas eu não te amo mais; Alô?) passa primeiro pelo estômago. Ao acordar, passo a enfileirar todos os problemas que terei que enfrentar naquele dia: o primeiro ônibus, o segundo ônibus, a papelada na minha mesa, os funcionários brigando entre si, o presente do fulano, a conta para pagar, etc. Isso tudo no curto espaço entre acordar e virar para lado implorando “Deus, se você existe me dê mais cinco minutinhos de sono!” E caso eu cochile nesses cinco minutos, acordo assustado e recomeço o processo: o primeiro ônibus, o segundo ônibus...

            Afasto a cortina e a luz do dia se esfrega na minha cara: vai ser de sol? Vai ser de chuva? Tanto faz o cenário, pois nesse horário tudo parece inóspito. Arrasto meu corpo até o banheiro. Já não reconheço aquele rosto cansado aprisionado no espelho. Aos poucos ele se distancia e desaparece. Quem de nós dois desaparece?

            Enquanto me visto, penso nas pessoas da TV, nas pessoas-super: super bem resolvidas, super dispostas, super entusiasmadas que saem cedo de casa para mudar o mundo. Sinto inveja delas, pois por mais que elas estejam mentindo para manter seus empregos ou impressionar os amigos e que muitas delas sejam apenas estúpidas, elas conseguem fingir felicidade com uma naturalidade que admiro. Choram no banheiro, é certo, mas fingem muito bem.

            Não acordo de mau humor (aquele disfarce que usamos para descontar nos outros as frustrações por nossos fracassos) e nem com muito bom humor (outro disfarce, menos agressivo, mas tão chato quanto). Acordo num desespero cálido, que aos poucos se desmancha no estômago feito remédio para azia. É que pouco importa se estamos rindo ou chorando na palidez da manhã de uma segunda-feira já que a vida segue (ela insiste em seguir) com ou sem nós, independentemente da pena que sentimos por nós mesmos.

            Durasse o dia todo, eu faria um drama e diria que esse sentimento incômodo é um dos estágios da depressão. Mas o cheiro do café, a textura da caneca e o vapor que toca meu rosto emprestam um pouco de vida ao desânimo e disfarçam bem a tristeza, tornando até suportável o início da semana, o recomeço da repetição. Tento pensar nas coisas boas, mas logo percebo que estou atrasado para pegar o primeiro ônibus. Saio correndo e no caminho tento me lembrar se por acaso eu não esqueci a porta da geladeira aberta.

           



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h16
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