Capitu


Há algo no olhar de Capitu que me comove. Quando sento para escrever ela se põe a passear pelo teclado do computador, deslizando para lá e para cá com sua pose imponente enquanto suas patas fazem diminuir o brilho do monitor ou fazem brotar um idioma desconhecido bem ali no meio do meu texto. Ela caminha por alguns instantes e de repente para, como uma mulher em frente ao jogo na TV pedindo um pouco de atenção do marido, e me encara.

Mas seus olhos não se parecem com os da moça no clichê da propaganda de cerveja e nem mesmo com os da célebre personagem de Machado de Assis, os olhos da minha Capitu não são dissimulados, na verdade eles parecem tristes.

Ela chegou aqui toda pulguenta numa caixa de sapatos cor-de-rosa e assim que se viu livre daquele cubículo me arranhou, correu pela casa, subiu no sofá e tentou atravessar a janela, batendo com a cara no vidro. Encolheu-se no canto, já tinha percebido que a liberdade era uma coisa bem relativa. Passou dias acabrunhada e se escondendo nos lugares mais insólitos. Pensei seriamente que ela passaria a morar dentro do sofá.

Capitu é uma vira-lata e é adotada. Como se não bastasse toda essa pinta de minoria felina, ainda descobrimos que ela sofria torturas. O dono da mãe dela, irritado com tanto miado dos filhotes, resolveu dar-lhes choques para ver se eles se calavam.

Ela tem, sei lá, apenas uns três ou quatro meses. Mais da metade disso sendo devoradas por pulgas e levando choques. Faz parecer toda uma vida.

Dá para entender o seu olhar.

Aprendi a me movimentar com mais calma, para que ela não se assustasse e aos poucos ela foi se aproximando. Agora quando me sento para escrever ou assistir a um filme, ela se aproxima lentamente e deita ao meu lado. Fica ali quietinha, não parece querer algo em troca, apenas compartilhar o silêncio e sentir que tem alguém por perto.

No fim da tarde, um sol já sonolento pinta de laranja as duas Araucárias que posso ver da janela da sala, os cachorros latem para os donos que estão chegando, as crianças do andar de cima começam a correr e as cortinas do bloco ao lado começam a se fechar, pois vai começar a novela. Tomo uma cerveja enquanto observo a vida se ajeitar confortavelmente para dormir. Capitu, na ponta do sofá, mira seus olhos verdes na direção de tudo que se move no gramado lá fora. Ela já não pula de cara no vidro, aprendeu a lição. Está distraída e parece serena. Ainda há tristeza no olhar, mas agora ela sabe que está tudo bem.

 

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 21h11
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