A tempestade está se aproximando

Cena do filme "O Abrigo"

 

Dia desses assisti a um filme esquisitão chamado “O Abrigo”, que conta a história de um sujeito atormentado pela ideia de que uma grande tempestade se aproxima. Ele passa a ter pesadelos e alucinações apocalípticas, mas tenta esconder isso da mulher e dos amigos, sem muito sucesso, pois ele resolveu cavar um buraco enorme no fundo de casa e construir um abrigo contra furacões. Sem entrar nos detalhes do filme (que é muito bom e vocês deveriam assistir) o que mais me chamou atenção na história é a maneira como ela expõe a precariedade das relações humanas.

            Enquanto espera pela tempestade, a qual aparentemente está apenas na sua cabeça, olhando sempre lá para o céu, o personagem não se dá conta que ele próprio está colocando sua família num meio de um tornado que mastiga tudo o que vê pela frente aqui no chão. E como o abrigo ainda não está pronto, todos saem feridos.

Diante da certeza de destruição - do tempo que avança sem perdão, com raios que nos assustam e iluminam nossos corpos ruindo abruptamente - as relações pessoais vão sendo dizimadas e o que vemos no horizonte é apenas fracasso e solidão.

É que o tempo passa enquanto temos medo.

Às vezes percebo a tempestade se aproximando quando estou com alguns de meus amigos. Somos um grupo que se conhece há mais de dez anos e esporadicamente inventamos alguma desculpa para fazer um churrasco, tomar cerveja e rir muito. Quem nos vê de longe, deve até admirar tanta cumplicidade. Mas nos últimos tempos comecei a prestar atenção nas nossas risadas e percebi que não há só alegria ali, pois juntos, compomos um riso já meio desafinado, com jeito de tristeza.

 Contamos várias vezes as nossas histórias do passado, tudo o que aprontamos na adolescência, os porres homéricos, as bagunças na igreja, etc. Todos riem muito, mas depois de um tempo atravessa-nos um silêncio que fingimos não ser desagradável (nesse momento percebemos que envelhecemos e que nesse hiato nos tornamos um poucos distantes uns dos outros. Talvez fosse melhor ter ficado em casa...), mas logo alguém emenda um outro causo, que alguém já contou no churrasco passado, e nós voltamos a rir e a beber demais.

Creio que a melhor coisa dessa amizade seja a possibilidade de se reunir a cada três ou quatro meses e poder se lembrar do quanto nos divertíamos antigamente, antes do trabalho e das contas a pagar. Percebo que a história é contada em conjunto, pois sempre alguém se lembra de um detalhe que passou batido, então vamos construindo nossa memória juntos. Mas aos poucos vamos nos dando conta de que já não construímos novas histórias. É apenas o passado que vai ficando mais e mais colorido, divertido, incoerente... Não queremos deixar as fotos amarelarem.

Estamos todos reunidos e quando estamos assim, em bando, o presente não parece ter tanta importância. Um amigo fez uma operação complicada, o pai do outro morreu, aquele trabalha num emprego ruim, logo ele que parecia que iria se dar tão bem, um casou e cursou uma graduação chata só para agradar aos pais, outro teve um filho, o casamento não vai bem, etc. Tudo isso parece não importar tanto, afinal, como você sabe, não é fácil, a vida é meio complicada mesmo e... Mas chega um momento em que percebemos que o fato de refugiarmo-nos no passado não nos liberta desse presente medíocre. Os e-mails diminuem, os telefonemas cessam. Nossas relações começam a desmoronar (ele era mais legal antes, agora ela tá todo metida, eu a deletei das redes sociais, não gosto do jeito dele, mudou muito, pra que beber tanto assim?, a namorada que ele arrumou é uma vaca...) e já nem sabemos ao certo por que ainda nos reunimos. Talvez seja por medo da tempestade que se aproxima.

 

Alguém assa a carne enquanto outro coloca a bebida no congelador, a maioria do pessoal se reúne em torna da mesa de truco. Colocaram um cd dos Los Hermanos para tocar e imediatamente lembranças boas começam a pipocar na minha mente. Todo mundo está sorrindo e ninguém repara nem na música nem no céu ficando cada vez mais cinza. Sentem-se seguros, pois estão sob um abrigo. Finjo que presto atenção na opinião absurda de um amigo a respeito de um filme sobre carros tunados, enquanto cantarolo mentalmente a música da banda carioca “posso ouvir o vento passar, assistir à onda bater, mas o estrago que faz a, vida é curta pra ver.”. Penso comigo, filhos da puta por que acabaram com a banda? Mas logo passo a pensar na semana difícil que se aproxima, nos boletos, nas aulas, nos textos para corrigir.... O amigo continua falando bem de um filme horrível e aparentemente não sou só eu que estou fingindo prestar atenção. A cerveja desce amarga, então atravesso o gramado em busca de alguma bebida destilada e um pouco de silêncio. O som vai diminuindo e no caminho, começa a ventar muito forte. Olho para trás e é como se estivesse com a TV ligada no mute:  vejo que todos estão bem, estão distraídos e parecem até se divertir. As vigas que sustentam o teto da área da churrasqueira são velhas e estão apodrecendo, mas ainda assim parece que vão resistir por mais algum tempo. Volto para ficar com eles antes que caiam os primeiros pingos. Torno a olhar para o céu já todo negro em busca de alguma resposta, mas ainda não sei se sairemos feridos.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h53
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