Geração F5

ou

De Quando o Capeta Inventou a Banda Larga


 

            Sempre que alguém reclama por vivermos na tal da “Era da Informação” onde tudo é muito rápido e efêmero (menos as filas de atendimento, ligações de telemarketing, discussão de relacionamento, pedra nos rins, etc), penso naquele velhinho barbudo dos desenhos animados que impunha uma placa com a frase “O Fim Está Próximo!”.

É mais ou menos assim: reclamamos dos avanços tecnológicos enquanto trocamos de canal na nossa televisão maior que a parede ou enquanto estamos no banheiro utilizando um moderno sistema de saneamento básico (olha só, tem até papel higiênico folha tripla com aroma de flores do campo!), porém não fazemos muita questão de voltar aos tempos de esgoto a céu aberto ou à falta de planejamento familiar gerada pela ausência de entretenimento, vulgo novelas.

            Compreendo tudo isso, mas peço agora a licença para exercer meu direito à contradição humana: vou pegar a placa do velhinho e ajudá-lo a divulgar a boa nova sobre o apocalipse.  É que a humanidade vai mal, meus caros.

            O ser vil que veio para destruir a pouca harmonia que havia entre nós chama-se: “Banda Larga”, uma criação do capeta (na verdade ele só fez um upgrade, a criação original, a internet discada foi desenvolvida por Deus, como todos sabem). Enfim, foi esse monstro imperioso que eliminou todo vestígio de paciência que havia na raça humana, fazendo que nossos frágeis espíritos ansiosos agora fiquem à beira de um colapso cada vez que a página do Google demora mais do que 3 segundos para abrir.

Ah, que saudade daquele som maravilhoso da conexão discada. Quem não ficava emocionando quando finalmente a linha estava desocupada? Aquela vontade de ir até a janela e gritar “Conectou, caralho!!”.

Naquele tempo é que éramos felizes. Prova disso é que interagíamos muito mais com os nossos familiares e até nos alimentávamos melhor, pois após cada clique era necessário dar uma passeio pela sala ou pela cozinha enquanto aguardávamos pacientemente as páginas serem carregadas. Tínhamos até uma vida social na qual era possível curtir o momento enquanto ele ainda estava acontecendo e não apenas depois de postar duzentas fotos no Facebook. Naquela época a gente saia de casa para fazer pesquisa, acredita? Íamos a uns prédios velhinhos, acho que se chamavam bibliotecas, e era lá que encontrávamos o precursor do Google, o bibliotecário. Era só falar as palavras chaves da pesquisa e em alguns minutos lá vinha ele com um livrão, a Barsa, da qual copiaríamos ipsis litteris aquele texto enorme numa folha de papel almaço e lá no meio ainda escreveríamos: “se o professor estiver realmente lendo esse trabalho marque um x aqui”.

            Mas eis que diabo inventou a Banda Larga e causou todo o desequilíbrio nas relações humanas, colocando tudo ao alcance de um clique e meio segundo. Tornando impossível concentrar-se em algo que não seja colorido, com vários links, ágil e editado de forma “jovem e moderna”. Pobres livros, tornaram-se objeto de decoração na casa de quem quer parecer inteligente ou apenas velho. Afinal, quem teria paciência de ficar ali parado olhando para aquele amontoado de letras desinteressantes? Às vezes não tem nem figura!! E as pessoas então? Se elas já eram lá aquelas coisas em termos de “nossa que interessante”, passaram a ser menos interessantes ainda, pois começaram a acreditar que aquela vida editada que elas postam nas redes sociais era verdadeira. Aquele pouco contato fingido, aquele quase nada, passou a bastar e então elas foram se distanciando.

No sétimo dia, quando o capeta completou a sua obra, colocando internet no celular, caímos em desgraça completa, pois tudo se tornou absolutamente urgente, principalmente as coisas desimportantes. Foi então que nos tornamos a ansiosa Geração F5, atualizando o e-mail a cada cinco minutos para saber se recebemos algo estúpido que precisa ser lido de imediato, pois, obviamente, aquela apresentação ridícula em .pps é um caso de vida ou morte. Sorte daquele que morre atropelado enquanto atravessa a rua distraído (estava tuitando), pois não terá que vivenciar o horror que o futuro nos reserva.

            Ergo a placa apocalíptica do velhinho com certo entusiasmo, mas vejo que as pessoas não param para ler. Tava na cara que isso aconteceria, afinal não tem nenhuma figura ali e é difícil convencer alguém de alguma coisa sem um vídeo de no máximo 2 minutos no youtube.

Desta forma, para esperar pelo fim, penso então em criar uma comunidade mística, cheia de chapados (ver: cogumelos alucinógenos) que vive no meio do mato e abdica da internet e das novas tecnologias (só do bluetooth que não, pois sem ele a vida nem seria possível). Um lugar calmo onde seja possível até pensar antes de tomar decisões. Mas aí eu penso no papel higiênico de folha tripla com aroma de flores do campo e desisto da ideia. É muita tecnologia gente!

Percebo que o fim está próximo, mas nem tanto, acho até que dá tempo de ver se chegou algum e-mail importante.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 23h46
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]





Meu perfil
BRASIL, Sul, Homem, de 26 a 35 anos, Livros, Cinema e vídeo


Histórico
    Votação
    Dê uma nota para meu blog


    Outros sites
    Jornal Rascunho
    Revista Cult
    Revista EntreLivros
    Quadrinhos - Malvados
    Provocações - TV Cultura
    Roda Viva
    Cinema - Omelete
    Cinema em Cena
    Los Hermanos
    Livros para Dowload - Domínio Público
    Macuco Blog
    Blog da Jaciele