Conto: Natureza Morta

 

Natureza Morta

            Desenhava peitos e bundas, isso foi bem lá no começo, antes das chamas e da porra toda.

Na escola um solitário, parece que todos são assim por escrito não são? Ele cumpria bem as funções de ser sozinho:  trabalho em dupla, posso só eu? Conversas desajeitadas com a guria que deu a entender que queria dar, mas depois na hora se arrependeu disse que melhor não, o melhor amigo perguntando cê é viado né? Calado enquanto a professorinha novata assassinava Machado de Assis na frente de 50 alunos. Flagrado lendo Lanterna Verde no banheiro dos meninos, lá na terceira porta olha só que retardado. A garrafa de vodca do pai pela metade na estante, o desmaio em cima do próprio vômito no banheiro, a mãe seu filho da puta quer se matar?

Começou a desenhar não para fugir, mas para chegar mais perto, uma forma de tocar o mundo sem se machucar. Só que não conseguia desenhar as pessoas inteiras, só as partes delas. Virou especialista em olhos. Mas também praticava peitos e bundas tendo as professoras como modelo, pois assim ganhava admiração. Ou porque às colegas da mesma idade faltavam curvas? O caso é que os quase-amigos rodeavam o Tilibra de dez matérias na hora do recreio: esse peitão aqui é da de ciências, certeza. Cara, cê desenhou o boga da diretora?

Admiração que virou inveja que virou caguetagem que virou escândalo que virou indignação que virou expulsão que virou surra que virou três meses de castigo.

Que virou todo o tempo do mundo para desenhar.

Da janela do quarto, a casinha de cachorro sem cachorro – é ele morreu, foi assim: os latidos chatos pra caralho, o vizinho, a carne moída, o vidro moído, a poça de sangue, o buraco no terreno baldio (chovia, tinha barro nos olhos), a janela do vizinho quebrada, as palmas no portão, não fui eu desgraçado! a discussão dos pais na rua, luzes de viaturas, ninguém toca mais no assunto – um pessegueiro, as roupas no varal e o tédio.  Passou a desenhar aquilo que não enxergava dali e assim foi criando todo o resto que a vida é quando não estamos olhando.

Cresceu e, claro, não virou desenhista, nenhum efeito profundo em decorrência da infância errante o tomou, não passou a desenhar colegas de trabalho peladas nem nada. No escritório, a papelada sobre a mesa era apenas um rascunho do passado num rabisco aqui outro ali, mil olhos a observá-lo, mas tudo desenhado de forma aleatória enquanto conversas de telefone.

Continuou sozinho. Agora tinha um X-Box, uma estante enferrujada com meia dúzia de livros ruins, um gato e uma geladeira explodindo de tanta cerveja. As vodcas que eram a herança do pai morto – é, ele morreu, foi assim: o casamento do primo no interior, a mãe falando pare de beber velho filho da puta, o carro, a madrugada, a pista simples, a curva, as luzes engolidas pelo acostamento, o de sempre - continuaram pela metade na estante.

A cada 45 dias, palestra motivacional na empresa. O homem com o microfone, camisa suada azul gravata vermelha gel no cabelo, falava rápido e de forma emocionante faça o que você gosta se conecte com o mundo acredite siga em frente não desista foco força fé. Ele percebeu que aquilo ali era importante, inclusive comprou o livro autografado do homem do microfone e leu tudo no banheiro da empresa, durou quatorze cagadas.

Num sábado ou num domingo, tirou o velho caderno da gaveta, ainda com peitos e bundas das professoras, achou alguns tocos de Faber Castell e decidiu não desistir. Foi ao parque, sentou num banco podre pintado de verde e desenhou os olhos das pessoas: do casal ele velho ela meio putinha interesseira, do pai solteiro filho no carrinho brincando com um maço de cigarros sabor câncer de menta, das três amiguinhas de doze anos parece que uma está grávida, ou duas?

Assim ele tocava o mundo sem se sujar, era bom. Pareciam seres inanimados porque tristes, os olhos contavam histórias ruins. Mas frustrava-se por não conseguir o grande desenho, aquele que mudaria tudo ou pelo menos daria algum sentido pra essa porra toda.

A noite já arrastava o dia para trás das árvores feito um estuprador, melhor ir indo. O resto daquela vodca iria bem agora, mas o remédio. Foi quando ele viu o posto e teve a ideia que mudou tudo.

Gastou o vintão que tinha no bolso. O frentista colocou num saco plástico. Andou sem parar durante horas, a Havaianas deixando a marca preta de craca entre os dedos. Será que bebeu ou as sombras são tortas assim enquanto não existem de dia?

Parou por alguns instantes na esquina, a rua vazia, do outro lado a grande paisagem, o modelo perfeito, a realidade, a verdade, um ser humano inteiro. Uma ideia do caralho, finalmente. Sabia que estaria muito escuro e a iluminação não seria das melhores. Ele sabia, se preparou para isso. E pensou naquilo que estava prestes a fazer, antecipou mentalmente os contornos os ângulos os tons. Tinha talento foco força fé. Precisou ser muito rápido com o lápis, as chamas se espalharam de forma desordenada, ele só conseguiu ver os olhos. Mil olhos gritando pra lá e pra cá. Ele desenhou cada um deles com muito capricho.

Pendurou o desenho na parede do escritório e sempre que perguntam o que ele significa ele responde que são os olhos de Deus cuidando de todos nós, é a Sua forma de nos tocar sem se sujar.

Sobre as chamas e a porra toda foi assim: o saco com gasolina, a madrugada, a rua vazia, o ponto de ônibus, os mendigos.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 21h53
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