*Este conto foi escrito em 2006 e recebeu menção honrosa no Concurso de Contos Newton Sampaio

 

CASINHA DE CACHORRO


 

Sabe-se lá como ele conseguia se manter em pé ainda. Por minha mãe, já o havíamos matado há muito tempo e esse trabalho, segundo ela, deveria ser realizado por mim mesmo, o homem da casa, utilizando a velha enxada, que ficava nos fundos do quintal.

- Vai lá e dá uma cacetada na cabeça dele, bem forte que é pra matar logo e não sofrer muito. Se ele ficar agonizando bata com a parte afiada.

Provando a minha inabilidade em colaborar com a eutanásia de animais - sim, meu cachorro Lúque, com “q” e “u”, pois é um vira-lata muito curitibano, há um bom tempo deveria ter ido para o purgatório canino tendo em vista a quantidade de hospedeiros que faziam de seu corpo um cortiço de carrapatos e vermes – bati três vezes, todas elas emitiram um som surdo vindo do crânio do bicho. Quando abri os olhos para ver um cadáver e me tornar um assassino, lá estava ele cambaleando feito bêbado procurando sua casinha. Nem sangue saiu.

Ouvi minha mãe me chamar de incompetente enquanto a minha avó, lá do seu quarto cheirando a mijo resmungava qualquer coisa, guardei a réplica mal educada para mim e após fechar a porta logo me vi em frente ao espelho. Não era cara a de um matador de animais, havia ali somente o menino de cabelo despenteado de sempre. Mas minhas mãos doíam e eu sentia um profundo aperto no coração, pois acabara de lembrar do dia em que Lúque chegou aqui em casa, com aqueles olhos enormes e com o corpinho tão franzino, ele lambeu o meu lábio superior e isso não me provocou asco, ele era diferente, era um amigo.

Naquela época as coisas estavam um pouco difíceis lá em casa, minha avó contraíra uma doença, não sei o nome ao certo, mas é dessas de velho mesmo, e já não estava falando coisa com coisa, circulava pela casa durante a madrugada fazendo com que eu tivesse diversos pesadelos com ela entrando em meu quarto, tentando me estrangular.

Quando o Lúque começou a escarrar sangue após ter comido um bicho ruim, minha mão me propôs o sacrifício. Para mim seria muito triste liquidar com meu único amigo, relutei várias vezes, mas ela me olhava com um olhar de reprovação que me fazia sentir calafrios. Seus olhos sempre denunciavam a ação que ela esperava de mim, e neste caso, teria de dominar meus demônios para não chegar à loucura, pois o trabalho deveria ser feito.

Quase não saí do quarto durante os cinco dias seguintes, tapava os ouvidos para não ouvir os uivos do Lúque lá fora, agonizando, morrendo aos pouco com os ferimentos internos gerados pelas pancadas desferidas por mim. No sexto dia houve grande silêncio, parecia que o mundo havia sido desligado do lado de fora da minha veneziana. Aquilo tudo era o silêncio da morte, que fazia um barulho ensurdecedor dentro do meu peito.

Comecei a chorar quando ouvi minha mãe dizer:

-         Acho que essa praga não se levanta mais, que cheiro horrível.

Quando saí, vi meu amigo, estava estirado no pátio, coro e osso e muitas moscas ao redor. Na verdade ele já não estava mais ali. Senti um misto de horror e pena pelo animal tão desgraçado que agora estava com uma porção de formigas rodeando a sua boca, da qual saía um líquido negro um pouco pastoso. Minha mãe falou para eu ser mais homem e retirar aquela sujeira dali. Era para enterrá-lo bem longe.

Coloquei o cachorro em nosso carrinho de mão enferrujado e o levei para umas terras abandonadas. No meio do caminho, vendo as plantações de feijão que se estendiam longinquamente, observei que aquele lugar fora o mais distante que eu chegara na vida e isso me provocou muito medo. Cavei a terra dura durante vários minutos até conseguir uma cova razoavelmente funda, coloquei o Lúque lá dentro e o soterrei, enquanto jogava a terra em seu focinho pensei no quanto seria ruim ser enterrado vivo.

Voltei antes do anoitecer, minha mãe não disse nada. Minha avó gritava de dor e eu fui para o quarto. Não consegui dormir, nem naquela nem nas noites que se seguiram ao sepultamento do meu cachorro. A lembrança dos uivos doloridos dele se misturava com os gritos de minha avó e embalavam a trilha sonora de meus pesadelos.

Algumas semanas depois, levantei cedo e dei com minha mãe fumando na cozinha, eu ia saindo de mansinho quando ela me chamou:

-         Olha aqui, vou falar só uma vez, não quero me desgastar novamente, isso é coisa para homem, você já é um homem.

-         Ok

-         Sua avó... A doença dela já avançou para os outros órgãos, esse cheiro de merda que você está sentindo vem de lá.

-         Ela deve es...

-         Deixa-me terminar. Eu não quero ficar louca, eu não quero mais ouvir uivos, eu não agüento mais essa vida entendeu?

Constatei que minha mãe também ouvia aqueles sons.

Com olhar vidrado, apagou o cigarro com violência e me deixou sozinho. Fiquei ali sentado durante um longo tempo, tentava lembrar os olhos enormes do Lúque, mas não dava mais, só me vinha à mente o seu focinho cheio da terra que eu joguei.

- Nem uma cruz eu coloquei lá para ele, mas sei lá se cachorro tem religião também. Falei baixinho para meu reflexo distorcido na mesa.

Entretanto, eu não poderia ficar ali para sempre, tinha de ser obediente, percebi o que queria dizer o olhar de minha mãe. Minhas mãos ainda doíam.

Fui para trás da casa e peguei a velha enxada.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 22h01
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Quase trinta


Com quase trinta você já teve tempo suficiente para achar o amor da sua vida e perdê-lo pelo menos umas três vezes.

Com quase trinta você já teve tantas desilusões que agora dá uma maneirada nas expectativas gerais.

Com quase trinta você vive menos, pois tenta maneirar as expectativas gerais.

Com quase trinta você se acha experiente e pensa “Ah se aos 18 eu tivesse a mentalidade de hoje”

Com quase trinta você comete tantos erros quanto um garoto de 18.

Com quase trinta você experimentou a vida adulta, não gostou e agora quer de volta o dinheiro do ingresso, mas parece que a bilheteria está fechada.

Com quase trinta você juntou dinheiro para bancar quase tudo aquilo que queria aos 15, mas não podia comprar. Então às vezes você percebe que não passa de um menino de 15 anos com uma mesada um pouco maior.

Com quase trinta você já quase não faz novas amizades, mas manteve aqueles amigos que são tão importantes quanto a sua própria família.

Com quase trinta você não alcançou todos seus objetivos, provavelmente porque você já nem sabe quais eram esses objetivos.

Com quase trinta você fica com medo de reler Sartre e acabar se encontrando nas páginas de A Idade da Razão.

Com quase trinta você olha para os anos anteriores com uma saudade imensa de tudo o que não aconteceu nem acontecerá.

Com quase trinta você percebe que as coisas não deram muito certo, mas que ok, o céu fica até bonito assim meio cinza.

Com quase trinta você percebe que algumas coisas são definitivas. E “definitivo” é uma palavra que possui um peso difícil de ser carregado.

Com quase trinta você é ingênuo a ponto de achar que sabe tudo sobre a vida.

Com quase trinta você ri de si mesmo para disfarçar o medo e a solidão.

Com quase 30 você já não tem a vida inteira pela frente, mas a parte que falta é tão imensa e obscura que lhe assusta.

Com quase trinta você quer aproveitar o tempo que falta. E o tempo que falta podem ser as próximas décadas, como também os próximos 5 minutos.

O tempo que falta.

A falta.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h54
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