Barba Ensopada de Groselha


 

O tão comentado novo romance de Daniel Galera “não é” algumas coisas:

 

- Não é um livro Pulp como o título sugere (inclusive, há pouquíssima violência)

- Não é o mais importante romance brasileiro dos últimos anos

- Não é o melhor trabalho do Galera

 

Dito isso, podemos dizer o que ele é:

 

- É um puta de um livro bem escrito que dá gosto de ler.

 

Todo o hype que envolve esse romance (4 páginas na Revista Piauí, 3 opções de capa, lançamento em outros países, venda de direitos autorais para adaptação cinematográfica, elogios do Ricardo Piglia e do Gonçalo M. Tavares na contracapa, etc) acaba gerando uma expectativa praticamente impossível de ser atingida. Não caia nessa, meu amigo, o livro é legal, mas não necessariamente melhor coisa que você leu esse ano.

O romance sobre o homem que, após o suicídio do pai, resolve ir para uma cidade litorânea investigar o tumultuado passado do avô que supostamente foi assassinado numa festa, é mesmo ambicioso, afinal não é qualquer um que lança um livro de 400 e tantas páginas em tempos de 140 caracteres do twitter.

Sobre a narrativa, percebe-se uma intenção muito clara de traçar um painel extremamente realista de Garopaba, cidade catarinense onde se passa a história. O Autor morou lá durante um ano, assim como o protagonista, então dê-lhe descrições de pessoas e lugares... É possível que o leitor se sinta incomodado com o grande volume de descrições minuciosas (alguns críticos desceram a lenha na obra por causa disso), mas vejo que a própria condição do personagem principal, que sofre de uma doença neurológica que o impede reconhecer os rostos das pessoas, inclusive o próprio, assim que desvia o olhar, justifica a necessidade de detalhar tudo ao redor.

Esse recurso narrativo, que em diversos momentos faz lembrar Cormac McCarthy em A Estrada, por exemplo, não é uma coisa que me incomoda tanto, até porque Daniel Galera consegue manter a fluidez do texto de maneira invejável (Ok, lá para o final, na parte da floresta, confesso que fiquei com vontade de pular algumas partes só de raiva de tanto nome de planta e bicho, mas logo percebi que queria fazer isso não por causa do excesso de informações, mas porque queria enfim saber a resolução dos mistérios. Eu estava simplesmente “preso” à leitura e não larguei mais até o fim (venci as 400 e poucas páginas em menos de uma semana, o que, para os meus padrões de lerdeza, é um recorde)).

                Além de McCarthy, podemos perceber a clara influência do americano David Foster Wallace, no uso das notas de rodapé como um recurso narrativo poderoso, aqui utilizado principalmente para dar espaço à oralidade. Aliás, é possível que os diálogos precisos sejam o ponto mais forte do texto de Daniel Galera, pois chega a impressionar a naturalidade e o realismo com que os personagens falam.

                Bonobo, personagem do melhor livro do escritor, “Mãos de cavalo”, surge aqui como um sujeito absolutamente cativante e responsável pelo alívio cômico da história. O trecho em que eles se conhecem e tomam algumas cervejas conseguiu me arrancar muitas gargalhadas.

                “Barba Ensopada de Sangue” tenta misturar, não sei se com muita eficiência, misticismo, crendices e memória, criando um painel de mistérios interessante. Sem que saibamos exatamente o porquê, há um forte clima de tensão entre os moradores do local, que se sentem incomodados com a presença do personagem. A sensação de que existem duas Garopabas, a cidade alegre cheia de turistas do verão e a cidade que faz as pessoas se deprimirem durante inverno, é explorada de maneira bastante eficiente por Galera. Ao longo da leitura fiquei extremamente curioso para saber o que diabos tinha acontecido naquele lugar nos anos em que o avô do personagem esteve por lá, porém, por mais haja uma segurança impressionante na estrutura narrativa, fiquei preocupado com as soluções pelas quais o autor poderia optar, afinal nada mais desagradável do que ler um final bosta de um livro que você acompanhou e curtiu por centenas de páginas.

O fato é que as tais soluções não agradam muito, mas também não decepcionam totalmente. Daniel Galera conseguiu encontrar um meio termo e entregou uma obra que obviamente não é o grande romance dessa geração, mas que confirma o seu nome entre os grandes autores brasileiros da atualidade.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 23h57
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