LULA E SARNEY NO PAÍS DE GLAUBER ROCHA

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No filme Terra em Transe (1967), marco do Cinema Novo, o cineasta Glauber Rocha conta a história de um poeta e jornalista que vive num miserável país imaginário, República de Eldorado, que está tomado pela corrupção. Insatisfeito com os políticos da situação, ele resolve apoiar e articular a ascensão da oposição ao governo. O desejo de mudança cai por terra quando o poeta finalmente percebe que, uma vez no poder, tanto a esquerda quanto a direita, acabam sucumbindo às imoralidades recorrentes no poder público.

É curioso como um filme dos anos sessenta ecoa de forma tão lancinante nos dias de hoje. Pois quando abrimos o jornal e nos deparamos com a notícia de que o presidente Lula, mesmo após tantos escândalos, apóia abertamente a permanência de seu ex-adversário político, José Sarney, no comando do senado, com objetivo de fortalecer sua base aliada, estamos diante da mesma frustração que sofreu o poeta do filme ao perceber suas utopias se diluírem e se transformarem em nada: E gora que não consigo acreditar em mais ninguém, para que lado eu vou?

 

 

Nesses tempos em que a notícia é tão rápida quanto os próprios fatos (às vezes até superando-os, como pateticamente ocorreu aqui em Curitiba no final do campeonato paranaense, quando o site do Atlético-Pr publicou entrevistas com os jogadores comentando a vitória do jogo que ainda não tinha nem acontecido), se faz necessária uma tomada de posição política. Se há tanta informação, não há escapatória, o sujeito é praticamente obrigado a defender alguma opinião (e essa “obrigação” me faz lembrar outro clássico do cinema, Dr. Jivago, também sobre um poeta, que vê o valor literário de sua obra ser questionado, ou até mesmo descartado, pelo fato de falar apenas sobre o amor e não defender interesses políticos).

 

 

O problema é que num país em que a educação é relegada a segundo plano, muitas vezes o sujeito não dá conta de abstrair ou mesmo de entender tudo o que está acontecendo. Mesmo que consiga isso, e depois, o que ele vai fazer com tanta informação? E em quem ele vai confiar o seu voto quando já não restar praticamente ninguém imune às denúncias? A saída mais fácil (ou covarde, ou burra), talvez fosse se conformar e reproduzir o lugar-comum afirmando que todo político é ladrão e pronto. Ok, que seja, mas vale lembrar que antes de ocuparem cargos políticos, todos eles, sem exceção, são também cidadãos comuns, vieram do nosso meio, são frutos da sociedade da qual fazemos parte e não de uma galáxia distante. Seria de uma hipocrisia enorme afirmar que apenas os políticos são amorais e que só eles não perdem uma oportunidade de se dar bem, sempre arrumando um jeitinho para tudo. É importante não esquecer que os políticos ocupam os cargos, eles não são os cargos, por isso mesmo é que somos uma democracia, pois garantimos a rotatividade dessa dança das cadeiras através do voto.

 

 

Há uma cena emblemática de Terra em Transe, em que Glauber elabora uma alegoria perturbadora daquilo que talvez fosse um dos efeitos do populismo. Na cena, se me lembro bem, dezenas de populares vão às ruas para reclamar da miséria nas cidades e da corrupção do atual presidente (e eles nem desconfiam que o candidato que estão apoiando, e que promete pão e circo, é tão ou mais corrupto que aquele que está no poder), então nesse momento um repórter fala direto para câmera algo como “Estamos aqui diante da população que está indignada com tanta roubalheira. Eles clamam por justiça e querem que a sua voz seja ouvida”, o repórter então se aproxima de um dos populares que está esbravejando e diz “eles querem tanto ser ouvidos, a voz do povo é a voz de Deus, então vamos lá: Fala povo!”, então a câmera fecha num close do rosto do sujeito pobre e desdentado, e em vez  argumentar ele simplesmente se cala, envergonhado, não sabe o que dizer...

Naqueles doloridos segundos de silêncio posteriores ao “Fala povo!”, frutos da genialidade de Glauber, estão contidos um sem fim de signos que representam séculos e mais séculos de injustiças sociais e de decepções políticas sofridas pela população de Eldorado, ou do Brasil, tanto faz, já que tudo é uma grande invenção.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h07
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EU TWITTO, TU TWITTAS

Rapidez ou preguiça de pensar?

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Quando criei o Devaneios do Cotidiano em 2004 (orra, 05 anos de idade já!), os Blogs eram uma febre. Eles surgiram como uma ferramenta moderna que funcionava como diário virtual e também como um ágil veículo de comunicação/informação. O que proporcionou o livre debate de idéias, muita diversão, porcarias, oportunidades para novos escritores e também a propagação de asneiras, já que não há quem regule ou controle tudo o que é escrito por aí (ainda bem!).

Hoje o Blog já tem cheiro de mofo, é coisa do passado. A nova moda é o Twitter, uma espécie de mini-blog que limita o tamanho de cada post a 140 caracteres (mais ou menos 1 linha e meia, em tamanho 12). O que parecia rápido e instantâneo no blog, foi potencializado com essa nova ferramenta.

A tentativa, me parece, é de “eliminar a gordura” e escrever apenas o que “interessa” e, se possível, em tempo real. É lógico que a ferramenta abre espaço para um monte de bobagens, pois tem cara que cria um twitter para contar que acabou de escovar os dentes, espremer o berne do cachorro, comer batata-frita com sorvete, etc. Enfim, a rapidez pode ser também parente próxima da preguiça de pensar.

Mas há, é claro, aspectos interessantíssimos, que me chamaram a atenção e me fizeram entrar nesse novo mundinho cibernético. Por exemplo, com a proibição da entrada de jornalistas no Irã, os moradores que estão enfrentando a crise política por lá descrevem a situação com detalhes que câmera nenhuma poderia captar. Leia esse trecho de uma matéria publicada na Gazeta do povo:

 

     “(...) Por volta das 15h30 da terça-feira passada (hora de Teerã), um estudante iraniano com o nickname Fair_vote_Iran escreveu a seguinte mensagem na sua página no Twitter: “Basij [a força paramilitar do governo] está atrás de nós. Dormi na rua noite passada. A maior parte da cidade está sem luz”. Momentos depois ele acrescentou: “5 mortos no dormitório feminino”. Depois, “Asad está morto & não sei onde está Mohsen. nos perdemos na multidão ontem”(...)”

           

            Além disso, a necessidade de “enquadrar” o discurso numa moldura com espaço delimitado possibilita o exercício dificílimo da concisão. Quem trabalha com texto, sabe o quanto é complicado (e necessário) cortar, substituir, reescrever, diminuir, eliminar, para que o discurso não vire uma “encheção de lingüiça” ou mera repetição de ideias. 

            Enfim, ainda não aprendi a mexer com esse negócio direito (e o fato de as ferramentas serem em inglês não facilita muito a minha vida), mas já estou twittando no endereço www.twitter.com/ederalex. Quanto ao conteúdo, vou seguir um padrão parecido com o daqui do blog (que permanecerá funcionando normalmente). A ideia é publicar diariamente rápidas observações sobre cinema/literatura. Também vou (tentar) elaborar alguns micro-contos, pois me parece um desafio interessante criar histórias utilizando apenas uma ou duas linhas.

            Para quem quiser conferir:

 

www.twitter.com/ederalex



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h25
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antes fosse fuligem

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que ônibus fosse metrô

para fazer deslizar tristeza

apenas pelos subterrâneos.

expomos o ridículo da vida

quando andamos em plural.

 

doloroso ver o mundo parado por dentro

e o restante, a parte que talvez importe,

com cheiro e sabor,

girando pelo lado de fora.

vontade de não ser assim,

de não estar aqui, em mim.

um movimento que ensaia,

se insinua mesmo que ressabiado,

mas que não me salva

nem se ausenta.

aperto o campainha, mas não

sei se quero descer.

 

no quarto, antes de dormir,

folheio meus livros

com fome, com sede, repleto

de desespero: procuro um poema

que amorteça a queda,

que minta para mim

e que sutilmente

apodreça em versos

esse gosto azedo

que enfeita o dia

já estragado de repetições religiosas:

não acreditarás;

não encontrarás sentido;

não negarás a inclinação

de querer sempre desistir

de insistir (eco estúpido).

 

procuro uma entrelinha que

eleve o pensamento

e lave-me de deslumbre.

disperse palavra pelo ar

e dispare contra o vidro.

deixe sua marca,

mancha ou maravilha,

feito o fosco da fuligem

que pinta o vento de preto,

para que ele não passe rápido

ou despercebido a esses olhos

já cansados de repetição.

 

a paisagem passa. a dor não.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h22
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CINEMA: DUPLICIDADE

HOLLYWOOD, MAS COM CÉREBRO

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O mundo das grandes corporações é tão competitivo que mais parece uma guerra. Aliás, muitos executivos, após devorarem os “evangelhos” de “São” Sun Tzu e “São” Maquiavel na faculdade, encaram o trabalho como sendo um campo de batalha, onde é necessária boa estratégia para eliminar, moer, trucidar, esganar, fazer picadinho, pular e cuspir em cima do inimigo (também conhecido como concorrente) e de preferência deixá-lo na miséria, para enfim se obter sucesso.

Em tempos de crise, podemos elevar essa elegante disputa à enésima potência, algo que é muito bem retratado já nos ótimos primeiros minutos de Duplicidade, quando dois executivos engravatados se pegam no tapa em câmera lenta.

            Esse divertido e inteligente filme faz piada do aspecto ridículo dessa ânsia doentia pelo sucesso financeiro. A graça está toda no absurdo da situação e em como os personagens levam aquilo tudo tão a sério (o diálogo sobre a pizza, por exemplo). E tal como fizeram os irmãos Coen, em Queime depois de ler, o roteirista e diretor Tony Gilroy (do excelente Conduta de Risco, com George Clooney), ainda injeta outro elemento: o filme de espionagem. A mistura sai praticamente perfeita.

 

 

            Clive Owen e Julia Roberts repetem o par romântico de Closer e demonstram mais uma vez que mandam muito bem (ok, com duplo sentido se você quiser, em homenagem ao nome do filme) quando estão juntos em cena. Os dois são ex-agentes do governo, contratados por grandes empresas para espionar as atividades da concorrência, a fim de identificar o segredo de um suposto novo produto que será lançado no mercado. Trabalhando em lados opostos e de posse de informações privilegiadas, os dois percebem essa como sendo a grande oportunidade de faturar uma bolada.

O excepcional roteiro não esclarece tudo de uma vez e a construção dos protagonistas é toda feita através de flashbacks. A única coisa que sabemos com certeza é que, nesse jogo de espelhos, tudo pode ser interpretado de duas formas e que ninguém é confiável (ninguém mesmo!).

As informações surgem desconectadas e talvez, precipitadamente, possamos pensar que há furos na narrativa, mas Gilroy não decepciona e amarra brilhantemente todas as pontas nos minutos finais (surpreendentes, é claro). Desta forma, Duplicidade é um filme que exige certa atenção, para que você depois não fique boiando, mas discordo que seja um filme “difícil” como afirmaram alguns críticos, até porque sua proposta é muito mais divertir do que levantar hipóteses filosóficas.

Até dá pra dizer que Duplicidade se parece com Sr. e Sra Smith, como querem alguns, mas a grande diferença é que no primeiro é necessário raciocinar para achar algo engraçado, e isso faz toda a diferença.

 

 

Nota: 9,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h58
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WOLVERINE E EXTERMINADOR DO FUTURO

OU

 COMO TORRAR MILHÕES DE DÓLARES COM FILMES IDIOTAS

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Para evitar futuras reclamações, aviso já aqui no primeiro parágrafo que nesse texto eu vou comentar o final desses dois filmes (então leia por sua conta e risco ok?).

Há dois filões bastante evidentes no atual cinemão americano: as adaptações de quadrinhos e as continuações de filmes que tiveram boa bilheteria. Reflexo óbvio da falta de criatividade dos roteiristas, esse tipo de trabalho é também a prova de que o cinema é encarado pelos grandes produtores, muito mais como um veículo mercadológico/publicitário do que como arte propriamente dita (e quem vai condenar os caras por quererem ganhar dinheiro? Se o público se dispõe a pagar quinze reais para ver uma porcaria dessas (e cá estou eu me incluindo nessa vergonha) por que não repetir a fórmula mais e mais vezes? Dizem que a qualidade do filme é compatível com a qualidade da platéia, eu não duvido...).

 No hilário Trovão Tropical (lançado recentemente em DVD) o personagem de Ben Stiller estrela um filme de ação ridículo chamado Lança-Chamas, que possui uma, duas, três, quatro continuações praticamente idênticas!! O engraçado é que os falsos trailers dos filmes mostram as mesmas cenas alterando apenas o cenário, uma é na neve, a outra é num vulcão e assim por diante. Pois bem, aquilo era pra ser uma crítica ou apenas uma piada sobre a falta de originalidade, mas parece que teve gente que levou a sério.

Prova disso é esse dispensável Exterminador do Futuro: A salvação, a quarta parte da franquia (aliás, essa palavra “franquia” lembra algo do tipo Mac Donalds, nem parece que estou falando de um filme) iniciada por James “Titanic” Cameron e com o musculoso governador da Califórnia no papel-título.  Agora a direção mudou para as mãos do desconhecido McG (sim, esse é o nome dele por extenso) e as cenas de ação são estreladas pelo Batman, digo, por Christian Bale, no papel de Jhon Connor (o piazinho rebelde do segundo filme) que agora cresceu e não quer mais largar sua metralhadora.

O roteiro é cheio de furos e atropelos (o lema é: não reflita, exploda!). Lógico que um filme não precisa cobrir todas as lacunas, até porque é interessante deixar o espectador raciocinar um pouco. O problema é que somos apresentados a um personagem tido como um tipo de messias, diante do qual todos são subservientes, mas não temos a mínima idéia de como ele conseguiu esse status de Jesus. Dá para imaginar os produtores planejando o roteiro: não, não vamos perder tempo desenvolvendo os personagens, isso não é necessário visto que eles vão morrer na próxima explosão.

E o filme é isso mesmo, mais parece uma festa de São João, um amontoado de pirotecnias (todos os cenários, sem exceções são destruídos ao longo do filme) amarradas por uma seqüência vergonhosa de clichês. Vejamos alguns exemplos: mocinho caça o bandido; mocinho tem a oportunidade de matar o bandido, mas resolve não fazê-lo, pois é bonzinho; depois o mocinho se vê em apuros e é salvo por quem? Isso mesmo, pelo bandido; logicamente  os dois criam laços que não serão bem vistos pelos demais personagens até que se prove que o bandido não é tão bandido assim.

Mas o pior foi deixado para final. Após uma cena absurda em que Jhon Connor é atravessado por uma barra de ferro bem no meio do peito e sai apenas mancando!? Temos que ouvir o bandido que não é mais bandido repetir o chavão “todo mundo merece uma segunda chance” e então se submete a um absurdo transplante de coração seguido de uma música triste no fundo, com narração em off: “O que torna o homem um ser diferente das máquinas é o seu coração”. Pelamordedeus!!

X-Men Origens: Wolverine consegue ser menos ruim, mas isso não significa que exista uma luz no fim do túnel, pois há menos explosões e menos frases de efeito, contudo há também menos preocupação com a inteligência do espectador.

A sequência inicial, na qual acompanhamos a passagem de tempo através de sucessivas imagens de guerras, num primoroso trabalho de arte, é a melhor parte do filme. Depois disso o longa segue ladeira abaixo no piloto automático dos grandes Blockbusters, cheio de cenas de ação desnecessárias: a invasão da fábrica é até divertida, mas é completamente absurda e destoa do tom mais verossímil dos filmes anteriores. A perseguição de moto não fica devendo em nada para a cena semelhante do esdrúxulo Triplo-X. Enfim, praticamente todas as cenas de luta estão deslocadas do roteiro, ou seja, estão lá só para deixar o filme mais “movimentado” (alguém saberia me dizer por que Wolverine e Gambit se arrebentam na pancada antes mesmo de trocarem uma ou duas palavras?). E o recurso se repete no decorrer da história, primeiro os personagens se estapeiam, depois ficam amiguinhos, numa possível referência involuntária ao sado masoquismo.

Há também a historinha de amor, com direito àquelas sequências típicas em que a amada morre (mas não morre, é claro), então o amado se ajoelha sobre o corpo e depois ergue os braços para céu gritando Nãaaaaaooooo! (e o pior é que isso ocorre mais de uma vez, só que sem gritinho...).

Enfim, X-Men Origens: Wolverine é mais do mesmo, não passa de retalhos de ideias requentadas que pouco ou nada acrescentam à vida de quem assiste.

 

Nota:

X-Men Origens: Wolverine - 6,0

Exterminador do Futuro: A salvação - 5,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h23
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Cinema: Dúvida

DÚVIDA

 

 

Nem sempre o Oscar é o parâmetro mais adequado para identificar os melhores trabalhos já realizados (o prêmio de melhor filme desse ano, por exemplo, me parece um tanto questionável). Além do mais, quem já se aventurou por entre os filmes produzidos na Europa, na Ásia e até mesmo aqui na América do Sul, sabe que o que há de melhor na sétima arte definitivamente não está na terra dos ianques. Contudo, tenho que admitir que a academia americana foi muito feliz ao indicar ao Oscar as atuações de praticamente todo o elenco principal de Dúvida (quatro ao todo).

            Esse elenco é encabeçado por Philip Seymour Hoffman (vencedor do Oscar de melhor ator por Capote) e que é, para mim, o melhor ator da atualidade (se você ainda tiver alguma dúvida disso, mesmo depois de ver Capote e Dúvida, assista então ao inquietante Antes que o diabo saiba que você está morto e ao depressivo Com Amor, Liza) e pela sempre genial Meryl Streep, preciso apresentá-la?  

            A história (adaptação de uma peça teatral) se passa em 1964 e toca num tema caro à igreja católica na atualidade: a pedofilia. Embora o diretor John Patrick Shanley procure preencher algumas nuances com metáforas (algumas até um pouco óbvias, como a das penas do travesseiro, que já foi até tema de um livro infantil da Madonna !?) e também exagere em alguns maneirismos (por que diabos, em algumas cenas, ele utiliza a câmera inclinada? Para fugir do clássico e ficar mais moderninho? Mais profundo?), afim, apensar disso tudo, são os atores, suas falas e suas expressões espetaculares que dominam toda a película, ou seja,  quem assistir a esse filme na versão dublada, merecerá o fogo do inferno cinematográfico!

            Os questionamentos são muito bem elaborados (o diretor acerta ao não tomar partido de nenhum dos lados e por “esconder” alguns detalhes, deixando a cargo do espectador a opção de fazer qualquer julgamento), desta forma a trama se desenvolve por camadas, sem atropelos ou exageros. É praticamente um estudo sobre a noção do que é a certeza. Até que ponto “ter certeza” é sinônimo de “saber a verdade”? A certeza é plural, cada um tem a sua, já a verdade...

            Sinceramente não saberia precisar qual é a melhor cena. Se é a longa discussão na sala da Irmã Beauvier, em que o padre Flynn se vê acuado (mas sem deixar transparecer se de fato esconde algum segredo) e o toque do telefone eleva a tensão a um nível insuportável, ou se é quando aparece a personagem de Viola Daves, que também recebeu a indicação ao Oscar de coadjuvante. Mas atenção para um detalhe: a atriz fica menos de dez minutos em cena!  Parece pouco tempo, mas ela e Streep conseguem transformar um “simples” diálogo em uma cena memorável. Menção honrosa também para todas as cenas em que surge a personagem Irmã James (Amy Adams), a ternura e a bondade que ele transmite através do olhar é contagiante.

            Mesmo pendendo um pouco para o teatro, Dúvida é um filme que merece ser aplaudido em pé.

 

Nota: 9,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h17
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SUA RESPOSTA VALE UM FIO DE CABELO

 

Dizer que o Brasil é um país de contrastes não passa de um lugar-comum, uma repetição de idéia pré-concebida, um chavão. No Rio de Janeiro (sim, um exemplo clichê, já que o objetivo aqui não é resvalar em alguma originalidade) favelas e prédios de luxo compõem o mesmo cartão-postal. Aqui em Curitiba os catadores de papel, com seus carrinhos despedaçados e cavalos esfomeados dividem espaço no trânsito com carros de luxo. Somos discrepantes até mesmo na questão climática, pois se num extremo do país sofremos com as chuvas, no outro sofremos com a seca, sendo que esta ordem pode ser invertida dependendo do humor maligno de São Pedro (os alagamentos recentes na região nordeste e as secas no sul só comprovam que o mundo está mesmo de cabeça para baixo).

Nessa última semana assisti a duas reportagens que esclarecem de maneira quase didática (ironia para evitar a palavra ‘cruel’, outro chavão) essa questão dos contrastes. A primeira é a respeito do cabelo do Pelé. Para quem ainda não sabe (aliás, não consigo imaginar com alguém poderia viver sem saber de uma notícia como essa) Edson Arantes do Nascimento resolveu cortar o cabelo e, sendo ele um Rei, considerou um desperdício simplesmente jogar seus preciosos toquinhos de madeixas no lixo. Que fazer então? Simples: transformar os fios de cabelo em diamante! Yes, fazendo uso da nossa alta tecnologia e da Física super-desenvolvida isso é possível, só não me perguntem como e nem quanto isso vai custar.

A outra reportagem é sobre uma mãe que mora numa região remota do Pará. Sem saber que estava sendo filmada, ela aceitou aliciar a própria filha de dezessete anos por apenas quatro cervejas, repito, um programa com a jovem custaria 4 cervejas (algo em torno de dez reais, pois era da mais barata, a cerveja). Não bastasse isso, o repórter sugeriu comprar (literalmente) a menina, para levá-la embora e utilizá-la como prostituta em outras regiões. Após pensar um pouco a mãe aceitou fechar o negócio em R$ 500,00 (o dobro da renda mensal da maioria das famílias da região).

Não é necessário muito esforço para responder a seguinte questão: Quem vale mais? Uma adolescente miserável que mora num fim do mundo e se prostitui para sobreviver ou um fio de cabelo do melhor jogador do mundo? Bem, a resposta é tão óbvia que chega a ser mais um lugar-comum né?

 

Portel, um "lugar-comum" no Pará



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h12
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UM CICLISTA NA CANALETA

UM CICLISTA NA CANALETA

 

     Enquanto o sol ainda não fermentou a urina dos mendigos nos muros da Travessa da Lapa, Curitiba se esconde atrás das lãs e fica um pouco mais curitibana, assim sem muito papo, andando rápido que está frio. É que o calçadão da XV e o cruzamento das marechais não combinam muito com colarinhos arreganhados e sovacos amarelados. Já o mofo do casaco orna muito bem com a naftalina da blusa e tudo se mistura para toda a gente se gabar do clima que mais parece das zoropa. Até já nevou, sabia não? A criançada de nariz vermelho não sente os dedos e se diverte: olha só sai até fumacinha - pose de caubói da Mallboro. O friozinho que resgata a jaquetas jeans das putas ali na esquina com a Visconde (mas ai daquela que não exibir pelo menos a meia-arrastão) esparrama preguiça pela cidade toda. Uma vontade lazarenta de ficar em casa, debaixo das cobertas, vendo sessão da tarde, comendo Milhopã e tomando Nescau. Que nada: trabalhar ganhar a vida vagabundo! E ainda que uns vão de carro, não sofrem dentro do latão: se não abrir a janela você pega meningite, se abrir o povo te xinga, o melhor mesmo é tentar respirar pouco e ficar longe de quem está tossindo. Outros, como o cara ali do título, vão de bicicleta mesmo.  Arregaça a barra da calça para não sujar a canela de graxa, sobe o zíper da blusa até cobrir a boca e desce vazado a Sete de setembro a não sei quantos por hora, loco de rápido. Não sei o turno da puta, se chegou de manhã ou se amanheceu, mas foi ela quem gritou na hora da pancada. E eu comendo uma coxinha ali na esquina e o grito dela se juntou com o barulho da freada do ônibus e foi aquele auê no boteco e no tamanho do susto quase que saiu frango pelo nariz.  Corri lá na canaleta e só vi o sangueiro, se a bicicleta virou num oito imagine só o piá com o ficou. O povo quis se juntar para linchar o motorista, mas viram que ele estava chorando e então ficaram com dó e deixaram quieto. As roda passou tudo por cima da cabeça do moço, a senhora de óculos apontou meio sorrindo meio chorando. Uma menininha, mochila da Hello Kitty arrastando no chão, puxou meu braço e perguntou: tio, quantas rodas tem num biarticulado?



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h26
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SOBRE BONDADE E RESPEITO

          O Visitante é um filme simples, mas tão envolvente que faz você sair do cinema com o coração pesado e com o velho sentimento de “a vida é uma merda mesmo!”. Os personagens são cativantes, Richard Jenkins, indicado ao Oscar de melhor ator, está perfeito no papel do professor que já não vê muito sentido na vida após a morte de sua mulher (aliás, as tentativas do personagem de recriar a figura da esposa através da música é uma das coisas mais tristes que assisti recentemente) e que descobre uma forma diferente de encarar o mundo quando seu apartamento é “invadido” por imigrantes ilegais. O tema das diferenças raciais e políticas é tratado de maneira inteligente, praticamente uma voadora-com-os-dois-pés na cara da intolerância – é interessante também perceber como a imigração é assunto recorrente no cinema atual, pois, mais do que nunca (como diria o Faustão), a arte tem funcionado como uma tentativa de melhor compreender esse mundo “em crise” no qual vivemos.

           O Visitante foi uma das raras vezes em que me “vendi ao sistema” e de fato torci para que tudo acabasse bem: o mocinho com a mocinha, beijo ao pôr-do-sol, música subindo... Mas que nada, o diretor Tom McCarthy não é nem um pouco adepto de “teorias” de auto-ajuda desses livros de supermercado, como O segredo ou os “pipoqueiros” de Cabul. Para ele, a vida não vai deixar de se uma bosta só porque você quer muito ou porque você tenta ser bonzinho para com o próximo. “A vida é dura” já dizia o narrador do Cheiro do Ralo, eu acrescento: e ela também não é justa.

          Nota: 9,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h56
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Cinema: CHE – O argentino

MAIS QUE UMA ESTAMPA DE CAMISA

 

A figura de Ernesto Guevara de La Serna, o Che, é talvez uma das mais populares e romantizadas do século passado. Alguns o veem como herói e outros como um assassino. Cabe dizer que é um ponto positivo deste filme de Steven Soderbergh, o fato de que ele contempla as várias faces do guerrilheiro sem o limitar a um estereótipo específico. Desta forma, temos tanto um sujeito extremamente altruísta, preocupado realmente com o bem estar das pessoas, inclusive com as que ele nem conhece, como também temos o líder irascível, quase um Roberto Justus de boné, que não poupa humilhações verbais a alguns de seus comandados e que, fazendo parte de uma guerra, logicamente também mata pessoas. 

 

Mas ao longo da projeção, fica tão evidente essa preocupação de Soderbergh em não criar polêmica, que o filme acaba sendo apenas correto, talvez um bom material didático para uma aula de História (e para aqueles que usam a famosa camiseta vermelha sem saber direito o que ela significa). E convenhamos que cinema é muito mais que isso, ou pelo menos deveria ser.

Está tudo lá, desde a chegada de Che (vivido brilhantemente por Benicio Del Toro) a Cuba, passando pelo antológico encontro com Fidel Castro e seu irmão Raúl, atual presidente da ilha (Rodrigo Santoro, competente como sempre), a organização da guerrilha em meio à selva, até chegar à batalha para derrubar Fulgencio Batista e finalmente a tomada de poder. A história é entrecortada por trechos em preto-e-branco granulado (muito bonito por sinal), que mostram momentos mais recentes, como o polêmico discurso de Che em Nova York, na Organização das Nações Unidas (pausa para uma reclamação às distribuidoras: Orra, legenda branca em cenas com fundo branco é uma palhaçada hein! Poderiam colocar pelo menos um contorno nas letras! Menos mal que o filme é em espanhol...).

Em Che – O argentino (lembrando que essa é só a primeira parte do filme, que ficou muito longo e teve que ser dividido em dois, a sequência, intitulada Che – A guerrilha, só chegará aqui lá pelo meio do ano) há momentos ótimos, como o final, por exemplo, e também o senso de humor dos personagens coadjuvantes, que são tratados de forma digna. Tecnicamente creio que não há muito que reclamar.

 Porém o roteiro peca, a meu ver, quando apresenta os militares de forma tão caricata. Lógico que não vou defender a ditadura (nem sou tão idiota para fazer isso), mas acho que independentemente do lado político em que o personagem está ele merece ser desenvolvido de maneira não-maniqueísta (já que o filme é tão comprometido com a realidade). Desta forma, quando vemos o general ou capitão, sei lá, após ser encurralado, trocando de roupa, colocando um chapéu e uma camisetinha daquelas de turistas (!) e se mandando da cidade, pode até soar engraçado, mas me parece um tanto desnecessário.

Em se tratando do diretor de Bubble (meu preferido) e Traffic (Oscar de melhor filme), eu sinceramente esperava mais. Resumindo, o filme não empolga, contudo é do tipo de obra que os cinéfilos e os interessados em História não podem deixar de ver.

 

Aguardamos a segunda parte.

 

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h45
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NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM MORTO

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Lendo Marina no ônibus, uma freada fez baralhar um verso noutro, perdi a página. Os passageiros amontoaram-se e grudaram as testas engorduradas nos vidros suados.

Imprecisões: um homem morto na BR, bota preta num pé e noutro vento gelado. Jornal de ontem cobrindo o rosto com manchetes em vermelho. Um troço ruim no estômago, sei lá de repente um parente da gente. O ônibus acelerou e o corpo passou paisagem.

Nem um pio no lado de dentro, só a sinfonia do motor e do vento que se estilhaçava contra as janelas. Olhares incomodados, vagando por detalhes e reflexos, quando se encontravam, tratavam de se esquivar.

Voltei pra Marina, pois livro é meu jeito de evitar as pessoas.

Resto do caminho, uma bobagem ou outra lá no banco de trás, mas ninguém achou graça. Afinal, não escapava o gosto inevitável de dia embolorado.

Quando cheguei e fiz que não vi nem ouvi viva alma na sala, rosto no travesseiro pra proteger de pesadelos, percebi que aquele vazio impregnado não era meu, nem era emprestado de um livro de poesias. O silêncio era daquele homem morto que agora caminhava em mim.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h52
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10 DICAS PARA FAZER UM FILME DE SUSPENSE BEM SUCEDIDO

 

 

   1º - Idéias originais são arriscadas, então aposte no que já é sucesso. Faça o seguinte: pegue um desconhecido filme de terror japonês ou coreano (esses caras são bem melhores nisso do que Hollywood), copie descaradamente o roteiro, depois substitua o casal de protagonista por dois legítimos americanos (de preferência loiros). Não é necessário nem mesmo mudar a locação, argumente que os personagens, que moram em São Francisco ou Nova York, foram promovidos e tiveram que se mudar para Tóquio ou Hong Kong a fim de trabalhar.

 

   2º - O cara é o único que trabalha, a mulher fica em casa sem fazer nada. Na primeira parte do filme é importante que ela aparente ser burra e ao mesmo tempo sensível. Uma ou duas cenas de nudez gratuita também são bem vindas (esse aspecto machista é extremamente necessário para desenvolver a “reviravolta” no roteiro, afinal é essa personagem que passará a ver as “coisas estranhas” acontecendo no meio do filme. Desta forma, ela deve começar como uma personagem frágil e fútil, e depois evoluir para uma mulher corajosa e ultraviolenta, quase uma Xena, que irá mandar o assassino ou o espírito mal para o inferno - ou para o céu, dependendo do ponto de vista).

 

 

   3º - Já no início mostre uma cena banal, mas que no fundo será a “chave” para solucionar o mistério que ainda nem começou. Coloque algum quadro bizarro no fundo da sala, algum tiozinho vesgo ou desdentado numa foto de família, um sujeito mal encarado cutucando o nariz na mesa de trás do restaurante, um bebê sem olhos engatinhando no teto, etc, qualquer coisa que passe despercebido no começo e que depois será mostrado com zoom e em câmera lenta. Isso tudo só para o espectador se achar burro “Nossa! Como eu não percebi isso antes?” e achar que você é um cineasta inteligente “Esse cara é f...”.

 

   4º - O novo lar do casal tem que ser um lugar sombrio e de preferência ter uma história horrível. Logicamente, é imprescindível que alguém tenha morrido ali a alguns anos, de maneira trágica, como um cara electrocutado enquanto fazia a barba, uma modelo que enfiou a cara no espelho, uma dona de casa que passou a camisa do marido com ele dentro, etc (pode contar isso já de cara ou ir revelando aos poucos, para parecer que você é um roteirista esperto).

 

 

   5º - As “coisas estranhas” começam a acontecer. A tendência de mercado atual é explorar o sobrenatural. Psicopatas que fogem do manicômio e resolvem matar a rainha do baile já não vende tanto quanto nos anos 80. Então é melhor trabalhar com o espírito do irmãozinho da menininha que ateou fogo nos pais dos vizinhos enquanto eles transavam, ou o espírito da menininha que matou a coleguinha da creche, pois foi enfeitiçada por uma boneca da Xuxa (como você já deve ter percebido, personagens infantis encapetados são mais recorrentes na pós-modernidade). A opção pelo sobrenatural (fantasminha + luzinhas + gelo seco) em detrimento do tradicional psicopata que mata “na raça” (doido + tesoura de cortar grama + groselha) é um recurso que visa ocultar falhas no roteiro. Ocorre o seguinte: se um crítico invejoso disser que há um “erro de continuidade” ou um “furo” na sua história, você pode argumentar que se trata do mundo sobrenatural e que, portanto, não há como seguir as regras de verossimilhança estabelecida pelos mortais.

 

   6º - Pois bem, já estamos no meio do filme, a mulher já está quase louca por ficar em casa sem ter o que fazer e ainda tendo que agüentar as provocações de um demônio infantil. É nesse momento que todos os personagens ficam mais inteligentes e se tornam detetives. A esposa e a manicure cega (não é necessário explicar por que essa personagem secundária apareceu no meio da história e nem por que ela é cega, isso não é importante, pois logo morrerá) que ela acabou de conheceu no cemitério (é sempre bom ter uma cena de enterro, seja lá de quem for, até de cachorro serve), resolvem ir à biblioteca da cidade (sempre há uma biblioteca, afinal todas as repostas estão lá) para investigar o caso paranormal. Vendo os jornais de cem anos atrás, descobrem que de fato houve uma morte horrível naquela casa: um gatinho engoliu sua própria dona, uma menininha de cinco anos, e depois a vomitou num pires. Desde então a alma dela ficou presa no pires e resolveu atormentar todos que ousaram colocar leite ali.

 

 

   7º - Estamos quase no final. Agora a personagem ex-burra-submissa descobre a trama diabólica e é lógico que também descobre que o marido estava envolvido num ritual satânico. Há vários anos ele participava de uma seita que adorava ao Pires da Menininha Vomitada no sul da África. OBS: Nesse momento é importante reapresentar várias cenas do início do filme (em preto-e-branco, para não confundir o espectador) que denunciam o comportamento bizarro do marido (ver item 2: Exemplo: quando era pequeno, ele não tinha olhos e engatinhava pelado pelo teto).

 

   8º - Clímax. Elas estão voltando para casa em alta velocidade, para tentar quebrar a maldição antes que seja tarde, mas no meio do caminho a manicure cega, tomada pelo espírito demoníaco se joga do carro em movimento e é atropelada por um carrinho de sorvete. Sangue para todo lado. A mulher quase não consegue conter as lágrimas, afinal acabou de perder uma grande amiga, mas segue adiante assim mesmo (distraída, ela não  lembra de ligar para o Siate). Fura todos os sinais vermelhos, atropela várias pessoas e finalmente consegue chegar. As luzes da casa estão piscando freneticamente. Quando abre a porta, o marido está flutuando no meio da sala com o pires amaldiçoado na mão. Ela vê então uma doze (a mesma arma utilizada pelo Capitão Nascimento) sobre a mesa, diz uma frase de efeito como “engole essa” ou “você vai virar fumaça”, dá um salto mortal em câmera lenta, apanha a arma e atira cinco vezes antes de cair no chão, de pé. Close no rosto do marido: sofrimento, dor. Ele morreu? Música de suspense. A câmera se afasta, na verdade o marido não foi atingido, mas sim o pires, o qual ficou todo despedaçado no chão. O casal se abraça, as luzes param de piscar e o gelo seco desaparece. Tudo ficou bem, eles estão felizes e agora podem voltar para os EUA, lugar onde essas coisas bizarras de países subdesenvolvidos não acontecem.

 

 

   9º - Música de amor. Cena do carro indo embora numa estrada completamente vazia em direção ao horizonte. Corte. Música de suspense. A câmera passeia freneticamente pela casa amaldiçoada, close nos cacos de pires no chão. Gelo seco. Os cacos começam a se mexer e aos poucos vão se unindo novamente. Um gato sem olhos aparece do nada e começa a lamber o pires vazio. The End.

(Sugestão de título: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA – Parte II: De olhos bem fechados)

 

   10º - Troque o casal de protagonistas por atores africanos, iraquianos ou latinos e faça várias sequências utilizando a mesma história só que em países diferentes. Sucesso garantido!

 

   De nada.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h14
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CINEMA: 3 MACACOS

PAPO DE SURDO E MUDO (E CEGO)

 

A famosa figura oriental dos três macacos (um não vê, outro não ouve e outro não fala) é utilizada como metáfora pelo diretor turco Nuri Bilge Ceylan - que levou para casa o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes no ano passado – para narrar o processo de degradação e incomunicabilidade de uma família.

A história começa quando um importante político dorme ao volante e atropela um desconhecido (Detalhe, nós não vemos a cena do acidente e nem vários outros momentos importantes ao longo do filme. Através dessas elipses, Ceylan nos priva de alguns detalhes o nos remete a um regime de colaboração com o roteiro, fica a cargo do espectador, imaginar as peças que estão faltando no quebra-cabeça, ou seja, não vá achando que esse é apenas mais um filme esquisitinho e triste, ele é, na verdade, difícil, angustiante, perturbador. Ah ok, e é triste sim, bem triste, diga-se de passagem).

Voltando ao filme. Preocupado com a repercussão negativa que um homicídio culposo pode causar à sua candidatura às eleições que se aproximam, o político liga no meio da noite para o seu motorista e lhe faz uma proposta: que ele assuma a culpa e vá preso em seu lugar (já que é “apenas” um motorista, ninguém irá desconfiar), em troca, receberá muito dinheiro quando for solto e nesse meio tempo de reclusão (“alguns meses, no máximo um ano”) sua família receberá uma ajuda financeira. Sem muitas perspectivas de futuro, o motorista aceita. A partir daí, a vida de todos eles tomará rumos inesperados.

 

 

O olhar do cineasta apresenta a Turquia através de uma fotografia acinzentada, sufocante, (as imagens foram capturadas com câmeras digitais, mas com uma textura pálida – o que normalmente é um problema nesse tipo de mídia, por causa dos tons brancos que acabam distorcendo ou “cegando” as cenas –, tão boa e bonita que até lembra a película em alguns momentos).

É um filme quase sem diálogos, o que faz com que o valor simbólico da imagem seja ainda mais valorizado. Por exemplo: é interessante perceber que ao lado da casa da família de protagonistas há uma linha de trem. Tanto o pai quanto a mãe, atravessam o túnel por baixo dos trilhos. Já o menino não, todas as vezes ele pula a grade de segurança e passa por cima da linha. De certa forma ele é o único a atravessá-la (não escolhe um desvio), assim como na narrativa, pois ele é único a quebrar o esquema dos três macacos, uma vez que, diante da tragédia que se anuncia, já não consegue fingir que não vê, não ouve e não fala.

Se esteticamente 3 macacos já é uma grande obra, o roteiro bem construído também colabora para que seja um filme acima da média. O desenvolvimento dos personagens é ótimo e empresta uma carga de realidade que impressiona, principalmente na questão da imprevisibilidade dos atos de cada um deles (aliás, o final também é do tipo “surpreendente”).

 

 

Nota: 8,5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h05
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SOB O SOL QUE ARDE

 

 

O céu poderia muito bem estar cinza naquele dia, como um acolchoado de nuvens escuras nos cobrindo e nos preservando da agressividade da luz - do mundo.  Mas não, estava um belo dia e um belo dia é o anúncio sínico de que uma tragédia vai acontecer.

Ela estava sentada próxima à janela quando deu a notícia. Aquele canto perto da janela era o seu lugar, o lugar-de-sempre, uma delimitação geográfica estabelecida por uma convenção desconhecida, maturidade conjugal quem sabe. Eu poderia sentar em qualquer cadeira, menos naquela. E como não tinha nenhum canto favorito, me contentava em caminhar em círculos pela cozinha enquanto falava.

Alguma frase foi interrompida pela metade, mas não lamentei muito, pois a conversa já havia se despedaçado há muito tempo. Olhos fixos e expressão séria - raiva ou resquícios de um amor apodrecido? Seu espírito era nebuloso, com ela, era sempre melhor não apostar no óbvio.

Se dizia que precisava conversar quando já estávamos conversando significava que algo muito ruim sairia de sua boca, algo que provavelmente determinaria um longo período de silêncio entre nós. Eu não saberia o que responder ou provavelmente responderia de forma imbecil - uma imbecilidade programada para feri-la: instinto de autodefesa, alguns diriam. Agredir ou ser estúpido para encurtar o assunto, preservar um pouco de bom senso e evitar o azedume; partir logo de uma vez para o uísque e para a insônia no sofá, o forro estalando na madrugada, a indecisão do dia seguinte, bom dia ou não?

As xícaras dispostas sobre a mesa, duas trincheiras.

Depois, olhando para o café e enxergando um abismo, diríamos que não era bem aquilo, que não pensamos antes de falar ou que pensamos demais antes de falar. Um toque gentil - no antebraço - enquanto colocássemos a louça na pia ou quando nos esbarrássemos no corredor e tudo voltaria a ser como antes.

Mas dessa vez errei os cálculos e a notícia me pegou realmente de surpresa - logo a mim, sujeito prevenido contra tudo e todos, que sempre acertei ao antecipar o que me diriam para então poder fingir indiferença ou algum tipo de segurança teatral. Falhei. Súbito, o chão faltando sob meus pés.

Enquanto ela choramingava fiquei pensando se de alguma forma eu poderia evitar que tudo aquilo - um “nós” já distante, fechando a tampa do bueiro - naufragasse daquele modo estúpido, mas parece que não se pode fazer nada quando algo ruim já está em trânsito. É como alertar um suicida, que já saltou de um prédio, a respeito da aspereza da calçada que se aproxima. Pura insensatez, li em algum lugar que o semáforo sempre está verde quando o caminho é para baixo.

Ela continuou então a falar, talvez para prolongar ainda mais aquele sofrimento, mas não a condeno por isso, afinal, nos ensinaram que as cicatrizes são troféus a serem exibidos na sala de estar. E além do mais, isso tudo que estou contando agora não seria um singelo enfeite de mau gosto para se colocar numa estante? Ela simplesmente viu o sinal verde e avançou, mas sem fechar os olhos, pois sabe que a ingenuidade, neste século, não é graça nem sedução, é burrice mesmo.

A ladeira ficou ainda mais íngreme. O sol arranhava o vidro e lançava luz sobre seus lábios como que para intensificar a nitidez amarga de cada palavra. E a palavra é voraz, exige outras para se sentir viva: respostas, decisões. Mas no momento eu só dispunha de silêncio e perplexidade.

Que tal pelo menos escolher um nome para ele? Questionou chorando. Que nome se dá para tudo aquilo que não sabemos explicar? Não respondi.

Enquanto ela revirou o guarda-roupa com violência, arrancou gavetas, arrumou as malas e bateu a porta eu permaneci imóvel e em silêncio, olhando para o teto e procurando significados nas manchas desenhadas por infiltrações antigas.

Não foi indiferença, foi só um suicida que saltou.

 

__

 

Ainda hoje procuro inventar um canto favorito nessa casa, mas não consigo. Sinto falta das convenções simples: a organização das escovas no armário do banheiro, o travesseiro preferido, o garfo com o cabo queimado, as garrafinhas com água na geladeira, os dvds em ordem alfabética, cinzas... Parece futilidade, eu sei, mas aquelas convenções estavam lá para colocar ordem nesse mundo trincado, prestes a se partir, um globo de vidro que tentamos inutilmente colar para que fique pelo menos um pouco parecido como o que era antes. Engraçado como mal nos damos conta de que essa tentativa é absurda e patética, ainda mais quando o passado é tão repugnante quanto o presente.

Em pé, na cozinha, contemplo a mesa vazia e o canto perto da janela - todo iluminado. Lá fora, um belo dia se insinua por entre as árvores e as roupas no varal da vizinha, ridículo: parece que a qualquer momento alguém baterá à porta querendo fazer um teste do sabão que lava mais branco! Amaldiçoo o sol e clamo por um dia cinzento. Mas não há nuvens, então não há lugar para um deus se sentar e me devolver alguma resposta em forma de trovoada.

Sento-me numa cadeira - não a dela - coloco um cigarro apagado na boca e fico alguns minutos olhando para o galão de gasolina em cima da pia. Apalpo os bolsos do jeans, onde coloquei o isqueiro?

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h28
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CAPTAIN! MY CAPTAIN!

O cinema costuma retratar a figura do professor como uma espécie de “messias”, que com sua personalidade carismática ou autoritária, consegue salvar e transformar a vida de todos os seus alunos. Nesse tipo de filme, o que não faltam são as mensagens edificantes e as lições de superação. É uma fórmula que até certo ponto funciona, afinal, quem não se emociona com a cena dos alunos subindo nas carteiras em “A sociedade dos poetas mortos”? Sim, é uma homenagem muito bonita, mas será que ela consegue representar o que de fato acontece na realidade das escolas públicas e privadas? Improvável.

O diretor Laurent Cantet, aposta numa visão mais realista deste tema. O cineasta resolveu contar a história de Entre os muros da escola - drama baseado na autobiografia Entre les Murs, do professor de língua francesa François Bégaudeau (que ainda interpreta o protagonista do longa) - de maneira quase documental: o elenco é todo formado por não-atores, desde os funcionários do colégio, os alunos até o próprio professor, Bégaudeau. Além de emprestar os nomes verdadeiros aos personagens, foram realizados vários ensaios com sugestões de alguns temas a serem discutidos, sempre de maneira livre para se aproximar da naturalidade. Posteriormente, em sala de aula, três câmeras foram posicionadas para captar todos os detalhes de uma aula “de verdade” numa 7ª série. O resultado é sufocante.

Espelho de uma Europa que ainda não aprendeu a lidar com as mudanças provocadas pelo elevado número de imigrantes em seu território, a turma retratada no filme é composta por alunos das mais diversas localidades: africanos, chineses, marroquinos, etc. As diferenças culturais, econômicas e linguísticas são enormes e formam barreiras que praticamente impossibilitam a comunicação e o respeito entre eles.

François é sujeito carismático, que domina muito bem o idioma e que aparenta gostar muito da posição de docente. Porém, esses atributos, ao contrário do que acontece no já citado “A Sociedade dos Poetas Mortos”, não lhe garantem um lugar no hall dos professores “que mudaram a vida dos alunos”. Ele é apenas mais um professor entre tantos outros. Ao explicar no quadro uma questão gramatical, ele utiliza o nome “Bill”, como sujeito de uma frase e logo é questionado pelos alunos: “Por que Bill? Tem que ser um nome americano? Por que você nunca utiliza um nome africano?”. E os questionamentos se sucedem, emprestando a idéia de que, se discutido afundo, aquele problema jamais teria fim. Afinal, se ele utilizasse como exemplo um nome africano, o que diria o aluno chinês? E o marroquino? E o americano? Fronçois procura se desdobrar para que sua aula seja produtiva para todos os alunos, mas não é necessário muito esforço para percebermos que isso é praticamente impossível.

“Entre os muros da escola” (vencedor da Palma de Ouro de melhor filme, no festival de Cannes de 2008) incomoda, pois não apresenta soluções fáceis e muito menos mensagens edificantes. É um filme sobre a decepção, sobre a frustração de não alcançar objetivos ou sonhos. Ao não apresentar nenhuma fórmula para amenizar tal realidade, o diretor Laurent Cantet, demonstra estar muito mais preocupado em levantar questões do que apenas respondê-las. Sugerir reflexão, muitas vezes, é mais importante do que simplesmente mostrar a caminho.

 

 

NOTA: 9,5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h57
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QUADRINHO TAMBÉM É COISA DE ADULTO

 

                Depois do último Batman, Watchman talvez seja a melhor transposição de um quadrinho (ou grafic novel) para o cinema. É possível que essa afirmação seja um tanto pretensiosa (principalmente se você levar em conta que eu nem mesmo li o gibi original), mas quando eu me deparei com aquele visual impressionante (sem os exageros de 300, filme do mesmo diretor, Zack Snyder) percebi que estava diante de uma bela obra de arte. Watchman, criado por Allan Moore, é um quadrinho adulto, a trama é um bocado complexa e os personagens são bastante ambíguos (é difícil saber quem é realmente do bem ou do mal, simplesmente não há uma divisão maniqueísta, o que é ótimo). A trama se passa nos anos 80 (mas num contexto fictício, lá, por exemplo, os EUA venceram todas as guerras, inclusive a do Vietnã), um grupo de pessoas resolveu colocar uniformes e combater o crime. Essa é a questão interessante, eles não possuem poderes especiais (com exceção do Dr. Manhattan, que sofreu um acidente nuclear), são pessoas reais, com problemas reais (sexuais, inclusive). Violento na medida e questionador quando tem que ser, Watchman só peca quando o diretor quer fazer gracinha (inexperiência?), e no meio do caminho larga algumas piadinhas muito sem graça. Mas isso é pouco perto da grandiosidade do filme. Recomendado para quem gosta e para quem não gosta de filmes de super-heróis.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 19h33
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A VIDA COMO ELA É

Ai, ai, férias têm lá as suas vantagens (pena que acabou). Uma delas é poder ir ao cinema no meio da tarde de uma quarta-feira, por exemplo. Numa dessas, consegui assistir Linha de Passe, do Walter Salles, filme que já tinha saído de cartaz, mas que voltou ao Cinemark na sessão Cult (sempre às 15h (?!), vamos e venhamos, que horário mais sem vergonha hein!! Só poderei ir novamente nas férias do ano que vem!!). Resultado: aquela sala enorme e aquela tela gigantesca só para mim e mais uns dois três ratos de cinema (praticamente o paraíso dos cinéfilos: nada de pipoca, conversas, chutes na poltrona, celulares, risadas fora de hora...).

Ok, vamos ao filme. O cinema nacional recente tem explorado bastante (em demasia?) a violência e a pobreza, tão recorrente no dia-a-dia, chegando a criar uma espécie de subgênero, o filme-de-favela (filmes que nada mais são do que meros filhotinhos do Cidade de Deus). Essa repetição acaba gerando (ou fazendo crer que há) certa falta de originalidade de nossos cineastas – a história do “sujeito que tinha tudo pra ser bonzinho e honesto, mas que foi vítima do “sistema” e acabou se tornando um bandido cruel” já está mais que batida. Linha de Passe (que entrou para lista dos melhores filmes da revista britânica Empire) foge à regra, mas em alguns momentos passa raspando.

O filme conta o drama de uma família pobre que vive em Cidade Líder (em São Paulo). São quatro filhos: O mais velho é um evangélico recém convertido, os amigos “das antigas” ainda tiram sarro da sua nova escolha (indicando que seu passado não foi lá muito cristão) e trabalha num posto de gasolina, onde é constantemente ofendido pelo seu chefe. Outro filho é moto-boy, ganha a vida fazendo pequenas entregas e se aventurando por entre caminhões e ônibus fumacentos. Os dois outros filhos possuem as histórias mais interessantes: Dario, vivido por Vinícius de Oliveira (aquele menininho do Central do Brasil, lembra?) é um jovem que acaba de completar 18 anos. Ele vê no futebol, através das “peneiras” (espécie de processo seletivo que visa descobrir talentos e encaminhá-los para clubes profissionais), a única chance de melhorar a sua vida e a da sua família. O problema é que ele já está ficando “velho” para iniciar uma carreira nos gramados, o tempo vai ficando cada vez mais curto e, de peneira em peneira, o horizonte já não aponta muita esperança. Já o filho mais novo, Reginaldo (o ótimo Kaique Jesus Santos), passa todos os seus dias andando de ônibus, na esperança de encontrar seu pai, que dizem ser um motorista.

A mãe, vivida por Sandra Corveloni (premiado no Festival de Cannes) está grávida mais uma vez, e novamente trata-se de um pai desconhecido. É curioso como essa personagem transborda ambigüidades: num momento é uma mãe carinhosa, em outro é agressiva, mas sempre que ela agride um filho, na verdade ela está reagindo ao medo, ao pavor de que seus filhos se “percam” em caminhos tortuosos. Outro fator a se observar, é que ela está grávida, mas isso não a impede de fumar e beber uma cervejinha no boteco; ela gosta da sua patroa, mas quando vê seu emprego ameaçado, se apressa em julgá-la de forma negativa. Temos então aqui um discurso bastante complexo, diferente do “coitadismo” que normalmente vemos quando os pobres são retratados no cinema: ela é boa ou ruim? Ou apenas desinformada, reflexo de suas condições precárias?

Linha de Passe é um filme pesado, não há soluções fáceis e nem mesmo redenção para os personagens. A vida segue inalterada: se estava tudo uma droga, continuará assim por muito e muito tempo, pois afinal, por que seria diferente? Quem disse que a vida é justa? A primeira cena do filme (que, aliás, é excelente!), quando vemos as mãos levantadas aos céus, tanto no jogo do Corinthians, quanto no culto evangélico, ilustra muito bem o caminho desses personagens. Eles estarão fadados a sempre pedir e implorar por uma vida melhor, mas as suas súplicas se perderão em meio ao grito da multidão e o fato de não perceberem (ou corajosamente não aceitarem) que simplesmente não há esperança, talvez seja a única força que tenham para seguir adiante.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h59
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E A VIDA VOLTA AO NORMAL

         Olá pessoa!

         Para (re)começar bem o ano, segue o link da publicação de um conto meu ("Horizonte") na edição desse mês da revista literária Maria Joaquina:

               Até mais.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h26
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FÉRIAS

Em março voltaremos com nossa programação normal.

Até.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h37
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CONTO: ESTIVE NO INFERNO E LEMBREI-ME DE VOCÊ

ESTIVE NO INFERNO E LEMBREI-ME DE VOCÊ

      A vida, essa que nós assistimos e pensamos que fazemos parte significativa, parece a obra de um titereiro sem talento. Sobram fios amarrados ao nosso corpo, os movimentos são irreais, a cortina tapa metade da visão e a pintura das marionetes está sempre descascada. Nosso espetáculo, aqui nesse teatro abandonado, é simplesmente um fiasco. A sensação é a de que Deus saiu para comprar cigarros e errou o caminho de volta, ou que talvez ele tenha encontrado Godot pelo caminho e os dois resolveram sair para sacanear algum vagabundo dormindo na rua. E a gente fica aqui, esperando, procurando o que fazer e tentando dar sentido a coisas que não têm sentido, enquanto eles não voltam.

    O pior é que o amor acha de aparecer bem nessas horas em que os dvd's da locadora já são todos repetidos e os livros na sua estante não inspiram releituras. A repetição dos dias contamina a paciência e a vontade de manter-se bêbado é maior do que o estômago pode agüentar. Pois bem, resolvi preencher esse vazio todo com você e essa sua bunda e essa sua pose de ninfa e essa sua cara de intelectual, mas como você sabe, eu também poderia ter preenchido esse vazio com uma pizza de calabresa e um pouco de ketchup.

    Quando me lembro de você batendo a porta, a primeira coisa que penso é "Por que ela não espremeu os dedos?". E então vou até lá, coloco meus dedos na quina e os esmago até a dor sugar toda irrealidade desse apartamento.

    Não pense que você foi assim tão importante. Na verdade, sem você, eu sigo sem adoecer. O mal sempre esteve aqui dentro. Sempre fui meio ansioso: mando e-mails para listas desconhecidas, aguardando um novo contato improvável, um sexo casual ou mesmo uma conversa sobre algum filme do Bergman; compro duas caixas de Skol e as tomo assistindo Sessão da Tarde; fumo charutos vagabundos e fico tossindo engasgado; tomo vários banhos para me livrar do cheiro dos charutos vagabundos; ouço minha própria tosse e espero um eco, uma resposta vinda de outro cômodo; ligo a tv e o rádio ao mesmo tempo para fingir que tem mais alguém em casa; escrevo uma porção de poesias para mandar para meus amigos esperando que eles me devolvam elogios e lustrem o meu ego; dou voltas na quadra buscando inspiração para uma história diferente, mas só consigo pensar em clichês ou no meu próprio umbigo.

    Como vê, não mudou muita coisa. Resta-me o café, companheiro que dilui algumas horas insuportáveis. O problema é que o café já não me basta como fé. Tenho pensado em comer a borda da caneca - a amarela, aquela mesma que você derrubou cem vezes. As rachaduras e a gordura na louça ainda evocam demônios e geografias dos teus descaminhos sujos aqui na minha vida; desculpe o vocabulário, minha mente anda, ou talvez pare, um tanto confusa -, creio que mascar um pouco de cerâmica talvez me devolva um pouco do gosto da tua pele.

    O fato é que não tenho mais estômago para essa sua cara amorfa, que finge interesse enquanto falo de literatura, quando na verdade você gostaria de estar no banheiro, vomitando ou lendo Caras. Aliás, me devolva o livro do Chico que eu te emprestei e você nem leu. Não, pensando bem não devolva nada, o seu retorno tem cheiro de ameaça. A ameaça de que tudo volte a ser como era antes: feliz. Essa felicidade burra que nos cega e nos impede de raciocinar, dois mais dois, fazendo com que nós acreditemos na fábula absurda da convivência possível.

    Depois fico procurando respostas, não sossego enquanto não sangro. O seu tédio sempre me pareceu falta de talento para a vida, mas agora, contaminado pela sua ausência, fico procurando em mim a nascente desse rio que já nasceu poluído.

    Gasto horas colocando defeitos em tudo o que faço, encenando nossas discussões, formulando frases que não tive coragem de falar, lamentando as oportunidades que perdi de te humilhar, depois relembro cada detalhe disso tudo e choro com pena de mim mesmo. E depois eu fico rindo. E depois eu fico triste. E depois eu fico bêbado. E quando a companhia toca, eu penso que é você, com seu rosto lindo e sua expressão de arrependida, uma expressão tão meiga que faria eu te perdoar. Mas quem sabe seja outra pessoa, talvez seja Deus, que achou o rumo de casa e veio me salvar de você. Não. É só o cara da pizza. Pago e recebo o troco, é assim que funciona. Vou voltar para frente da tv, acho que ainda sobraram algumas latinhas de cerveja quente. Acordo de madrugada com um gosto azedo na boca. Não lembro se vomitei. Talvez tenha sido apenas a lembrança de um beijo seu. Adormeço novamente pensando no fim de um espetáculo em que ninguém aplaude.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h50
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CINEMA: O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

 A POESIA SEGUNDO DAVID FINCHER

 

     David Fincher é o diretor de um dos filmes que está sempre presente na minha lista mutante de "melhores filmes da minha vida", trata-se de Clube da Luta, produção de 1999 com Brad Pitt e Edward Norton, vivendo dois personagens que considero fundamentais para entendermos a chamada pós-modernidade. O cineasta é também o responsável por dois outros marcos do cinema recente, Se7en - Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco (ambos os trabalhos, em especial o segundo, desenvolvem a temática de "filme policial" de maneira bastante singular, explorando as nuances psicológicas dos personagens e utilizando uma narrativa muito mais densa do que normalmente encontraríamos nesse gênero).

     E sabe qual é a semelhança entre os três filmes citados e O Curioso Caso de Benjamin Button, o seu mais novo trabalho? Praticamente nenhuma. Excetuando a presença de Pitt nos dois primeiros e neste último, aparentemente nada se repete na filmografia deste curioso diretor. O bacana é que ele não vê necessidade alguma de repetir uma fórmula apenas porque ela fez sucesso anteriormente (ai ai, bem que alguns diretores, como por exemplo o Daniel Filho (Se eu fosse você), poderiam aprender alguma coisinhas com ele).

     O que percebemos, ao analisarmos o conjunto da obra, é uma enorme preocupação, por parte do cineasta, em sempre tentar alcançar a perfeição artística (se você também for do tipo fanático, confira os extras do Dvd do filme Zodíaco, e veja até que ponto chega o perfeccionismo do diretor, que troca até mesmo árvores de lugar, para que uma cena fique exatamente como o planejado). Desta forma, creio que em O Curioso Caso de Benjamin Button, Fincher chegou lá.

    O filme conta a fantástica história (baseada em um conto de F. Scott Fitzgerald) de um bebê que nasceu velho e que com o passar dos anos foi rejuvenescendo. Esse absurdo relógio ao contrário desperta estranheza e também dramaticidade. É um tanto quanto esquisito ver um bebê com a cara do Brad Pitt e ainda por cima envelhecido (mérito da esplêndida maquiagem utilizada e também dos convincentes efeitos visuais), assim como também é extremamente triste acompanhar um personagem que vê praticamente todas as pessoas que ama irem morrendo aos poucos enquanto ele vai ficando cada vez mais saudável.

    O excelente roteiro de Eric Roth (que também escreveu Forrest Gump) contempla diversos momentos históricos, desde o fim da Primeira Guerra até a chegada do Furacão Katrina à Nova Orleans em 2005. Esses fatos reais, aliados a um ritmo de contemplação da natureza humana, faz com que o lado "fantástico" da história seja logo tomado como "realidade", que funciona de maneira bastante crível dentro deste universo ficcional. Em poucos minutos de filme, já não é mais assim tão estranho ver um garoto de sete anos andando com auxílio de bengala e sofrendo com a osteoporose.

    O elenco está magnífico. Destaque, óbvio, para Brad Pitt, totalmente convincente na pele deste complexo personagem. Mas chama atenção também a atuação de Cate Blanchett (como sempre linda, elegante, delicada, sensível, talentosa, etc, etc, etc... ai ai), que vive o par romântico de Benjamin. Blanchett é uma atriz que consegue beleza natural em cada gesto, cada movimento, o que é uma coisa eu acho incrível (e apaixonante, é claro) e que talvez só a Kate Winslet, também consiga fazer atualmente.

    As qualidades técnicas são incríveis. Desde a maquiagem perfeita, passando pelas impecáveis reproduções de época, até chegar à poética fotografia do diretor Claudio Miranda. Enfim, é certo que esse filme vai fazer miséria no Oscar 2009.

     O Curioso Caso de Benjamin Button é uma grande homenagem à vida, uma celebração da nossa existência. É também uma importante reflexão a respeito da morte e principalmente a respeito do Tempo, senhor de tudo. Afinal, como encaramos a terrível idéia de que nós não somos eternos? Ou pior ainda, como encaramos a certeza mais terrível de todas: a certeza de que as pessoas que amamos também não são eternas?

NOTA: 10



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h58
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LITERATURA: A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA (AUTOR: LOURENÇO MUTARELLI)

 O ENSAIO SOBRE A DEPRESSÃO

 

     Júnior é um cara que acabou de largar o emprego e a família. O motivo que o levou ao duplo abandono é extremamente dolorido, tanto pela singularidade do fato (que eu não vou contar, é claro) quanto pela vergonha gerada por ele. Sem ter para onde ir, Júnior retorna à casa do pai. E lá, em meio a uma rotina de com poucas variações entre cafés, cigarros e cochilos no sofá mofado (que ainda possui o cheiro da cadela que sempre dormia ali), que ele desenvolve a consciência tardia de que é um fracassado.

      Nem mesmo a presença da bela inquilina Bruna ou os misteriosos pacotes que chegam à portaria, o tiram do estado de letargia. Júnior segue rumo ao abismo da depressão e nós, leitores, somos a "câmera" que acompanha sua ida ao inferno.

     Lourenço Mutarelli é o autor do livro O Cheiro do Ralo, que recentemente foi adaptado com bastante sucesso para o cinema (uma curiosidade, o autor faz uma ponta no filme, ele é aquele segurança tosco que usa uma roupa brega vermelha). Oriundo do mundo dos quadrinhos, Mutarelli tem bastante habilidade também com as palavras. Inclusive, sabe emprestar das HQ's uma boa noção de "enquadramento" das cenas, algo que torna a narrativa bastante dinâmica e visual, semelhante a um roteiro cinematográfico. Para muita gente isso pode parecer um problema, mas não creio que o seja, pois o fato de uma obra ser visual trata-se de uma possibilidade estética e isso não necessariamente a determina como sendo oca ou superficial.

      A arte... com certeza é um livro mais denso que O cheiro do Ralo, pois neste livro, o foco é todo voltado à degradação gradual da mente do personagem  (o que se dá principalmente pela linguagem). É a depressão explorada pelo lado de dentro, o lado mais doloroso, e talvez o lado mais incompreensível para quem esteja de fora. Não há nem mesmo aqueles momentos de humor negro, presentes na obra anterior, para quebrar o ritmo de declínio do protagonista. O clima de tensão só faz aumentar conforme vamos percebendo que não há mais esperança de retorno.

     O bacana é que conforme a narrativa avança, a linguagem (e as atitudes do personagem) vão ficando cada vez mais surreais. A depressão, na obra de Mutarelli, pinta a realidade com cores kafkanianas, o que torna a história ainda mais interessante, haja vista que não há muita preocupação em mostrar ou mesmo explicar os fatos de maneira óbvia.

     Segue um trecho bastante interessante dessa obra:

  "(...)

- Dia estranho, não é mesmo?
- Como?
- Dia estranho.
- Todo dia é estranho.
- Não. Hoje... essa névoa.., as ruas desertas...
- Pra mim, todo dia é estranho. Eles nunca me convencem.
- Quem não te convence?
- Os dias... são falsos... estranhos... isso não pode ser a realidade... não é possível que seja... isso é... sei lá que porra é isso tudo.
- Talvez...
- Sabe? Eu descobri como funciona esse esquema.
- Ah, é?
- Você já viu aquele planetinha daquele livro do Pequeno Príncipe?
- Sei, acho que me lembro.
O outro faz um gesto com as mãos formando uma esfera no ar.
- É um planetinha, pequeno... Tem uma flor e acho que uma casinha... É assim.
Diz isso projetando a pequena esfera na direção de  Júnior.
- Sei, sei...
- É isso, porra! É isso...
- Entendo.
- Entende, nada. Entende?!
O outro faz um gesto de desprezo que desmancha a esfera.
- Eles botaram a gente aqui.
- Claro...
- Deus botou a gente nesse planetinha do caralho. Do caralho do Pequeno Príncipe. Aí ele falou: Meu amigo, tudo isso é seu. Tem ali uma plantinha de merda que dá um fruto gostoso. Ali tem uma vaquinha de bosta que dá leite. E tem trigo pra fazer pão. Até aí tudo bem, não é?
- É tudo o que precisamos...
- É. Mas aí ele mostra um buraco na terra. Um buraco feito uma cova.
- Certo...
- Então ele diz: Tudo isso é seu. E ainda vou te mandar uma mulher e umas crianças... Isso eu acho que é só pra encher o nosso saco e distrair a gente dessa merda toda. Assim não sacamos o esquema, tá ligado?
- E qual é o esquema?
- Posso continuar?
- Claro.
- Então faz favor de não ficar me interrompendo. Bom Aí Deus explica o esquema. Ele diz: Meu filho, tudo isso é seu. A única coisa que você precisa fazer é tapar aquele buraco. A tal cova que eu te falei.
- Sei.
- Pois então. Cada vez que esse homenzinho tapa a porra do buraco, acaba fazendo outro do mesmo tamanho. Percebe?
- Entendo.
- Então. É isso. É isso sem fim. Tapa um buraco, faz outro igual. Tapa um, faz outro. Até o dia em que o infeliz morre. Só assim você pode tapar o buraco sem fazer outro igual. O buraco é sob medida.
- Legal.
- Porra! Legal, o caralho!
- A história, quis dizer.
- Ou seja, é pau no teu cu. Percebe? É isso. Pra Deus nós somos apenas os que podem tapar o buraco que ele não conseguiu tapar. Entende? É como na obra. Se falta areia, cê não faz parede. Não adianta tijolo, nem cimento. Eu acho que Deus errou nos cálculos. Aí. como já estava de saco cheio, inventou a gente. Tipo umas formigas. Uns formigões. Sacou?

(...)"



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h20
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CINEMA - GOMORRA

DON CORLEONE É O C*, MEU NOME É ZÉ PEQUENO, P* !

 

   Gomorra é um filme um pouco difícil, tanto pelo grande número de histórias que ocorrem simultaneamente (cinco), quanto pela maneira naturalista, quase documental, como essas histórias brutais são contadas. Baseado no livro do jornalista Roberto Saviano (que foi ameaçado de morte graças às denúncias feitas em sua obra), o filme de Matheu Garrone segue os passos de seis personagens que, cada qual a sua maneira, acaba se envolvendo com a Camorra, a ultra-violenta máfia italiana, (permitam-me um didatismo provavelmente desnecessário: o título do filme inverte as letras e faz um ótimo trocadilho com a cidade mencionada na bíblia, a qual foi destruída por Deus em virtude das imoralidades cometidas por seus habitantes).

   Esqueça o Don Corleone de Marlon Brando, esqueça a riqueza e o glamour ao redor dos poderosos chefões. Em Gomorra observamos as pessoas que estão (bem) abaixo deles, estamos diante dos caras que realmente fazem o serviço sujo e nesse mundo obscuro em que eles rastejam só há violência e miséria. Tudo, inclusive o ser humano, é muito pobre e sujo e feio (perceba a ironia da primeira e violenta cena do filme, que se dá nada mais nada menos do que em uma clínica de estética).

   As pessoas vivem em prédios semi-abandonados, que não ficam devendo em nada ao cortiço descrito por Aluízio Azevedo. As ótimas tomadas aéreas, que dão conta de mostrar grandiosidade desses "monumentos" miseráveis, se parecem com imagens de uma cidade da América do Sul. Fica até difícil de acreditar que o que estamos vendo é a Europa, que aquilo é o primeiro mundo. Tão diferente da ilusória propaganda que nos vendem pela televisão.

   É nesse cenário terrível que acompanhamos cinco histórias: um menino que quer entrar para o "movimento"; um velho encarregado de entregar dinheiro às famílias dos mafiosos que estão presos; um executivo que ganha dinheiro enterrando lixo tóxico de grandes indústrias em áreas próximas a moradias mais pobres (elevando em até 20% as ocorrências de câncer entre os moradores desses locais), um costureiro que trabalha para um dos chefes da máfia e que acaba se envolvendo com os chineses em busca de reconhecimento; e, finalmente, os dois amigos imbecis (os caras de cueca na capa) que vivem de pequenos golpes e tentam "glamurizar" o mundo da máfia, fantasiando a realidade cruel como sendo a dos filmes de Hollywood. Sujeitos que são capazes, de atitudes tão violentas quanto burras, mas que no fundo (ou talvez nem tão fundo assim) não passam de duas crianças "inocentes" brincando de bag-bang.

   As histórias são simples, cruéis, mas bastante simples. O bacana é que o diretor resolveu fragmentá-las e contá-las todas ao mesmo tempo, sem a preocupação de desenvolver um fio condutor que facilite a vida do espectador ou mesmo algum elemento comum que interligue as narrativas (o que explica algumas pessoas saindo da sessão antes do filme acabar). Nesse sentido, Gomorra é um tanto exigente, o que é ótimo. Como sou meio lerdo, quando o filme já estava quase em sua terça parte eu ainda não estava conseguindo "ligar os pontos" de umas duas histórias, contudo a edição (assim como a câmera digital, demasiadamente escura em alguns momentos, diga-se, mas sempre bem enquadrada, com movimentos bastante bonitos), é tão bem feita que tudo se torna inteligível sem ser, em momento algum, óbvio.

   Gomorra está sendo vendido no Brasil como o "Cidade de Deus italiano". Embora sejam filmes bastante distintos, principalmente na questão da composição do roteiro e do ritmo da narrativa (Gomorra é muito mais lento, mesmo embora a ação ocorra num tempo/espaço (dias) bem menor do que o de Cidade de Deus (décadas). Isso se dá, pois o diretor procurou desenvolver de maneira convincente cada um dos personagens, emprestando uma sensação perturbadora de realidade e fazendo com que o espectador desenvolva empatia por eles, para posteriormente causar o forte impacto, ao colocá-los no olho do furacão).

 

   Mas de fato há algumas aproximações entre os dois filmes. Os mafiosos italianos estão mais para Zé Pequeno do que para Don Corleone, a complexa organização dos mafiosos se assemelha a dos traficantes nos morros cariocas, o envolvimento de crianças no mundo do crime também se dá em virtude de um equivocado deslumbre diante de uma "carreira" bem sucedida, e também em ambos os filmes o aspecto de "filme-denúncia" é o mesmo, misturando positivamente ficção e realidade.

   A preocupação dos dois filmes, creio eu, não é banalizar a violência ou simplesmente reproduzir o que vemos nos jornais. Ao recriar a realidade de maneira tão verossímil, esses filmes possibilitam observar a questão da violência com uma lente de aumento, uma lente de aumento que causa desconforto, um desconforto que gera indignação, uma indignação que, por sua vez, pode gerar importantes questionamentos... Enfim, talvez o cinema não seja apenas uma mera ferramenta de entretenimento.

  Nota: 9,5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h52
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CINEMA: MARLEY E EU

O PIOR CACHORRO DO MUNDO

 

 

        Surpreendente esse Marley e Eu. Fui assistir já antecipando que seria uma droga (embora uma amiga em cuja opinião eu confie bastante, tenha insistido em defendê-lo, afirmando que o livro que inspirou o filme (o qual não li) não é uma porcaria e que também não é mais um best-seller de auto-ajuda. Ainda assim, fiquei desconfiado). Para agravar a situação, em virtude da minha costumeira desatenção, acabei entrando numa sessão dublada! Pronto, minha avaliação do filme iria de "o que é que eu estou fazendo aqui?" para "quero arrancar meus olhos com uma colher".

         Mas não foi bem assim. Para minha surpresa o filme é, dentro de suas limitações, bem bom. Consegue transmitir uma atmosfera positiva, de valorização da família, sem ser (muito) piegas. O filme não é sobre o cão (o que é ótimo) e sim sobre os percalços de um casal bastante comum, que briga, que ri e que tenta se ajudar, enquanto cuida dos filhos e do "pior cachorro do mundo" (ele come tudo o que vê pela frente, isso inclui sofás, travesseiros, aparelhos de telefone, etc.). Aliás, é tocante a cena em que o marido fala com bastante naturalidade para o amigo que apesar das dificuldades jamais pensou em separação, pois "tudo pode ser resolvido com o diálogo".

         Um crítico do site Omelete, afirmou, com outras palavras, que o Marley e Eu era uma droga, pois se tratava de um filme sobre "resignação", sobre pessoas "conformistas" que simplesmente abrem mão de seus sonhos. Discordo completamente. Na verdade, o que temos nesse filme é uma reflexão (não muito profunda, não vamos exagerar, trata-se de um filme popular) sobre "tolerância" e não sobre "resignação". O filme fala sobre respeitar a pessoa amada, independentemente das dificuldades, e entender que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo, sendo que a vida nem sempre seguirá como planejamos ou sonhamos. Eu sei, nesse nosso mundo capitalista é até difícil discordar do crítico, talvez ele esteja certo, talvez os treinamentos/lavagens cerebrais das empresas esteja certo, o lema é: "foda-se as pessoas ao seu redor, o que importa é apenas você e o seu sucesso profissional/financeiro". Ingenuidade ou não, fico com o Marley.

         Voltando ao filme. O ponto alto, além do roteiro que é bastante eficiente, é a edição do filme, que sem nenhum didatismo consegue transmitir de forma convincente a passagem dos anos.  Por exemplo, em vez de utilizar o pouco criativo "alguns meses depois...", o que vemos é uma seqüência belíssima de alguns momentos da família, acompanhada de uma narração ágil e de pequenos trechos dos textos escritos pelo personagem principal. Ainda nessa questão (a passagem de tempo), vemos outra boa sacada da direção de arte (item que nem sempre recebe atenção dos espectadores), que, sem aviso ou letreiros, vai trocando várias vezes o carro do protagonista, que começa com um carro popular (tipo um Fiat 147) e depois evolui para modelos mais modernos, representando a estabilidade financeira do casal.

          Marley e Eu é um filme feito para fazer o espectador chorar. Ou seja, ele é descaradamente um melodrama (e não pretende ser mais do que isso), logo, se você não gosta de sair com o olho vermelho do cinema e quer manter a pose de machão perto da namorada, fique longe desse longa. Nos filmes estilo "sessão-da-tarde", o choro é programado, algo que normalmente resvala no piegas e no previsível. E isso quase acontece em Marley e eu, mas a cena final é tão bem construída, as atuações são tão bacanas, que o filme acaba realmente emocionando mesmo que a gente saiba exatamente o que vai acontecer.

 

 Nota: 7,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 15h39
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ANO NOVO VIDA VELHA

ANO NOVO VIDA VELHA

 

       Não mentirei nem mesmo quando a verdade for tão ruim que a pessoa se arrependa amargamente por ter pedido para eu ser sincero. Não beberei quando estiver deprimido. Não ficarei reclamando que não estou estudando. Não ficarei reclamando que estou estudando demais. Não assistirei a cinco filmes do Woody Allen de uma só vez, para não me sentir deprimido para não ter que beber para não acabar me matando para não dar trabalho para a minha família. Não ficarei irritado quando eu enfrentar uma fila gigante, entrar no cinema, sentar num lugar horrível e só depois descobrir que a bosta do filme é dublado. Não comprarei livros que não terei tempo para ler. Não comprarei revistas que só lerei pela metade. Não perderei o ônibus todos os dias por causa de dois malditos minutos. Não esquecerei onde deixo o meu celular. Não lerei três livros ao mesmo tempo. Não comerei fast foods que parecem ser feitos de isopor ou de plástico. Não tentarei converter as pessoas ao agnosticismo quando estiver bêbado.  Não economizarei esforços para me adaptar ao novo acordo ortográfico. Não deixarei que uma cárie demoníaca destrua o meu dente do siso. Não farei comentários irônicos no texto da minha monografia só porque não recebi orientação e tive que escrevê-la sozinho. Não falarei tanto palavrão. Não comerei coisas bizarras tipo pastel de tabasco. Não serei tão pessimista quanto normalmente sou. Não desejarei que o celular com alto-falante ensurdecedor do hip-hopero, que pega ônibus lotado comigo todo dia, exploda e que os pedaços do plástico e metal do aparelho fiquem grudados na sua pele e façam com que seu rosto fique deformado e dolorido pelo o resto da vida. Não farei piadinhas de humor-negro. Não escreverei posts com mais de trezentas palavras.

     Dadas as exigências, creio que não será esse o ano em que eu me tornarei uma boa pessoa.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h48
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MALDITAS LISTAS DE FIM DE ANO

MALDITAS LISTAS DE FIM DE ANO!!

 

         Sim, eu também acho essas listas de fim de ano um saco. Sim, eu acho um saco, mas acabo lendo quase todas, só por curiosidade. Que raiva!

         Então, só para celebrar a contradição humana e a falta de originalidade, segue a minha lista:

 

TOP 5 - 2008

 TOP 5 CINEMA - DEUS SALVE A CARTEIRINHA DE ESTUDANTE

 - 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS - (Seco, brutal, consegue ser mais triste que "A Criança", o mundo é uma merda mesmo)

 - LONGE DELA - (o amor em sua forma mais sincera, doloridamente sincera)

 - VICKY CRISTINA BARCELONA - (É Woody Allen, não precisa dizer mais nada)

 - ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO - (pontos de vista diferentes para um mesmo fato, narrativa ágil, roteiro de primeira e, claro, Philip Seymour Hoffman)

 - A CULPA É DO FIDEL (humor, delicadeza e, sobretudo, inteligência)

  

TOP FIVE BLOCKBUSTER - O POVÃO DO MAC LANCHE FELIZ TAMBÉM VÊ FILME LEGAL

 - BATMAN - THE DARK KNIGHT (só o truque de esconder o lápis já vele o ingresso)

 - O HOMEM DE FERRO (fui assistir já desacreditado e quando percebi estava diante de um filmaço).

 - TRASFORMERS (divertidíssimo, protagonista carismático, garota coadjuvante-gostosa-de-enfeite linda, muito linda...)

 - QUANTUM OF SOLACE 007 - (uma montanha-russa, praticamente não dá tempo de respirar; explosões, perseguições, tiroteios, cenas absurdas, está tudo lá, Daniel Craig prova mais uma vez que é o 007 mais violento e mais bacana da franquia, só não é o melhor filme de espião dos últimos tempos porque a trilogia Bourne chegou detonando tudo, só que com densidade e qualidade técnica)

 - O ESCAFANDRO E A BORBOLETA - (não era pra ser Blockbuster, já que é um filme francês-esquisito, mas a propaganda boca-a-boca deu conta de trazer um punhado de gente para ver esse drama-com-lição-de-vida bastante comovente)

  

TOP 5 DVD - BALAIO DAS LOJAS AMERICANAS

 - NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA - (aula sobre como escrever um roteiro com diálogos inteligentes)

 - HERÓI - (as cores são fantásticas, a cena "amarela-vermelha" da luta na floresta não sai da minha cabeça)

 - BOA NOITE, BOA SORTE - (filme que todo estudante de jornalismo deveria assistir durante a graduação)

 - FAHRENHEIT 451  - (um futuro no qual os bombeiros não apagam incêndios, eles  são responsáveis por queimar toda e qualquer obra literária, as pessoas são "livres" apenas para assistir à televisão; Truffaut, genial)

 - OLD BOY - (violência plástica, história surpreendente; cria do Kill Bill)

  

TOP 5 LITERATURA (LIVRARIA) - CHEIRO DE NOVO

 - O FILHO ETERNO - CRITÓVÃO TEZZA - (o papa-prêmios do ano, merecido, história brutal)

 - SÁBADO - IAN MAC EWAN (contemporâneo com jeitão de clássico, bem escrito, crítica corrosiva, comovente)

 - O CHÃO DA PALAVRA - JOSÉ CARLOS AVELLAR - (cinema e literatura através da ótica de um grande crítico; deu uma direção salvadora à minha pseudo-monografia, a qual eu ainda nem comecei a escrever, adeus férias...) 

 - DIÁRIO DE UM ANO RUIM - J. M. COETZEE (literatura, filosofia, crônica, tudo na mesma página, dividido (literalmente) por algumas linhas; uma nova forma de se ler um romance)

 - DEUS, UM DELÍRIO - RICHARD DAWKINS (reflexões interessantíssimas (o que dizer do Evangelho do Monstro de Espaguete Voador?) boa argumentação científica (sem ser chata, nem superficial), livro de um cara que quer questionar e não apenas polemizar.

 

TOP 5 LITERATURA (SEBO) - CHEIRO DE BOLOR

 - OS FOGOS O FOGO - JÚLIO CORTÁZAR - (contos fantásticos mais reais e perturbadores que eu já li)

 - SAYONARA, GANGSTER - TAKAHASHI GENICHIRO (piração do começo ao fim; pra se ter uma idéia Virgílio (o poeta), surge aqui como um cara que se transformou numa geladeira (?!); uma das coisas mais bizarras que eu já li)

 -  O VERMELHO E O NEGRO - STHENDAL (clássico perfeito, Julien Sorel conseguiu um lugar no meu altar de personagens inesquecíveis, ao lado de Raskólnikov e Brás Cubas).

 - FORA DE ÓRBITA - WOODY ALLEN - (surreal, inteligente, absurdo, erudito, imperdível)

 - PANTALEÃO E AS VISITADORAS - MÁRIO VARGAS LLOSA - (o exército peruano contrata prostitutas para "aliviar a ansiedade" dos soldados na Amazônia, mas não imaginam que o empreendimento faria um sucesso tão absurdo; texto inteligente e hilário; destaque para as "cartas oficiais" e a linguagem técnica recheada de eufemismos ridículos)

 

TOP 5 TELEVISÃO - VEGETANDO EM FRENTE À CAIXA MÁGICA

 - CQC - CUSTE O QUE CUSTAR - (sem dúvidas o melhor programa da TV aberta, já que o Roda Viva anda mal das pernas depois que trocou o mediador/apresentador. Para quem acha que o CQC copiou o pessoal do Pânico!, sugiro uma rápida pesquisa no Google ou no Youtube, digita lá: Ernesto Varela, depois a gente conversa.

 - LOST - (após uma 3º temporada meia-boca (principalmente o começo), a 4º temporada deu mais fôlego à série, com direito a um dos melhores episódios de todos os tempos: a história de Penny e Desmond, não precisa nem ser lostmaníaco para chorar depois de ver daquilo).

 -  HOUSE - Se a fórmula doença-rara-que-precisamos-descobrir-como-tratar está meio batida, o mesmo não se pode dizer do humor ácido desse médico triste e ranzinza. Os dramas (e os vícios) foram potencializados nas últimas temporadas (o episódio com os dois irmãozinhos negros na 3ª Temporada é de cortar o coração). Uma das melhores criações da tv americana.

 - PRISON BREAK - Tipo de série que faz mal à saúde, pois é praticamente impossível sair da frente da tv ou parar para comer alguma coisa enquanto você não assistir a todos os episódios em seqüência. O recurso de fechar cada episódio com algo impressionante e intrigante é um desafio à nossa curiosidade, é difícil se livrar daquela idéia fixa "vou assistir só mais um pouquinho, só mais um pouquinho".  A história também é boa, um homem é preso injustamente e o seu irmão mais novo, um arquiteto, tatua a planta do presídio no próprio corpo, elabora um complexo esquema de fuga, comete um crime e vai parar na cadeia para salvá-lo.

 - MONK - Monk se destaca entre as inúmeras séries do gênero "quem matou?", por se tratar de um protagonista completamente diferente: é inteligente e ao mesmo tempo divertido (graças ao seu transtorno obsessivo compulsivo). Além disso, há outras complexidades, pois ele é um homem que não consegue superar as marcas do passado (o assassinato da esposa), o que gera cenas dramáticas bastante inspiradas. Ao longo de cada temporada, ir do riso ao choro é coisa fácil.

 

TOP 5 MÚSICA - QUASE DERRETEU MEU MP3

 - NAÇÃO ZUMBI - FOME DE TUDO - (esse cd foi lançado em 2007, mas eu acabei ouvindo só nesse ano; Nação Zumbi faz aqui o seu melhor trabalho pós-Chico Science, quiçá o melhor trabalho do rock nacional recente. Letras excelentes (como "Infeste" ou "Bossa Nostra") e a sonoridade sempre original do grupo pernambucano fazem desse cd uma obra prima da música brasileira. Não há dúvidas, se ainda há esperança de vida inteligente no rock nacional, ela está no nordeste.

 - MARCELO CAMELO - SOU (como fanático por Los Hermanos (até hoje eu nunca vi algo tão catártico como os shows deles), sou suspeito para falar sobre um trabalho de Marcelo Camelo. Tirando uma ou duas músicas meio chatinhas, o restante do cd é belíssimo, com boas letras e arranjos elaborados. Não é a mesma pegada rock de um Ventura, por exemplo, pois está mais para uma continuação do "4", mas é um trabalho novo e esquisito, enfim, é a cara dos barbudos  (OBS: vale mencionar o novo trabalho do Rodrigo Amarante, com o baterista dos Strokes, a banda Little Joy, bacana, quem sabe seja até melhor que o do Camelo, mas como são brasileiros cantando em inglês (!?) eles não conseguiram uma vaga no meu top 5, pois o negócio aqui é a Língua Portuguesa *orra! )

 - MARCELO D2 - A ARTE DO BARULHO - (não eu não gosto de Hip-Hop, e muito menos desse "movimento" quem vem dominando as cidades, mas não dá pra negar que Marcelo D2, aparentemente oriundo deste "mundo do gueto", desenvolve um trabalho bacana e original. Desde que começou a misturar rap com samba ele foi criando um estilo próprio. Mas foi só agora com esse seu "A arte do barulho" que comecei a gostar de verdade da sua música, creio que seja pela maior influência do rock. É um disco acelerado e empolgante.

 - ZECA BALEIRO - O CORAÇÃO DO HOMEM BOMBA - (as letras inteligentes e engraçadas, a mistura de brega e rock, tudo funciona bem nesse curioso cd)

 - LENINE - LABIATA - (um dos melhores letristas da atualidade, Lenine acertou em cheio nesse seu último trabalho (que eu considero o melhor lançamento de 2008), é poesia do começo ao fim).  

 

 QUE 2009 SEJA "MENOS RUIM" QUE 2008



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h52
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CONTO: NÃO NATAL

NÃO NATAL

 

         Quando estaciona o carro na calçada, percebe que todos já chegaram. Desliga o motor e permanece imóvel ao volante. Sonha a possibilidade de não ser notado, de permanecer atrás de vidros escuros durante uma ou duas eternidades: o gosto do conhaque na boca, especial do Roberto Carlos na tv, pedaços de unhas roídas raspando embaixo da língua. É o refluxo dos anos que se misturaram, dissolvendo-o por dentro. Efervescente, enfermo, inferno.

            A sobrinha pequena bate na janela. Não vai entrar não? A boneca que acabou de ganhar chora de verdade, ela mostra. Chora de verdade, repete. Sorri de mentira, remói.

            Antes de sair do carro abre o porta-luvas e procura alguma coisa, não acha. Esquece. Tira a chave da ignição e a coloca no bolso. Sente o volume dos projéteis.  Seis. Agora lembra: a caixa dentro do armário. Resolve entrar.

         Sem graça, oferece um "Feliz Natal" de mentira para todos os presentes que, distraídos, sinceramente não retribuem. Talvez um aceno de alguém atrás da mesa, um gemido gutural de uma criança que não existia no ano passado ou um par de sobrancelhas erguidas em forma de "oi", não sabe ao certo, difícil desenhar desdenho. Já estudou isso. Ou inventou? Melhor escrever antes que vire um tumor.

         Então repete a tela: O olhar acovardado não fotografa a imagem à sua frente, ele apenas borra as cores e os sons e os cheiros, tornando-os uma coisa só. Essa é sua defesa, é seu escudo para melhor suportar o insuportável. O esforço da memória, ao tentar recobrar o passado, talvez seja uma tentativa de reproduzir essas impressões repetidas vezes até que elas se transformem em lembranças concretas, boas ou ruins, mas tão falsas quanto à própria realidade. Mais um gole de cidra quente, de onde surgiu? Não, não foi ele quem inventou essa teoria. Retórica inverossímil. Passa a desconfiar de suas próprias palavras, mas segue pintor de presentes. Imprecisões à óleo.

         O restante da casa é comida e presépio. Gosto de uva-passa nas paredes, o chão ainda grudento. Tantos natais incrustados no mármore. À mesa, serve-se da comida cenográfica e desvia-se dos olhares marginais que o fuzilam. Festa, farsa, forca.

         Ouve conversas. Onde ele está? No quarto, passou mal durante a tarde.

         Imagina então o pai cheio de tubos colados à boca e à bunda. Imagina os aparelhos sendo desligados. Imagina os desfibriladores. Imagina a encomenda na floricultura: Não, desta vez não quero um buquê.

         Na taça vazia, o reflexo irritante do pisca-pisca que enfeita o pinheirinho. Acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, apaga-Natal, acende-Feliz, apaga-acende, Natal-Feliz, apaga-acende, Natal-Natal, apaga-Fe, apaga-liz. Apaga. Natal. Afaga. Afoga. Apaga.

         Planeja contar tudo à mãe, ou insinuar ao irmão, ou simplesmente se calar diante do pai. O medo ainda o estrangula. Teria coragem de seguir em frente com essa insensatez, mesmo após verbalizar aquilo tudo que pede palavra em seu choro? Já não faria sentido. Não faria sentido! Pincela novamente para ficar mais nítido. Tenta calar cada cor que destoa do seu corpo. Mas os natais passados rodopiam no fundo do copo de refrigerante da menininha enquanto a boneca não pára de chorar. De verdade, não pára. As histórias da velha casa passam correndo por entre suas pernas, puxam a sua calça e depois se escondem atrás dos móveis. Quem sabe dentro do armário.

         Antes que enlouqueça, pensa. Sobe para o quarto do irmão e vai direto ao armário. Antes que enlouqueça de vez, repete para afastar a faísca de insanidade. Retira a velha caixa de sapatos. Não é mais o seu armário, é o armário de um filme americano. As fotos dentro da caixa não são suas, são de um personagem de um filme americano. De um filme americano, repete, mas não consegue imaginar. O verbo não se fez carne e nem se fez imagem, só som, só som, só som. Tudo acontece duas vezes. Ele ainda está ali, mãos suadas. Apanha o revólver no fundo da caixa e vai para o quarto do pai.

         Não há tubos nem desfibriladores, o velho dorme. O pesadelo está travestido de sonho. Engatilha o revolver assim como viu no filme americano. Essa cena já aconteceu? Encosta a arma na cabeça do velho, que não acorda nem mesmo após o contato com o metal. O cheiro azedo que vem da sua pele é a infância correndo pelo quarto. Da pele de qual dos dois ele vem? Barulhos no corredor, alguém se aproxima. A boneca? Precisa agir antes que seja tarde. As mãos derretendo, desmanchando. Antes que enlouqueça de vez. Antes que. Afasta-se da cama, coloca o cano do revólver na boca, fecha os olhos e dispara. A cena se repete. Coloca o cano do revólver na boca, fecha os olhos e dispara.

         A porta abre. É a mãe, veio trazer remédio. Fazendo o quê aí no chão? Nada não, vim ver o pai. Esconde o rosto, seu choro também é de verdade. Esconde a arma na calça. Coitado, até comeu um tantinho de panetone de manhã, mas não adianta, ele vomita tudo. Ela ajeita o travesseiro e apanha a jarra d'água. Ele se esquiva de qualquer resposta, sai do quarto antes que o torpor de alegria que o toma confunda ainda mais a situação. Vomita tudo, o pai vomita tudo, repete sorrido.

         Quando chega à sala, boa parte das pessoas já foi embora. O pisca-pisca não pisca. O peru está pela metade, será requentado no almoço de amanhã. Sai. Entra no carro e guarda o revólver no porta-luvas. O gesto se repete, guarda o revólver no porta-luvas. Rói as unhas para se acalmar. Imagina o velório do pai. Imagina o próprio velório. Ao lado do caixão, a família gotejando porquês. Nada. Natal. Nódoas.

         A sobrinha pequena bate na janela. Não vai entrar não? A boneca que acabou de ganhar chora de verdade, ela mostra. Chora de verdade, repete. Sorri de mentira, remói.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h35
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NOVISSISSÍSSIMO MANUAL DE TEORIA LITERÁRIA

 NOVISSISSÍSSIMO MANUAL DE TEORIA LITERÁRIA - PARTE I

 

A POESIA E A NOVA MPB (MÚSICA POPULARESCA BRASILEIRA) - E UM POUCO DE HISTÓRIA NACIONAL TAMBÉM - SOB A ÓTICA PSEUDO-INTELECTUAL DE UM PRECONCEITUOSO IGNORANTE METIDO A ESPERTO

PALAVRA-CHAVE: CRÉU

 

     Constam em inúmeras obras analisadas durante a feitura desta pesquisa que ao longo de muitos anos o povo brasileiro sofreu privações quando da sua liberdade de expressão (Nota: Embora o povão não tenha lá muito o que expressar, já que não sabe nem falar direito (certo? errado?. ver: Marcos Bagno), é direito seu poder palestrar pelos cotovelos) - a saber: o problema ocorre desde o início da ditadura militar, quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil municiado com suas metralhadoras, cruzes, espelhos e principalmente seus tanques blindados, pintados com a Cruz de Malta do time carioca, rebaixado este ano para a segunda divisão, Vasco da Gama.

       Aliás, alguns historiadores afirmam que Cabral e sua gangue lusitana foram vistos chegando em nossas praias, provavelmente Copacabana (ver: Manual Carlos), com várias velas rumo à Aparecida do Norte, que ainda nem existia, numa clara evidência da absurda imposição religiosa efetuada pelos portugueses já no ato da colonização (alguns estudiosos afirmam que, assim como muitos romeiros católicos, eles não vieram para rezar e sim para comprar muambas). Sendo esta, portanto, uma provável retaliação às piadinhas de português já famosas entre os índios Caetés, os primeiros e famintos (ver: Dom Pero Fernandes Sardinha) habitantes do país, sujeitos estes que ainda não sabiam que o chão se tratava de um país e nem o que significava as palavras 'habitante' ou 'sujeito", pois eram muito burros (ver: José de Alencar).

     Os Portugueses instalaram suas padarias e igrejas, acabaram com as comidas diet coloridas (também fecharam todas as lanchonetes Subway), passaram uma borracha nos deuses indígenas e os substituíram por velas, estátuas e bandeirinhas de times do compeonato europeu (inclusive, recentemente foi encontrada em uma ruína na Amazônia, próximo à divisa com o México, uma camisa do Real Madrid datada do início do século XVI. O que nos leva a crer que o processo de colonização não aconteceu bem assim não como está explicada nos livros didáticos, pelo jeito o povo catalão também andou usando índio como adubo no norte do país).

      Como castigo pelas piadas infames e preconceituosas (típicas de um povo selvagem), todos os índios tiveram que trocar suas esposas por Cd's Players (naquela época ainda não havia o mp3) para que pudessem fezer o curso multimídia de Língua Portuguesa do Professor Pasquale e, finalmente, se comunicarem numa língua descente.

      Por fim, a língua evoluiu tanto, mas tanto (após vários acordos ortográficos/econômicos com os Estados Unidos), que tornou-se possível expressar através da linguagem absolutamente tudo o que tinham na cabeça (mais ou menos 32 ou 33 palavras, exetuando, obviamente, as gírias e termos de baixo calão, esses resumidos, abrangem cerca 3.221 ou 3.222 palavras). Dái o interesse dos detentores do poder (presidente dos EUA Jorge Buchi, presidente da Venezuela Hugo Chapolin e a primeira ministra do mundo, a cantora Madonna) em inviabilizar a liberdade de expressão.

     Mas é neste momento importantíssimo da nossa história que se fez valer o talento nacional. Pois os artista brasileiros, sabendo que os militares era semi-analfabetos, fizeram várias músicas com mensagens de duplo sentido; cheias de sacadinhas intelectuais que só os intelectuais (vulgo ricos) poderiam endender. Foi nesse período fértil da nossa cultura, em que ninguém entendia porcaria nenhuma do que estava acontecendo, que surgiu uma das mentes mais brilhantes da música nacional tupiniquim brasileira do Brasil: Mc Créu. A obra deste importante filósofo e compositor abre com chave de ouro essa nossa pesquisa tão significativa para o desenvolvimento da teoria literária nacional.

 

Análise da música "Dança do Créu", uma composição de Mc Créu.

 

Dança do Créu

É créu!
É créu nelas!
É créu!
É créu nelas!
"Vambora, que vamo"!
"Vambora, que vamo"!

Prá dança créu
Tem que ter disposição
Prá dança créu
Tem que ter habilidade
Pois essa dança
Ela não é mole não
Eu venho te lembrar
Que são 5 velocidades...(2x)

A primeira é devagarzinho
Só o aprendizado.
É assim, oh!
Créeeeu...(3x)
Se ligou? De novo!
Crééééu...(3x)

Número 2! (repete até o 5)
Créu, créu, créu
Créu, créu, créu
Continua fácil, né?
De novo!
Créu, créu, créu,
Créu, créu, créu!

       A genialidade deste compositor está presente já na escolha do título, percebemos aqui, através da autoreferência proposta por ele como forma de ironia (Eu mesmo=Eu Lírico - Créu Mc=Créu Lírico), um artista que se debruça sobre sua própria complexidade. Ora, a visão antropomórfica de mundo é uma marca representativa da contemporaneidade atual do mundo de hoje em dia. O homencentrismo ou metrossexualismo é a chave para entendermos a sociedade pós-moderna, em que o espelho é o símbolo máximo da ausência de solidão. Quando o homem passa a amar a sim mesmo (ver: Dicionário Aurélio: masturbação)  ele consegue perceber que os outros seres humanos fazem apenas parte do cenário, do plano de fundo de suas vidas. Sendo todos eles, portanto, descartáveis, principalmente as mulhes, pois são seres completamente diferentes dos corpos que eles estão acostumados a ver e admirar diante do espelho (ver: academia, musculação).

    Ao tratar a mulher como sendo apenas um pedaço de carne pendurado no açougue, como vemos no iluminado verso "É créu nelas!", que aliás é claramente inspirado na poesia clássica grega, dada a sua sutilieza, percebemos a acuidade da crítica que se pretende fazer à essa sociedade contemporânea, dominada por valores efêmeros.

    É vidente que um poeta do quilate de Mc Créu não preocuparia-se em orquestrar seu arsenal intelectual com apenas uma série de idéias jogadas ao vento. É, sobretudo, na preocupação estética presente na poesia do gênio, que nós percebemos a importância de sua obra. Tento em vista a degradação da mentalidade do povo e da rápida ("são 5 velocidades") propagação das idéias mastigadas pela mídia, o poeta (brilhantemente, diga-se) conseguiu transpor para a música, a sensação perturbadora de repetição, de sofrimento cíclico do qual a humanidade não consegue se desvencilhar: "Créu, créu, créu" (ver: eleições 2008).

    A inadequação do homem diante dessa sociedade, com um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente, está presente nos versos "Tem que ter disposição", "Tem que ter habilidade". Todas as forças do homem são sugadas por este mundo corporativista, no qual a felicidade é apenas um item obsoleto desta existência tão aterradora, "Ela não é mole não".

    Mc Créu nos deixa, através de sua magnífica obra, de indizível importância, a mensagem (ver: Paulo Coelho) de que todo esse sofrimento é "Só o aprendizado" e que as quedas fazem parte desta nossa evolução enquanto seres humanos, que não podemos desistir diante da primeira dificuldade, embora saibamos que "A primeira é devagarzinho", temos consciência de que podemos superá-la com rapidez, dependendo apenas de nós mesmos e da pedra filosofal (ver: J. K. Rowling).



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h04
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CINEMA: MADAGASCAR

EU NÃO ME REMEXO NEM UM POUCO

 

           Madagascar 2 é melhor que o primeiro. Mas infelizmente isso não quer dizer muita coisa. O grande problema desse desenho, além da falta de originalidade (fala sério, quem é que agüenta mais uma dessas animaçõeszinhas bobinhas com bichinhos bonitinhos e engraçadinhos em situações estupidinhas? Ok, o Era do Gelo3 vem aí, mas Era do Gelo já é outro nível). Continuando, o grande problema é que, assim como no anterior, o protagonista é muito sem graça.

         O draminha entre pai e filho vivido por Alex, o leão homossexual (ah tá, vai dizer que ele não é?), é uma cópia descarada do ótimo filme Billy Elliot (2000), do inglês Stephen Daldry. Digo "cópia descarada" porque não se trata apenas de uma simples referência ou homenagem, como ocorre, por exemplo, na cena em que o tal do rei (o bichinho do "eu me remexo muito") aparece com um turbante, numa clara alusão ao clássico Lawrence da Arábia. Essa cena é rápida e discreta. Já a história do leão não, percebemos que o roteiro de Billy Elliot é usurpado na cara dura, desde o conflito inicial até a aceitação no final (opa, contei o desfecho feliz, aposto que você nem tinha imaginado, foi mal).

          O festival de clichês vividos pelos outros personagens (a crise de identidade da Zebra, o amor platônico da Girafa (que dessa vez não está tão hipocondríaca, perdendo um pouco da sua graça, mas ainda assim segue como a personagem mais interessante do quarteto), e o relacionamento "da" Hipopótamo com um carinha marombado) são na verdade aquela velha enxurrada de lições de moral, que servem para a criançada sair do cinema mais domesticada, "respeitando as diferenças" (blargh!).

           O aspecto positivo, talvez o único (ok o visual é deslumbrante, mas hoje em dia isso é praticamente uma obrigação), é que os criadores do Madagascar2 resolveram dar mais espaço à única coisa engraçada presente no primeiro longa: os coadjuvantes. Em especial os pingüins militares. O carinha do "eu me remexo muito" tem uma ou duas cenas engraçadinhas. Mas confesso que a possibilidade de rever aqueles pingüins paranóicos em ação mais uma vez foi o único motivo que me levou a pagar para ver esse desenho no cinema.

          Desde a sacanagem, quando o desenho ainda nem começou, com o logotipo da Dreamworks até a contratação de macacos para o serviço braçal (com direito a sindicato!), os pingüins são a única coisa que realmente faz rir. Mas num ano em que tivemos Wall-e, Madacascar2 passa completamente despercebido, com ou sem pingüins sacanas.

                                                       



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h58
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CINEMA: QUEIME DEPOIS DE LER

SÓ QUEIME DEPOIS DE VER

 

           Quando os irmãos Coen receberam o Oscar de melhor filme no início deste ano (por Onde os Fracos Não têm Vez), eles fizeram aquela cara de "nossa, que ótimo, ganhamos uma coxinha de rodoviária!". Pois é, eles demonstraram claramente que estavam cagando para o reconhecimento de Hollywood. A atitude dos dois diretores pode até ser entendida como desdém, mas na verdade eu prefiro entendê-los como dois sujeitos inteligentes e irônicos, que não hesitam em mandar às favas o politicamente correto.

          E é justamente essa ironia a força motriz de Queime depois de ler. O enredo do filme é tão idiota e tão inverossímil que fica evidente o clima de "ah, não se leve muito a sério, apenas se divirta!". Mas não é todo mundo que compra esse perfil dos filmes dos Coen (algo parecido também acontece com Woody Allen. Geralmente acontece o seguinte: ou você ama e vira fã, ou você odeia e fica falando mal pra todo mundo), então não foram poucas as pessoas que eu vi saindo do cinema dizendo que o filme era "chato, "ridículo", "imbecil", "retardado", etc. Ora, é justamente por ser assumidamente "retardado" que o filme é engraçado! Se humor fosse involuntário tudo bem, mas não é o caso, o que temos aqui são diálogos muito bem elaborados e cenas construídas exatamente para serem absurdas.

            Eu sinceramente não consigo imaginar como alguém consegue não rir daquele personagem ridículo vivido pelo Brad Pitt (de longe o grande nome do filme) - a cena dele tentando negociar o cd com John Malkovich (ótimo na pele de ex-agente que praticamente usa palavrões no lugar das vírgulas durante seus surtos histéricos; e olha que nem a legenda dá conta de tanto fuck) é uma das coisas mais engraçadas que eu vi esse ano.

                                       

           Isso sem falar na grande sacada dos Coen ao aliarem sangue e riso na mesma cena. O humor negro é tão surpreendente e tão engraçado, que faz a agente se sentir mal por gargalhar ao ver uma atrocidade daquelas.

             George Clooney também vai bem no papel de homem "porcão". Tipo de cara que não se contenta em trair apenas a esposa. Os olhos esbulhados enquanto grita "Who are you?" e a "surpresinha" que fabrica para a mulher são impagáveis. 

            E a história do filme? Sei lá, ela praticamente não interessa - mas se você insiste: Dois idiotas que trabalham numa academia de ginástica encontram um Cd que contém as memórias de um ex-agente da CIA. De posse dessas informações "sigilosas", eles então decidem chantageá-lo, ameaçando entregar as informações para os russos (!?) - na verdade, o roteiro é um amontoado de encontros e desencontros que levam os personagens do nada para lugar nenhum. A idéia é apenas fazer piada com os cacoetes dos filmes de espionagem (câmera em forma de mira, satélites, intrigas internacionais, etc) e, é claro, fazer o espectador rir, simplesmente isso. Mas não engane-se achando que esse é apenas um filme "burro" ou então um cult supervalorizado, muito pelo contrário, Queime depois de ler é uma experiência que... bem, melhor você assistir, o último diálogo do filme, entre o chefe da CIA e um comandante, resume exatamente o que todos nós podemos aprender com um filme como esse. Recomendo.

                                        



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
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