RETICÊNCIA

Penso que os primeiros versos roçaram-lhe o peito feito a chegada de um buquê de rosas numa terça-feira chuvosa. Logo, aguardar a resposta das tuas cartas tornou-se angustiante tortura. Afinal, o que há no não dito? Manda-me beijos quando outrora assinava apenas o primeiro nome! Ou acaso sou isso, um caso? Não, nós não permitiríamos tal redução, pois somos tão maiores que tudo isso. Somos ficção! Sim, aquele livro, aquele filme, que ninguém mais leu, que ninguém mais assistiu, fizeram florescer e depois abortaram o gosto da esperança em minha boca. Ora, sempre aprendo que não aprendi.

Aqui sem você percebo que foram-se o chão e as palavras. Minha língua tornou-se estrangeira, perdida numa gramática mal dormida, pois nessa nossa reticência nós não nos falamos em objeto direto, apenas em verbo de ligação. Ai de mim, um ateu de lábios ágrafos que já esqueceu como se unem as bocas e as orações! Mas tento prometer-te verbos: O mundo te dou; sei que não o tenho. E assim minha mentira torna-se conforto, afeto, falseando a falácia de que amanhã será melhor. Pois bem, assim o amor exibi-se em dor feito linha reta: insinua-se infinito quando já é tarde, quando já sabemos qual é a poesia que fecha a antologia. Então, sobra-me apenas a tua epígrafe na minha pele, desenhada com a fonte que você mesma criou. Promessa, pó.

Há um braço de felicidade que se estende sobre nós quando vemos o mundo pelos os olhos do outro – Atrás dos óculos, seus olhos aconchegantes. A doença é que agora não encontro mais o meu próprio olhar.

E bate-me à porta, quer me ver. Pelo olho mágico vejo a tua saudade respirar ofegante. Sinto tanto a sua falta e tenho tanto a dizer... Giro a chave até o meio e a quebro na fechadura. Corro para a cozinha e depois retorno com o bilhete que rapidamente passo por debaixo da porta. Não me permito te decepcionar, sei que você me prefere por escrito. Mas se pelo menos as palavras ainda existissem...


 

Para receber (ou deixar de receber rsr) um aviso de atualização deste blog, mande um e-mail para eder_ceima@yahoo.com.br



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h45
[] [envie esta mensagem] []



Olá leitores do Devaneios do Cotidiano

 

Andei verificando a contagem de visitas deste blog e constatei que apesar dos poucos comentários (quase nenhum que pobreza! rsrs), há uma freqüência de cerca de 300 leitores semanalmente, número que me deixa bastante contente.

Tendo em vista que a minha periodicidade de atualização é “devezenquandamente” (a meta é duas vezes por semana, mas está difícil), também levando em conta que eu perdi o controle da minha lista de e-mails e acabei incomodando um bocado de gente que não estava muito a fim de receber meus avisos. Peço por gentileza para que se vocês quiserem ser avisados das atualizações deste blog mandem um e-mail para eder_ceima@yahoo.com.br. Salvarei o nome de vocês na lista e então garanto que toda vez que eu postar um texto novo mandarei na hora um e-mail avisando ok? Sei que esse é um recurso meio de “mendigo pidão”, mas isso funciona muito bem como ferramenta de divulgação, as listas vão se espalhando e como o objetivo é mesmo dominar o mundo...rsrs

Agradeço todo mundo que tem passado por aqui toda semana, valeu mesmo!

 

Segue abaixo a opinião sobre o último filme que assisti.

 

Até mais.

 

Eder



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h18
[] [envie esta mensagem] []



O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

EXCELENTE, MAS NÃO VÁ AO CINEMA

 

Esse filme conta a história real de um homem que sofre um derrame cerebral e fica com 99% do corpo paralisado. O 1% restante é o seu olho esquerdo, com o qual ele se comunicará com o mundo. Piscar uma vez significa ‘sim’, duas vezes ‘não’. Depois esse procedimento avança para uma tabela com as letras do alfabeto, alguém vai lendo letra por letra bem devagar e quando chega a letra desejada ele pisca uma vez. E então o longo processo se repete até que se formem as palavras. Incrível, não? E o cara ainda escreveu um livro utilizando este método!! Pode procurar na livraria, tem o mesmo título (só não sei se é tão bom quanto o filme).

Histórias sobre inválidos geralmente causam comoção, pois normalmente implicam em chances de recuperação, renovam as esperanças, etc. E no fim das contas o povo adora uma ‘volta por cima’. Esse é o grande problema de filmes com o selo ‘baseado em fatos reais’, pois se formou uma modinha de adoração a esse tipo de obra em que todo mundo vai atrás de novas ‘lições para a vida’ (vemos isso aos quilos nas livrarias), pois o pensamento de que ‘eu posso estar na merda, mas sempre tem alguém em condição pior’ é reconfortante para muitos. Resultado: salas abarrotadas de gente buscando uma historinha de auto-ajuda. Ou seja, se você pretende ir ao cinema para ver tranquilamente um filme francês (tipo de filme que você adora e sempre soube que o povão do Mac Lanche feliz odeia), esqueça!

Voltando ao filme. O argumento de “Escafandro e a borboleta” é muito parecido com o do excelente filme espanhol “Mar adentro” (que tinha como protagonista-inválido Javier Bardem, o louquinho psicopata que ganhou o Oscar de melhor ator em “Onde os fracos não tem vez”). Neste filme (também baseada em um fato real) um homem fica tetraplégico após um acidente ao mergulhar num rio, cometendo erro de cálculo quanto à profundidade deste. Mas a questão discutida em ‘Mar adentro’ é a eutanásia, já que o protagonista abomina a idéia de ter se tornado um inválido e lutará na justiça pelo direito à própria morte.

Já em Escafandro, não há discussões polêmicas. O diretor Julian Schnabel optou por colocar o espectador ‘na pele’ do protagonista, ou seja, durante boa parte do filme vemos tudo em primeira pessoa, sempre no ângulo em que está a cabeça do personagem. Este recurso técnico torna o filme brilhante, pois a câmera fica várias vezes fora de foco ou embaçada (conforme a consciência e o humor do personagem). E em alguns momentos enxergamos apenas metade do corpo das pessoas, geralmente na altura do tórax. Os médicos e enfermeiras se abaixam para falar com ele e é como se estivessem falando conosco, a sensação de imobilidade é horrível, enfim, é um deleite para quem espera um algo mais da sétima arte.

A metáfora do título basicamente define o que veremos neste filme, o qual explora a discrepância entre a ‘imobilidade’, o escafandro (lembrando que escafandro é como se chama aquela roupa pesada de mergulho) e a ‘imaginação’, a borboleta. Pois é apenas através da imaginação que ele consegue ‘sair’ do seu corpo e vagar livremente pelo mundo. Mas não espere por lições de superação ou qualquer porcaria deste tipo, o máximo que você vai conseguir neste sentido é pensar “putz, tomara que eu nunca tenha um AVC” ou “Orra, o cara escreveu um livro com um olho só e eu aqui com dez dedos sobrando!”. Já se a sua opção é por cinema bem feito, então não perca.

                                  



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h15
[] [envie esta mensagem] []



RENATO RUSSO: A PEÇA

 

Aquele cara no palco do Teatro Fernanda Montenegro sábado à noite era o Renato Russo de verdade, não era? Ainda não me convenci de que o sujeito que dançou, tocou, fez todo mundo rir e ainda emocionou a platéia que lotava o teatro, era apenas um ator.   

Quando os primeiros acordes de Há tempos rompeu o silêncio (ok, a galera nem estava tão assim em silêncio, sabe como curitibano-quase-um-europeu é educado né? Rolaram até longas conversas ao celular bem no meio da peça tipo “Alô! Oi, tô aqui na peça do Renato Russo. Não, deixei a chave atrás da plantinha ...”, mas enfim...) a figura de camisa branca surgiu tocando seu violão e dançando com seu jeitão todo esquisito. Lá estava o “Trovador solitário” que mudou a cara do Rock nacional e arrastou multidões de fãs (ou “fiéis” se você preferir) aos estádios, fazendo a cabeça de toda uma geração (e aí eu me incluo) que passou a ver a vida através dos olhos críticos deste poeta triste.

As letras dele dominaram a minha mente por um tempão. Aquela mistura de literatura e punk era muito phoda! (Hoje em dia eu leio alguns clássicos e penso “lazarento, ele tirou aquela música daqui”. Algumas de suas composições nem tinham nada de original, eram quase monografias, ou seja, a colagem de vários textos bacanas respeitados por intelectuais. Grande sacada!) Um gênio-burguês-porra-louca sem igual e insubstituível (tá, o Cazuza também foi bem legal, também sou fã, mas sou muito mais Renato). E depois que ouvi Legião Urbana uma coisa ficou impregnada em mim: se a letra não fosse boa com certeza eu não gostava da música, provavelmente por isso eu tenha tão pouco interesse por música estrangeira ou instrumental até hoje.

Ok, voltando para a peça. O ator Bruce Gomlevsky (foto) é praticamente a encarnação de Renato Russo. A fala arrastada, os trejeitos, o humor, está tudo lá numa atuação arrebatadora! A vida polêmica do cantor é encenada neste monólogo/musical entremeada por mais de 20 canções (priorizando os grandes sucessos, bem ao estilo Mais do Mesmo, uma pena, mas tudo bem, pelo menos sobra tempo para ele tocar Andréa Dória). O bacana é que a narrativa é não linear, então ora estamos diante de um Renato de saco cheio com o sucesso, ora estamos diante de um garotinho que sonha com a carreira militar. Outro aspecto importantíssimo é a utilização de um telão com imagens que dialogam com o texto. E atrás dele, num jogo de sombras bem interessante, fica a banda Arte Profana, que toca ao vivo todas as músicas enquanto a platéia, assim como nos shows da Legião, canta junto com Bruce (ou Renato, ou quem ele for) numa interação muito emocionante (Pais e Filhos parece até um hino evangélico, todo mundo com o braço erguido e os olhos fechados, de arrepiar. Não dá pra não se converter!). Relacionar as letras da música e os acontecimentos da vida de Renato é a grande sacada da peça. As músicas que não são cantadas estão ‘entrelinhas’ em muitas das falas (para os fãs como eu, é um deleite ficar decifrando cada uma delas).

A peça já foi vista por mais de 80 mil pessoas e recebeu uma porrada de prêmios por aí, incluindo o Prêmio Shell (tipo o Jabuti, da dramaturgia nacional). Ela foi produzida em 2006, mas só agora chegou para uma curta temporada em Curitiba (quem não foi, já era). Mas enfim, todo esse sucesso é totalmente merecido, pois assistir à peça é como estar presente a um show da Legião Urbana, sem exagero.

Se Cazuza foi homenageado com um filme bem bacana, Renato Russo não ficou atrás e está muito bem representado nesta peça brilhante. Que voltem mais vezes à Curitiba.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h34
[] [envie esta mensagem] []



AZUL TURQUESA

             Lamentável que todas as garrafas e copos ainda estejam azul-turquesa. Lembro que naquela noite, pedi para que usasse o vestido preto. Que não, que já o havia usado no casamento da prima. Desceu todo o guarda-roupa sobre a superfície lisa da colcha da cama formando uma aquarela de cabides, laços, lantejoulas, babados e presilhas. Esse ficou bom, o azul-turquesa. Decote generoso, ainda inédito nas festas da família. Perfeito. Durante o jantar a ausência dela tornava o ar lodoso: os convidados à mesa trocavam segredos e sorrisos maliciosos ao pé do ouvido. O guardanapo amassado sobre a mesa, fui procurá-la. No banheiro não estava, a moça desconhecida investigou. Atrás do bar, a porta do almoxarifado entreaberta deixou escapar os sons diabólicos do pecado. A alça azul-turquesa deslizando pelo ombro direito, a boca engolindo o pênis de uma sombra qualquer. Aquela cor impregnando as garrafas, os copos, os meus olhos. E tudo virou mar num pesadelo monocromático.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
[] [envie esta mensagem] []



A LADEIRA

 

O menino voltava do futebol montado em sua BMX Superstar vermelha. Avançava com toda a velocidade que os aros 20 lhe permitiam quando reparou que havia algo estranho no meio da rua logo no fim da ladeira. O freio não estava bom, então ele enfiou sua havaiana direita entre o pneu dianteiro e o garfo da bicicleta, conseguindo por sorte parar a alguns centímetros do gato morto. Era um gato cinza e estava com a cabeça esmagada. Apenas um dos olhos ainda resistia no crânio feito uma bola-de-gude.

O menino distraído com o cadáver do gato não percebeu logo atrás de si a aproximação do Chevett branco ano 79 descendo a ladeira. O cara do Chevett distraído com o lado b da fita do Amado Batista não viu o menino distraído com o cadáver do gato de um olho só.

O pára-choque quebrou o lado direito do quadril do menino, a roda dianteira partiu o fêmur em três e o quadro da bicicleta em dois. A freada, precisamente em cima da cabeça do menino, fez arrastar o corpo por cerca de dois metros. O cara do Chevett levou um susto, aquilo parecia um cachorro, Deus, que seja um cachorro! E na hora ele esqueceu a fita do Amado Batista. Chocalhou com o forte solavanco, afundou o pé no freio e sentiu o pneu deslizar macio.

Enquanto o cara do Chevett tentava acreditar que aquilo que tinha acontecido, não tinha acontecido, o gato com a cabeça esmaga levantou-se e saiu dali rapidamente. O cara do Chevett preferiu não acreditar que aquilo que tinha acontecido, tinha realmente acontecido. Então acelerou tudo o que o motor 1.0 permitia e saiu costurando quadras e ruas e ladeiras na esperteza de despistar uma eventual testemunha.

A guria com o Walkman Aiwa viu o Chevett passar a toda, mas não deu importância. Virou a esquina estalando os dedos acompanhando o ritmo da música que só ela ouvia. De quando em vez fechava os olhos e balançava a cabeça perdida em sua catarse íntima. Quase tropeçou no corpo do menino atropelado.

Achou que ninguém tinha ouvido o seu grito de susto, por causa do som alto, mas quando se deu conta duas ou três pessoas da vizinhança já se aproximavam correndo para somar tumulto. 

Logo a rodinha de curiosos foi engrossando e em pouco tempo a ruazinha sumiu debaixo de chinelos e meias. O povo distraído com o risco de sangue no chão, com o barulho que alguém ouviu quando os ossos do menino quebraram, com a certeza de que o menino morava ali perto, com o finzinho de tarde já abocanhando metade do céu, com a hora de ir que tinha que fazer janta, com as histórias de quem diz que viu, mas não viu nada; não perceberam o ônibus dobrando a esquina.

O motorista do ônibus girou o volante em conformidade com lei, pois estava na preferencial e não tinha por que frear ou diminuir a velocidade. O pessoal disse que foi como num jogo de boliche, o ônibus espatifando um por um e desmanchando o tumulto com a violência e a facilidade que só as máquinas possibilitam. Alguém gritou Foi um estráique! Os passageiros desceram do ônibus e começaram a gritar ao verem tantos corpos espalhados.

Lá atrás, ninguém viu, o menino do primeiro atropelamento descolou os restos do rosto do chão e se levantou, apanhou sua bicicleta retorcida e subiu a ladeira sem olhar para trás.

Enquanto os passageiros abraçavam-se em desespero uníssono, o motorista andava de um lado para outro arrancando os próprios cabelos. Dois homens correram para acudir a mulher de vestido azul-marinho que não agüentou ver todo aquele horror e sentiu uma pontada no peito. Neste momento a guria saiu debaixo do ônibus.    

Ela estava com o lado esquerdo do rosto arruinado. Seu antebraço direito partira-se e rompera a pele, o osso absurdamente branco exibia-se para quem quisesse ver. Deu alguns passos procurando algo no chão, já estava bem escuro, até que encontrou o seu Walkaman Aiwa destruído perto do meio-fio. Colocou os fones no que sobrou dos ouvidos, aumentou o volume e desceu a rua.

Alguém no meio da multidão que se formou em volta do ônibus ouviu o barulho de uma ambulância se aproximar em alta velocidade.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h30
[] [envie esta mensagem] []



ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Este poderia ser apenas mais um filme de assalto daqueles que as distribuidoras destacam como sendo mais um “plano perfeito” ou “quase perfeito”. Poderia, mas não é.  Dois motivos garantem este filme como acima da média: os atores envolvidos, Phillip Seymour Hoffman (Capote) e Ethan Hawke (Antes do Pôr-do-Sol); e também a ótima opção do diretor Sidney Lumet em utilizar uma narrativa fragmentada que se baseia nos múltiplos ângulos da mesma cena. Ou seja, a história é contada várias vezes, cada vez de um ponto de vista diferente, explorando desta forma, as motivações de cada um dos personagens e construindo aos poucos um quebra-cabeça surpreendente.

Dois irmãos planejam um assalto a uma relojoaria. Que o assalto parece perfeito e que mesmo assim tudo dará errado nós já sabemos, pois Antes que o diabo... não foge (e talvez nem queira fugir) do estereotipo de “filme de assalto”, pelo contrário, assume isso ao passar pelas cenas-clichê: planejamento do assalto, insegurança do assaltante (que, lógico, não é um profissional), o imprevisto, as conseqüências. Mas o diferencial aqui é que o diretor parece pouco se importar com o assalto em si, dando muito mais importância ao comportamento de cada personagem, suas ambigüidades, suas reações imprevisíveis, etc.

Neste sentido, o vencedor do Oscar Philip Seymour Hoffman rouba (literalmente) a cena e entrega um personagem extremamente complexo, que ora aparenta ser um homem centrado, porém ambicioso e em outros momentos mais parece um psicopata fora de controle. Tudo isso de maneira contida, sem exageros de interpretação. A cena em que ele transtornado com a notícia que acabou de receber, “destrói” lentamente o seu apartamento, nos faz entender porque ele é um ator tão elogiado. Isso sem falar na relação dele com o pai (as melhores cenas do filme, que em certos momentos flerta com o melodrama, mas no bom sentido).

Em O Plano Perfeito do diretor Spike Lee (outro filme de assalto bem bacana), o que surpreende é a trama bem amarrada e inteligente. Antes que o diabo... tem tudo isso e de quebra ainda explora os aspectos psicológicos dos personagens. Recomendo.

 

                                     

                                                 Ethan Hawke e Phillip Seymour Hoffman 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h52
[] [envie esta mensagem] []



gosto incolor

 

este gosto que gira na tua boca

dizendo que a vida passou;

que você nada fez dos teus dias,

é o gosto da papel amarelando

numa fotografia que a tudo devora e

faz-te apodrecer preso na moldura,

isto é o que te reserva o futuro

já que sonho é apenas lembrança

e a esperança está em preto-e-branco



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h49
[] [envie esta mensagem] []



AMOR E OUTROS PECADOS

QUE SE PODE COMPRAR

Eu já não pensava tanto na Lúcia, na boca da Lúcia, nas coxas da Lúcia, na boceta da Lúcia. No cabelo eu pensava um pouco, só um pouco. É que eu respirava o cabelo da Lúcia quando ela dormia de costas pra mim, essas coisas são foda de esquecer.

            No começo, pouco depois da Lúcia desaparecer, eu comia alguma guria e não conseguia gozar. Então, eu pedia pra a guria ficar de costas, ela ficava de costas e eu pensava nas costas da Lúcia, na bunda da Lúcia, só assim eu gozava de verdade. Mas achava sacanagem fazer isso com elas, então eu só fingia que gozava e escondia a camisinha. Depois ficava olhando pro teto, pensando onde diabos a lazarenta da Lúcia tinha se metido.

            O tempo que sobrava todo dia é que me deixava mais louco. As horas deveriam estar todas preenchidas quando você pretende esquecer alguém, pra não dar chance ao diabo. Mas isso não acontecia e qualquer boteco engordurado parecia melhor que a minha casa, com aquelas paredes caladas crescendo feito unhas e me tornando cada vez menor, insignificante sob os lençóis.

Atrasava o passo, perdia o ônibus, mastigava as refeições com vagar, apagava os textos sem salvar, recomeçava. Recomeçava, pois os dias eram sempre o mesmo dia, dia após dia. E as horas sempre sobrando e tudo faltando. Se um dia achasse a Lúcia, iria matá-la.

            Dormia nadando em rabos-de-galo, absintos e ypiocas. Acordava afogado em restos de comida e de bebida sobre a tampa do vaso, sempre fechada, o vômito secando no canto da boca com o gosto do desprezo de Lúcia.

            Masturbava-me até não mais sentir os dedos, trocava de mão e imaginava mil posições em que Lúcia me deixaria amá-la. Ligava a TV e toda mulher que aparecia na novela das oito estava tirando a roupa, estava olhando para mim, querendo me chupar, com aquela língua já tão familiar. Então eu desligava e apagava a luz, o braço adormecido. Ficava no escuro cheirando meu próprio sêmen, com pena do que sobrou de mim.

            Muitos colegas me falavam do lugar, diziam que seria ótimo para curar minha tristeza, que me faria bem e que eu esqueceria a Lúcia de uma vez por todas. Eu teria vergonha de aparecer lá com todos eles, afinal, eram casados, só queriam farrear, eu não. Então eu fingia estar muito bêbado e no dia seguinte desconversava. Fui num domingo, pois sabia que ninguém conhecido estaria lá.

Comprei o ingresso e mal olhei para o leão-de-chácara à porta, passei por uma piscina vazia (era inverno) e entrei no salão. Estava mais cheio do que eu esperava, os homens e mulheres escondiam-se por detrás da fumaça e das maquiagens exageradas. Algumas mesas abarrotadas de garrafas de cerveja, muitos espelhos e luzes em tons avermelhados. Uma garota acabara de subir ao palco. Sempre faço o sinal da cruz antes de entrar no palco, pois quando eu era pequena via os jogadores fazerem assim antes do jogo, achava bonito. Hoje escolhi “O amor e o poder” da Rosana, todo mundo canta junto, é ótima. Subir aqui dá uma sensação indescritível. Quando estou de costas, ergo bem a bunda e vejo pelo espelho o reflexo de todos os homens me desejando ao mesmo tempo, sei que todos ali querem colocar o pau em algum buraco meu e o que eles podem fazer enquanto estão na platéia é apenas isso, desejar, querer. Despertar esse sentimento é a minha forma de exibir poder e isso me deixa com muito tesão.

Não é arte coisa nenhuma, tem umas colegas que tentam dar um tom chique à coisa toda, dizer que é dança e blá, blá. Pra mim é parte do trabalho de prostituta mesmo, quando eu descer algum cara vai me comer e desembolsar uma boa grana para isso. Não vejo glamour algum e estou há bastante tempo nisso para agora fantasiar historinhas de puta borralheira. Tem menina aqui que acha que vai ser descoberta, que vai dançar no Luciano Huck, no Faustão. É o caralho! deviam ficar contentes por terem o que dar de comer aos filhos. Então se um cara vem com proposta de amor eu mando logo tomar no meio do cu, e não foi uma nem duas vezes que eu já fiz isso. Nem todo mundo precisa de amor nessa vida e eu me viro bem sem ele.

Mas a maioria que vem aqui é pé-rapado mesmo. São os pobres e os feios, são os casados que não fazem sexo com a esposa desde a lua-de-mel, são uns caras de óculos que não comeram ninguém nem mesmo durante a faculdade e vêm aqui com os joelhos tremendo. Esses caras sempre broxam e ficam chorando, é foda ter que fazer o papel de mãe, mas as vezes acontece. Os perdedores e os bêbados, os fracassados e os ninfomaníacos, os fiéis e os infiéis, todos rezam o mesmo evangelho podre e só querem terminar a farra beijando alguma bunda cheia de feridinhas.

Hoje tem pouca gente, os de sempre. O cara da jaqueta de couro falsa, o velhinho de chapéu sertanejo, o Tonico da autopeça e os amigos do Ramalho. O único diferente é o cara de camisa cinza, mas se não me engano eu já falei com ele, ou vi no ônibus, ou estava no mercadinho, ou sei lá.

Terminou a música da Rosana eu fiz o último movimento, um giro de 360º que saiu meio torto, mas até que foi sincronizado. A homarada aplaudiu. Juntei a minha roupa e saí pelo lado direito, enquanto o Rô, o cara do som, anunciava a próxima gatinha. Quando desci as escadinhas o cara de camisa cinza estava me esperando, nem sei como ele deu a volta tão rápido.

Fomos para o quarto de vinte, com banheiro. Falei que o programa era trinta. Ele falou que tudo bem. Ele perguntou o meu nome. Eu disse que era Laura. Ele perguntou se não era Lúcia. Fiquei assustada, como assim? Eu respondi que não era Lúcia, era Laura. Ele perguntou se podia me chamar de Lúcia, mesmo o meu nome sendo Laura. Eu achei esquisito, mas falei que tudo bem, que me chamasse de Lúcia então. Então ele me chamou de Lúcia e tirou alguma coisa de dentro da jaqueta.

Não sei direito, senhor. Achei que ele não tinha dinheiro para pagar o programa, isso acontece às vezes aqui no meu bar, sabe como é, esses bêbados torram o que não tem e daí já viu. Depois do tiro foi um tumulto só, as meninas correram pra dentro do bar e eu não vi mais nada, pensei que ele tinha fugido, mas não. Quando entraram no quarto, encontraram o cara deitado ao lado do corpo dela. Estava todo lambuzado de sangue, com o nariz enfiado no meio dos cabelos da guria.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h58
[] [envie esta mensagem] []



Ian McEwan - Parte III

Tragédia à beira mar

Fechando a seqüência de textos sobre o escritor inglês Ian McEwan, falarei um pouco sobre o seu último livro publicado aqui no Brasil.

 

A narrativa de Na Praia é tão curtinha (pouco mais de 100 páginas) que não dá nem para classificá-lo como um romance e sim como uma novela. Uma boa novela sobre um amor que não deu certo.

Estamos no início dos anos 1960, os jovens que cresceram sob a pressão do conservadorismo agora se deparam com um mundo que abre as portas para a liberdade sexual. Porém, as seqüelas adquiridas pelo contexto social anterior não foram superadas.

Edward e Florence são um casal apaixonado que está em plena noite de núpcias, ambos são virgens e estão confusos com a situação. Ele está ansioso, pois tem medo de decepcioná-la, já que sabe-se um sujeito inexperiente que mal consegue conter o seu desejo pela nova esposa. Ela está preocupada, pois ainda não contou a Edward que sente repulsa ao sexo, que entende o ato sexual como algo nojento e doloroso, algo que se assemelha a uma faca sendo cravada na carne. E ela tem seus motivos para pensar assim.

O leitor descobre o que cada um deles está pensando e logo se envolve no clima de tensão que vai aumentando lentamente, nos deixando ansiosos, pois sabemos que aquilo tudo não vai dar certo. Mais uma vez o autor nos passa a rasteira ao fazer com que nossas suposições sobre o que irá acontecer escorram pelo ralo. Com a ajuda de alguns flashbacks ficamos sabendo um pouco mais sobre o passado recente dos personagens, as relações em família, o primeiro encontro e os planos para o futuro. Não cabe aqui detalhar essas informações para não estragar a interpretação que cada um fará dos acontecimentos, mas é óbvio que passamos a melhor entender o comportamento do casal depois disto. Ambos são representantes involuntários da quebra de um período de inocência (acho que ‘período de castração’ fica melhor, pois até mesmo o diálogo sobre sexo era um tabu), sobre a qual não possuem nenhum controle, sendo assim eles sabem que estão diante de uma panela de pressão prestes a explodir e para piorar nem mesmo conseguem verbalizar os seus medos.

O bacana é que McEwan coloca o leitor na condição de voyeur, como se ele estivesse escondido num canto da suíte nupcial e assistisse a todos os detalhes da discussão. As minúcias de cada movimento corporal são descritas com grande habilidade, cada gesto dos personagens acaba representando uma tentativa nula de ocultar o pavor que vai tomando toda a situação.

É interessante que o autor utilize praticamente todas as páginas descrevendo o acontecimento que dura poucas horas e reserve apenas duas ou três páginas para relatar as conseqüências, descrevendo rapidamente o que aconteceu nos anos seguintes. Isso me fez pensar no impacto que um gesto breve do passado pode causar no futuro. A investigação do detalhe abre uma perspectiva muito mais rica para repensar nossas vidas numa visão mais abrangente, mas não como forma de encontrar justificativas ou redenção e sim como uma maneira de tentar entender certas motivações, pois algo que em uma época foi considerado apenas um gesto imaturo, pode contaminar toda uma existência. Aqui Ian McEwan retoma o tema desenvolvido em Reparação e acerta em não nos apresentar uma perspectiva otimista sobre a possibilidade de consertar os nossos erros, pois são basicamente eles que decretam quem nós realmente somos no presente. Negar o passado seria um erro imperdoável e McEwan, um experiente escritor, não cai na armadilha.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h24
[] [envie esta mensagem] []



Ian McEwan - Parte II

SOBRE CRIMES E CASTIGOS

È bastante comum encontrarmos referências a Ian McEwan em jornais e revistas como sendo o autor do “melhor livro da década”. Guardados os exageros, dá pra dizer que Reparação é um brilhante trabalho de um escritor que sabe muito bem o que faz com as palavras (mas não que este seja o melhor livro, até porque eu gostei bem mais do Sábado).

O livro inicia pouco antes da 2ª Guerra e percorre três fases da vida de Briony Tallis, uma jovem muito criativa que ambiciona ser uma escritora famosa e que invariavelmente ficcionaliza praticamente tudo o que vê.

Não é à toa que há uma epígrafe de Jane Austen antes do primeiro capítulo, pois o que temos aqui é um romance de época bem ao estilo da aclamada escritora inglesa, porém não se trata de mera repetição de estilo, pois McEwan vai além e empresta um toque de modernidade à narrativa. Isso ocorre devido à feliz opção do autor em narrar os fatos a partir de diferentes pontos de vista. Ou seja, a mesma cena é mostrada de ângulos diferentes (ecos do cinema?) proporcionando interpretações diferentes para o mesmo fato. Aliás, esta é a chave do livro e também o que há de mais bacana nele, pois desta forma o escritor foge do maniqueísmo e proporciona maior dignidade à personagem (afinal, julgá-la como sendo boa ou má não é lá uma coisa muito fácil, depois que ‘enxergamos’ as coisas do ponto de vista dela), que comete um grave erro na infância, erro este que irá modificar a vida de todos os personagens da trama.

Briony vê, ou acha que vê, sua irmã mais velha, Cecília, sofrer assédio de um dos empregados da mansão em que mora. Este fato soma-se a uma série de infelizes coincidências (que alguns momentos soam bem forçadas, mas a gente finge que não vê, pois a essa altura já estamos ‘grudados’ na história) que acabam por encaminhar a trama para um clima de tensão e sensualidade, cujas conseqüências já prevemos que sejam trágicas.

Este é um livro sobre o arrependimento, sobre a impossibilidade de consertar as falhas cometidas no passado. É uma obra que investiga as particularidades psicológicas de praticamente todos os personagens, até mesmo daqueles que no cinema seriam ‘apenas’ coadjuvantes tratados de forma superficial (bom exemplo disto são os irmãos gêmeos que no livro possuem características muito interessantes e no filme apenas ‘cumprem tabela’ e logo são esquecidos). O narrador onisciente em terceira pessoa explora o fluxo de consciência de cada personagem de maneira deslumbrante; como por exemplo, a inconstância da ‘verdade’ defendida por Briony, os pensamentos de sua mãe, que permanece deitada em seu quarto enquanto identifica cada movimento da casa apenas pelos sons das pessoas movendo-se, os detalhes que permeiam a cabeça dos jovens soldados em meio a tantas desgraças, a mistura de sentimentos que confundem o coração de Cecília. Enfim, são detalhes saborosos que dão consistência e verossimilhança aos personagens, fazendo que compreendamos melhor suas atitudes.

 

                                              

                                                                                                  Cena do filme "Desejo e Reparação"

 

O livro foi adaptado com sucesso para o cinema (recebeu 7 indicações ao Oscar). A versão para a telona até que ficou legal (em termos de trilha sonora, ambientação, cenários, fotografia, enredo, eu diria que ficou perfeito, mas também pudera, os caras torraram um dinheirão com a produção). Mas o que há de mais bacana no livro são as reflexões dos personagens, suas digressões e devaneios, coisa que não acontece no filme. Ao optar por apenas contar a ‘historinha’ o filme perde alguns pontos, mas não deixa de ser muito bom. O grande destaque é a cena da guerra, quando os soldados retornam para a praia e aguardam resgate. A câmera passeia em meio a centenas de figurantes, animais, carros e casas destruídas, numa seqüência minuciosamente ensaiada de uns 10 minutos ou mais de duração, tudo isso sem cortes! Um desbunde técnico que merece ser conferido.

Mas se puder escolher, fique com o livro, é óbvio.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h59
[] [envie esta mensagem] []



Ian McEwan - Parte I

Clássico comtemporâneo

Vencedor do Booker Prize

O bacana de ser um rato de sebo é que quando você está procurando alguma coisa específica, nunca acha, mas acaba esbarrando em outras obras que acabam te surpreendendo. Foi em meio ao labirinto de lombadas coloridas, capas duras, brochuras e traças, enquanto eu procurava alguma coisa de lingüística, que eu acabei encontrando o livro Sábado, do inglês Ian McEwan. E até então eu sabia apenas que ele era o autor do livro que inspirou o filme Desejo e Reparação (indicado ao Oscar de melhor filme). Pois bem, Sábado foi tão arrebatador para mim que logo mergulhei em outras duas obras dele que estão disponíveis nas livrarias Reparação e Na Praia.

Farei então durante esta semana três posts a respeito de cada um deles. Começando pelo melhor de todos:

 

 

SÁBADO

 

 

Assim como em Ulisses de James Joyce, a narrativa de Sábado percorre ‘apenas’ 24 horas da vida de um homem.  Se o recurso não é original, temos que admitir que seja, no mínimo, corajosa a tentativa de descrever e, sobretudo, refletir a respeito de cada detalhe de um dia na vida de uma pessoa. Como fazê-lo sem que o leitor desabe tomado pelo tédio em cima do livro? Ian McEwan sabe. 

Afinal, como resistir a um trecho tão provocante como este:

 

“... Perowne adota a opinião tradicional – a busca da utopia termina por autorizar toda forma de excesso, todos os meios cruéis, em vista da sua realização. Se todos estão certos de que, no fim, vão ser felizes para sempre, que crime pode haver em massacrar um milhão ou dois, hoje?”

 

Além de utilizar uma narrativa bastante elegante, principalmente nas descrições de pessoas e lugares, coisa que provavelmente aprendeu lendo seus conterrâneos ingleses do séc. XIX, o autor aborda inúmeros temas como invasão do Iraque, política, violência urbana, conflitos familiares, literatura, blues, etc, construindo assim um painel muito interessante da sociedade moderna pós -11/09.

Estamos no dia 15 de fevereiro de 2003, o neurocirurgião Henry Perowne, casado e pai de dois filhos, acorda de madrugada e vai até a janela do seu quarto, observa a cidade ainda vazia enquanto pensa sobre o que fará nas próximas horas. Desconfia que este não será um sábado qualquer, pois as ruas logo se encherão de manifestantes que irão protestar contra o apoio da Inglaterra à invasão do Iraque, manifestação esta que ele não faz questão de participar. Além disso, pela frente ele ainda tem uma partida de Squash com um colega de trabalho, o trânsito lotado no caminho até o mercado, pois deve comprar um pouco de peixe para o jantar e ainda preparar a recepção ao sogro e à filha, que estão retornando da França. Ainda à janela, ele se surpreende ao observar um avião pegando fogo cortar o céu de Londres. Será um novo ataque terrorista?

O clima de tensão e suspense é orquestrado com competência por McEwan, que eleva ainda mais a sua obra ao descrever com detalhes saborosos as minúcias dos devaneios e digressões do personagem. É ao ‘entrar’ na mente dos personagens que o romance tem seus melhores momentos:

 

Filho de Perowne, ao refletir sobre o pensamento, digamos ‘desarraigado’, dos jovens com relação à guerra:

 

“Quando a gente olha para as coisas grandes, a situação política, o aquecimento global, a pobreza do mundo, tudo parece mesmo horrível, nada está melhorando, não há nada de bom para esperar. Mas então eu penso nas coisas pequenas, próximas... sabe como é, uma garota que acabei de conhecer, ou essa música que a gente vai tocar (...) e aí parece ótimo. Então, o meu lema será este: pense nas coisas pequenas”

 

 

Ou ainda Henry pensando na relação da filha, uma poetisa, com a literatura (este parágrafo é uma das coisas mais bonitas que li recentemente em um autor contemporâneo):

 

“Quando a família saiu para passear pelos campos, numa tarde, deixaram-na com as últimas quarenta e uma páginas do livro. Quando voltaram, a encontraram chorando, debaixo de uma árvore, perto do pombal, não por causa da história, mas porque tinha terminado, e ela saíra de um sonho, para se dar conta de que tudo era criação de uma mulher que ela jamais conhecera. Chorava, explicou Daisy, de admiração, de alegria, por coisas assim poderem ser inventadas”

 

Perowne é médico, pensa de uma maneira completamente diferente de sua filha, aliás, o diálogo entre os dois é o ponto alto do livro na questão da discussão política. Ele tem uma visão mais objetiva da vida, dentro da qual tudo deve ter uma resposta ou um método, assim como em suas cirurgias (descritas com uma riqueza de detalhes absurda, pois McEwan freqüentou um hospital e entrevistou neurocirurgiões durante dois anos antes de começar a escrever o livro, todo esse trabalho valeu à pena, acredite). O melhor de tudo é que o escritor não poupa talento e lança mão de uma história totalmente imprevisível, com momentos que frustram a expectativa do leitor (ainda bem), com quebras inesperadas do ritmo narrativo, e outros que causam encantamento dada a percepção de fragilidade da vida.

Desta forma, o apelo político que poderia ser explorado até se esvaziar na mão de algum autor inexperiente, aqui serve apenas como plano de fundo. A marcha de manifestantes está sempre ao longe (e ao mesmo tempo tão próxima!), pois o que realmente salta aos olhos durante a leitura são as questões humanas de caráter, de medo e de equívocos, enfim, as questões universais.

A construção das nuances de cada personagem é excelente. Ao apresentar a fidelidade do médico para com a esposa, como uma coisa deslocada de seu tempo, fora dos padrões modernos, Ian McEwan sugere uma boa reflexão a respeito da literatura contemporânea, na qual a exploração de personagens ‘à margem da sociedade’ ou ‘de caráter duvidoso’ já se tornou recorrente, talvez até demasiadamente recorrente. Há coisas boas é claro, não quero generalizar, mas é algo que infelizmente tem gerado desgastantes repetições de idéias, afinal, somos todos assim tão ruins? Somos o tempo todo cruéis e infelizes? Talvez sim, mas é bom saber que alguém pensa diferente às vezes. As construções destas nuances são tão boas que, quando terminei o livro, fiquei pensando em Perowne não como elemento de um livro e sim como alguém que realmente existe e está lá, em sua casa, em algum lugar de Londres, olhando pela janela e pensando sobre a sua vida e a de todos nós.

Que bom por “coisas assim poderem ser inventadas”.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h27
[] [envie esta mensagem] []



PALAVRA NA VEIA

O cara usa a primeira vez por curiosidade, se tem tanta gente que diz que o negócio é bom, talvez seja mesmo. Se escolher bem o produto, ele viaja por um tempão, tanto que não quer nem mais voltar. Mas se escolher mal resolve deixar de lado, isso não é pra ele não.  A segunda vez já ocorre por influência, vê alguém usando e fica com vontade, chega a dar água na boca. Da terceira vez em diante já não tem mais jeito, o cara se entrega ao vício e não consegue viver sem ele.

Eu comecei de leve, com um pouco de Stephen King e Agatha Christie, só para experimentar. Usava todo dia, só pra curtir, não conseguia dormir direito se não desse um tapinha de dois ou três capítulos. Nessa fase qualquer bosta que caía na mão era legal, achava que tudo era ótimo, até Paulo Coelho era o máximo.

Mas aí o tempo passou e eu percebi que aquilo ali era muito pouco para destruir meus nervos e meus neurônios, tudo muito fraco, aquilo já não estava fazendo mais efeito na minha cabeça. Parti então para uns troços mais pesados, que os caras mais fodões já usavam, tipo Graciliano Ramos e Machado de Assis. Usei escondido, nos intervalos das aulas ou trancado no meu quarto. Foram dias em que fiquei completamente chapado, num êxtase que parecia não ter fim.

Como não tinha dinheiro para comprar e não gostava de ficar emprestando as minhas paradas, comecei a roubar. Comecei pela biblioteca da escola e depois fui para a municipal. Escondia tudo no fundo do guarda-roupa para minha mãe não pegar e depois usava quando sentia vontade, em qualquer horário da madrugada.

Fiquei pirando nessas paradas durante um tempão até perceber que esses caras brasileiros usavam uns caras de outros países. O grande lance então era os gringos, principalmente os das antiga. Foi então que usei um pouco de francês, Zola eu acho, durante uma semana sem parar, fiquei bem louco e emendei com um tanto de Flaubert e Balzac. Quando dei por mim, eu já nem sabia quem eu era direito, andava pra lá e pra cá com um Dostoievski escondido na mochila.

Para quem não está nessa vida ou que nunca tenha usado essas coisas, talvez seja difícil entender o que se passa na cabeça da gente. O cara que se revira na cama depois de ter usado Clarice Lispector ou Kafka, faz isso não porque é um fraco e sim porque não suporta a vida assim como ela é, esse amontoado de dias sem graça, em desgraça.

A tendência é piorar. O cara vai se degradando e se destruindo aos poucos. Não dá pra levar uma vida feliz depois de usar Germinal, por exemplo, pois ele age diretamente nos neurônios e te coloca num estado de destruição irrecuperável.

Quem entra nessa parada sabe que o caminho é escuro e sem volta. O problema é que quem já está nessa vida sabe que este é o único caminho possível. E fica contente, por desconfiar que seu vício seja uma coisa boa, talvez a única coisa boa na sua vida.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h37
[] [envie esta mensagem] []



LONGE DELA

Com o novo Indiana Jones e o Homem de Ferro dominando praticamente todas as salas de cinema, sobra pouco espaço para filmes mais autorais no circuito nacional. Mas este pouco espaço que resta é muito bem aproveitado por um pequeno grande filme chamado Longe Dela.

 

É de se estranhar que um filme protagonizado por atores sexagenários seja dirigido e roteirizado por uma jovem de apenas 28 anos. Porém, em seu filme de debute, Sarah Polley, demonstrar ser dotada de bastante maturidade e, principalmente, muita sensibilidade para contar a história de Fiona (a sempre bela Julie Christie, aos 66 anos, indicada ao Oscar pelo papel) e Grant (Gordon Pinsent).

A trama é bem simples, um casal que está junto há 44 anos vê sua relação ser abalada pelo Mal de Alzheimer. Ao ver a esposa guardar uma frigideira na geladeira e esquecer a palavra “vinho” mesmo estando com uma garrafa na mão, Grant percebe que muitas dificuldades estão por vir, mas tenta negar o problema que se aproxima. Contudo, como é de se esperar, a doença avança e vai aos poucos corroendo a memória de Fiona, que sente medo, por exemplo, de esquecer a cor amarela, a mesma cor de uma flor que ela admira muito. O filme é basicamente sobre isso, sobre ver o amor da sua vida se extinguir e não poder fazer nada para impedir.

A história, embora contada do ponto de vista de Grant, é apresentada de maneira não linear, o que nos ajuda a melhor compreender a sensação de “quebra-cabeça” que é a memória fragmentada de Fiona. Descobrimos informações importantes sobre o passado do casal à medida que o filme avança, pois narrativa segue os passos da doença, que parte da memória recente e avança apagando as memórias mais antigas. Desta forma, nada vem mastigado para o espectador, que se deslumbra com uma fotografia magnífica (por que filme que tem neve geralmente é tão bonito?) enquanto acompanha o angustiante desenvolvimento dos personagens que rumam por caminhos cada vez mais tortuosos. Percebemos então que os personagens são um tanto quanto ambíguos e que aquele amor, pode não ser assim tão perfeito quanto parece.

Mas o que realmente impressiona e talvez torne o filme obrigatório, é a honestidade do sentimento que Grant nutre por Fiona. Não posso falar muito sobre isso sem estragar as “surpresas” do roteiro, mas basta dizer que é uma das coisas mais poéticas que vi no cinema recente.

A genialidade do filme está mesmo nas atuações impecáveis, tanto dos protagonistas quanto dos coadjuvantes (a cena da mulher sentada à mesa, olhando para o nada, tentando segurar o choro, enquanto ouvimos o telefonema que ela acabou de dar, é de cortar o coração, e é mais uma prova da qualidade dos atores e da boa direção). O mesmo acontece na cena em que Grant tenta fazer Fiona se lembrar do livro que ele sempre lia quando estavam juntos. Neste momento a atuação de Julie Christie, tentando formular o que está pensando, mas apenas repetindo frases soltas, é memorável, pois o seu olhar exprime de forma arrebatadora o sofrimento das pessoas que sentem suas vidas se esfarelarem ao passo que permanecem “presas” dentro de seu próprio corpo.

 

Você pode preferir os efeitos especiais incríveis e as boas histórias dos blockbusters citados (eu até gostei do Homem de Ferro, achei melhor do que eu esperava e o Indiana Jones ainda não vi), mas com absoluta certeza nenhum deles proporcionará um experiência tão incrível e tão humana quanto Longe Dela.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h32
[] [envie esta mensagem] []



BELO DIA PARA UM SUICÍDIO

["Estava especialmente tranqüilo desta vez e não desacelerou o processo, como sempre fazia com intuito secreto de dar chance para o arrependimento covarde. Com destreza fez o nó, subiu na cadeira e passou a corda pelo pescoço"]

   É irônico que isso tenha acontecido em uma tarde de tanto sol, pois tanto a morte, quanto Curitiba não combinam com roupas coloridas e rostos felizes. Talvez fosse esse tipo de discrepância que rondava a mente daquele homem, enquanto ele apertava o nó com a destreza de um marujo experiente. Pudera, foram tantas as tentativas.

   A pequena janela abocanhava seu pedaço de claridade que escapava através das frestas dos prédios da Lamenha Lins. A sensação se assemelhava a de um forno recém aberto, mas sem o cheiro de comida como consolo. O homem sentia em seu buço a formação daquelas pequenas gotinhas irritantes, que teimavam em salgar os lábios, enquanto pensava nos parques que estariam lotados àquela hora. Ele imaginava as senhoras do Batel e seus óculos enormes, com maquiagens multicoloridas escondendo seus rostos enquanto passeavam pelo Jardim Botânico ou pelo Barigüi, “com seus cachorros de revista que cagam em tudo enquanto as donas cagam pra tudo”, como costumava dizer um colega seu. No Passeio, os irritantes sorrisos de porcelana se repetindo, como se fossem feitos para revender. Agora até seu tédio diante da vida parecia estar na prateleira, pois não era só com ele que isso acontecia, na verdade ninguém mais suporta a felicidade alheia. Quem sabe o ritmo de competição, comum nestes tempos de capitalismo corrosivo, tenha desregulado alguma coisa dentro das pessoas, a sensação térmica talvez, pois a sensação de frio ocorria mesmo em dias insuportavelmente quentes como aquele.

 

   Considerava-se um sujeito crítico e justamente por isso levou uma vida que poderia ser classificada como fracassada. O livro que ambicionava escrever ruiu na página oitenta, perdido em imbróglios sintáticos e enredos excessivamente herméticos. Nunca permitiu-se ir adiante com algo medíocre, suas produções deveriam ser perfeitas ou não deveriam existir. A segunda opção prosperou. E agora percebe que foi um erro ter largado as aulas no colégio particular, pelo menos na gramática cada coisa parecia estar em seu devido lugar. Sabe que, a esta altura, ler as pilhas de livros que se espalham pela casa não daria conta de garantir três refeições diárias para sua família.  O salário que a esposa recebia como professora do estado era a única fonte de renda da casa. O filho de nove anos teve que voltar para a escola pública e naquele momento estava à mesa da cozinha, fazendo a lição de casa.

   Aquele homem tinha consciência de que suas vaidosas ambições literárias acabaram por decretar a ruína de sua família. Desta forma, pensava em suicídio com mais freqüência do que uma pessoa normal, pois as pessoas normais insunuam-se com giletes e venenos apenas quando suas vidas fraquejam e então se dão conta da noção de ‘câmbio automático’ que é a existência, e mesmo assim, isso não passa de um recurso retórico para inspirar a piedade dos seus. Essas pessoas nunca vão adiante com seus sonhos, pois consideram o argumento contrário mais cômodo, elas bastam-se em suas justificativas e seguem em estado de repouso. Mas dentro deste microcosmo mesquinho, ele considerava-se singular, percebia a morte como algo necessariamente empírico e não apenas especulativo, via de regra bastava-lhe alguma alegria sufocante, como o sorriso do filho, para que ele se imaginasse borrado de sangue no piso do banheiro. Não se julgava digno deste amor absurdamente sincero e era apenas esta autocrítica que seu discurso egoísta lhe permitia. Pensava em desistir da vida justamente por não conseguir aceitar as coisas boas que ela lhe proporcionava e isso, segundo ele próprio, o fazia diferente dos demais.

   Tentou suicidar-se diversas vezes. Em todas elas algo deu errado, mas não foram apenas comprimidos insuficientes ou cortes muito superficiais, na verdade, era sua coragem que vacilava diante da alternativa que tantos consideravam como sendo “a mais fácil para resolver todos os problemas”. Para ele, o suicídio era um gesto de bravura.

   Desde que comprou o rolo de corda no começo do ano, faz e desfaz o nó como quem amarra o cadarço do tênis, pensando que talvez a repetição o levasse à naturalidade. Desta vez estava decidido a levar o plano a cabo e a sensação de calor insuportável o impelia a acabar de uma vez por todas com aquele inferno. Com uma talhadeira e um martelo, arrancou partes do forro para afixar a corda em um caibro forte, que obviamente conseguisse sustentar o peso do seu corpo. Disse para o filho que estava arrumando a rede elétrica, o menino deu de ombros. Estava especialmente tranqüilo desta vez e não desacelerou o processo, como sempre fazia com intuito secreto de dar chance para o arrependimento covarde. Com destreza fez o nó, subiu na cadeira e passou a corda pelo pescoço. Pensou, não sem tristeza, que lá fora a cidade acontecia de maneira natural, alheia às tragédias que cada lar escondia sob o segredo de suas paredes. 

  

   O filho não sabia se a palavra “descansar” era com “s’ ou cedilha e resolveu perguntar ao pai. O silêncio que se sucedeu após a barulhenta destruição do forro não causou estranheza no menino, afinal o pai sempre ficava ali no quarto dos fundos, quieto lendo alguma coisa e não gostava muito de ser incomodado. Bateu duas vezes e abriu a porta, o bafo do calor enclausurado soprou pelo seu rosto e a primeira coisa que o menino viu foi o bilhete sobre a escrivaninha.

   Depois, observou o redor, o quarto estava vazio, mas ainda exalava o cheiro de suor que lhe era familiar. No teto, o buraco incompreensível do forro se assemelhava à boca desdentada de algum monstro estúpido, desses de desenho animado. Correu os olhos pela letra arredondada do pai, que informava que ele fora caminhar na praça, para descansar um pouco a cabeça e que logo voltava. O menino foi para a cozinha rindo daquela coincidência, já desconfiava mesmo que se escrevia com “s”. Ele adorava aqueles bilhetes. Voltou para sua lição e mal se deu conta do rolo de corda que jazia no canto da cama, com o nó desfeito.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h20
[] [envie esta mensagem] []



VIDA EM RASCUNHO

 

 

adoecem-me nos olhos

os parcos sonhos

que ousei desenhar

 

poesia que apodrece,

numa sina vaidosa

de querer tudo versar

 

sangra por entre versos

este pobre lamento

por alguém que não pude amar

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h18
[] [envie esta mensagem] []



 

FÁBULA DE ISOPOR

O MENININHO CINZA

                                                                                            Oswaldo Goeldi - “Beco”

     Era uma vez um menininho cinza. Um menininho cinza muito esperto, que sabia dançar, que sabia se esconder, que sabia fazer malabarismos, que sabia até dormir com o pé gelado. O menininho cinza morava numa cidade enorme e quando passeava pelas ruas ele não era notado, pois sua pele era da mesma cor que o asfalto, que os prédios e que o céu. Sendo assim, ele gostava de brincar de homem-invisível. Passava perto das pessoas, falava qualquer coisa e elas logo fugiam assustadas. De certo um fantasma, talvez eles pensassem. E ele ria. Certa vez, numa destas certas vezes em que lhe doía a barriga, passou por uma feira e viu um cachorro roendo uma coxa de frango que alguém descartara no chão. Sua boca encheu-se de água. O menininho aproveitando-se de sua invisibilidade foi até o bicho e roubou-lhe a comida, mas para sua surpresa ele o enxergou e não gostou nada nada daquilo, pois rosnou mostrando-lhe os dentes afiados. O cachorro disse-lhe algo, afinal era uma fábula, mas o menininho cinza não entendeu. Rapidamente todas as pessoas que estavam na feira olharam para a pequena figura que estava com a coxa de frango na mão. Ele não estava mais invisível. Aqueles olhos eram olhos de condenação ou de pena, não se sabe. O menininho cinza ficou confuso e sentiu-se muito envergonhado. A solução era sair dali. Então ele correu, correu, correu até não mais sentir a sola dos pés. Entrou num beco e enfiou-se numa caixa de televisão, seu esconderijo secreto. Naquele dia, naquele Era uma vez, o menininho cinza ficou triste, mas também ficou contente. Triste porque perdeu os seus super-poderes e contente por ter ficado com a coxa de frango.

 

MORAL DA HISTÓRIA: "O que é do bicho, o homem come"



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h59
[] [envie esta mensagem] []



o amor na gaveta

plásticas partes de mim

que justapõem

inconstâncias constantes

 

são lápides - a cada dia um epitáfio

que lembra cada lembrança:

a dança, a lança...

 

um sem fim de palavras

e facas



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 17h28
[] [envie esta mensagem] []



HERDEIROS DO CRÉU

 

            Recentemente ouvi uma mulher comentando com a amiga que seu filho de dois anos sabia dançar o novo hit-acéfalo do momento, a tal “Dança do Créu”. Ela estava muito orgulhosa pela desenvoltura do garoto que simulava perfeitamente as posições sexuais sugeridas pela música. Os pais aplaudiam e a criança repetia.

            Quando pensávamos que a dança da “Boquinha da Garrafa” seria o fim do mundo, vêm os novos poetas do funk carioca e nos surpreendem com uma nova obra-prima significativa para cultura nacional. Esta é a herança maldita que deixaremos para a geração seguinte, mais conhecida como Futuro da Nação? É claro que sim, o que mais temos a oferecer?

            Se no turbulento ano de 1968 os jovens de todo o mundo saiam às ruas para protestar contra tudo e contra todos (foi nessa época que inventaram o famoso esporte Lançamento de Paralelepípedo), defendendo o livre pensamento, questionando os valores políticos e éticos (sim, são coisas diferentes) de sua geração. No ano 2008 as únicas cenas em que vemos jovens reunidos por uma causa é em dia de jogo. E o esporte aprendido quarenta anos antes continua sendo praticado, o que mudou foram as motivações e os alvos.

            Nos anos 80 Cazuza lançou um olhar para o passado “meus heróis morreram de overdose”, Renato Russo apontou para o futuro “mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão, quando vendermos todas as almas