NÃO ERA UM FERRORAMA

 

De volta para casa, derreto no banco do ônibus lotado enquanto tento dar movimento e sabor às palavras de um romance do século XIX. Não funciona. A senhora logo atrás de mim reclama da dor nas articulações. O sujeito ao meu lado lamenta a falta de reconhecimento no trabalho. O motor esbraveja, o ar que entra é insuficiente, todos falam ao mesmo tempo e ninguém ouve ninguém.

O livro à mão era a minha fuga, mas parece que as sirenes da prisão foram ligadas e alguém grita ao megafone: como ousa tentar fugir assim da vida real? Há o fone de ouvido, mas, assim como no clichê dos filmes, no momento de maior perigo a bateria do celular acaba.

Resta a janela. E o olhar que pousa no lado de fora também carrega meu espírito para lá.

Tal como um respingo na tela do pintor, surge na estrada uma imagem que não fazia parte da paisagem original: um carro parado no viaduto, o sinal de alerta ligado. Um palavrão vem à boca antes mesmo de passar pelo cérebro, mas eis que surge outro respingo que cala meus lábios: mais adiante, talvez no meio da ponte de concreto, um homem segura uma criança no colo.

O ônibus desvia do carro ao mesmo tempo em que buzina. Não xinga, não briga nem nada, o motorista já calejado de erro dos outros. Mas o homem não está pretendendo jogar a criança de lá como teria antecipado um jornaleco sensacionalista.

Na verdade, ele apenas aponta o dedo para frente – e o olhar curioso do menino imita o detalhe do gesto feito pincel - até alcançar um trem que passa apitando lá embaixo. Por alguns segundos minha mente é invadida por memórias que nunca aconteceram, lembranças de uma infância que não existiu. A boca salivando, inundada por um gosto bom de faz-de-conta. Senti o cheiro de livro novo, de literatura que subitamente se atreve a bailar fora das páginas. 

O trânsito segue, o ar se torna mais respirável e os dois ficam para trás sem saberem-se ficção. O filho está sorrindo. Ou talvez não. É provável que eu tenha apenas inventado esse sorriso que não está nele, mas sim em mim e ele agora me escapa toda vez que relembro a imagem do pai que parou abruptamente o carro no meio do viaduto para poder mostrar ao filho um trem que não era um Ferrorama, nem uma ilustração de livro e nem desenho animado. Aquele era um trem de verdade.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h56
[] [envie esta mensagem] []



Cinema: Anticristo

ANTICRISTO

 

Não se preocupe. Esse não é um filme sobre o capeta ou sobre o Marilyn Manson. Não há rituais satânicos nem crianças vomitando coisas verdes na cara das pessoas. O anticristo aqui é o sexo, ou melhor, o sentimento de culpa decorrente de nosso impulso animal.

Las Von Trier não é um diretor que aposta no convencional (quem já assistiu ao teatro-filme genial Dogville sabe disso). Seu objetivo é fazer as pessoas refletirem sobre a condição humana, sempre de um ponto de vista bastante realista (ou pessimista), além disso, também fica muito clara a intenção de chocar a platéia e causar desconforto. Com Anticristo, ele alcança mais o segundo objetivo do que o primeiro. Afinal, cenas de sexo explícito, de animais abortados e de mutilação vaginal não são coisas a que você assiste todo dia não é? (não é ??).

A história é a seguinte: uma criança morre no exato momento em que os pais estão fazendo sexo. A esposa carrega consigo um enorme sentimento de culpa, um luto que não se dissipa. O marido, psicanalista, resolve levá-la para a floresta do Éden (sim, a referência é explícita) para tentar uma nova forma de tratamento. Isolados num lugar que os remete a lembranças marcantes, os dois acabam tendo que enfrentar os seus demônios (não, não são esses de chifres que você está imaginando), num elaborado suspense psicológico com pitadas de Jogos Mortais.

 

 

O ponto negativo fica por conta do desenvolvimento arrastado entre a morte da criança e ida do casal à floresta e também pelo choro com pinta de dilúvio da protagonista (que ganhou prêmio de melhor atriz em Cannes), pois é extremamente repetitivo.

Por outro lado, o início com fotografia em preto e branco é de uma beleza e de uma delicadeza raras no cinema atual (e olha que essa é uma das cenas de sexo explícito). Anticristo é um filme que incomoda, ou seja, é uma obra que não possibilita indiferença ou apatia. Desta forma, se esse não é um trabalho genial, pelo menos tem o mérito de provocar reações, sejam elas boas ou ruins.

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h03
[] [envie esta mensagem] []



Crônica: A Malvada Vox Populi

A MALVADA VOX POPULI

.

 

Entre o tumulto de revistas apinhadas na prateleira da banquinha de revistas, uma se destaca. Ela traz na capa a curiosa manchete: “Público pede a morte de Helena”. Não sei o nome da publicação, mas é dessas que funcionam como uma espécie de horóscopo de novelas, que anteveem o futuro dos mocinhos e das mocinhas dos folhetins.

A tal Helena não é a de Tróia (que me desculpe o novo acordo ortográfico, mas Tróia sem acento fica muito feia) e sim a heroína da novela de Manoel Carlos, interpretada pela bela Taís Araújo. Não tenho assistido (ou seria “acompanhado”?) “Viver a vida”, por falta de tempo e principalmente porque essa high society carioca do Maneco pouco me inspira curiosidade. Mas acho interessante o fato do público querer matar a pobre (opa, ela é rica né?) personagem. Quando vi a revista logo me veio à mente a cena de algum filme bíblico, as pessoas reunidas gritando o imperativo pouco natural para um povo iletrado: “Cricifica-o, crucifica-o!” (até hoje tenho medo dessa gente).

Essa ilusão de poder divino é um efeito fascinante que a ficção proporciona. A já batida comparação de que o escritor é o Deus da história que está escrevendo (podendo até criar terremotos, tsunamis e doenças medonhas para matar seus personagens inocentes quando bem entender) perde um pouco da sua força quando se trata de uma novela.

O novelista é um Deus assalariado que não manda na sua própria história, pois tem sempre que estar atento a um poder ainda mais elevado: o ibope. É como se O Todo Poderoso tivesse que dar continuidade a sua obra conforme análise de um indicador de popularidade ou de satisfação do cliente. Nesse caso, não dá pra dizer que “a voz do povo é a voz de Deus”, principalmente se verificarmos que, se o público quer que uma personagem morra, então podemos afirma que provavelmente ele (o povo) pertence a outro plano, que não é lá muito divino.

O fato é que as pessoas gostam dessa ilusão de poder, caso contrário os Reality Shows não fariam tanto sucesso. Deixamos aflorar o psicopata sanguinário que existe dentro de nós, quando sabemos que podemos eliminar alguém da “nossa vida” com uma simples ligação a 30 centavos o minuto. Afinal, o verbo “eliminar” carrega consigo uma carga de poder muito tentadora.

Estamos lá sentados no alto do nosso trono/sofá e não achamos graça nas estripulias do bobo-da-corte/Protagonista da novela. Para evitar o enfado, ordenamos então que eles sejam guilhotinados (não sem antes bocejar um pouquinho). E logo depois mandamos entrar o próximo. Afinal, controle remoto e lâminas afiadas servem para essas coisas.           



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h39
[] [envie esta mensagem] []



Cinema: Bastardos Inglórios

TARANTINO, UM CARA "SANGUE NO ZÓIO"!

.

 

 

Quentin Tarantino é o nerd ex-atendente de locadora mais querido e odiado pelos cinéfilos de todo o mundo. Faça o teste: Assista Kill Bill vol. 1 ou Cães de Aluguel, se você não gostar (talvez até odeie), então não adianta nem tentar ver os outros trabalhos do cara, inclusive esse último. Contudo se, assim como eu, você ficar completamente fascinado por esse alucinado mundo de violência e referências pops, então seja bem vindo ao clube e prepara-se para mais uma obra inesquecível.

Bastardos Inglórios é sobre um grupo de soldados americanos (sim, para variar eles acham que podem resolver tudo) que caçam nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Há também as histórias de uma judia que sobrevive a uma chacina e de um pequeno cinema que receberá a o lançamento de um filme sobre os grandes feitos da raça ariana. E tudo isso convergirá para um apoteótico encontro ao final da projeção.

 

 

Embora consiga criar imagens memoráveis (a dança estilosa ou o “tiro acidental” de Pulp Fiction, a tortura em Cães de aluguel, o “sexo rápido” em Jackie Brow, a luta dentro do trailer em Kill Bill vol. 2, entre tantas outras), Tarantino é um cineasta que privilegia o verbo e está na construção poderosa dos diálogos, que transitam facilmente entre o genial e o banal, grande parte do seu imenso talento. Curiosamente é justo esse ponto que desagrada seus desafetos.

Privilegiar a palavra pode soar ruim para aqueles que entendem o cinema como uma arte apenas visual. Grande parte dos críticos de Tarantino ataca exatamente esse ponto, para eles os diálogos “tarantinescos” são muito extensos ou desnecessários. Pura bobagem. Como o próprio diretor já disse, a ideia é se divertir e recriar a realidade. E nessa realidade os gângsters não ficam o tempo todo falando sobre a vida de gângsters, os bandidos não falam só sobre assaltos como se tivessem que seguir um script para entreter alguém que os assiste, pois obviamente eles não sabem que estão num filme, então, assim como todos nós, ele conversam sobre outras coisas da vida, banalidades principalmente.

  Esses diálogos seriam desnecessários se fossem meras redundâncias daquilo que já estamos vendo (ok, em Bastardos Inglórios, isso ocorre numa cena envolvendo Hitler. Mas é um deslize isolado). Não dá para questionar, por exemplo, o virtuosismo da primeira cena do filme, quando somos apresentados ao coronel Hans Landa (também me rendo, ele sem dúvidas é o melhor personagem do filme), num longo diálogo que eleva a tensão e o cinismo ao limite do (in)suportável. Não entendo de movimentação de câmera, mas creio que Tarantino foi muito feliz ao explorar lentamente o ambiente da cozinha e também as expressões de cada personagem, para só depois, num belo traveling, mostrar o segredo que o dono da casa escondia.

 

 

Bastardos Inglórios é um filme de guerra, mas não se comporta como tal (pelo menos não como muitos dos grandes exemplos desse gênero), não há, por exemplo, nenhuma grande cena de batalha como os inesquecíveis primeiros minutos de Resgate do Soldado Ryan, ou aquelas correrias de multidões “frente a frente” que vemos em Senhor dos Anéis ou Coração Valente. Nesse sentido, Bastardos pode decepcionar os mais aficionados por ação. 

Ou não. Em se tratando de um filme do Tarantino, sabemos que não pode faltar violência. Ela não está presente o tempo todo, mas quando surge, merece o prefixo “ultra”. Basta citar que um dos caçadores de nazista é especialista em destruir crânios utilizando um taco de basebol. Isso sem falar na regra do grupo de que todo nazista morto deve ser escalpelado (e o cineasta não costuma virar a câmera para o lado nesses momentos).

Esse é o filme mais engraçado de Tarantino (a cena dos três “italianos” é impagável), e isso ocorre, pois o cineasta sabe muito bem como explorar uma boa caricatura (o Hitler nem tanto, pois ficou histérico demais, mas o personagem do Brad Pitt, com aquele sotaque hilário, ficou ótimo). A opção por esculhambar com os fatos históricos também se mostrou certeira, afinal, tanto já foi dito sobre o tema, estava na hora de alguém inovar.

Há quem não goste desse cinema sanguinário e verborrágico, cheio de referências a outros filmes. Por outro lado, há também muita gente que adora e que espera ansiosamente por mais um trabalho do diretor. A esses últimos eu recomendo: corra logo para o cinema!

Nota: 9,5 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h24
[] [envie esta mensagem] []



Cinema: Amantes

AMANTES

.

 

 

“Dilacerante”, talvez seja essa palavra que melhor exprima a experiência de assistir “Amantes”, excelente filme do diretor James Gray (Os donos da Noite). Esse não é um melodrama que te faz chorar o tempo todo, tampouco é um romance para ver com a namorada. “Amantes” está mais para um estudo de caso a respeito do amor, do ponto de vista de que ele é uma espécie de ácido corrosivo, que se alimenta da superfície da matéria, consome todo o interior e depois desaparece deixando apenas um buraco, um espaço vazio que não pode mais ser preenchido.

Joaquin Phoenix (Sinais, Johnny e June) entrega aqui a melhor atuação da sua carreira (e talvez última, já que parece que ele pirou o cabeção, largou a carreira e se transformou num rapper com cara de Charles Bukowski?!). A primeira cena do ator é emblemática: num dia frio ele caminha todo desengonçado por uma ponte carregando algumas roupas em cabides. Ele larga tudo no chão e sem mais nem menos salta num lago gelado. Trata-se de mais uma de suas tentativas de suicídio.

Desde que a noiva o deixou ele não consegue mais fazer a sua vida funcionar. Para ele, submergir não significa salvar-se, assim como o suicídio não necessariamente significa um ato de covardia. O que ele quer com tudo isso não é acabar com a própria vida meramente, mas sim começar uma nova, do zero, uma vida que seja minimamente suportável (e o silêncio do fundo lago é uma metáfora importante nesse sentido). 

Ele acaba então voltando para a casa dos pais, para que não “cometa mais bobagens”. A família tenta apontar um novo caminho, aquele que julgam mais seguro para ele: casar com a filha (Vinessa Shaw) de um futuro sócio do ramo de tinturaria. Ela é bonita, inteligente e tão tímida quanto ele. Mas a vida dá um jeito de lhe apresentar um outro caminho, aparentemente mais interessante e, por isso mesmo, tortuoso: a bela vizinha (Gwyneth Platrow) do apartamento em frente ao seu. Ela é linda, desinibida e representa um mundo novo a ser explorado.

Sem truques mirabolantes, o diretor consegue traçar um panorama bastante sóbrio das relações amorosas, polarizando o típico conflito “vida segura e infeliz”  Vs “vida imprevisível, promessa de paixão sem fim” e o triste resultado de nossas escolhas (tal como um Woody Allen faria, só que aqui não achamos graça de nada).

 O caminhar dos personagens que colidem e se arrastam rumo ao abismo (seres que se humilham e usam uns aos outros para obterem uma migalha de atenção) e a certeza cristalina de que nada daquilo dará certo para ninguém praticamente nos leva a crer que inexista a possibilidade de uma escolha correta, como se o destino nos dissesse “você tem apenas duas opções: o caminho errado ou o caminho errado. Qual você vai querer?”. A mãe do personagem (ótima!) sugere uma resposta “Não importa, só queremos que você seja feliz”. E “ser feliz”, nesse contexto, pode ser uma das coisas mais tristes do mundo.

Com uma das cenas finais mais marcantes dos últimos anos, Amantes merece ser visto e revisto. Obra-prima dilacerante.

 

Nota: 10,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h25
[] [envie esta mensagem] []



Crônica: Pelo direito de não ter que aproveitar cada minuto da minha vida

PELO DIRETO DE NÃO TER QUE APROVEITAR CADA MINUTO DA MINHA VIDA

.

Salvador Dali

 

 

            Curioso como alguns minutos sem nada para fazer podem nos deixar profundamente angustiados. Basta surgir pela frente uma fila inesperada ou retirar uma senha numa recepção qualquer para despertar o relógio interno do desespero: “Que diacho de tempo que não passa!”.

            A obrigação de ter que passar um tempo consigo mesmo faz com que você utilize alguns subterfúgios para enganar o cronômetro emperrado. Há muitos que optam por contar o número de cadeiras ou lajotas do lugar. Esse recurso é amplo em variações, uma vez que podemos contar apenas a lajotas pretas e depois as brancas, e ainda, já que o objetivo é perder tempo, ao final não é necessário somar os dois resultados, basta recontar tudo, só que sem preconceito de cor (e repetir essa ação de trás para frente fará com você ganhe (perca?) mais alguns segundos de sanidade).

            Os que gostam de ler normalmente sentem-se privilegiados nessas ocasiões, já que alguns minutos de sobra equivalem a uma longa viagem para um país ou mundo distante. Contudo, são eles, esses leitores que se acham espertos, os que mais sofrem quando são pegos de surpresa. O médico atrasou, a ônibus quebrou e o livro-de-bolso não está no bolso! E pior, não há nenhuma revista disponível, nem mesmo aquela falando que o ator que você não conhece casou com a filha do empresário que você também não conhece numa praia que você nem sabia que existia. Pronto, começa o desespero de ler toda e qualquer coisa que aparece pela frente: a tabela valores nutricionais das embalagens de comida, instruções de lavagem na etiqueta da roupa, contratos de banco, letras miúdas dos contratos de banco, cartazes, capa do livro dos outros, etiqueta de extintor, adesivos, pixações, etc. Tudo para não ficar ali, sozinho, tendo apenas a sua mente como companhia.

            Reclamamos muito da falta de tempo, mas quando ele surge à nossa frente feito abismo, tratamos de tapá-lo com livros, dvds e fones de ouvido, pois nesse estilo de vida moderna uma das únicas formas de suportar o avanço dele é não nos darmos conta da sua presença.

Ao final de um expediente cheio de trabalho o sujeito fica contente porque o dia passou e ele nem viu, e já está na hora de ir embora! Quando nos divertimos com os amigos, “as horas passam voando”. Desta forma, não perceber o tempo passar talvez seja uma coisa boa (o insone que vara a madrugada contando cada segundo que (não) passa que o diga).

Mas os manuais de autoajuda defendem que devemos aproveitar cada minuto da vida como se fosse o último (já percebeu que esses caras estão sempre querendo mandar em nós? Aliás, desafio um escritor desse gênero a escrever um livro inteirinho sem utilizar verbos no imperativo). Ora, quero defender o meu direito de não ter que aproveitar cada minuto da minha vida! Ainda mais se alguns deles forem insuportáveis.

A “vida é curta e temos que aproveitá-la”, ditam esses “sábios”, colocando-nos nesse plural sem aviso prévio. E eu fico aqui pensando, será que teríamos saco para fazer esse “jogo do contente” o tempo todo? Será que a pessoa que tem uma dívida enorme e que perde o sono por conta disso, quer mesmo aproveitar cada minuto dessa preocupação? Será que alguém que acabou de perder uma pessoa querida quer viver cada segundo dessa dor? O sujeito que trabalha em péssimas condições e sente-se humilhado todos os dias quando acorda, quer mesmo aproveitar cada minuto de sua miséria?

            Isso me leva a crer que o cara que inventou o tal do carpe diem era o homem mais feliz do mundo (e que nunca teve que aguardar senha), mas isso resulta num paradoxo: se ele era feliz o tempo todo, provavelmente não se dava conta do tempo passando, se ele não percebia o tempo passando como poderia afirmar que aproveitava cada minuto como se fosse o último? Ele nunca desejou que aqueles minutos mais chatinhos passassem depressa? E se ele morresse exatamente num minuto chato, sei lá, no meio de uma propaganda das Casas Bahia, por exemplo? Sei não, acho que ele iria rever os próprios conceitos.

Afinal a consciência de que há um “último minuto” já implica em uma preocupação, uma reflexão, e esse exercício mental anularia qualquer chance de se “aproveitar” a vida simplesmente, como se o mundo fosse um parque de diversões sem fim.

Somos os únicos seres que têm a consciência da própria finitude, e é isso que nos torna diferentes de um ornitorrinco por exemplo. Negar essa consciência e fingir que tudo é maravilhoso pode até ser uma ferramenta bacana para se viver “melhor”, de maneira mais positiva e distante dos “pessimistas” (um mundo sem Woody Allen, Irmãos Dardenne, Dostoievski, Zola, Machado de Assis, etc), mas tendo em vista a ingenuidade desse ponto de vista, não consigo evitar o pensamento de que isso não passa de uma forma de autismo, e que ele dura apenas até a primeira queda no abismo do tempo e da vida real.

            Se você parar para pensar o minuto em sua totalidade, absorvê-lo, refleti-lo, você enlouquecerá antes dos trinta segundos. E o tempo está também presente aqui enquanto você disfarça-o lendo esse texto e só é possível suportá-lo (o tempo, não o texto!) porque não o percebemos. E não é a ilusão de que podemos mensurá-lo utilizando um relógio que me convencerá do contrário. Quem aguarda a sua vez numa fila de hospital sabe muito bem do que estou falando.          



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h52
[] [envie esta mensagem] []



Minicontos - Parte III

Minicontos - Parte III

 

As dobras do lençol formam um mapa da sua presença. Escuto o barulho na cozinha. Cheiro de café. Como é bom estar vivo e ter você por perto.

 

O lago descansa, a superfície lisa absorve a folha caída, o singrado do pato. Tudo uma coisa só. Pássaros se agitam: Alguém jogou uma pedra.

 

Sem perceber, ela fez a mesma piada de quando nos conhecemos. Ri, mas só para não desconsertá-la. Senti um gosto de leite coalhado na boca.

 

Contou que estava doente, o pai disse é frescura. O porteiro do prédio ouviu o barulho lá atrás, na hora pensou que um cachorro tinha caído.  

 

O semáforo abriu. O menininho não viu. O motorista não viu. Deus não viu.

 

Lamentou a monotonia da vida, dias amontoados. Nada de novo e tudo sem sentido. Perguntaram-lhe: qual o gosto da água? Ele não soube definir.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h28
[] [envie esta mensagem] []



Cinema: Up - Altas Aventuras

A PIXAR CONSEGUIU (MAIS UMA VEZ...)

.

 

Quando assisti ao drama “Longe Dela”, saí do cinema ainda chorando, comovido com a história de amor que se desfaz em virtude do mal de Alzheimer. Após assistir recentemente “O visitante”, também saí com os olhos vermelhos e um nó na garganta, em virtude da história de um homem que tenta superar a morte da esposa. 

Até aí tudo bem, são dois dramas feitos exatamente para isso, emocionar. E além do mais eu sou meio chorão mesmo. O problema é que quando fui assistir “Up – Altas Aventuras”, o desenho ainda não tinha nem começado e eu já estava com os olhos marejados! A sala cheia de crianças rindo e eu lá, constrangido, tentando me esconder atrás dos óculos 3D (Depois fiquei sabendo que outras pessoas também passaram pelo mesmo “apuro” e fiquei mais tranqüilo).

 

 

Elogiar o trabalho genial da Pixar já virou lugar-comum, pois um estúdio que nos presenteou com desenhos como “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Ratatouille” e “Wall-E”, já não precisam provar nada a ninguém. E o bacana é que mesmo assim os caras conseguem se superar a cada ano.

Não sei qual é a fórmula para tanto sucesso (de crítica e de público, coisa rara), mas o documentário “The Pixar Storydá uma dica: o foco principal do estúdio não é a tecnologia e sim a história, ou seja, eles gastam muito mais tempo elaborando o roteiro do que desenvolvendo efeitos especiais. E cá entre nós que, por mais simples que seja, uma história bem contada vale muito mais do que qualquer milhão de dólares explodindo numa cena de pirotecnia vazia de significado e de sentimento (os fãs do Transformes 2 e do Exterminador 4 que me desculpem).

A Pixar encanta porque se preocupa com os detalhes, como os olhos meigos do Wall.E, por exemplo. E são esses detalhes que já podemos verificar no curta de animação que antecede a projeção de Up, “Parcialmente Nublado”, que fala sobre a relação de amizade/cumplicidade entre uma cegonha e uma nuvem. Os movimentos desengonçados da cegonha e os traços tristes da nuvem, só fazem aumentar a ternura dos personagens e o arrebatamento quando chegamos ao “final surpreendente” da história.

Enfim, o objetivo desse post era falar sobre o Up...

 

 

Quem já assistiu ao ótimo desenho japonês “O Castelo Animado”, do mestre Hayao Miyazaki, sabe bem onde os roteiristas da Pixar foram buscar inspiração. Nos dois casos temos o deslocamento literal (e surreal) de estruturas, de edificações, que no limitado “mundo real” permaneceriam fixadas ao solo.  No desenho oriental um castelo enorme anda de um lado para outro. Em Up, um velhinho triste utiliza balões para suspender a sua casa e levá-la para América do Sul.

Alguns cineastas defendem que os 15 primeiros minutos são cruciais para determinar se o filme é bom ou não. Se isso é verdade, dá pra dizer que Up se enquadra no primeiro grupo, e com louvor, pois as cenas em que acompanhamos a composição do personagem do velhinho (em boa dublagem do Chico Anísio) são simplesmente perfeitas. Em apenas alguns minutos, ficamos sabendo de forma bastante emocionante (aquele balão no quarto do hospital é de cortar o coração) por que o personagem exibe aquela cara quadrada de quem não está satisfeito com a vida.

 

 

Os outros personagens também merecem destaque. O cão, com aquela personalidade própria da espécie, algo do tipo “sou bobo, mas sou leal”. O menininho escoteiro, com trejeitos engraçados, mas que guarda uma profunda tristeza, devido sua relação de poucas palavras com o pai. Aliás, a história desse garotinho - por mais previsível e melodramática que seja - foi um dos pontos que mais me tocou, pois o que emociona mais, além da identificação pessoal (óbvio), são os pequenos detalhes (eles novamente) como a lembrança dos tempos em que ele tomava sorvete sentado na calçada.

Ao término da projeção fica aquela dúvida que os filmes da Pixar sempre deixam no ar: é um filme para crianças, mas que os adultos acabam gostando, ou é um filme para adultos que também agrada às crianças? Seja lá qual for a resposta, é sempre bom saber que a cada novo ano contaremos com uma obra belíssima que nos fará rir muito (e chorar mais ainda).

 

Nota: 9,5



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h55
[] [envie esta mensagem] []



Crônica: O chuveiro Yin Yang

O CHUVEIRO YIN E YANG

.

 

Acho que o chuveiro quis me dizer alguma coisa ontem. Após um dia interminável de trabalho, ansiei por um momento de paz, com água corrente deslizando pelo meu rosto e levando para o ralo todo o cansaço de mais um dia com gosto de repetido.

Dizem que um bom banho nos renova, nos purifica, nos deixa “prontos para outra”. Concordo em partes, literalmente em partes. É que meu chuveiro, um tanto quanto temperamental, resolveu esquentar só de um lado. Algum problema na tal da resistência, fenômeno da natureza ou alguma piadinha divina, tanto faz, fato é que metade da água sai quente e a outra metade sai fria. E quem é do sul sabe o que eu quero dizer com a palavra “fria”.

Portanto, devido a esse problema de ordem hídrica, tenho andado com dificuldades de definir uma especificidade para o meu humor. É como se o chuveiro quisesse me dizer “Seu dia amanhã será ótimo, mas também será péssimo”. Difícil conviver com isso, pois é como se eu fosse obrigado a torcer e para o Palmeiras e para o Corinthians ao mesmo tempo, ou tivesse que gostar de Lost e da Hannah Montana, ou pior, ter que assistir a uma mesa redonda com o Garcia Márquez e o Paulo Coelho (e ainda só conseguir  me sentar perto do mago-da-propagando-de-carro).

Ok, dizer que essa “dicotomia moral” forçada por um chuveiro pode gerar uma espécie de bipolaridade em mim seria reduzir a complexidade da doença. Acho que basta tomar banho de lado e fazer a escolha do estado de espírito que desejo para aquele dia. E quando eu quiser parecer um pouco mais eclético, fico no meio e pronto. Isso faria de mim uma pessoa razoavelmente estável psicologicamente falando. Isso se o chuveiro não resolver voltar ao normal logo após eu me adaptar a essa nova rotina, sei lá, vai que ele se cansa de brincar de yin e yang.

O que me preocupa é que um objeto (aparentemente) inanimado está se intrometendo na minha vida (já não bastam a televisão e o computador?). Acho bacana que o caráter humano seja ambíguo, mas aí meu chuveiro querer ostentar personalidade também já é palhaçada.  



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h25
[] [envie esta mensagem] []



"DEVANEIOS DO COTIDIANO" ENTRE OS MAIS LEGAIS DO UOL

   O blog "Devaneios do Cotidiano" foi selecionado como o "Mais Legal" dessa semana no site Uol

 (http://blog.uol.com.br/)

 UOL

  Muito obrigado a todos os leitores que por aqui passaram.

Se você quiser receber aviso de atualização deste blog, mande e-mail para eder_ceima@yahoo.com.br, ou acesse www.twitter.com/ederalex

(E antes que alguém faça piada eu já aviso: sim, eu vi que o link do meu blog ficou ao lado da foto de uma ex-bbb. Afinal, nem tudo é perfeito nessa vida. **Pelo menos fiquei na frente do blog da apresentadora Eliana "Dedinhos" Popstar) 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h17
[] [envie esta mensagem] []



Conto: Queda Livre

QUEDA LIVRE

Conto: Eder Alex

Fotos: Nelson Lorenski

 

A fumaça ardeu-lhe os olhos e com a mão fez um gesto inútil tentando limpar o ar. Gostaria de poder pará-lo no tempo, uma caixa imaginária de ar puro. De longe, prédios e janelas proliferavam sem fim e a ponta acesa do seu cigarro parecia acenar num pedido de ajuda ou de resistência, um código luminoso que não obteve eco em resposta. Limpou a garganta e cuspiu. Doze andares, o catarro se desmancharia no ar antes de tocar o chão? Pensou, com nojo da palavra e não do fluído.

Tragou o cigarro mais uma vez e tentou sentir o gosto de Deus. Segurou o máximo que pode, mas a fumaça escapou-lhe pelo nariz e ela então teve um terrível acesso de tosse. Tossiu tanto que não estranharia uma bola de sangue brilhando no tapete. Ok, agora não posso nem mais fumar. O filho da puta do pulmão tem que ficar me avisando que existe? A julgar pelas dores espalhadas pelo corpo, ela estava quase certa de que fora atropelada e que quebrara uma ou duas costelas na bebedeira da noite anterior.

Escombros do churrasco com as amigas da faculdade. Começou tomando caipirinha, mas logo um copo de vinho estava em sua mão e depois um de tequila e depois um de pinga e depois um abacaxi com vodca e leite condensado e depois o mundo se liquefez num day after embaçado, todo pontilhado. Pelo menos não dei pra ninguém, isso já é uma evolução.

 Acordou cinco horas da tarde, virou num gole o resto de Coca que achou na geladeira e tentou requentar uma lasanha de micro-ondas, mas o queijo borbulhando revirou-lhe o estômago. Foi ao vaso sanitário, percebeu que não dera descarga da última vez, o cheiro azedo que subiu a faria vomitar tudo que tinha comido, mas nada regurgitou além do refrigerante preto. Dormiu no piso gelado do banheiro, abraçada ao vaso. Quando acordou novamente, a novela das oito já tinha acabado. Marcas de azulejos nas coxas nuas.

 

 

À janela do apartamento, derramou seu olhar por sobre a muralha de olhos acesos que ficavam caolhos à medida que os condôminos se preparavam para dormir.  Lá em baixo, a calçada e a terrível sensação de um passo adiante, sem direito à fraqueza do arrependimento. Sentiu um frio subindo pelo ventre, ela não era um desenho animado.

Acendeu outro cigarro e tentou pensar em algum significado para a sua vida, já que Deus evaporara pelo nariz na tentativa anterior. O amor estava fora de cogitação, não suportaria sentir o seu corpo se decompondo ao lado de outra pessoa. Seu namorado anterior brutalizou tanto a relação, que a impregnou de repulsa. Desde então, tal como uma puta, ou o ideal que ela fazia de uma puta, ausentava-se do próprio corpo e o entregava como quem atira uma esmola para o mendigo de boca apodrecida. Ironicamente passou a empregar o verbo “dar”, que tanto repudiava. Mas agora ele fazia sentido. Ela dava. Dava sua carne a qualquer um para esquecer um pouco de si e alimentar a miséria no outro, era essa a sua contribuição para a desordem da vida. E não que o nojo dessa entrega fosse mais suportável que ausência de respostas. Ela apenas desejava o abismo, desde que lá houvesse silêncio.

Mastigou o filtro amarelo e pensou em algum tipo de esperança cinzenta, com ratos andando em torno. Quem sabe arranjar uma verdadeira paixão ou responder ao olhar malicioso do pai. Poderia escrever um livro intelectual aclamado por críticos e empacado nas prateleiras. Poderia escrever um sucesso popular como ghost writer de um grande nome da literatura que estivesse em crise criativa ou que estivesse muito ocupado com palestras. Era jovem e ainda haveria tempo para essas coisas. Mas conseguia sentir o tempo fazendo o seu barulho ameaçador, arrastando suas correntes de fantasma e devorando cada minuto que lhe escapava pelos poros e células mortas. Sua maquiagem pesada tinha um quê de ressentimento com o mundo e sua lógica distraída.

Quem sabe uma cerveja para limpar o estômago? A imagem do líquido dourado girou no seu estômago e subiu ardendo pela garganta, pensou em correr para o banheiro, mas já não se lembrava se dera descarga na última vez. Respirou fundo e engoliu saliva. Calma, calma. Não adiantou. O jorro de vômito escapou-lhe por entre dentes e dedos, respingando o chão da sala, o sofá e a mesinha de centro. Dessa vez não fora só Coca. Pelo menos sentiu-se melhor, aliviada até. Era como se tivesse acabado de passar por uma lavagem estomacal divina, feita pelo próprio Cristo.

Nunca mais vou beber! Nunca mais vou beber! Repetiu o mantra que aprendeu após o primeiro porre aos 13 anos. O Álcool estava dilacerando sua memória e sua concentração. Quando conseguiu o emprego de revisora de textos, ficou contente por poder corrigir os erros dos outros. Gostava da palavra “corrigir”. Contudo não imaginava que teria que evitar ser ela mesma (dizia que sua essência estava no excesso) para conseguir um pouco de dinheiro.

Por alguns instantes ficou a observar as próprias mãos, as linhas pareciam trocar de lugar. Talvez ela estive entrando em estado de decomposição, mas com isso era possível, se estava só? Mas até que isso não seria um problema, disse para si e sorriu pela metade. Usava esse tipo de ironia com os outros e consigo mesma para ver se alguém sentia pena. Ela sentia, mas era difícil admitir.

Soluçou e um gosto azedo se acomodou debaixo da língua. O estômago ainda estava dolorido do último vômito. Mas não adiantava. Colocar apenas a sua miséria fisiológica para fora não daria um jeito em sua vida.  Nesse sentido, arrependera-se há muito, por ter lido Freud e Dostoievski. Será que esse horror à existência sai com Omo Dupla-Ação? Olhou para a mancha escura no chão. Era bastante possível que aquela nojeira toda interessasse a algum escritor contemporâneo dado a descrições grotescas, riu imaginando-se personagem. A ela não, que preferia organizar as palavras de forma sutil e poética, anacrônica talvez, mas que reservava um pouco de charme. Afinal, como descreveria o próprio vomito de maneira sutil? E na falta de um estilo próprio, a sedução e esse charme talvez lhe fossem úteis como arma. Mas contra quem lutava? Indefinições espocando no céu.

Sentiu-se infeliz. E a pena que sentia por si mesma ameaçava sufocar-lhe a garganta. A mancha de vômito já estava secando. Refletiu um pouco, e concluiu que as excreções ou regurgitações não arrastaram consigo o pior que havia dentro dela, pois o que existia de ruim estava sob a pele, atrás dos olhos, nos nós dos dedos, na língua, no sexo, no couro cabeludo, na carcaça do espírito.

Ela dominava aquilo tudo que era ruim, potencializava os próprios erros e os dos outros. Corrigia. Possuía um talento excepcional para a derrota. Sentia enorme prazer nesta constatação, mas ocultava de si mesma essa satisfação, com medo que alguém percebesse e anulasse aquilo que ela acreditava ingenuamente ser uma singularidade e não uma fraqueza.

Voltou à janela. Os prédios dormiam, mas vários olhos ainda estavam acesos: algumas crianças tiveram pesadelos naquela noite. Será que os adultos também acendem a luz quando estão com medo ou ocorre o contrário? De qualquer forma, naquele momento ela estava dentro de um desses olhos. À distância, apenas mais um pontinho indefinido. Tem alguém naquela janela? Acho que não, não dá pra ver.

Tentou se lembrar quando foi que comera a última vez e logo teve que afastar a imagem da lasanha borbulhante. Cogitou ir até o posto de gasolina para comprar mais cigarros, mas a infinidade de lances de escada (problemas com o elevador, de novo) dissuadiria até o espírito mais disposto.  A sua indecisão foi atrapalhada por uma súbita vontade de chorar, o nó na garganta não escapara pela janela. Sentiu-se ridícula. Onde já se viu chorar assim sem motivo? Calma, calma. Não adiantou.

Olhou então para baixo. A calçada delirava, distorcida pelo magnetismo. Apoiou então os braços na sacada e inclinou o tronco para frente. Dores pelo corpo todo. Será que também se desmancharia no ar antes de tocar o chão?

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h33
[] [envie esta mensagem] []





Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 21h07
[] [envie esta mensagem] []



DVD - Menina de Ouro

DVD – MENINA DE OURO (2004)

 

 

Um dos melhores filmes do Clint Eastwood, Menina de Ouro é uma comovente história sobre superação/decadência. Poderia ser visto como uma versão feminina de Rocky, não fosse a boa guinada do roteiro no meio do filme. A composição do personagem Frankie Dunn (Clint), um veterano triste e um tanto rabugento é primorosa (contida, sem os exageros de Gran Torino) e o mesmo podemos dizer dos outros personagens vividos por Hilary Swank (que ganhou o seu segundo Oscar por esse papel) e Morgan Freeman. O mérito do filme é que muito do seu potencial dramático não é explorado de maneira didática ou gratuita. Alguns dramas são apenas sutilmente mencionados: as cartas que voltam para o remetente, a perda da visão de um dos olhos devido uma decisão equivocada, a fé que fraqueja diante das derrotas, o jovem com distúrbio mental que se sente invencível, etc. A primeira metade do filme poderia ser utilizada numa palestra de autoajuda: Dedicação = Sucesso. Mas aí então temos o segundo ato e o conto de fadas dá lugar à vida real: “A vida é dura” = o mundo está pouco preocupado se você se esforça ou não para vencer, afinal ele está bem longe de parecer um lugar “justo”.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h04
[] [envie esta mensagem] []



Cinema: Arraste-me para o inferno

O CRAMUNHÃO RETORNA AO CINEMA EM GRANDE ESTILO

.

 

 

Tenho um carinho especial pelos filmes de terror, pois foi através deles que acabei “entrando” no mundo do cinema e também no da literatura. Sam Raimi (cineasta que dirige a franquia “Homem-Aranha”) foi um dos responsáveis por despertar esse fascínio em mim, pois sua trilogia “The Evil Dead”,1987 (“A morte do demônio” ou “Uma noite alucinante” I II e III - eu sei, é estranho, dois nomes diferentes para o mesmo filme, mas é que ele foi lançado no Brasil por duas distribuidoras diferentes e elas fizeram uma bagunça danada), foi um marco e ao mesmo tempo uma espécie de “evolução” do quesito “meter medo” no espectador.

Como assim? Afinal, amedrontar a plateia é algo explorado pelo cinema desde sempre, com direito a filmes que superaram o próprio gênero Terror (que muitas vezes é visto injustamente como um gênero “menor”) e que foram alçados a categoria de clássicos universais, como “Nosferatu” (1922), “Noite dos Mortos-Vivos” (1968) ou “O exorcista” (1973). E então, qual o diferencial dos filmes de Sam Raimi? Vários, mas creio que os mais gritantes (além do domínio total que ele possui do formato) são o humor e o excesso de nojeiras que vemos na tela.

 

 

Peter Jackson (diretor da trilogia “Senhor dos Anéis”) antes de se aventurar na terra dos Hobbits fez seu clássico trash “Fome Animal” (1992), talvez um dos filmes mais nojentos de todos os tempos, mas Raimi já há alguns anos brincava com essas gosmas e jorros de sangue (que tal aquela mão decepada que passa a “agir” por conta própria em Uma noite alucinante II? Ou melhor ainda, que tal substituir essa mão por uma moto-serra no III?).

Nos anos 2000 Sam Raimi deu um tempo no terror e resolveu ficar ainda mais milionário com a franquia do herói aracnídeo. Mas agora, quase uma década depois, ele felizmente retorna às origens com o cômico-nojento-horripilante “Arraste-me para o inferno”.

Nesse filme, uma jovem ambiciosa que trabalha num banco recusa ajuda a uma velha (e apavorantemente nojenta) cigana, que se sente humilhada e resolve se vingar com uma maldição: a garota será atormentada pelo capeta durante três longos dias e depois... e depois você já deve imaginar o acontece tendo em vista o título do longa.

 

 

O filme é recheado de sustos (contei pelo menos uns sete), de coisas nojentas que eventualmente vão parar dentro da boca da mocinha, de erros propositais de continuidade (repare na roupa da protagonista nas cenas com gosmas) e de muito bom humor (algumas piadas são claramente inspiradas nos desenhos animados, com direito a bigorna e tudo mais). Tudo isso para criar um clima tenso, de suspense e pavor, e ao mesmo tempo fazer brincadeira com o gênero.

A mosca que pousa na tela é um bom exemplo disso, é como se o diretor nos dissesse “você aí que está com medo! Calma, isso é só ficção”, só pra fazer com que o espectador relaxe e depois leve mais um susto. Isso que é legal no filme, você sabe que vai se assustar, mas não sabe direito como (diferentemente da recente safra de filmes de suspense ou de terror/mutilação).

O cineasta cria climas pouco convencionais nesse tipo de filme, emprestando um ritmo bem peculiar, como ocorre, por exemplo, na cena da luta dentro do carro já no início. Ela é muito mais longa do que estamos acostumados, pois quando achamos que tudo vai terminar num gesto violento, a velha desgraçada levanta e começa tudo novamente, como se o sobrenatural se confundisse com o real. Eliminando, portanto, o corte seco (típico dos filmes de terror, do tipo que no momento de perigo tudo fica escuro e o cara acorda no dia seguinte, tentando se lembrar do que aconteceu) para salvar a pele dos personagens. 

 Sam Raimi não reinventa a roda em “Arraste-me para o inferno”, pelo contrário, o argumento do filme não é original (quem já leu o livro “A maldição” do Stephen King, sabe o que eu estou dizendo), há excesso de efeitos especiais e o final é totalmente previsível (você pode até não saber exatamente o “como”, mas sabe com toda certeza “o que” vai acontecer). Mas mesmo assim, tudo é realizado com tanta maestria, as cenas funcionam com tanta segurança que você percebe que há alguém competente por trás daquele projeto. E como isso faz diferença! Os fãs do de filme de terror certamente não terão do que reclamar, pois os sustos e os risos estão garantidos.

 

 

 Nota: 9,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h43
[] [envie esta mensagem] []



Minicontos - Parte II

Minicontos - Parte II

 

 

Originalmente publicados no www.twitter.com/ederalex

 

 

*Depois escondeu comprimidos na gaveta. Depois espalhou o coquetel pela cama. Depois jogou na privada. Depois ligou para a farmácia. Depois*

 

 

*Desligou, pensou em tudo que não disse. Derrotada? Elaborou um discurso melhor e retornou a ligação: ocupado. Depois a ideia fugiu*

 

 

*Parou de correr e se enfiou numa construção abandonada. Mãos tremendo. Pensou no que tinha acabado de fazer: Foda-se, antes ele do que eu*

,

 

*O mendigo esperou os turistas se afastarem da fonte. Desejos brilhantes e naufragados. Mergulhou, roupa e tudo. Desapareceu como num sonho*

 

 

*Ainda chorando, revirou o quarto. As cartas estavam numa gaveta. Rasgou todas e depois enfiou-as na boca. Não tinham gosto de borboletas*

 

 

*Os dias ficaram mais longos e as pessoas ainda mais insuportáveis. Angustiado, sentiu saudade de um futuro que nunca aconteceria*

 

 

*Na fotografia, o sorriso de quem ainda não sabia que o futuro seria ruim. Ela dentro de um vestidinho e, pela janela, a chuva. Parada no ar.*



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h38
[] [envie esta mensagem] []



Cinema: Se beber, não case

A MELHOR COMÉDIA DO ANO

 

 

Comédia não é meu tipo de filme favorito, pois acho que esse é o gênero que mais comporta bobagens comerciais, ou seja, trabalhos realizados apenas para encher o bolso dos produtores e subestimar a inteligência do público (ok, talvez as comédias dividam esse status negativo com os filmes de ação).

Mas ultimamente não dá para negar que estão surgindo muitas comédias boas e que me fizeram sair do cinema com a barriga doendo de tanto rir. É o caso do excelente “Se beber, não case”, típico exemplo desse “novo humor” que tem surgido nas telas e que procura explorar as bizarras amizades masculinas (quem faz parte de algum grupo de amigos, sabe que quando todo mundo se junta  para tomar uma cerveja a capacidade de dizer e fazer besteiras é quase infinita).

 

 

Exemplos desse tipo de comédia são os recentes “Virgem aos 40, “Superbad”, “Ligeiramente Grávidos”, todos com a marca do diretor e roteirista Judd Apatow. Esse sujeito foi responsável por emprestar um caráter mais orgânico às comédias, utilizando ótimos diálogos que se aproximam e muito da realidade, e também retratando a amizade como um sentimento engraçado e terno ao mesmo tempo, algo que envolve cumplicidade e afeto, mas que não deve ser confundido com homossexualismo. Já deram até um nome para esse tipo de relacionamento: “bromance”, ou seja, amor de irmão, de dois caras que se gostam pra caralho (desculpe, mas esse é um caso em que o palavrão é necessário).

 

 

Agora é a vez de o diretor Todd Phillips explorar esse universo. Na história de “Se beber, não case”, quatro amigos partem para Las Vegas (a famosa Cidade do Pecado) para festejar a despedida de solteiro de um deles. Quando filme começa, a noite de festa já acabou. Eles acordam numa suíte de um hotel de luxo que está completamente revirada: há bonecas infláveis na banheira de hidromassagem, uma poltrona está pegando fogo, várias garrafas estão espalhadas por todo lado e até uma galinha circula pelo local. Até aí tudo bem, quem já tomou um porre daqueles sabe que o dia seguinte é mesmo um tanto quanto esquisito, surreal até, e que pouca coisa fica guardada na memória. Um dos personagens do filme define bem esse sentimento “se não nos lembramos de nada é porque a noite foi boa”. Só que coisas ainda mais bizarras provavelmente aconteceram na noite anterior, pois um deles acordou sem o dente da frente, há um tigre de verdade no banheiro, um bebê chorando no armário e mais um pequeno detalhe: o noivo sumiu.

 

 

 É a partir dessa premissa ridícula e hilária que a história se desenrola. Num clima investigativo bem ao estilo CSI os amigos desmemoriados precisam refazer os passos e descobrir o que diabos aconteceu na noite anterior. O bacana é que o roteiro é tão bem elaborado que tudo, por mais absurdo que seja, acaba fazendo sentido no final.

Esse é o tipo de filme que não dá pra contar muito senão acaba estragando parte do mistério e das piadas, então basta dizer que eles enfrentarão inúmeros perigos e situações engraçadas para tentar encontrar o tal amigo desaparecido, e que até Mike Tyson, ele mesmo, aparece para complicar a vida dos sujeitos.

 

 

Pela sua aparente simplicidade e despretensão (o filme custou apenas US$ 35 milhões e provavelmente fature US$ 400 milhões em todo o mundo! Esse fenômeno é quase uma Bruxa de Blair versão cômica) e também pela simpatia dos protagonistas (é praticamente impossível não se identificar com as atitudes ridículas dos personagens ou pelo menos compará-las às de algum amigo seu) “Se beber, não case” é, até o momento, a melhor comédia do ano.

 

 

Nota: 10,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h26
[] [envie esta mensagem] []



Cinema: Brüno

Não é humor inteligente, mas não deixa de ser engraçado

 

Borat” (2006) foi um filme que me impressionou tanto pela forma (um pseudo-documentário com pitadas de ficção) quanto pelo humor pouco convencional: fazer com que as pessoas entrevistadas exponham suas faces mais ridículas e cruéis sem se darem conta disto. O resultado dessa mistura foi, para mim, uma das coisas mais engraçadas que já vi na vida (ou será que foi “A vida de Brian” do Monthy Phyton? Ou o filme dos Simpsons?), pois se tratava de um humor ácido e muito inteligente. Ok, o jeitão desengonçado do “Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão” por si só já é engraçado, mas o que é realmente hilário em “Borat” são as pessoas comuns.

 

 

Agora em “Brüno” (2009) temos a repetição da fórmula de sucesso, só que dessa vez temos menos documentário e mais ficção, pois fica bem claro que muitas das cenas são ensaiadas, só que em decorrência disso acabamos vendo também menos graça. Para tentar compensar essa falta de, digamos, “vida real”, Sacha Baron Cohen parte para uma estratégia mais agressiva, com intuito de chocar e fazer rir ao mesmo tempo.

Então não dá pra dizer que “Brüno” apresente o tal do “humor inteligente”, pois ele simplesmente coloca as pessoas em situações vexatórias (o que dizer do close no “pênis dançarino” no programa de TV que ele cria? Qualquer pessoa ficaria constrangida naquela situação). Expor as pessoas ao ridículo pode até ser engraçado para alguns, mas não quer dizer que seja inteligente (o programa CQC, que gosto muito por sinal, volta e meia também se equivoca nesse sentido).

 

 

Ok, Brüno não é tão genial quanto Borat, então quer dizer que o filme é ruim? Claro que não. Certo é que quem gostou de um vai também gostar do outro. A própria sinopse já dá uma ideia do absurdo que vem pela frente: um super estilista gay perde o emprego, após destruir um desfile de moda (ele resolveu utilizar uma roupa toda feita de velcro, então dá pra imaginar o estrago que faz quando ele encosta nas cortinas ou nas roupas das outras pessoas né?), e parte para América para tentar se tornar uma celebridade. Para conseguir isso ele não poupará esforços, como adotar (ou importar) uma criança de um “país” chamado África, tentar promover a paz mundial acabando com os conflitos no oriente médio, pedir para ser seqüestrado para que seu vídeo fosse mostrado em todo o mundo, procurar ajuda de um pastor evangélico especialista em “curar” gays e fazer com que se tornem heterossexuais, possibilitar que os sistemas de saúde de países subdesenvolvidos façam clareamento anal de graça, entre outras coisas bizarras.

 

 

O filme é tão ridículo, mas tão ridículo que não tem como não achar graça (as pessoas que preferem o politicamente correto, provavelmente vão achar o filme nojento e desprezível). O humor de “Brüno” definitivamente não é para todos os públicos, pois é agressivo, então é preciso ter estômago para enfrentar a experiência de assisti-lo. A melhor forma de aproveitá-lo é não levar nada daquilo a sério, assim como o fazem alguns artistas que aparecem no clipe hilário do final do filme. Estão lá Bono Vox, Slash, Sting, Puff Daddy, Elton John, fazendo participações especiais num momento meio “We are the wold”. E a letra da música que eles cantam diz algo como “Coréia do Norte pare de brigar com a Coréia do Sul, afinal vocês são todos chineses mesmo. Brüno é a pomba da paz...”.

 

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h46
[] [envie esta mensagem] []



Minicontos - Parte I

MINICONTOS: A VIDA EM 140 CARACTERES - PARTE I

 Abaixo, seleção de alguns minicontos publicados no meu Twitter (www.twitter.com/ederalex):

 

*Entre a cabeça e a arma, o vidro, segurança que estilhaça. Alguém buzina, então escapa o tiro. A vida toda passa num minuto: nem duas linhas.*

 .

*Curitiba amanheceu bonita. Menos um. Geada cobrindo o gramado, o telhado, o carro, o menininho de rua. Paisagem cintilando à luz da aurora.*

.

*Levantou-se, grama no cabelo, sentindo o corpo partido, sujo. Não foi à delegacia. Apanhou palha de aço no armário e se trancou no banheiro.*

. 

*Já volto, disse. Atravessou, sumiu na esquina. O filho ficou lendo um livrinho, fábula repetida. À noite, o lobo: Cadê teu pai piá? Já volta.*

 

.

 

 

 

*Voltou à cidade. O sol raspando a pele era o mesmo de quando corria descalço pela rua. Mas lhe pareceu que as sombras agora estavam maiores.*

 

.

 

 

 

*O lápis – O sábio me presenteou com o Lápis Perfeito. Parecia comum, só que a borracha na parte de trás era maior do que a ponta de grafite.*

 

.

 

*A porta bateu com violência e eu permaneci à mesa, esperando que voltasse, arrependida. Folhas caídas arrastavam a madrugada lá fora.*  

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h25
[] [envie esta mensagem] []



NEM SÓ DE FAVELA VIVE O CINEMA NACIONAL

.

 

O personagem vivido por Gregório Duvivier afirma que as crianças que brincaram de carrinho na infância acabaram desenvolvendo uma visão mais tecnicista da vida e seguiram para área de exatas. Já as que brincaram com os bonequinhos Comandos em Ação, são mais criativas, pois aprenderam a lidar com as pessoas ou desenvolveram maior capacidade de criar histórias, elas penderam, portanto, para área de humanas. Em outro momento o mesmo personagem afirma que toda uma geração de jovens cresceu traumatizada, pois descobriu que a Vovó Mafalda era interpretada por um homem, “já imaginou a frustração? No lugar da figura da avó, um homem! E bêbado! Ou era o Bozo que era bêbado?”.

É mais ou menos esse o espírito desse pequeno grande filme dirigido por Matheus Souza (um jovem de apenas 20 anos que é estudante de cinema da PUC do Rio de Janeiro. Inclusive, a universidade cedeu todo o equipamento e também serve como locação para o longa que custou míseros 8 mil reais - Tranformers, por exemplo, custou mais de 200 milhões de dólares-  e se tornou sensação dos festivais de cinema).

 

 

É importante frisar que embora “Apenas o Fim” seja um filme barato ele não é, em momento algum, tosco. Tudo parece muito bem planejado e sem os exageros de “filmes de autor”, com câmera tremendo ou coisa parecida, que poderia acontecer facilmente com um estudante querendo mostrar a sua “arte”. É um filme simples, mas muito bem feito. Diferente de algumas tosquices do Domingos de Oliveira, que se sustentam apenas pelo bom roteiro.

A história começa quando uma namorada avisa seu parceiro que irá romper o namoro e que vai embora da cidade. Eles têm apenas uma hora para conversar antes dela partir. E o filme é basicamente isso, os dois conversando e andando pela universidade durante uma hora, com direito a alguns flashbacks bem humorados em preto e branco no meio. Os diálogos inteligentes fazem lembrar qualquer filme do Woody Allen e a estrutura é bastante parecida com os filmes “Antes do amanhecer” e principalmente com “Antes do Pôr-do-Sol”, ah, e o humor se assemelha ao de “Juno”, só que mais verossímil.

 

 

Ao misturar aos diálogos, inúmeras referências pop dos anos 90, Matheus fez um filme incrível, que todo cinéfilo gostaria de ter feito (principalmente os que viveram a adolescência nesse período). Para completar o trabalho ainda conta com Los Hermanos na trilha sonora, com uma das melhores músicas de Marcelo Camelo.

Outros bons momentos: “Eu não quero ser para você um Tom Bombadil, que foi tão importante para os Robbits no livro e depois foi simplesmente cortado no filme!” ou “Ah, esse menina aí pode até ser bonita, mas tem cara de quem o filme favorito é “Um amor para recordar” ou “Diário da paixão”, e que provavelmente nem entendeu o final!”.

Dá pra resistir a um diálogo desses? Um filmaço!

 

 

NOTA: 10,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h52
[] [envie esta mensagem] []



MERIDIANOS

.

 

            Ainda afrouxando o nó da gravata, saiu do prédio satisfeito pelo toque repentino da brisa do meio-dia. Uma brisa meio cinza de poluição, mas que não deixava de ser uma sensação cálida que falseava um movimento para frente - o mesmo sentimento de alívio do personagem que abre a janela e coloca a cabeça para fora do carro no clichê do filme – enfim, uma sensação boa que as paredes do escritório infelizmente obstruíam.

            Atravessou para o outro lado da calçada, em frente ao hospital, temendo seguir o mesmo caminho dos colegas de trabalho e acabar tendo que compartilhar a mesa do almoço no restaurante à quilo. Três meses de experiência, nenhum laço de amizade, e se tudo corresse bem, assim preservaria sua tímida sociabilidade. Estava cansado daquelas falsas relações, que só aconteciam dada a necessidade de se tolerar - preservando um pouco de polimento ou sanidade - a divisão de um mesmo espaço entre pessoas estranhas. Ninguém ali gostava das mesmas coisas que ele e ele pouco se interessava pelo que os colegas tinham a dizer. Sendo assim, almoçava sozinho, satisfeito.

             Mãos no bolso, pensava na insensatez de ter que fazer sua refeição quando ainda não tinha fome, só para cumprir o horário estipulado pela empresa. De qualquer forma, poder respirar um pouco de monóxido de carbono ainda lhe parecia uma atividade estimulante.

Aguardava o sinal abrir quando sentiu uma mão posar no seu braço. Há quanto tempo ninguém o tocava? A lembrança de uma despedida desajeitada, lágrimas contidas, meses antes, tomou forma rapidamente em sua mente, para logo se esfarelar e dar lugar àquela senhora que lhe olhava incomodamente nos olhos. “Meu neto recebeu alta hoje e a ambulância só vem de tarde e eu moro no interior. O moço não podia arrumar dinheirinho pra gente almoçá?”.

            Não acreditava em Deus e não via a solidariedade como uma forma de carimbar um passaporte para o céu, pelo contrário, muitas vezes enxergava a ajuda ao próximo como uma atitude sádica que visava tornar ainda mais elementar as extremidades da pirâmide social.

O olhar daquela velha senhora era meigo e, por isso mesmo, incômodo. Treinara a dissimulação diante do espelho ou a humilhação lhe abrandava as linhas do rosto? Lembrou-se, não sem um sorriso estúpido, que já cogitara a possibilidade de ligar para o Criança Esperança ou para aquelas associações de deficientes. Era uma boa forma de comprar uma espécie sintética de paz de espírito, ou de fazer um acordo de compensação, que de maneira um tanto nebulosa amenizaria o sentimento de culpa devido aos seus gastos exorbitantes com livros, revistas, dvds, entre outras ferramentas que o ajudavam a evitar os seres humanos. Ajudar as pessoas, para enfim conseguir ficar longe delas, sem dúvidas um paradoxo interessante.

            Telefonar para um 0800 é simples, mas estar frente a frente com a estatística é mais complicado, afinal, aquele olhar... “Acho que a gente não precisa ter vergonha de pedir quando tá precisando né?”. Tudo o que queria no mundo era ficar longe daqueles olhos que pareciam sustentar todo o peso da pirâmide. Não respondeu, abriu a carteira para retirar uma nota de dez e então a senhora se aproximou ainda mais. Iria roubá-lo? Não, o toque físico era sua forma de substituir as palavras e demonstrar gentileza ou agradecimento, sem dúvidas um expediente um tanto quanto anacrônico. O curioso é que ele conseguia sentir o cheiro dela, mesmo imposta a enorme distância entre aquelas duas dignidades. Tão real quanto a brisa do meio-dia.

            Deu o dinheiro e saiu caminhando rapidamente para o outro lado, esbarrou em algumas pessoas sem pedir desculpas. Quase não ouviu o “Deus que ajude”. À certa distância, olhou discretamente para atrás e, aliviado, constatou que ela não estava mais lá. Um senhor de óculos varria a calçada respingada de folhas.

 Almoçou sozinho, mas um pouco intranquilo, pois não conseguia evitar aquele sorriso desajeitado que despontava em seu lábio, quando tentava se convencer de que o que estava sentindo naquele momento era orgulho e não vergonha.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 13h47
[] [envie esta mensagem] []



INVERNO NA ESTAÇÃO CENTRAL

.

Rudolf Hausner "Gelber Narrenhut", 1955

 

 

O velhinho ajeitando o sobretudo

Sente o vento gelado passar feito navalha.

O chapéu quase voa, opa! Segue caminho.

Olha para trás e franze a testa, envergonhado.

Seu sorriso de tristeza, não há quem o receba.

Só um piazinho chorando aponta lá de longe,

Uma cópia dele mesmo quando criança.

Ai, ai essa vida, um esboço...

Um ligeirinho passa feito navalha

E então o chapéu dança no ar desengonçado

Para depois pousar todo torto no meio-fio

O piazinho afunda o rosto no peito da mãe,

Mas agora já não chora. 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h22
[] [envie esta mensagem] []



COLISÃO

.

 

Teu rosto atravessa o vidro

E se multiplica: versos reflexos

(luz que me escurece)

E cada caco que cai

crava você na minha pele



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h18
[] [envie esta mensagem] []



NÃO BASTA ROUBAR, TEM QUE SER POPULAR

.

 

John Dillinger, o assaltante vivido por Johnny Depp, é uma espécie de bandido popstar. Ele é um cara elegante, inteligente e que, segundo ele mesmo, consegue tudo o que quer. Para isso, veste-se com ternos caros, sapatos bem lustrados e alguns adereços básicos, como metralhadoras e pistolas. Tal como Robin Hood (que em Portugal chama-se “Robin dos Bosques”, tá e daí?), ele respeita um código moral distorcido que faz com que roube apenas dos ricos, ou seja, dos bancos (o que lhe conferiu o título de celebridade entre a população da época, que sucumbia aos desastres econômicos dos anos 30), mas a semelhança com herói de Sherwood para por aí, pois Dellinger não dá nada aos pobres, já que à sua frente está apenas o seu umbigo.   

A história é inspirada em alguns fatos reais, mas vale lembrar que essa moda de cultuar bandidos não é só coisa de norte americano não, lembra do Leonardo Pareja (clique)? O cara foi enterrado com a bandeira do Brasil sobre o caixão (!?).

 

 

Voltando ao filme. O diretor Michael Mann sabe como ninguém filmar um tiroteio. Foi assim em Fogo Contra Fogo, Miami Vice e Colateral (esse último ainda é, para mim, o seu melhor filme). E “Inimigos Públicos” não foge à regra, pois também tem seus tiroteios bem coreografados, como é o caso da empolgante cena da floresta.

Gosto da câmera digital utilizada em alguns desses trabalhos citados, mas em ‘Inimigos’ que é um filme de época, a imagem fica meio falsa, em alguns momentos parece que estamos assistindo àqueles telefilmes que passam de madrugada. Já a opção pela câmera na mão em alguns momentos é excelente.

Os personagens coadjuvantes são subaproveitados, eles aparecem aqui e ali de maneira um tanto confusa (ou fui eu que não prestei atenção direito?), eles possuem nomes, mas não personalidade e como todo mundo usa roupa parecida...

 

 

Na historinha de amor, a tal da química entre o casal acontece, mas aquela paixão avassaladora não é muito convincente no início, pois você mal olha pro lado e o “homem das cavernas já está batendo com tacape na cabeça da mulher e tentando arrastá-la pelos cabelos” (a cena do casaco é uma versão moderna disso, né não?).

A reconstituição de época é ótima, o figurino idem e dizer que Depp entrega mais uma atuação digna de prêmios é chover no molhado. Já Christian “Batman” Bale faz o que pode com um personagem plano (Melvin Purvis), com cara de bunda e mais nada. Pouco para um ator tão bom. O “duelo verbal” na cadeia é a melhor cena dos dois. E a mais marcante de todo o filme é a do cinema, quando o bandido vê nas estrelas de Hollywood uma projeção da sua própria vida e do seu grande amor (ecos de “A Rosa Púrpura do Cairo”?).

É bem bom, mas tinha potencial para muito mais.

 

Nota: 8,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h00
[] [envie esta mensagem] []



VOCÊ QUER JOGAR?

.

 

Quem já assistiu ao filme francês “Caché”, sabe que o trabalho do diretor Michael Haneke não é nem um pouco convencional. No filme de 2005 o espectador é convidado (ou seria obrigado?) a abandonar sua suposta passividade (a de assistir ao filme, simplesmente) para quase que literalmente “assumir” um papel fundamental (e incômodo) no desenrolar da trama. Como isso ocorre? Procure pelo dvd na sua locadora e descubra, garanto que será um experiência fascinante.

Em “Violência Gratuita” (Funny Games - 2007), raro caso em que o título em português ficou adequado, Haneke abala novamente algumas estruturas narrativas, pois desconstrói a noção que temos de ficção/realidade e ainda subverte os clichês cinematográficos. O resultado é sem dúvida genial.

 

 

Na trama, uma família em férias recebe a visita de dois jovens muito carismáticos, com luvinhas brancas, que se dizem convidados ou parentes de seus vizinhos. Mas não demora muito para que eles se revelem dois sádicos prontos para começar um jogo apavorante.

Muito já se explorou o tal do terror psicológico, mas sinceramente não lembro um filme em que ele tenha sido utilizado de maneira tão inteligente. A câmera desvia sempre quando algo violento vai acontecer (aliás, quase sempre, o que rende um dos melhores momentos do filme), pois o objetivo é justamente frustrar a expectativa do público “sedento” pela violência gratuita do título. E ainda brinca com os clichês, quando um dos personagens diz “Eu sofri abuso na infância e por isso agora eu me tornei um psicopata. Não, não, eu sou um filho de papai que não vê sentido na vida e sai por aí matando, Não, não eu sou...”, como se dissesse “Escolha o lugar-comum que bem preferir”, a ideia não é encontrar justificativas ou tentar explicar o mundo, mas sim representá-lo, e isso já é complexo o bastante.

 

 

Então o que temos é um tapa de luvas na cara dos fãs de filmes como “Jogos Mortais”? Tapa de luvas acho que não, mas uma boa bordoada com taco de golf no joelho sim, pois é impressionante que o terror se instale naquela casa, justamente pelo carisma e educação dos dois jovens, que estão ali apenas para ”pedir alguns ovos emprestados”! Atitude que destoa completamente do que esperamos deles: que matem logo alguém, que sejam ríspidos, etc, nada disso, eles são gentis e isso torna a situação completamente aterrorizante. O clima de tensão do começo do filme, quando “nada” aconteceu ainda, é um negócio que incomoda, que perturba, que dá medo, enfim, é fruto de um roteiro muito bem desenvolvido e das boas atuações do elenco (Naomi Watts, Michael Pitt, Tim Roth, entre outros).

 

 

Não bastasse tudo isso, o diretor ainda explora a metalinguagem. Em vários momentos um dos psicopatas olha para a câmera e fala diretamente com o público. É sinistro! O que ele tenta demonstrar, creio eu, é que quem manda no filme é ele e não o espectador (já que alguns diretores entregam mastigado ao público exatamente o que ele espera), então não adianta esperar que as coisas se resolvam da maneira que Hollywood nos acostumou a pensar, pois o “não-personagem” está ali pra nos frustrar e fazer graça com a obviedade do nosso raciocínio (o close da faca caindo dentro do barco, no início do filme, e a importância dela no final, é um belo exemplo disso).

 Num dos diálogos, um dos jovens diz algo como “Entre a ficção e a realidade há uma espécie de abismo, um buraco-negro. Só o que você consegue ver é real”, e o outro argumenta “Um filme você vê, então ele é a realidade”. 

Imperdível!

 

*Disponível em DVD.

 

 

Nota: 10,0

 

Atualizações diárias também pelo Twitter: www.twitter.com.br/ederalex



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 10h21
[] [envie esta mensagem] []



ENQUANTO AGONIZO

Willian Faulkner

 

 

Esse é um livro que surpreende pelo enredo um tanto quanto incomum: Após a morte da esposa, marido e filhos decidem atender ao último pedido dela: ser enterrada perto dos familiares, numa cidade distante. Eles então partem levando o corpo numa carroça caindo aos pedaços. A viagem dura muitos dias, há vários perigos pelo caminho e, é claro, não é possível conter a putrefação do cadáver.  

Embora pareça uma história bizarra ou sombria, Faulkner a desenvolve com outras cores, pois o que procura é descrever a América sulista, explorando a complexa relação desta família, acometida por ódios mal digeridos, e não apenas a perspectiva da morte. Então ao longo dessa viagem, acabamos descobrindo novas paisagens, novos detalhes sobre cada personagem, confissões, segredos obscuros, pois eles amadurecem a cada novo capítulo. E tudo isso só é possível graças à genialidade com que a história é contada.

Enquanto Agonizo foi publicado em 1930, mas apresenta uma narração tão moderna que nos faz entender melhor de onde vem o estilo de muitos escritores contemporâneos. Cada capítulo é narrado em primeira pessoa por um personagem diferente, e são mais de dez ao todo se não me engano. Então, por exemplo, quando a filha, uma das personagens principais, vai à farmácia, quem descreve a ação não é ela e sim o balconista (se fosse cinema, dá pra dizer que a câmera fica atrás do balcão e capta a chegada da moça). Esse recurso possibilita ampliar a perspectiva de análise de cada personagem em diversos ângulos, até porque o autor utiliza bastante o famoso “fluxo de consciência” e também os “Flashbacks” o que, por conseguinte, torna o romance muito mais plural, com várias leituras possíveis.

Ao propor uma estrutura não-linear, fica claro que Faulkner não estava lá muito preocupado em “facilitar” a vida de seu público, pois o que temos é um romance que exige a participação do leitor na construção da história. Ele nos dá as peças e nós é que montamos esse comovente quebra-cabeça. E essa é a característica fundamental de uma grande obra, ela não nos entrega uma resposta pronta (como ocorre com os livros de auto-ajuda), ela levanta várias indagações e nos deixa incomodados, perplexos, provocando reflexão, ou seja, a história não acaba quando fechamos o livro.

 

OBS: A edição de bolso da L&PM, embora seja uma bela iniciativa e tenha um preço ótimo, apresenta alguns problemas de tradução e erros ortográficos. Não sei se a culpa é da editora ou do próprio autor (li por aí que ele escreveu esse romance em apenas algumas semanas e nunca o revisou). O crítico americano Harold Bloom disse certa vez que alguns escritores considerados cânones escreviam muito mal e que eram beneficiados pelas traduções (como, por exemplo, Edgar Alan Poe, que não por acaso ele odeia). Mas sinceramente não creio que esse seja o caso de Faulkner.

Enfim, são problemas que não chegam a comprometer essa obra magnífica. Só espero que “Enquanto Agonizo” seja editado futuramente numa edição mais caprichada.

 

Acompanhe o Devaneios do Cotidiano pelo twitter: www.twitter.com/ederalex (atualizações diárias)



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 09h09
[] [envie esta mensagem] []



VOCÊS, OS VIVOS

.

 

O filme do sueco Roy Andersson desafia toda e qualquer definição. Ele faz com que os funcionários das locadoras (elas ainda existem, sabia?) fiquem meio perdidos quando tiverem que escolher uma prateleira para colocá-lo. É um drama? Uma comédia? Ou pior ainda, ele é mesmo um filme?

Complicado também é tentar analisá-lo, pois qual adjetivo cabe melhor: “Absurdo”, “Encantador”, “ridículo”, “esquisito”, “inteligente”? Fiquei aqui matutando alguma forma de escrever sobre essa obra-prima que não se enquadra em nenhuma estética específica (pelo menos não numa já utilizada anteriormente, que eu saiba) e cheguei à conclusão que ela é uma mistura de cinema e charge.

 

 

“Vocês, os vivos” é composto por 57 quadros (ou quadrinhos? Ou contos? Ou vinhetas?) de dois ou três minutos cada, sem cortes, quase todos captados com câmera totalmente estática (aí a semelhança com a charge) e um pouco elevada (Deus?). As pequenas histórias funcionam isoladas perfeitamente, mas também dialogam entre si, pois alguns personagens transitam entre uma e outra.

Há a mocinha apaixonada pela estrela do rock, a mulher que se sente rejeitada por todos, até pelo cachorro de estimação, e que ouve do marido: “a vida é dura, mas a gente tem que pelo menos tentar”, há também o psicólogo que já não suporta mais os seus pacientes “são todos uns egoístas!”, um cabeleireiro emocionalmente instável, um sujeito que resolve dar uma animadinha num jantar monótono e acaba indo para a cadeira elétrica, etc. Todos são pequenos fragmentos que unidos compõe o complexo retrato de uma metrópole, assim como o fez Will Eisner, gênio dos quadrinhos, na grafic novelNova York – A vida na grande cidade” (o tom triste/cômico é o mesmo nas duas obras).

 

 

O diretor consegue mesclar sutilmente o humor e melancolia (os inúmeros detalhes (o que significam aquelas suásticas na mesa?) a fotografia pálida e a maquiagem exagerada destacam bem esses aspectos). Muitas cenas são absurdas, chegando a flertar com o nonsense (o prédio deslizando feito um barco, me fez lembrar um dos melhores momentos do Monty Phyton), outras são tomadas pelo vazio, pelo banal, pelo tédio ou pelo ridículo da condição humana. Desta forma o filme consegue nos roubar boas gargalhadas, mas logo em seguida nos devolve um sorriso que vai murchando e aos poucos percebemos que aquela graça toda nada mais era do que um contido sentimento de angústia.

            A câmera de “Vocês, os vivos” lança um olhar repleto de ternura a seus personagens, todos eles “ridículos e belos”, demasiadamente humanos é claro. É o olhar de um Deus que se delicia com as imperfeições de sua criação.

            Um filme genial.

 

 

            Nota: 10,0



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 08h42
[] [envie esta mensagem] []



FAZEDOR DE FICÇÕES

.

 

Apanho a revista e começo a lê-la de trás para frente. Sempre faço isso, pois prefiro muito mais saber sobre quais são os lançamentos culturais da semana do que quais foram as falcatruas do senado.  A tv está ligada na Ana Maria Braga, ela fala diretamente para a câmera, mas não sei se está lendo uma mensagem de auto-ajuda ou se está vendendo um absorvente que absorve mais. Está no mudo. Que bom.

            O cara de gravata amarela ao meu lado não pegou nenhuma revista e não está assistindo à tv. Ele olha, contemplativo, as próprias mãos. É arrependimento, com certeza. Será que já matou alguém? Provavelmente estrangulou a vítima utilizando aquela mesma gravata amarela. Depois cortou o cadáver em pedaço, assou num George Forman Grill e comeu tudo assistindo um jogo do Corinthians. No filme do Hitchcock o estrangulador utiliza que cor de gravata?

Não. Acho que na verdade ele é apenas um segurança. Teve que largar os estudos pela metade para servir o exército e depois quando saiu percebeu que não tinha vocação para outra coisa que não fosse obedecer ordens ou atirar em alguém. Começou como leão-de-chácara no Boqueirão e depois evoluiu para segurança de farmácia. O salário diminuiu, mas a dignidade de poder contar para a família onde trabalhava valia muito mais.

Na verdade as mãos dele não se parecem com as de um trabalhador, pelo menos não de quem precise muito delas para desempenhar suas funções. Nas costas das mãos não há cicatrizes de quem socou a cara de alguém, nas palmas, não há sinais de calos decorrentes de atrito com armas, enxadas ou pás. O anelar da mão esquerda parece que será decepado a qualquer momento dado o diâmetro absurdamente limitado da aliança que o enfeita. Engordou porque seu relacionamento estava uma bosta e quando o dedo cair o casamento acabará de vez.

Pensando bem, ele é um advogado. Começou a trabalhar no escritório do tio do primo de um cara que conhece um vereador. O pai pagou a faculdade na PUC e lhe deu um carro zero quando passou no vestibular. Tinha tudo para ser um boçal idiota, mas até que não era tanto. Tinha namorada, mas acabou engravidando uma doida que conheceu no Largo da Ordem. Casou só para desbaratinar a encheção de saco da família, mas depois começou a gostar da guria de verdade. Ela estudava cinema na Fap e assistia a filmes franceses sem legenda. Falava ‘abajur’ com sotaque europeu só para forjar um charme blasé. Uma figura, aquela menina.

Não, acho que ele é vendedor de livros infantis evangélicos. Ele distribui os livros no ônibus lotado, até pra quem não quer ou está dormindo. Faz um oração em voz alta e depois volta recolhendo. Nenhum irmão colabora, mas mesmo assim ele agradece em nome de Jesus. Só invoca a palavra satanás quando tem safado que desce no ponto e leva o produto sem pagar. Ele também aborda as pessoas nas ruas, mas elas se afastam  por causa do cheiro de sovaco. Se bem, que ele não está fedendo tanto. Será que eu é que estou fedendo assim? Ameaço dar uma conferida na axila, mas a recepcionista está me olhando, fico com vergonha, deixa pra lá. Odeio essas salas de espera. Calor do caralho.

Tento voltar para a revista, mas o cara da gravata agora começou a roer as unhas. Lazarento. Quatro dedos enfiados na boca de uma só vez. É para emparelhá-las? Mais nojento que ver, é ouvir o barulho do troço. E a Ana Maria Braga não fala mais com a câmera, agora ela fala com um fantoche de um bicho verde. Sem som, só o suco de unhas misturadas com saliva logo ao lado. Penso em apertar o nó daquela maldita gravata amarela até que o filho da puta morra sufocado com os dedos nojentos entalados na goela, depois eu bato a cabeça dele contra esse televisão para explodir ele, a Ana Maria Braga e o fantoche verde da Ana Maria Braga tudo de uma só vez. Será que a tv explode se enfiar uma cabeça lá dentro? Nem bem termino de concluir o plano e a atendente me chama. Sorte dele.

Quando saio do consultório o cara não está mais lá, nem ele nem a gravata amarela dele. Alguns toquinhos de unha no chão. Acabo de me livrar de alguns anos de prisão. Se bem que ele é bem maior do que eu.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h26
[] [envie esta mensagem] []



LULA E SARNEY NO PAÍS DE GLAUBER ROCHA

.

 

No filme Terra em Transe (1967), marco do Cinema Novo, o cineasta Glauber Rocha conta a história de um poeta e jornalista que vive num miserável país imaginário, República de Eldorado, que está tomado pela corrupção. Insatisfeito com os políticos da situação, ele resolve apoiar e articular a ascensão da oposição ao governo. O desejo de mudança cai por terra quando o poeta finalmente percebe que, uma vez no poder, tanto a esquerda quanto a direita, acabam sucumbindo às imoralidades recorrentes no poder público.

É curioso como um filme dos anos sessenta ecoa de forma tão lancinante nos dias de hoje. Pois quando abrimos o jornal e nos deparamos com a notícia de que o presidente Lula, mesmo após tantos escândalos, apóia abertamente a permanência de seu ex-adversário político, José Sarney, no comando do senado, com objetivo de fortalecer sua base aliada, estamos diante da mesma frustração que sofreu o poeta do filme ao perceber suas utopias se diluírem e se transformarem em nada: E gora que não consigo acreditar em mais ninguém, para que lado eu vou?

 

 

Nesses tempos em que a notícia é tão rápida quanto os próprios fatos (às vezes até superando-os, como pateticamente ocorreu aqui em Curitiba no final do campeonato paranaense, quando o site do Atlético-Pr publicou entrevistas com os jogadores comentando a vitória do jogo que ainda não tinha nem acontecido), se faz necessária uma tomada de posição política. Se há tanta informação, não há escapatória, o sujeito é praticamente obrigado a defender alguma opinião (e essa “obrigação” me faz lembrar outro clássico do cinema, Dr. Jivago, também sobre um poeta, que vê o valor literário de sua obra ser questionado, ou até mesmo descartado, pelo fato de falar apenas sobre o amor e não defender interesses políticos).

 

 

O problema é que num país em que a educação é relegada a segundo plano, muitas vezes o sujeito não dá conta de abstrair ou mesmo de entender tudo o que está acontecendo. Mesmo que consiga isso, e depois, o que ele vai fazer com tanta informação? E em quem ele vai confiar o seu voto quando já não restar praticamente ninguém imune às denúncias? A saída mais fácil (ou covarde, ou burra), talvez fosse se conformar e reproduzir o lugar-comum afirmando que todo político é ladrão e pronto. Ok, que seja, mas vale lembrar que antes de ocuparem cargos políticos, todos eles, sem exceção, são também cidadãos comuns, vieram do nosso meio, são frutos da sociedade da qual fazemos parte e não de uma galáxia distante. Seria de uma hipocrisia enorme afirmar que apenas os políticos são amorais e que só eles não perdem uma oportunidade de se dar bem, sempre arrumando um jeitinho para tudo. É importante não esquecer que os políticos ocupam os cargos, eles não são os cargos, por isso mesmo é que somos uma democracia, pois garantimos a rotatividade dessa dança das cadeiras através do voto.

 

 

Há uma cena emblemática de Terra em Transe, em que Glauber elabora uma alegoria perturbadora daquilo que talvez fosse um dos efeitos do populismo. Na cena, se me lembro bem, dezenas de populares vão às ruas para reclamar da miséria nas cidades e da corrupção do atual presidente (e eles nem desconfiam que o candidato que estão apoiando, e que promete pão e circo, é tão ou mais corrupto que aquele que está no poder), então nesse momento um repórter fala direto para câmera algo como “Estamos aqui diante da população que está indignada com tanta roubalheira. Eles clamam por justiça e querem que a sua voz seja ouvida”, o repórter então se aproxima de um dos populares que está esbravejando e diz “eles querem tanto ser ouvidos, a voz do povo é a voz de Deus, então vamos lá: Fala povo!”, então a câmera fecha num close do rosto do sujeito pobre e desdentado, e em vez  argumentar ele simplesmente se cala, envergonhado, não sabe o que dizer...

Naqueles doloridos segundos de silêncio posteriores ao “Fala povo!”, frutos da genialidade de Glauber, estão contidos um sem fim de signos que representam séculos e mais séculos de injustiças sociais e de decepções políticas sofridas pela população de Eldorado, ou do Brasil, tanto faz, já que tudo é uma grande invenção.

 



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 16h07
[] [envie esta mensagem] []



EU TWITTO, TU TWITTAS

Rapidez ou preguiça de pensar?

.

 

Quando criei o Devaneios do Cotidiano em 2004 (orra, 05 anos de idade já!), os Blogs eram uma febre. Eles surgiram como uma ferramenta moderna que funcionava como diário virtual e também como um ágil veículo de comunicação/informação. O que proporcionou o livre debate de idéias, muita diversão, porcarias, oportunidades para novos escritores e também a propagação de asneiras, já que não há quem regule ou controle tudo o que é escrito por aí (ainda bem!).

Hoje o Blog já tem cheiro de mofo, é coisa do passado. A nova moda é o Twitter, uma espécie de mini-blog que limita o tamanho de cada post a 140 caracteres (mais ou menos 1 linha e meia, em tamanho 12). O que parecia rápido e instantâneo no blog, foi potencializado com essa nova ferramenta.

A tentativa, me parece, é de “eliminar a gordura” e escrever apenas o que “interessa” e, se possível, em tempo real. É lógico que a ferramenta abre espaço para um monte de bobagens, pois tem cara que cria um twitter para contar que acabou de escovar os dentes, espremer o berne do cachorro, comer batata-frita com sorvete, etc. Enfim, a rapidez pode ser também parente próxima da preguiça de pensar.

Mas há, é claro, aspectos interessantíssimos, que me chamaram a atenção e me fizeram entrar nesse novo mundinho cibernético. Por exemplo, com a proibição da entrada de jornalistas no Irã, os moradores que estão enfrentando a crise política por lá descrevem a situação com detalhes que câmera nenhuma poderia captar. Leia esse trecho de uma matéria publicada na Gazeta do povo:

 

     “(...) Por volta das 15h30 da terça-feira passada (hora de Teerã), um estudante iraniano com o nickname Fair_vote_Iran escreveu a seguinte mensagem na sua página no Twitter: “Basij [a força paramilitar do governo] está atrás de nós. Dormi na rua noite passada. A maior parte da cidade está sem luz”. Momentos depois ele acrescentou: “5 mortos no dormitório feminino”. Depois, “Asad está morto & não sei onde está Mohsen. nos perdemos na multidão ontem”(...)”

           

            Além disso, a necessidade de “enquadrar” o discurso numa moldura com espaço delimitado possibilita o exercício dificílimo da concisão. Quem trabalha com texto, sabe o quanto é complicado (e necessário) cortar, substituir, reescrever, diminuir, eliminar, para que o discurso não vire uma “encheção de lingüiça” ou mera repetição de ideias. 

            Enfim, ainda não aprendi a mexer com esse negócio direito (e o fato de as ferramentas serem em inglês não facilita muito a minha vida), mas já estou twittando no endereço www.twitter.com/ederalex. Quanto ao conteúdo, vou seguir um padrão parecido com o daqui do blog (que permanecerá funcionando normalmente). A ideia é publicar diariamente rápidas observações sobre cinema/literatura. Também vou (tentar) elaborar alguns micro-contos, pois me parece um desafio interessante criar histórias utilizando apenas uma ou duas linhas.

            Para quem quiser conferir:

 

www.twitter.com/ederalex



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 14h25
[] [envie esta mensagem] []



 

antes fosse fuligem

.

 

que ônibus fosse metrô

para fazer deslizar tristeza

apenas pelos subterrâneos.

expomos o ridículo da vida

quando andamos em plural.

 

doloroso ver o mundo parado por dentro

e o restante, a parte que talvez importe,

com cheiro e sabor,

girando pelo lado de fora.

vontade de não ser assim,

de não estar aqui, em mim.

um movimento que ensaia,

se insinua mesmo que ressabiado,

mas que não me salva

nem se ausenta.

aperto o campainha, mas não

sei se quero descer.

 

no quarto, antes de dormir,

folheio meus livros

com fome, com sede, repleto

de desespero: procuro um poema

que amorteça a queda,

que minta para mim

e que sutilmente

apodreça em versos

esse gosto azedo

que enfeita o dia

já estragado de repetições religiosas:

não acreditarás;

não encontrarás sentido;

não negarás a inclinação

de querer sempre desistir

de insistir (eco estúpido).

 

procuro uma entrelinha que

eleve o pensamento

e lave-me de deslumbre.

disperse palavra pelo ar

e dispare contra o vidro.

deixe sua marca,

mancha ou maravilha,

feito o fosco da fuligem

que pinta o vento de preto,

para que ele não passe rápido

ou despercebido a esses olhos

já cansados de repetição.

 

a paisagem passa. a dor não.



Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 11h22
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]





Meu perfil
BRASIL, Sul, ARAUCARIA, Homem, de 20 a 25 anos, Livros, Cinema e vídeo, Contos, Crônicas, Críticas


Histórico
    Votação
    Dê uma nota para meu blog


    Outros sites
    7x7
    Jornal Rascunho
    Revista Cult
    Revista EntreLivros
    Quadrinhos - Malvados
    Provocações - TV Cultura
    Roda Viva
    Cinema - Omelete
    Cinema em Cena
    Los Hermanos
    Livros para Dowload - Domínio Público
    Macuco Blog